Vocês já notaram que a gente não sabe mais como se comportar diante de situações que, até pouco tempo, eram muito simples? ...

E nós, aonde vamos?

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Vocês já notaram que a gente não sabe mais como se comportar diante de situações que, até pouco tempo, eram muito simples?

Por exemplo, quando a gente se interessava por uma pessoa, tipo, ficar a fim de namorar se rolasse um clima (desculpem pela referência a uma situação recentemente indigesta), a gente paquerava, iniciava uma conversa, e, se o "clima" fosse mútuo, o namoro começava. As pessoas próximas traziam as informações de segurança. Namorador, cachaceiro, gente boa, moça de família, complicada e perfeitinha, falada... Essa era a rede social disponível. Agora a gente precisa oficializar o relacionamento para pessoas que nem nos conhecem, os chamados seguidores das redes sociais, e exigir a senha para ver quem está curtindo as fotos dos nossos recém-amores. Controle tipo "o grande irmão". Para quem não sabe o que é isso, vide 1984, de George Orwell.

Mohamed Hassan
Estamos aprendendo sobre monogamia, hipocrisia, poliamor, fidelidade, verdade, prioridade, casamento, relacionamento tóxico. E não sabemos mais nem fazer renda, nem namorar.

Esquerda, direita. Era simples. Era briga de bar com direito até a brinde. Nelson Rodrigues escreveu sobre o "lado b" da tradicional família brasileira e era de direita. Paulo Freire foi protegido, enquanto era perseguido pela ditadura, por um amigo de direita.

Agora dá até medo. Outro dia, tapei a boca da minha irmã dentro de um Uber. Ela criticava alguma coisa do governo atual, na parte traseira do carro, e, na frente, eu, entre uma bíblia e o motorista. Não me senti seguro, apesar da bíblia – e talvez até por causa dela. Como assim?

Em 34 anos de exercício profissional, portanto, atravessando muitos momentos políticos do país, nunca assisti a algo que mexesse tanto com a saúde emocional das pessoas. É grande a sensação de perda de confiança nas nossas relações de pertencimento, de segurança emocional. Quem não perdeu um amigo ou se desentendeu com um parente que fale agora ou não se cale para sempre.

Mote Oo Education
Pensava que alguns valores éticos eram imutáveis, sagrados. De repente, tive que conviver com o mandamento "não matarás" reduzido a nada. A vida deixou de ser um valor universal, e voltou a se aplicar a lei de Talião. Ou da retaliação. Ou do "se não concordou comigo, eu meto bala". Arminhas em Cristo. Cada pecador se armou da sua pedra para jogá-la no telhado de quem tem o vidro mais opaco do que o seu, a depender, naturalmente, do grau de catarata.

Vi a palavra "intervenção" escrita de todas as mais desafiadoras formas ortográficas, por pessoas que não sabem escrevê-la, que dirá seu significado. Mas que (e por que a surpresa?) não entenderam a importância de investir em educação. A língua, queridos, já dizia Caetano Veloso, é nossa pátria. Ou, de forma mais poética, a nossa mátria ou nossa frátria. Mas quem quer saber de poesia?

Gerd Altmann
Você faz parte dessa massa?

Massa e povo são coisas diferentes. Quando a gente diz povo, vem todo um colorido diverso na mente. Massa é uma coisa só, sem forma, sem cor, sem distinção... Povo marcado é massa. Povo feliz é povo, é nação. Ô vida de gado…

Quem roubou meu queijo?

Esta pergunta é mais importante do que quem roubou, pura e simplesmente. Tanto que expressões violentas de preconceito foram desconsideradas.

O meu ladrão é melhor que o seu.

Gerd Altmann
O que constrói uma sociedade é a economia, não os valores éticos. Isso nem é novidade. O capital só passou a ter algum respeito pelos gays quando descobriu o seu poder de compra. O movimento feminista só teve força quando as mulheres foram colocadas no mercado de trabalho de produção fordista, uma vez que trabalho doméstico não era considerado trabalho. E ainda não é. Assim como não dá para engolir preto protagonista de novela, num país onde até a escrava Isaura era branca, avalie ocupando os bancos de uma faculdade de medicina ou escolas no exterior, porque o capital não suporta, ainda, olhar para pretos fora da senzala.

E nós, aonde vamos? Retomar um fluxo ético que parecia indo tão bem ou participar de um episódio do The Handmaid's Tale?

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