Dica de leitura, por Cibele Laurentino Existem livros que se organizam como estruturas lineares, obedientes a uma lógica narrativa...

A Rabeca de Paganini

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Dica de leitura, por Cibele Laurentino
Existem livros que se organizam como estruturas lineares, obedientes a uma lógica narrativa previsível. E há aqueles que se expandem como uma conversa viva, interrompida, retomada, atravessada por risos, memórias e exageros. A Rabeca de Paganini, de Luiz Augusto Paiva, pertence, com segurança, a esta segunda categoria.

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Mais do que uma coletânea de histórias, o livro se apresenta como um organismo pulsante de narrativas híbridas, que transitam entre a crônica, o conto e o episódio oralizado, este último talvez o seu traço mais marcante. Há, em Paiva, uma recusa quase deliberada de contenção: ele não economiza palavras porque também não economiza vida. Sua escrita parece nascer de um impulso de permanência, como quem teme que a memória, se não for dita com abundância, se perca.

O resultado é uma obra que se sustenta menos pela arquitetura formal e mais pela força de sua voz narrativa. E que voz. Ler Paiva é, inevitavelmente, escutá-lo. Há uma oralidade tão bem construída que o texto se desloca da página para o campo da presença. O leitor não apenas acompanha as histórias, ele se senta ao lado do narrador, como em uma mesa de bar ou numa calçada de interior, onde o tempo se dilata e o contar se torna mais importante que o contado.

Essa escolha estética, no entanto, não é isenta de riscos. Em alguns momentos, o excesso de detalhes, de digressões, de comentários pode desafiar leitores mais afeitos à concisão. Mas é justamente nesse excesso que reside a identidade da obra. Paiva escreve como quem viveu demais para resumir.

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O grande trunfo do livro, contudo, está em sua galeria de personagens. Reais ou inventados, pouco importa: todos carregam uma densidade humana que os torna reconhecíveis. São tipos brasileiros, sim, mas não caricaturas rasas. Há neles um equilíbrio delicado entre o grotesco e o sensível, entre o riso e a crítica social. Nesse sentido, a comparação com o universo dramatúrgico de Dias Gomes não é apenas pertinente, mas reveladora. Como em suas obras, encontramos aqui figuras que beiram o absurdo, mas que, paradoxalmente, dizem muito sobre a realidade.

Tonhão, o “Paganini do Sertão”, sintetiza bem essa proposta. Inserido sob o sugestivo subtítulo de “tragédia em ré maior”, ele encarna o humor ambíguo que percorre todo o livro, um humor que ri, mas não esvazia; que ironiza, mas não desumaniza. Há sempre, por trás da anedota, um traço de melancolia ou crítica.

Outro aspecto digno de nota é a presença onipresente do próprio autor como personagem-narrador. Luiz Augusto Paiva não se esconde; ao contrário, ele se coloca no centro da cena, mediando, comentando, conduzindo. Isso confere unidade a uma
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Luiz Augusto Paiva da Mata ▪️ Facebook: @ProfessorAugustoPaiva
obra que, à primeira vista, poderia se dispersar em sua multiplicidade de histórias. É ele quem costura tudo, quem oferece ao leitor uma chave de leitura contínua.

Ainda assim, em certos trechos, a figura do narrador se sobrepõe aos próprios acontecimentos, como se a necessidade de comentar competisse com a potência do que é narrado. Mas trata-se de uma escolha estética coerente com a proposta oral e confessional do livro.

A Rabeca de Paganini é, em essência, uma celebração da narrativa como ato humano, imperfeito, expansivo, carregado de memória e invenção. Não busca a precisão cirúrgica da literatura minimalista, mas a abundância das histórias que pedem para ser contadas antes que se percam.

Digo que é uma obra que pode dividir leitores: alguns se encantarão com sua espontaneidade e riqueza de vozes; outros poderão se sentir desafiados por sua falta de contenção. Como escritora, no entanto, reconheço algo raro: uma escrita que não tenta parecer outra coisa senão aquilo que é — viva.
Sobre o autor:
Luiz Augusto Paiva é natural de Campos do Jordão (19/11/1950), tendo formação acadêmica em Matemática. Foi professor em cursos pré-vestibulares por mais de 50 anos. Atualmente, preside a União Brasileira de Escritores – seccional da Paraíba.

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