Era comum irmos até o Recife para andar nas escadas rolantes da loja Viana Leal, quando ainda não havia escadas rolantes aqui em João Pessoa. Lembro do “carro de praça” dirigido pelo senhor Josias. Saíamos daqui ainda de madrugada, porque a estrada era quase toda de barro, e parávamos em Goiana para um lanche, tão demorada era a viagem. A programação
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não variava; eu tinha direito a comprar um brinquedo (que sempre era o mesmo): um boneco que, quando dávamos corda, empurrava um carrinho desses de construção civil. Acho que se chamava “Jeremias vai à feira”, e o boneco era negro. Por algum tempo, liguei o nome Jeremias a pessoas de cor, como se eu fosse descendente de suecos. Depois, ficava subindo e descendo nas escadas rolantes, feliz da vida. Em seguida, almoçávamos no restaurante Leite e chegávamos já à noite em João Pessoa.
Muito tempo depois, meus pais construíram, na Lagoa, o Gran Pires, uma loja enorme, com três andares, ar-condicionado central e... escadas rolantes. As primeiras da Paraíba.
Essas escadas foram um alumbramento para a população de João Pessoa desde o início. O faro marqueteiro de D. Creusa Pires conseguiu fazer as tais escadas passearem por todos os bairros e ruas da capital, em cima de enormes caminhões, com faixas dizendo do que se tratava e até o valor de compra.
Transporte da primeira escada rolante da Paraíba para a loja de departamentos Gran Pires ▪️ Acervo do autor
Inaugurada a loja, dois problemas surgiram. Como havia ar-condicionado central, as portas de vidro permaneciam fechadas, sendo necessário empurrá-las para entrar na loja, o que o povo desconhecia. Foi preciso instalar cortinas de ar na entrada e escancarar as portas; aí a coisa deu certo.
Com as escadas rolantes, deu-se pior. Formavam-se filas para pisar no primeiro degrau, tantas eram as hesitações dos clientes. Mesmo depois de “embarcados”,
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muitos esqueciam de sair do degrau ao final do percurso, o que causava muitos trambolhões e algumas sandálias japonesas quebradas, prontamente substituídas gratuitamente. Foi tão sério o problema que meus pais contrataram alguns jovens para “ensinar” o povo a usar as escadas rolantes. Muita coisa engraçada aconteceu ali; porém, por falta de espaço, conto a do velhinho que pisou o primeiro degrau, virou-se e sentou de costas. Claro que levou um tremendo beliscão nos glúteos e exigiu uma calça nova.
Saiu no lucro, porque ganhou um jeans Topeka, o máximo da moda à época.