Eu vejo um lagarto atravessando a estrada deserta na turva visão do sol, do couro animal e do piche do asfalto. Também observo pequena...

Pelo para-brisas

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Eu vejo um lagarto atravessando a estrada deserta na turva visão do sol, do couro animal e do piche do asfalto. Também observo pequenas e grandes açudes de água chuvosa escorrida pelos sulcos do relevo. De pequenos grãos criam-se dunas inversas do líquido vital e vitral, espelho de céu e terras.

Das primeiras horas da manhã, soltam-se da relva lateral da pista pós-chuva dezenas de coloridas borboletas. Elas dançam pelo meio da rodovia um ballet que muitas vezes as leva à morte no choque inevitável com o metal do carro.

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GD'Art
Sombras despencam de árvores solitárias que residem ao pé do acostamento. Elas acenam e abanam à passagem dos viajantes, quase sempre ignoradas pelos passantes. Dentro da concha móvel, eles perdem o espetáculo de inúmeras telas vivas.

Há ainda curiosos animais que se arriscam à travessia entre os dois mundos da estrada. Muitos, infelizmente, encontram a senhora do fim dos tempos brutalmente. Outros tantos enfeitam a passagem dos viajantes mais atentos: a raposa de pele amarronzada, as garças pousadas em lagoas e açudes, lagartos...

E da chuva escuto o toque no vidro do encontro veloz. E vejo o escorrer como uma lágrima do rosto impassível. Os limpadores são as mãos que enxugam a visão do prosseguir. O colidir dos milhões de invólucros de água com o chão por vezes forma poças traiçoeiras e, outras tantas, cria um tapete que escorrega para os lados numa dança persistente.

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E do sol sinto o dia surgir feito uma bola amarela por trás das serras compactas de uma fronteira divisora da mesma unidade. Geograficamente ligada por artérias que garantem o fluxo tortuoso de idas e vindas. Parece até fogo ao abrasar a negritude da passarela. E, no fim do dia, traz um véu dos recantos do mundo ao redor, lança cortinas douradas pelas frestas das árvores, troca de roupa para a festa noturna.

Há placas que lembram lugares, pessoas que seguem para os lados, carros que desaparecem nas curvas e ondulações. E bancas de milho, caju, inhame, pitomba e tantos comeres. Convites para deleites de queijo, tapiocas, cafés e pousos. Mundos fatiados que crescem dos dois lados, com cruzamentos feitos zíperes que se unem de uma peça única de roupa.

Pelo asfalto vislumbro pinturas de uma linguagem direcional. Contínuas, intercaladas, setas... Grafadas como tatuagens para dizer o que fazer e qual o sentido, mesmo sem sentido. Números demarcatórios como 230, 101, 104... E o para-brisa é a divisa, é como um mundo interno que se carrega do lugar de onde se vem para onde se vai. Visagens, imagens...

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