A Ilíada é, antes de tudo, um vasto canto sobre a morte. Não a morte episódica, acidental, mas a morte como destino inscrito na carne do herói e no ritmo do mundo. O poema homérico nasce sob o signo da finitude: cada verso parece saber que tudo o que é grandioso está condenado a desaparecer e que, justamente por isso, exige ser cantado. A guerra de Tróia, com seus escudos refulgentes e lanças sedentas, não é apenas o cenário do heroísmo, mas o laboratório trágico onde a consciência da morte se transforma em valor, ética e linguagem.
A Intervenção das Sabinas ▪️ Arte: Jacques-Louis David, 1799
Desde o primeiro verso — “Canta, ó deusa, a cólera de Aquiles” — a narrativa se estrutura em torno de uma emoção mortal. A cólera não é simples ira; é uma força que aproxima o herói de sua própria extinção. Aquiles sabe que morrerá jovem se permanecer em Tróia, mas também sabe que somente assim sua vida ganhará peso ontológico. A morte, em A Ilíada, não é negação da vida: é sua medida última. Viver, para o herói homérico, é viver sob a luz intensa e breve de um destino irreversível.
Aquiles descoberto por Ulisses entre as filhas de Licomedes ▪️ Arte: Peter Paul Rubens, 1630–1635
A consciência da morte em A Ilíada não se apresenta como reflexão abstrata, filosófica no sentido posterior do termo. Ela é concreta, sangrenta, visível. Os corpos tombam, os ossos estalam sob o bronze, o sangue encharca a terra troiana. Homero descreve a morte com precisão quase ritual, como se cada queda fosse um sacrifício necessário à manutenção da ordem cósmica. Não há transcendência redentora: após a morte, resta apenas a sombra no Hades, pálida e silenciosa. É por isso que a glória — kléos — se torna essencial. Se o corpo apodrece, o nome precisa sobreviver.
Diomedes ferindo Afrodite quando ela tenta recuperar o corpo de Eneias ▪️ Arte: Arthur Heinrich Wilhelm Fitger, 1905
Heitor é talvez o personagem em que essa consciência se manifesta de forma mais humana e dolorosa. Diferente de Aquiles, cuja semidivindade lhe confere uma grandeza quase inumana, Heitor conhece o medo. Ele sabe que Tróia cairá, sabe que Andrômaca ficará viúva e Astíanax, órfão, sabe que seu destino é morrer diante das muralhas que defende. Ainda assim, permanece. Sua grandeza não nasce da fúria, mas da aceitação lúcida da morte. Em Heitor, A Ilíada alcança uma ética da responsabilidade trágica: morrer não por glória pessoal, mas por dever para com a cidade e os seus.
Heitor e Andrômaca ▪️ Arte: Sergey Petrovich Postnikov, 1863
A cena do encontro entre Heitor e Andrômaca é um dos pontos mais altos da literatura ocidental, porque ali a consciência da morte abandona o campo de batalha e entra no espaço doméstico. O elmo retirado para não assustar o filho é um gesto de humanidade diante do abismo. A guerra, nesse instante, é suspensa pelo amor, mas apenas por um instante. A morte espera, paciente, do lado de fora. Esse contraste intensifica a tragédia: tudo o que é terno em *A Ilíada* existe sob a ameaça constante da aniquilação.
Aquiles, por sua vez, encarna a consciência da morte em sua forma mais radical e paradoxal. Ele sabe, desde o início, que seu destino está selado. Pode escolher uma vida longa e obscura ou uma vida breve e eterna na memória dos homens. Sua escolha revela um pensamento profundamente trágico: a finitude não é evitada, é instrumentalizada. Quando Pátroclo morre, a morte deixa de ser apenas destino e se torna ferida íntima. A dor rompe a couraça do herói e o lança numa espiral de violência que culmina no ultraje ao corpo de Heitor.
Aquiles lamentando a morte de Pátroclo ▪️ Arte: Nikolai Ge, 1855
O arrastar do cadáver de Heitor em torno das muralhas de Tróia é uma das imagens mais perturbadoras do poema. Ali, Aquiles tenta negar à morte seu último gesto de dignidade: o rito funerário. No entanto, é justamente nesse excesso que A Ilíada reafirma sua consciência ética da morte. A violência que desrespeita o morto é também uma violência contra a ordem do mundo. Quando Príamo, velho e frágil, atravessa o campo inimigo para suplicar pelo corpo do filho, a morte ganha um novo sentido: ela exige compaixão.
O pedido de Príamo a Aquiles pelo corpo de Heitor ▪️ Arte: Théobald Chartran, 1876
O encontro entre Aquiles e Príamo é o verdadeiro clímax moral do poema. Diante do velho rei, Aquiles vê refletido o próprio pai, Peleu, e compreende que a morte não é apenas individual, mas relacional. Cada morto deixa um vazio que se propaga. Choram juntos, inimigos reconciliados pela certeza comum da perda. Nesse instante, A Ilíada abandona a exaltação do heroísmo bélico e se aproxima de uma sabedoria trágica: todos são mortais, e é essa condição que funda a possibilidade da empatia.
Assim, A Ilíada não glorifica a morte, mas a reconhece como estrutura fundamental da existência humana. O poema nos ensina que a grandeza não está em escapar da finitude, mas em encará-la sem ilusões. A consciência da morte, em Homero, não conduz ao niilismo, mas à intensidade. Cada gesto importa porque pode ser o último; cada palavra pesa porque pode ser a derradeira. A guerra é terrível, mas é também o espelho em que os homens veem, ampliada, a verdade de sua condição.
Ao atravessar séculos, A Ilíada continua a nos interpelar, porque ainda vivemos sob o signo da morte, ainda buscamos sentido num mundo em que tudo passa. O poema permanece como um canto grave e luminoso que nos lembra: somos mortais, e é dessa ferida que nascem tanto a tragédia quanto a beleza.
Terra estranha e arrasada, lugar onde aprenderia a conviver com a figura que, ao seu lado, fazia uma sombra sem luz. Ela aproveitava a liberdade no espaço da cena para bailar solta. Trajada num vestido comunitário cintilante que brilhava em lua cheia de notícias populares.
Os grandes homens parecem não ter descanso. Depois que morrem, ficam à mercê do que decidirão fazer com o seu corpo. O poeta latino Publio Virgílio Maro, autor da Eneida, morreu em Brundisium, atual Bríndisi, na Itália, em 19 a. C., e teve, a pedido de Augusto, seu corpo trasladado para Nápoles, longe de Mântua, onde nasceu, e de Roma, onde viveu.
Quando um saci nasce, seus pais sabem que ele terá uma única perna; só não sabem se será a perna direita ou a esquerda. Não se preocupam com isso, porque, na cultura deles, a falta de uma perna é o símbolo da fraternidade, já que faz com que o saci se apoie no ombro de outro saci que tenha a perna que lhe falta, para uma caminhada mais tranquila. Ao invés de saltitar numa única perna, cansando rapidamente e maltratando o corpo
Vênus, figura profícua do panteão romano, tem origem obscura, cogitando-se mesmo a possibilidade de, no princípio, haver sido apenas uma abstração, cuja personificação foi sendo moldada gradativamente. Identificada, nos primórdios, como deusa ligada à vegetação e aos pomares, sua presença é atestada já no santuário de Lavinium, em Ardea, século VI a.C., onde havia um centro de culto a ela.
O Ano Novo será melhor do que 2025, na opinião de 69% dos brasileiros, diz pesquisa do Datafolha. Este é um salto percentual de 9 pontos, em relação ao último levantamento da fé no progresso individual manifestada pelos que enfrentam a vida em todos os rincões nacionais. Ou seja, os otimistas eram 60% ao fim de 2024, segundo o mesmo Instituto.
É muito agradável voltar a estudarA Odisseia. Revisitá-la é um prazer... é vivenciar uma obra que foi criada antes mesmo do surgimento da escrita. O poema aborda as aventuras de Odisseu e foi feito por Homero, figura emblemática que, segundo os livros, cujo nome, por si só, já representa todos os outros, por ter sido o mais célebre aedo de todos os tempos. A Odisseia e todos os poemas da época eram recitados por aedos, e esses poemas datam de três mil anos antes de Cristo. Os aedos, cantores-poetas
Palmas para as batidas de asas das garças. Riscos brancos que atravessam as águas escuras da Lagoa, o nome mais simples para o Parque Solon de Lucena, encravado no centro pessoense, a ilha arborizada na cidade que cresce e se “desverdeia”. Gosto de olhar o cenário, palco de tantas histórias — da história dos livros e das anônimas da capital dos paraibanos.
Ao final de mais um ano, somos frequentemente levados a refletir sobre nossas promessas e desejos. Contudo, a verdadeira transformação não reside apenas em resoluções superficiais, como frequentar a academia ou reorganizar nossas finanças.
POEMA-MANIFESTO
Não escrevo quando o céu está se recompondo.
Escrevo com o trovão aberto,
quando a palavra ainda treme
e o medo não terminou de cair no chão de mim.
Não espero a paz para escrever.
A escrita, em mim, nasce molhada,
com os pés no barro
e o coração em estado de vento.
O verso não é descanso,
troféu, chegada, partida e nem moldura.
Aquela figura fantasmagórica que aparece em meus pesadelos para me assombrar, tendo à mão uma foice afiada, querendo pôr termo à minha passagem por este planeta, anda me assustando nessas minhas últimas noites, por sinal, tão mal dormidas. Pois não é que essa coisa anda à solta por aqui e levando gente querida? Dias atrás levou o Chico Pereira, que vinha, como um guerreiro incansável, lutando pela vida, e me parece que essa foi a única batalha que Chico não venceu. De todas as outras saiu vitorioso, e o espólio dessas contendas está por aí como legado indelével às nossas artes, à nossa cultura; enfim, Chico não veio a passeio na vida e deixou por aqui o melhor de si.
Dando prosseguimento à série sobre os ingênuos e os nascidos escravizados na antiga Paróquia de Nossa Senhora das Neves, no ano de 1833, hoje traremos informações jurídicas sobre o estado civil dos genitores das crianças que nasceram escravizadas.
Os da casa não suspeitavam de nada. Entravam e saíam sem notar que a abertura que tinham uns com os outros não passava de um espelho quebrado. Todos os dias se esbarravam no além-túmulo. Nas mãos, água. Nos pés, terra. O tempo não modificou para melhor como acreditavam, segundo uma sabedoria tola do povo.
Quando lembro da casa dos meus avós e dos meus pais (hoje, com 89 anos), sinto saudade dos momentos vividos, esperança e felicidade que ainda posso viver.
Neste período do ano, lembro do tempo que ficou no sítio, quando as árvores mudavam as folhas; os cajus e as mangas maduras se esparramavam pelo chão; os araçás amadureciam nas capoeiras. Em casa, mamãe e as meninas enfeitavam um galho de laranjeira com algodão retirado de capulhos ainda no roçado; penduravam as lembranças — caixas de fósforos cobertas com papel dourado para simbolizar o Natal.
Na noite de Ano-Novo, Orlandinho chegou em casa e encontrou Zulmira fazendo amor com seu melhor amigo (dele, não dela). Matou os dois a garrafadas de champanhe, que escorreu pelo chão e se juntou ao sangue dos traidores.
Orlandinho brindou aos falecidos e depois se entregou à polícia, chorando lágrimas de esguicho.