Haveria um tipo qualquer de conexão histórica capaz de relacionar a raiz do algodão mocó a um - mesmo que - eventual, breve uso de cache...

Umbuzeiro

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Haveria um tipo qualquer de conexão histórica capaz de relacionar a raiz do algodão mocó a um - mesmo que - eventual, breve uso de cachecóis na Paraíba? À pergunta tão disparatada cabe a quem a fez responder, no caso, e antecipadamente pronto para a resposta, este que vos escreve: num esforço adaptativo de luta pela sobrevivência, a raiz do algodão mocó (assim chamado por conseguir viver entre pedras e cascalhos, bem ao modo do roedor homônimo) mergulhou na direção do centro da terra, num impulso que redundaria profundamente feliz, por conseguir atingir o lençol freático, e a partir dali tornar-se uma fonte de riquezas para o homem dessa relativamente vasta região que compreende sertões nordestinos, desde sempre considerada a mais pobre do país.

Explique-se melhor: os campos de algodão situados pelos vales (Das Espinharas, Do Seridó, Do Piancó e de todas as suas inúmeras extensões) abaixo da minha terra natal, ali onde, ao norte da muralha da Borborema, ficam protegidos de uma ventania capaz de lhes dizimar a floração - derrubando seu penacho, e ainda por cima num clima idealmente próximo ao de sua ancestralidade africana, que é seco, quente e sem ventos. Foi de grande importância socioeconômica que esse herbáceo acabasse conseguindo prover-se de água e nutrientes e assim crescer, num processo que fez da Paraíba, nas primeiras décadas do século XX, o maior produtor brasileiro de algodão.

Mas, para alcance de feito tão prodigioso, teve a planta de alterar alguns dados genéticos contidos nas próprias células e, dessa forma, alongar sua raiz num esforço heroico para atingir um veio d’água, quando, em consequência disto, e por simetria morfológica, alongou-se também na fibra do capucho, o que fez com que esse espécime viesse um dia a ser catalogado como o melhor algodão do mundo para uso geral,
tanto da indústria têxtil quanto da alimentícia (ração animal e óleo comestível, a partir das sementes).

Foi o bastante para que a companhia britânica de trens Great Western, viesse a implantar uma vasta rede de linhas férreas no Nordeste brasileiro, visando conectar, entre várias outras direções e lugares, o Porto de Cabedelo aos confins do sertão, no objetivo final de abastecer o parque industrial têxtil inglês com mais esta preciosa matéria prima. Na passagem do século XIX para o XX, um verdadeiro alevante integrativo instalava-se na antes extremamente dissociada Paraíba do Norte, e essa infraestrutura logística chegava para beneficiar outras vias de comércio, e é aí que entra a figura de Jonas Julio Alifait Lacet, um bisavô paterno meu, e suas novidadeiras cargas transportadas em lombo de burro com destino à Serra do Teixeira. Ele vem para recolher, em alguma das estações de trem que atravessam o Estado, a carga que havia encomendado com as últimas novidades do mercado, aí inclusos utensílios diversos para uso pessoal ou doméstico, sem esquecer uma extensa listagem daqueles modismos franceses típicos de sua época: pincenezes, califons, cachecois, monóculos, os primeiros soutiens, lingeries, produtos de maquiagem e perfumaria, oriundos da então capital da moda, Paris.

Esses produtos viriam a ser comerciados em toda aquela região que vai dos municípios de Imaculada à Mãe D’água, passando por Desterro, Santo Aleixo, Água Branca, Matureia e a própria Teixeira. Esclarecido o enigma indutor, vamos agora contemplar essa outra maravilha de evolucão vegetal - o umbuzeiro.

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Diferentemente do algodoeiro, trata-se o umbuzeiro de um legítimo rebento do nosso abrasado sertão nordestino, e sua configuração genética por excelência veio a se especificar no bioma conhecido por caatinga, um nicho climático localizado à nordeste do cerrado brasileiro, quando, por tabela, o umbuzeiro vai ser encontrado, com bem com mais frequência nas micros-regiões do Cariri, sertão e agreste paraibanos. Seu histórico registra uma área extremamente compartimentada, Inserida em uma direção Norte dificilmente alcançada seja pelas chuvas amazônicas ou por aquelas escapes do litoral nordestino; as primeiras, subindo na direção oposta Norte/Sul do pais, enquanto as segundas, obliquamente precipitando-se em sentido Noroeste, e deixando entre elas um espaço vago que se limita à oeste pelos estados de Tocantins e Maranhão, e que prossegue pelo lado oposto num corredor iniciado no sertão baiano e que se vai afunilando em direção ao mar piauiense. Um corredor exaurido de ventos e escasseado de chuvas nos confins do nordeste brasileiro. Ali, o umbuzeiro fincou suas raízes.

Três particularidades da árvore catalogada nos anais da botânica como Spondia Tuberosa, e que receberia de Euclides da Cunha , em “Os Sertões”, o reverencioso apodo de ‘’ Árvore sagrada do sertão’’, nos interessa aqui sublinhar: a primeira diz respeito ao seu copado, a segunda ao seu fruto, e a terceira à sua raiz. Vamos à elas então, pela ordem já citada.

Salvo algumas raras exceções verificadas em árvores de menor porte, como o Juazeiro, por ex., as arvores frutíferas nordestinas quase sempre vão precisar, durante seu processo de crescimento, de ensaiar uma espécie de dança no ar, ritmicamente atenta ao entrecortado zabumba e pandeiro de suas raízes, de modo que se constituam, ao final, em uma espécie de grafismo perene de sua própria busca obstinada por nutrientes abaixo da superfície do solo. Através de uma coreografia que aponta direções inesperadas e ângulos muitas vezes forçados, seu caule e galhada criam uma narrativa externa do drama vivido pelas raízes, quando traçam no ar uma algaravia de volutas aparentemente abjetas, que também pode ser entendida como a partitura da música que vai sendo escrita por suas raízes nas profundezas do solo, e que se mostra algo mais complexa que a de um simples forró criado pela cultura humana desenvolvida nas proximidades dessa árvore; a cultura de uma gente que, em algum momento de sua história necessitou do umbuzeiro para sua própria sobrevivência e desenvolvimento, e soube lançar mão dos favores nascidos da sua fruta, da sua sombra, ou da água por ele acumulada.

A dosagem de vitamina C e sais minerais presentes no umbu, ou não foi ainda devidamente dimensionada pela ciência ou esta informação não chegou ainda ao conhecimento de uma população que, em sua maioria se vê forçada ao hábito remendão e induzido de suprir carências vitamínicas abastecendo-se em farmácias, mediante receitas medicas, o que normalmente vêm a fazer quando tais carências já se refletem em uma saúde prejudicada. Caso a extrema acidez dessa fruta dependa exclusivamente do ácido ascórbico nela contido, é possível que tenhamos aí uma das frutas mais ricas em vitamina C já produzidas pela natureza. O suco da fruta mostrou-se capaz de combater o escorbuto, que faz cair a dentes de crianças, e esse é um dos saberes das mães nordestinas, enquanto um uso extremado da fruta pode também escariar o esmalte que nos reveste os dentes e expor a dentina a estragos e dores de sensibilidade. Apesar disso, os habitantes desses interiores não se podiam dar ao luxo de dispensar esse potencial de saúde contido na polpa do umbu, e uma melhor saída para o aproveitamento de tal não poderia ter-se arranjado: utilizou-se a polpa do umbu ainda verde, numa solução casada com a própria história da colonização dessas terras, que passou pela interiorização do criatório bovino, e fazendo surgir assim o arranjo culinário da umbuzada.

A colonização desses rincões ásperos se deu tanto em reinos biológicos diferentes quanto em etapas bem separadas no tempo. A primeira delas encontra-se perdida na indeterminação dos tempos geológicos de formação do continente, com uma lenta e difícil ocupação do antigo leito marinho pelo mundo vegetal de superfície terrestre, num processo de milhões de anos que resultaria na adaptação do umbuzeiro, enquanto a conseguinte, pela colonização humana bem recente que se valeu, por um lado, da aspereza inóspita desses rincões para abrigar populações atingidas pelo cataclismo humano da segregação étnica, um lugar onde pudessem se sentir seguras das perseguições que lhes moviam invasores bandeirantes mercenários (a quilombolas e indígenas) e missionários católicos (a judeus fugitivos da inquisição). Por outro, a forma brutal desta colonização humana traria à reboque a introdução posterior da pecuária bovina como um fator tanto de aceleração do processo de ocupação do solo, quanto de uma necessária produção de proteína animal que não só a tornasse possível, como criasse uma atividade econômica a lhe servir de motriz. O casamento dessas duas formas de ocupação territorial tão separadas no tempo, deu a sertanejos e caririseiros a comida mais emblemática que sua terra pode um dia produzir.

Da primeira, nasceu o umbu, ao qual adicionou-se o principal fruto da segunda ocupação: o leite do gado. A alcalinidade do segundo reduziu a acidez do primeiro, tornando possível o consumo do fruto ainda verde, rico em vitaminas e sais minerais.

As raízes do umbuzeiro são uma prova inconteste da inteligência que possui toda e qualquer forma de vida capaz de mover-se na terra. No meio de suas cachadas radiculares são encontradas as batatas do umbu, ou seja, reservatórios de água e de várias substâncias nela contidas, como aportes prévios de sustentação para a árvore. Verdadeiras cachadas que funcionam como cantis d’água, e que lhe permitem atravessar longos períodos estivais sem perder folhagem. Durante a histórica seca de 1877, as levas de flagelados, retirantes da seca que tentavam chegar a lugares onde água houvesse, encontravam forças para seguir adiante ao encontrar um umbuzeiro em seu caminho. Escavavam a terra e capavam de suas raízes as grandes batatas, para aliviar-se de sede, fome e fraqueza. Gratia Plena, Euclides.

Ouça texto de Hildeberto Barbosa Filho , na voz de Gilson Souto Maior, louvando características dos cariris velhos, onde nasceu, uma das pátrias do umbuzeiro, e a canção de Dude das Aroeiras


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  1. Super parabéns !!
    👏👏👏👏👏👏👏👏👏Belíssimo texto..de uma profunda lição de doversas direções!!!
    Paulo Roberto Rocha

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  2. Otimo texto do Lacet nos revelando a riqueza do algodão e do umbuzeiro realçando com uma escrita virtuosa não apenas o que são e o que representam esses bens frutíferos para o nosso povo, sob o desafio de uma terra árida mas que acolhe e devolve aos seus habitantes a coberta do corpo e o alimento protéico. Revela os pormenores da relação água e terra que acolhe e gera em simbiótico processo tão díspares riquezas como uma dávida do Criafor aoa seus filhos de um canto do mundo as vezes esquecido. Parabéns.

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    1. Alberto Lacet24/8/21 18:01

      Caro amigo Luís Oliva. Não expresso aqui nenhuma surpresa pelo seu comentário generoso uma vez que lhe reconheço a profissão de uma vida inteira ligada aos recursos naturais de nosso país, com estudos aprofundados de suas grandezas geofísicas e de importância vital tanto para as economias quanto para a vida de um modo geral, ainda mais quando se considera sua nordestinidade intrínseca de amante da terra que lhe viu nascer e crescer como cidadão. Muito grato

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