O livro *O Mito do Estado*, publicado em 1946 pelo filósofo alemão Ernst Cassirer (1874–1945), constitui uma reflexão filosófico-política sobre a regressão da racionalidade nos Estados contemporâneos e na geopolítica. Escrita após a Segunda Guerra Mundial, a obra busca compreender como sociedades que se julgavam orientadas pelos ideais do
Ernst Cassirer, filósofo alemão entre os principais representantes do neokantismo ▪️ Fonte: @ullstein bild
Iluminismo — como a racionalidade, o anticlericalismo, os direitos individuais e a valorização da ciência — puderam sucumbir a formas extremas de irracionalismo político. Cassirer identifica, nesse processo, o ressurgimento do pensamento mítico como uma força ativa e tecnicamente mobilizada no interior das estruturas do Estado.
Na sua filosofia das formas simbólicas, Cassirer compreende o mito como uma das maneiras pelas quais o ser humano organiza e interpreta a realidade social. Diferentemente da filosofia e da ciência, que fazem uso de conceitos lógicos e métodos universais, o mito atua no plano da emoção, da imaginação e da experiência imediata. O pensador germânico compreende o Estado por meio de uma estrutura baseada em forças vivas, dramáticas e personificadas.
Essa característica permanece pulsante e é reativada nos conflitos globais, nos quais Cassirer identifica o que denomina “magia política”. Trata-se de um conjunto de práticas simbólicas — rituais, discursos, imagens e propaganda — que atuam sobre as massas por meio da intensificação das emoções coletivas. A política, nesse processo, deixa de ser um campo de deliberação racional e transforma-se
em um espaço de manipulação afetiva. Nesse contexto, o líder político é elevado à condição de figura mítica e apresentado como herói providencial, cuja autoridade exige adesão inquestionável. Cassirer enfatiza que essa construção não é espontânea; ela é técnica.
A atual “magia política” utiliza os instrumentos mais sofisticados da comunicação e da psicologia social para moldar percepções e orientar comportamentos. O medo desempenha uma função determinante nessa dominação: cria-se a imagem de uma ameaça constante — frequentemente associada a um grupo ou ideologia — que justifica a suspensão ou a flexibilização das garantias democráticas. Paralelamente, constrói-se uma narrativa de esperança vinculada à promessa de uma regeneração nacional, que reforça a coesão de um grupo e legitima a exclusão ou o extermínio do “outro”.
Nesse processo, o Estado deixa de ser concebido como uma estrutura racional, legitimada por leis que defendem a dignidade humana e a harmonia entre as instituições. O pensamento crítico, necessário à democracia, é progressivamente sufocado, sendo substituído por slogans, símbolos e narrativas banais que apelam às emoções e à irracionalidade. Ao examinar as raízes históricas desse fenômeno antidemocrático, Cassirer identifica elementos que alimentam
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concepções autoritárias de poder. Em especial, a ideia de que a política deve ser orientada por uma razão superior é instrumentalizada para justificar regimes e ideologias que se colocam acima das leis e das instituições, a fim de priorizar interesses de poder econômico em detrimento do bem comum.
A análise de Ernst Cassirer constitui uma reflexão crítica sobre a fragilidade da cultura racional. O Iluminismo, ao defender que a razão se impusesse por si mesma, teria subestimado a força das formas míticas de pensamento. A crueldade política deste século revela tensões internas não resolvidas no próprio projeto de bem-estar social. Diante disso, Cassirer atribui à filosofia uma tarefa prática e ética: desmascarar as perversidades dos mitos políticos e reafirmar os valores da razão crítica, bem como a aplicação das leis e a garantia do Estado de Direito — isto é, a ideia de que todas as pessoas, instituições e o próprio governo estão submetidos a um conjunto de leis.
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Isso implica um compromisso ativo com a educação e a formação de cidadãos capazes de resistir à sedução de narrativas de ódio e ideologias excludentes. Assim, *O Mito do Estado* permanece como um alerta permanente sobre os perigos da manipulação simbólica na política. Em um mundo em que os meios de comunicação se tornam cada vez mais onipresentes e passíveis de manipulação, a reflexão cassireriana revela-se atual. A vigilância crítica deve constituir um princípio constante da vida pública, para que a razão não desapareça nem seja subjugada pelas forças obscuras do mito ou manipulada por discursos religiosos que promovam o embrutecimento humano e busquem enriquecimento ilícito por meio da fé.