Para Gonzaga Rodrigues , leitor fiel de Graciliano Ramos Ítalo Calvino, no livro Por que ler os clássicos , propõe esta definição: ...

Vidas Secas em edições distintas

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Para Gonzaga Rodrigues, leitor fiel de Graciliano Ramos
Ítalo Calvino, no livro Por que ler os clássicos, propõe esta definição: “Os clássicos são aqueles livros dos quais, em geral, se ouve dizer: ‘Estou relendo...’ e nunca ‘Estou lendo...’”. Partindo dessa premissa, ouso dizer que Vidas Secas, de Graciliano Ramos, é um clássico da literatura brasileira. A primeira edição foi publicada em 1938, e foram muitas as edições que se seguiram. Tenho lido e relido este livro inúmeras vezes; disponho de várias edições, algumas publicadas ainda em fins do século XX. Não tenho a 1ª edição (1938).

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Ítalo Calvino ▪️ Instagram: fpabramo
A editora publicou duas edições direcionadas ao público juvenil em 2024. Uma delas traz o texto integral, sem ilustrações, apenas um posfácio instigante de Edilson Dias de Moura. Na orelha do livro, há um depoimento autobiográfico do autor que vai da infância à idade adulta. Este texto foi publicado pela primeira vez na revista Vamos Ler, em 1939. Ainda da Editora do Brasil, destaco Vidas Secas em HQ, adaptação de Severino Rodrigues e Débora Santos.

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Edilson Dias de Moura, pesquisador, professor, editor e doutor em Literatura Brasileira (USP) ▪️ Fonte: SESC-SP
O texto de Edilson Dias de Moura, estudioso da obra de Graciliano, merece algumas considerações. Traz o título “Subjetividade e fuga em Vidas Secas” e uma possível explicação para a criação do livro. Em 1895, Sebastião Ramos, pai de Graciliano, comprou uma fazenda em Buíque, interior de Pernambuco, e iniciou com a família uma longa travessia pelo sertão. Foi essa jornada que teria inspirado o escritor a criar a família de retirantes e a lembrança de ter visto um cachorro sacrificado por ter contraído raiva.

Em 27 de março de 1937, o periódico do Rio de Janeiro, O Jornal, publicou, em suas páginas, o conto “Baleia”. O impacto do conto foi bastante positivo, levando Graciliano a publicar outros contos ligados à mesma temática em jornais. Finalmente, em 1938, juntou os treze contos e reuniu-os em livro com o título Vidas Secas. Na época da publicação, os críticos discutiam seu modo de escrita — “um livro à prestação”; talvez por isso Rubem Braga o classificou como “novela desmontável”. Novela, reunião de contos ou romance, é o livro que alcançou maior número de edições e o mais lido entre todos os livros de Graciliano.

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O professor Edilson Dias de Moura chama a atenção do leitor para um aspecto recorrente em Vidas Secas e pouco discutido: a maneira como o escritor criou a subjetividade da personagem Fabiano. Afirma: “Embora exteriormente seja ruivo e de olhos azuis, da consciência dele afloram cenas da escravidão que subjetivamente o definem”, e transcreve este excerto do livro:

— Um homem, Fabiano.

[...] Não, provavelmente não seria homem: seria aquilo mesmo a vida inteira, cabra, governado pelos brancos.

No capítulo “Contas”, contrai uma dívida misteriosa e impagável com o patrão, pensando consigo:

“Trabalhar como um negro e nunca arranjar carta de alforria!”, reforçando tal percepção.

Neste posfácio, ele cita várias passagens do livro em que Fabiano (branco) se revela intimamente como negro.

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A cada leitura que se faz do livro, descobrem-se novas nuances. Não é apenas um romance que fala sobre a seca; há muitos outros elementos explorados nas entrelinhas que revelam a magnitude do seu criador: uma sociedade desigual, filhos sem acesso à educação, uma luta grande pela sobrevivência. Naquele ambiente hostil, falta tudo — amor, carinho, compreensão, solidariedade.

Ainda da Editora do Brasil, destaco Vidas Secas em HQ (2024), adaptação de Severino Rodrigues e ilustrações de Débora Santos. A predominância da cor ocre se associa à aridez do bioma da Caatinga, e tudo parece sombrio. Observa-se também que o riso está ausente no semblante das personagens; é tudo triste e melancólico, condizente com a própria história.

A editora publicou uma edição muito bonita deste mesmo livro. Traz ilustrações na técnica sanguínea, uma arte de Hal Wildson a partir de letras batidas à máquina de escrever. Este volume ainda contém um glossário com termos regionais utilizados pelo autor. Ressalto o prefácio de Rodrigo Jorge Ribeiro Neves, com o título “A escassez da palavra e da realidade social”.

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Arte: Hal Wildson ▪️ Fonte: Editora FTD
É interessante saber um pouco da concepção do romance pelas palavras do seu criador, reveladas por Rodrigo Jorge Ribeiro Neves. Em 23 de maio de 1937, Graciliano publicou o conto “Baleia”, em O Jornal (Rio de Janeiro). No início, ficou inseguro quanto à recepção da história de uma cachorra que pensava como gente. O sucesso foi tão grande e teve tão boa recepção entre os leitores que o escritor resolveu dar continuidade à história e escreveu “Sinhá Vitória” e “Cadeia”. Chamo a atenção para o vocábulo “Sinha”, sem acento. Sônia Junqueira explica que a grafia “Sinha Vitória”, sem acento, certamente foi feita para registrar a diferenciação feita no Nordeste entre sinhá — aquela que tem posses, que é senhora de alguma coisa — e sinha — mulher pobre, desvalida. Uma diferenciação que envolve questões sociológicas e políticas.

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Graciliano Ramos
A princípio, o título do livro seria “Cardinheiras”, aves que indicam o agouro do sertão, tema do capítulo “O mundo coberto de penas” (essas aves são conhecidas popularmente como arribaçãs). Convencido por Daniel Pereira, irmão de José Olympio, Graciliano resolveu simplificar o título para Vidas Secas, e assim ficou. No capítulo “O mundo coberto de penas”, o narrador assim se refere às arribações:

“O mulungu do bebedouro cobria-se de arribações. Mau sinal, provavelmente o sertão ia pegar fogo. Vinham em bandos, arranchavam-se nas árvores da beira do rio, descansavam, bebiam e, como em redor não havia comida, seguiam viagem para o sul. O casal agoniado sonhava desgraças. O sol chupava os poços, e aquelas excomungadas levavam o resto da água, queriam matar o gado.” (2024, p. 91)

A respeito desse pequeno romance, Graciliano assim o definiu: “É um livro sem paisagens, sem diálogo. E sem amor”.

As ilustrações de Hal Wildson, como bem frisou Rodrigo Jorge, não apenas traduzem esses aspectos presentes no romance, como também ampliam seu caráter literário, social e político, por meio do diálogo entre literatura, artes visuais e cinema.

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Arte: Hal Wildson /// Editora FTD Educação ▪️
O artista goiano nasceu no Vale do Araguaia, fronteira entre os estados de Goiás, Mato Grosso, Tocantins e Pará. Ele se inspira em imagens da paisagem da região para elaborar suas criações. A cor vermelha e os contornos irregulares dos figurantes “apontam para a condição de escassez, mas também de resistência das personagens de Vidas Secas, estabelecendo uma forte conexão com a literatura de Graciliano”.

Os ensaios de Edilson Dias de Moura e de Rodrigo Jorge Ribeiro Neves lançam luzes que iluminam o texto de Graciliano. Vidas Secas não é “uma novela desmontável”, não é uma reunião de contos; é um grande livro e foi citado por Milton Hatoum no discurso de posse na Academia Brasileira de Letras.

O acadêmico destacou dois tipos de violência presentes no livro: a detenção injusta de Fabiano, após ser espancado pelo soldado amarelo, e a impossibilidade de os filhos terem acesso à escola. Há uma tênue esperança no último capítulo — “Fuga”: a família chegaria a uma cidade grande, os meninos frequentariam uma escola e aprenderiam “coisas difíceis e necessárias”.

Seguindo a orientação de Ítalo Calvino, vale a pena reler esse livro que se tornou um clássico da literatura brasileira. Há muito que pesquisar e descobrir nesse pequeno/grande livro.

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