Manoel Firmino Albuquerque da Silva Gonçalves ganhou este nome com aval dos cartórios e bênção de pia. Gente com um nome comprido a...

Gonça

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Manoel Firmino Albuquerque da Silva Gonçalves ganhou este nome com aval dos cartórios e bênção de pia. Gente com um nome comprido assim, reza a tradição, deveria ter sido criatura importante na sociedade ou ladrão de cavalo, se fosse criado na roça. Nosso amigo não foi nem uma coisa nem outra e, desde os tempos da bola de gude, do pião e de empinar pipa nos ventos de julho, passou a ser simplesmente Gonça, e Gonça ficou pelo resto da vida. Estou dizendo “resto” porque nosso amigo, nem faz uma semana, vestiu seu pijama de madeira e foi prestar suas contas nos tribunais do além.

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Por falar nos tribunais que enfrentamos — se estes houver — quando encerramos nosso ciclo, Gonça já deve estar numa enrascada danada. No Paraíso, ele certamente não irá descolar uma vaga, pois jamais praticou o bem; nem uma esmola de vinténs saiu do seu bolso de muquirana. Pensem num sujeito amarrado. Também nunca se deu a outras modalidades de bondade, como, por exemplo, ajudar um idoso a
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atravessar uma rua. Nada, nadinha, sempre foi indiferente às aflições de outrem. Para o Reino das Profundezas também não deve conseguir ingresso, porque maldades jamais praticou. No trato das pessoas, se não era gentil, descortês também não era. Violência nem passava pelos seus miolos. A bem da verdade, nem de fofoca ele gostava, que é o mais pueril dos pecados. Feitas tais considerações, é difícil saber o que será de sua frívola alma. A pobre não tem para onde ir. Já ouvi falar em purgatório, que é, como o próprio nome diz, onde devemos purgar nossos pecados. Mas que pecados tão graves Gonça teria para redimir? Nem para aqueles agravos de pouca monta nosso amigo tinha disposição. Fica essa dúvida no ar, porque creio ser mais interessante falarmos, nem que seja um tiquinho só, da vida de nosso Manoel Firmino, vulgo Gonça.

Bem, a vida dele encerrou enquanto dormia. O esculápio que atestou o óbito disse que foi fraqueza do coração. Dona Judith, sua secretária do lar, relatou a um policial que cuidava da ocorrência que foi chamá-lo pela manhã (estamos falando do Gonça e não do d
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etetive) e, quando o acordou, ele já estava morto. O agente riu com o testemunho da governanta. Acordar morto?

Nem sei quem desembaraçou o imbróglio: atestados, funerária, sepultamento etc. Deve ter sido gente do governo, pois era de onde o recente defunto alimentou sua sinecura desde que fora dispensado de cumprir seu dever patriótico no Tiro de Guerra.

Quase ninguém acompanhou o féretro da casa funerária ao Boa Sentença. Assim também foi a vida de Gonça: uma quase absoluta solidão que parecia lhe fazer bem à alma. Para estudar foi uma luta, alternando sua vida escolar entre ser aprovado num ano e, no seguinte, não. Um sufoco, tanto que foi terminar o ginásio aos 17.

Filho único, herdara imóvel de sala conjugada com cozinha, mais quarto e banheiro. Ali passou sua solitária juventude e a maturidade (se é que podemos chamar assim). Mudou-se para lá quando sua mãe, já viúva, deixou Gonça órfão, e ele ainda por completar 20 anos.

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Nunca casou nem namorou. Também deduzo que jamais fez uso dos prazeres da carne com outra pessoa. Fê-lo, sim, mas na solidão de sua intimidade, se é que me fiz entender.

Não colecionou amigos nesses 42 anos de vida terrena. Nunca foi convidado para um encontro, nem para o “amigo secreto” da repartição quando se festeja a passagem de mais um ano. Ficava aborrecido com essas descortesias? Não estava nem aí.

No emprego, onde passou uma coisinha a mais do que metade de sua vida, de início foi o homem dos carimbos, tarefa que levava a cabo com prazer. Como gostava de carimbar o “indeferido”. Mas, com o advento dos computadores, uma engenhoca que nele despertou ojeriza, Gonça foi deslocado para o balcão. Ali exerceu sua função com a preguiça costumeira.

Para encerrar, qual seria a razão dessas minhas deferências com o defunto? Explico: quando me vejo diante de compromissos inadiáveis, boletos vencidos, levando bronca pela toalha molhada sobre a cama e outras cotidianas mazelas, sinto inveja do Gonça e uma vontade de dizer: “Não estou nem aí!”. Só falta coragem.

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