Até que enfim , ele se aproximava do ponto final. A cartinha à amiga, ao cabo da enésima tentativa, havia tomado o jeito certo de conta...

Batidas na porta da frente

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Até que enfim, ele se aproximava do ponto final. A cartinha à amiga, ao cabo da enésima tentativa, havia tomado o jeito certo de contar da paixão que o afligia, arrebentava-lhe o peito, tirava-lhe o juízo. Perdera a conta das folhas de papel rasgadas a cada início da confissão que o fazia tremer dos pés à cabeça. Decidira, finalmente: não solicitaria a retribuição, não pediria para ser amado. Não se culparia por haver transformado o início de uma amizade sincera, despretensiosa, em amor desesperançoso e sofrido, pouco a pouco, passo a passo.
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Fazer isso significaria desmerecê-la, ignorar os encantos daquela mulher, em seu conjunto, do belo corpo à voz de anjo.

Também não a culparia pelas consequências da sua declaração, fossem quais fossem. O amor dispensa culpas e culpados. Simplesmente acontece, mesmo diante da indiferença e, às vezes, do desprezo em seu estado mais amargo. Sabia disso, entretanto, por experiências alheias, pelas dores de outrem em casos desassemelhados ao seu, pois ainda não declarado. Sabia de um fato específico, da decepção de uma colega de trabalho exposta no círculo de amigos pelo deboche do patife a quem se entregara. Sim, a má sina pode apanhar as almas desprevenidas, habitem corpos masculinos, ou femininos. A desdita, neste aspecto, não faz distinção entre homens e mulheres.

Em caso de recusa, ele jamais seria humilhado por aquela com quem convivia desde o início da adolescência sem que seu coração ainda o houvesse arrastado – como há meses o fizera – para situação tão vexatória e aflitiva. Conhecia muito daquela alma, percebia o quanto ela o queria por perto, lembrava das vezes em que os dois se ofereceram os ombros
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em apoio mútuo e necessário ao conforto, ao consolo, ante desilusões profissionais, ou amorosas. Uma oportunidade perdida, um amor que se ia e lá estavam eles se escutando, se abraçando.

Desistiu do emprego em Brasília quando a amiga, num momento difícil, suplicou-lhe: “Por favor não vá. A vida tem mostrado que necessitamos um do outro”. Compreendia e aceitava isso tudo. O que não sabia era se o amor demonstrado por ela atravessava o campo largo da fraternidade onde moram a parceria e o bem-querer a fim de atender aos apelos da carne sem os quais os beijos e demais entregas não acontecem. Lá, isso, não sabia.

Percebia, também, que os sentimentos fortes têm o tempo da libertação. O seu havia chegado, no que pesasse o risco de estragos sérios a uma amizade sólida com décadas de existência. Acontece que ninguém dita regras ao coração. Seu amor tornara-se maior do que seus temores, razão da carta à amiga com elaboração tentada tantas vezes. Por que a carta? Porque não suportaria a rejeição, frente a frente. A um metro de distância,
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não saberia onde esconder a decepção e a vergonha, em escala tão grande e forte.

Picotou muito daquilo que começou a escrever antes de se dar por satisfeito com o rumo e o tom do que a ela declarava. Desistiu de definir o amor como algo incontrolável. E desistiu, ainda, de fazê-lo sob a ótica dos pensadores, dos filósofos, dos poetas. Não por falta de pesquisa.

Que tal Aristóteles?: “O amor é formado por uma única alma habitando dois corpos”. E se a máxima atribuída ao discípulo de Platão, tutor de Alexandre, a ela parecesse cultura de almanaque?

E este Lewis, autor d’As Crônicas de Nárnia?: “O amor é um ato de coragem e vulnerabilidade”. Isso, sim, combinaria com sua aceitação ao risco de ter o coração partido. Mas não pareceria algo extravagante, desnatural, afetado?

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E a valorização do sentimento real, ao fim das desilusões, sob a ótica de Clarice Lispector? Meu Deus, o quanto o amor pode expor um ser humano a tamanha dose de ridículo, pensou com seus botões antes de rasgar tudo isso.

Mas, enfim, havia encontrado os termos certos. Lacrou o escrito com mistura de uísque à saliva que umedeceu a cola do envelope a ser depositado, antes que o sol nascesse, na caixinha do correio afixada à meia-altura no muro da moça. Em seguida, serviu-se de outra dose para o combate à aflição.

A voz morna de Nana Caymmi surgia do CD-player com “Resposta ao tempo”, uma das mais belas e envolventes peças do cancioneiro nacional. Sabem não? Trata-se da canção que junta a melodia icônica do pianista Cristóvão Bastos e os versos profundos do letrista Aldir Blanc. Ele e aquela a quem entregara a alma cantaram isso, em uníssono, em momentos incontáveis, de tão repetidos.

Ah, se soubesse duelar com o tempo que também lhe batia à porta e entrava sem permissão para zombar dos seus medos e da sua insegurança... Um tempo que sabia passar e, ele, não. Deus, certamente, estava no ambiente onde Aldir Blanc disse que morria de amor para tentar reviver. E quando ao tempo se fez superior: “Respondo que ele aprisiona e eu liberto. Que ele adormece as paixões, eu desperto”.

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Ela teve a carta à mão por volta das 8 da manhã. Tomou um susto quando identificou o remetente com quem falava, religiosamente, todo santo dia. O que aquele envelope continha? Perguntou-se e estremeceu. Pediu a todos os santos que não fosse aquilo que, ultimamente, parecia mostrar-se em abraços mais longos, em atenções redobradas, em olhares mais ternos.

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Mexeu e remexeu a memória a fim de certificar-se de que não dera espaço a nada que não fosse o carinho e a dedicação de irmã ao melhor amigo. Com ele havia chorado dores de amor por amantes ocasionais, cada qual com suas histórias, seus conselhos e seus afagos. Não, não dera, convenceu-se.

Finda a leitura, fez um esforço sem limite para conter a raiva que lhe revirava o estômago, subia à garganta e a sufocava. Já mais calma, procurou entendê-lo e desculpá-lo. Coração, afinal, é coisa que ninguém gerencia. Bem sabia disso pelas más escolhas que tinha feito na vida quando o juízo lhe recomendava grandes cautelas. Coração tem caprichos ingovernáveis, disse para si.

A resposta dela chegou a ele num telefonema de poucas palavras, em seguida cortado: “Esqueça que eu existo”. Descontrolada, não conseguiu se expressar nos termos decorrentes da intenção inicial de respeitar a dor do outro. A raiva tinha voltado a crescer.

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Brasília o teve num voo, três dias depois, sem despedidas nem choro em público, a não ser o da bela mulher que se escondia por trás de uma coluna do Aeroporto, à distância prudente da fila de embarque. De um fone de ouvido, Nana Caymmi a ele sussurraria, instantes depois, acima das nuvens: “Batidas na porta da frente. É o tempo”. A viagem do moço entristecido dava-se em razão da sua busca desesperada pelo esquecimento. Pretendia apagar os rastros deixados em velhos caminhos e aprender com o tempo a passar, simplesmente passar. Quem sabe, daria certo.

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