Dica de leitura, por Cibele Laurentino
Existem livros que se organizam como estruturas lineares, obedientes a uma lógica narrativa previsível. E há aqueles que se expandem como uma conversa viva, interrompida, retomada, atravessada por risos, memórias e exageros. A Rabeca de Paganini, de Luiz Augusto Paiva, pertence, com segurança, a esta segunda categoria.
O resultado é uma obra que se sustenta menos pela arquitetura formal e mais pela força de sua voz narrativa. E que voz. Ler Paiva é, inevitavelmente, escutá-lo. Há uma oralidade tão bem construída que o texto se desloca da página para o campo da presença. O leitor não apenas acompanha as histórias, ele se senta ao lado do narrador, como em uma mesa de bar ou numa calçada de interior, onde o tempo se dilata e o contar se torna mais importante que o contado.
Essa escolha estética, no entanto, não é isenta de riscos. Em alguns momentos, o excesso de detalhes, de digressões, de comentários pode desafiar leitores mais afeitos à concisão. Mas é justamente nesse excesso que reside a identidade da obra. Paiva escreve como quem viveu demais para resumir.
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Tonhão, o “Paganini do Sertão”, sintetiza bem essa proposta. Inserido sob o sugestivo subtítulo de “tragédia em ré maior”, ele encarna o humor ambíguo que percorre todo o livro, um humor que ri, mas não esvazia; que ironiza, mas não desumaniza. Há sempre, por trás da anedota, um traço de melancolia ou crítica.
Outro aspecto digno de nota é a presença onipresente do próprio autor como personagem-narrador. Luiz Augusto Paiva não se esconde; ao contrário, ele se coloca no centro da cena, mediando, comentando, conduzindo. Isso confere unidade a uma
Luiz Augusto Paiva da Mata ▪️ Facebook: @ProfessorAugustoPaiva
Ainda assim, em certos trechos, a figura do narrador se sobrepõe aos próprios acontecimentos, como se a necessidade de comentar competisse com a potência do que é narrado. Mas trata-se de uma escolha estética coerente com a proposta oral e confessional do livro.
A Rabeca de Paganini é, em essência, uma celebração da narrativa como ato humano, imperfeito, expansivo, carregado de memória e invenção. Não busca a precisão cirúrgica da literatura minimalista, mas a abundância das histórias que pedem para ser contadas antes que se percam.
Digo que é uma obra que pode dividir leitores: alguns se encantarão com sua espontaneidade e riqueza de vozes; outros poderão se sentir desafiados por sua falta de contenção. Como escritora, no entanto, reconheço algo raro: uma escrita que não tenta parecer outra coisa senão aquilo que é — viva. Sobre o autor:
Luiz Augusto Paiva é natural de Campos do Jordão (19/11/1950), tendo formação acadêmica em Matemática. Foi professor em cursos pré-vestibulares por mais de 50 anos. Atualmente, preside a União Brasileira de Escritores – seccional da Paraíba.










