Para Gonzaga Rodrigues, leitor fiel de Graciliano Ramos
Ítalo Calvino, no livro Por que ler os clássicos, propõe esta definição: “Os clássicos são aqueles livros dos quais, em geral, se ouve dizer: ‘Estou relendo...’ e nunca ‘Estou lendo...’”. Partindo dessa premissa, ouso dizer que Vidas Secas, de Graciliano Ramos, é um clássico da literatura brasileira. A primeira edição foi publicada em 1938, e foram muitas as edições que se seguiram. Tenho lido e relido este livro inúmeras vezes; disponho de várias edições, algumas publicadas ainda em fins do século XX. Não tenho a 1ª edição (1938).
Ítalo Calvino ▪️ Instagram: fpabramo
Edilson Dias de Moura, pesquisador, professor, editor e doutor em Literatura Brasileira (USP) ▪️ Fonte: SESC-SP
Em 27 de março de 1937, o periódico do Rio de Janeiro, O Jornal, publicou, em suas páginas, o conto “Baleia”. O impacto do conto foi bastante positivo, levando Graciliano a publicar outros contos ligados à mesma temática em jornais. Finalmente, em 1938, juntou os treze contos e reuniu-os em livro com o título Vidas Secas. Na época da publicação, os críticos discutiam seu modo de escrita — “um livro à prestação”; talvez por isso Rubem Braga o classificou como “novela desmontável”. Novela, reunião de contos ou romance, é o livro que alcançou maior número de edições e o mais lido entre todos os livros de Graciliano.
— Um homem, Fabiano.
[...] Não, provavelmente não seria homem: seria aquilo mesmo a vida inteira, cabra, governado pelos brancos.
No capítulo “Contas”, contrai uma dívida misteriosa e impagável com o patrão, pensando consigo:
“Trabalhar como um negro e nunca arranjar carta de alforria!”, reforçando tal percepção.
Neste posfácio, ele cita várias passagens do livro em que Fabiano (branco) se revela intimamente como negro.
Ainda da Editora do Brasil, destaco Vidas Secas em HQ (2024), adaptação de Severino Rodrigues e ilustrações de Débora Santos. A predominância da cor ocre se associa à aridez do bioma da Caatinga, e tudo parece sombrio. Observa-se também que o riso está ausente no semblante das personagens; é tudo triste e melancólico, condizente com a própria história.
A editora publicou uma edição muito bonita deste mesmo livro. Traz ilustrações na técnica sanguínea, uma arte de Hal Wildson a partir de letras batidas à máquina de escrever. Este volume ainda contém um glossário com termos regionais utilizados pelo autor. Ressalto o prefácio de Rodrigo Jorge Ribeiro Neves, com o título “A escassez da palavra e da realidade social”.
Arte: Hal Wildson ▪️ Fonte: Editora FTD
Graciliano Ramos
“O mulungu do bebedouro cobria-se de arribações. Mau sinal, provavelmente o sertão ia pegar fogo. Vinham em bandos, arranchavam-se nas árvores da beira do rio, descansavam, bebiam e, como em redor não havia comida, seguiam viagem para o sul. O casal agoniado sonhava desgraças. O sol chupava os poços, e aquelas excomungadas levavam o resto da água, queriam matar o gado.” (2024, p. 91)
A respeito desse pequeno romance, Graciliano assim o definiu: “É um livro sem paisagens, sem diálogo. E sem amor”.
As ilustrações de Hal Wildson, como bem frisou Rodrigo Jorge, não apenas traduzem esses aspectos presentes no romance, como também ampliam seu caráter literário, social e político, por meio do diálogo entre literatura, artes visuais e cinema.
Arte: Hal Wildson /// Editora FTD Educação ▪️
Os ensaios de Edilson Dias de Moura e de Rodrigo Jorge Ribeiro Neves lançam luzes que iluminam o texto de Graciliano. Vidas Secas não é “uma novela desmontável”, não é uma reunião de contos; é um grande livro e foi citado por Milton Hatoum no discurso de posse na Academia Brasileira de Letras.
O acadêmico destacou dois tipos de violência presentes no livro: a detenção injusta de Fabiano, após ser espancado pelo soldado amarelo, e a impossibilidade de os filhos terem acesso à escola. Há uma tênue esperança no último capítulo — “Fuga”: a família chegaria a uma cidade grande, os meninos frequentariam uma escola e aprenderiam “coisas difíceis e necessárias”.
Seguindo a orientação de Ítalo Calvino, vale a pena reler esse livro que se tornou um clássico da literatura brasileira. Há muito que pesquisar e descobrir nesse pequeno/grande livro.














