São dois capítulos, ambos da Parte V de Os Miseráveis – Jean Valjean. Um, no Livro I, La guerre entre quatre murs (A guerra entre quatro paredes), o capítulo XIX, “Jean Valjean se venge” (“Jean Valjean se vinga”); outro, no Livro IV, Javert déraillé (Javert descarrilhado), capítulo único, com o mesmo nome. No primeiro, por intermédio de uma técnica da narrativa, induz-se o leitor ao erro, gerando uma expectativa e uma tensão, quebradas com o desenlace. No segundo, acentua-se um deslize da tradução em língua portuguesa, já existente no primeiro, apontando para a necessidade de estarmos sempre atentos à
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estrutura do texto original. Embora existindo uma ligação intrínseca entre os dois, eles estão distanciados por 24 capítulos, ao longo de 70 páginas. Abordemos, por ora, o primeiro dos capítulos citados.
A indução ao erro no título do capítulo XIX, “Jean Valjean se vinga”, atinge o leitor de primeira leitura de Os Miseráveis, envolvido que se encontra com a perseguição implacável e injusta de Javert a Jean Valjean. O leitor que retornou ao livro para uma segunda leitura já não se deixa enganar pelo sentido literal do título. Como sabemos, os revoltosos que integram a Sociedade dos Amigos do ABC vão se agrupando, juntamente com outros insurgentes, em torno das barricadas de Les Halles, envolvendo a rue de la Chanvrerie, o cabaret Corinthe e a rue Saint-Denis.
Enquanto os insurgentes se encaminham para o combate final, a epopeia da rua Saint-Denis, Javert se integra ao grupo, com a intenção de identificar todos os seus componentes e, posteriormente, prendê-los. Descoberto, Javert é preso e condenado à execução. Jean Valjean, tendo tido conhecimento do amor de Marius e Cosette, acaba também por se integrar ao grupo, sem qualquer pretensão revolucionária, movido apenas pela
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intenção de confrontar o rapaz, a respeito de sua descoberta. Por ter, contudo, mostrado a sua disposição de ajudar os rebelados, Jean Valjean não só ganha a confiança de todos, mas reivindica a missão de matar Javert, o que é aceito por Enjolras, com a anuência de todos (“Queimar eu mesmo o cérebro daquele homem”, V, 1, 18, p. 971).
É nesse momento que o leitor sente uma espécie de catarse: Jean Valjean vai se livrar de uma vez por todas de seu perseguidor. Sim, vai matá-lo. A morte, no entanto, não abala o leitor que, a essa altura, já demonstrou total empatia por Jean Valjean, ao mesmo tempo em que execra a figura de Javert. Além do mais, trata-se de uma guerra republicana contra a monarquia que o inspetor de polícia representa. Se há conflito no espírito do leitor, ele tende a ser minimizado pela parcialidade do julgamento de Javert, com relação aos que cometem crimes, julgando-os, todos, irrecuperáveis. Talvez algum leitor reaja como Marius que, ao ouvir o estampido e, em seguida, a frase de Jean Valjean, ao voltar da presumida execução, “Está feito”, sentiu que “um frio sombrio atravessou-lhe o coração” (V, I, 19, p. 973).
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O fato é que, se Marius presume a morte de Javert e sente uma comoção por isso, o leitor, prelibando a catarse, se decepciona com aquilo que se anuncia como a vingança de Jean Valjean. O antigo forçado e perseguido pelo inspetor não o mata, atira para cima, salva a sua vida e ainda lhe informa o endereço onde reside, caso ele saia vivo da refrega – rue de l’Homme-Armé, numéro 7 (p. 972) –, de modo que Javert possa ir atrás dele e prendê-lo. Quem esperava a morte do perseguidor e a libertação definitiva do perseguido injustiçado, decepciona-se e, a um só tempo, admira a indulgência de Jean Valjean, passando a compreender que o personagem está bem orientado no caminho de transformação pelo perdão, aprendido lá no início da narrativa, com o bispo Myriel Bienvenu (Parte I, Livro 2, capítulo 12, p. 86):
“Jean Valjean, meu irmão, vós não pertenceis mais ao mal, mas ao bem. É vossa alma que eu vos compro; eu a retiro dos pensamentos negros e do espírito da perdição, e a dou a Deus.”
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A quebra da expectativa do leitor, no entanto, não é apenas um engano sem consequência, empreendido pelo escritor. É uma técnica, como já dissemos, para fazer o leitor refletir; para que ele leia nas entrelinhas e não se deixe lavar pela literalidade das palavras. Fazê-lo descobrir que “punir” é apenas um dos sentidos do verbo “vingar” (vindicāre, em latim). Além do sentido de “reivindicar um direito”, através de fórmulas sacramentais, o que torna religioso o ato de vingar, o verbo também significa “livrar, libertar”. Acredito que aí vale a possibilidade de uma leitura, não de tradução, do título como “Jean Valjean se liberta”. Ao perdoar Javert e pôr-se à disposição do inspetor para o depois da batalha
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da barricada da rue de la Chanvrerie, Jean Valjean se liberta de qualquer sentimento de retaliação, deixando com Javert o direito de escolha: continuar alimentando-se de rancor ou segui-lo na capacidade de perdoar. A indução do leitor ao erro é, portanto, apenas aparente. Mais do que uma técnica narrativa de atrair a atenção do leitor para um desfecho que lhe daria um prazer – a morte de um inimigo persistente –, o contexto leva-o a refletir que se vingar é também quebrar a expectativa do outro, que presumidamente imagina nos conhecer. É o que acontece, quando Jean Valjean puxa um canivete. Javert pensa com todo o preconceito que tem contra ele: é arma conveniente a bandidos e àqueles que estão nos níveis mais baixos da marginalidade. Quando ele vê que a arma é usada para libertá-lo das cordas e que Jean Valjean deseja a sua liberdade, e não a sua morte, a sua reação é a de total espanto, ficando, literalmente, de boca aberta e imóvel (Il resta béant et immobile, p. 972).
Há, portanto, uma quebra de expectativa que não é apenas a do leitor, mas a do personagem, expectativa, agora, em um nível mais profundo, obrigando-o a uma grave e aflitiva reflexão, como se poderá
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ver no capítulo único do Livro IV, Javert descarrilhado (p. 1039-1047).
Jean Valjean está ciente de que, no máximo, aprendemos a perdoar os outros, o que nos exige muito esforço e consciência de nossas responsabilidades. Assim como não podemos obrigar ninguém a perdoar, nem a nós mesmos, também não podemos esperar que aceitem o nosso perdão. O perdão do bispo levou-o à reflexão e às atitudes de mudança, sempre superiores ao vazio das palavras. O perdão de Jean Valjean a Javert leva o inspetor a refletir, mas o desfecho é outro. Cada um reage às responsabilidades como pode, enfrentando-as ou delas fugindo. Jean Valjean as enfrentou, Javert preferiu fugir delas. Pensamos que não, mas a aporia trágica é de nossa realidade, não é coisa inventada por poetas gregos. Eles apenas foram capazes de identificá-la e incorporá-la à ficção dramatizada, um dos meios mais eficazes de colocar o ser humano diante de si mesmo, momento em que uns vão para o enfrentamento, em busca de luz; outros, recuam e deixam-se tragar pela escuridão.