A Capela de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro está erigida sob um imenso lajedo, denominado pelos indígenas de Araçá ou Araxá, que na ...

A menor capela do mundo fica em Esperança, Paraíba

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A Capela de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro está erigida sob um imenso lajedo, denominado pelos indígenas de Araçá ou Araxá, que na língua tupi significa “lugar onde primeiro se avista o sol”.

O local em tempos remotos foi morada dos Índios Banabuyés e o Marinheiro Barbosa construiu ali a primeira casa de que se tem notícia no
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Manuel Rodrigues de Oliveira, primeiro prefeito do município de Esperança-PB.
município, ainda no Século XVIII.

Diz a história que no final do século passado houve um grande surto de cólera causando uma verdadeira pandemia. Dona Esther (Niná) Rodrigues, esposa do Ex-prefeito Manuel Rodrigues de Oliveira (1925/29), teria feito uma promessa e preconizado o fim daquele mal. Alcançada a graça, fez construir aquele símbolo de religiosidade e devoção.

Dom Adauto Aurélio de Miranda Henriques, Bispo da Paraíba à época, reconheceu a graça e concedeu as bênçãos ao monumento que foi inaugurado pelo Padre José Borges em 1º de janeiro de 1925.

A pequena capela está erigida no bairro da Beleza e sua entrada se dá pela Rua Barão do Rio Branco. Nele encontramos uma lápide com a inscrição que motivou a sua construção:

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Foto: R. Ferreira
“1º de jan. de 1925. Manuel Rodrigues de Oliveira e sua esposa Esther F. de Oliveira, mandaram construir este monumento, como um acto de agradecimento a Virg. SS. do Perpetuo Socorro, por mercês por elles alcançadas. mereceu aprovação de Sua Excia. Revma. D. Adaucto, arcebispo da Parahyba, e concurso do povo e do Pe. José Borges que o inaugurou solenimente”.
Em maio de 1925, o governador João Suassuna, de passagem por Esperança, visitou a capelinha juntamente com a sua comitiva o que foi registrado pela revista Era Nova. A comitiva, composta por auxiliares do governo e jornalistas, esteve em Esperança por ocasião da inauguração da luz elétrica,
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A comitiva do governador João Suassuna na visita à Capelinha das Pedras, em 1925 ▪ Fonte: Revista Era Nova / Dig. UFPB
sendo recepcionados pelo Sr. Manoel Rodrigues de Oliveira com um banquete ofertado em sua residência. Após um passeio pela vila, deslocaram-se até a “Capelinha”, junto com uma considerável multidão, para conhecer o ponto mais alto dessa comuna.

Não é por demais lembrar que, a pretexto de se inaugurar o sistema de luz, os filhos da terra solicitaram ao governador a independência municipal, antecipada pelo efusivo discurso do poeta Silvino Olavo da Costa (Esperança – Lyrio Verde da Borborema), amigo íntimo do Dr. João Suassuna.

O Dr. Severino (Nino) Pereira, ex-prefeito municipal (1980-1982) e historiador, buscou informações sobre o monumento, nos arquivos locais:

“Realizando-se pesquisas em arquivos da municipalidade e no livro do “tombo” da paróquia, nada encontramos sobre a data do início da construção e o tempo que passou para sua conclusão”.
Estima-se que as suas dimensões sejam três metros de largura por 10 metros de altura. Dentro mal cabem três ou quatro pessoas. Não há janelas e uma única porta dá acesso ao interior. O teto também é de alvenaria, dispensando o telhado. A abóbada é encerrada por um crucifixo, que pode ser avistado ao longe, tanto de quem chega
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Foto: R. Ferreira
a Esperança, no sentido Campina Grande, como de quem vem da direção de Remígio.

Na parte interna existe um altar em alvenaria e imagens católicas. Conta-se ainda que um jornal da época noticiou esse fato, cujo quadro emoldurado fazia parte do seu acervo, mas que se perdeu no tempo.

Muitas pessoas acendem velas, colocam fotografias e objetos elas graças alcançadas, seja pela libertação de algum vício, a cura de uma doença ou mesmo a obtenção de um emprego que, pela devoção, se atribui à santa homenageada naquele monumento.

Aliás, há muito as pessoas têm se referido a monumento ou mesmo obelisco, quando se fala da “Capelinha das Pedras”, como é conhecida na cidade.

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Foto: R. Ferreira
Os monumentos são construções simbólicas ou comemorativas destinadas a perpetuar uma lembrança de grande vulto ou acontecimento, sem funcionalidade específica. Servem apenas de adorno ou aformoseamento da homenagem prestada.

Já obelisco (do latim “obeliscos”) é uma edificação quadrangular em forma de pilar, que se afunila ligeiramente em direção à parte mais alta. Era muito comum no antigo Egito, e vinha acompanhado de inscrições (hieróglifos) no seu entorno.

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Obelisco da Praça S. Pedro, Vaticano. ▪ Wikimedia
As capelas, por seu turno, são templos cristãos menores do que as igrejas, nos quais inexiste culto religioso diário ou dominical, sendo-lhe dedicadas apenas celebrações festivas.

Na acepção da palavra, segundo a etimologia, “a palavra capela provém da Cappella (ou manto) de S. Martinho, a relíquia mais sagrada dos reis francos,
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São Martinho divide seu manto com um mendigo. A metade conservada como relíquia deu origem ao termo capella.
sobre o qual se faziam os juramentos e que era levado à frente das tropas em batalhas. Os seus guardiões eram os cappellani e o santuário no qual se guardava era a cappella. Por isso, cappella veio a ser designação de um edifício religioso, inclusive o seu mobiliário e pessoal, isto é, tudo o que fosse necessário para o culto de um rei ou nobre” (In: A naturalização dos menestréis, p. 62).

O hino de sua evocação é de autoria de Sebastião Florentino de Medeiros (Basto de Tino). A sua letra permaneceu esquecida no tempo e só recentemente foi resgatada pela poetisa e ativista cultural Vitória Régia Coêlho, por ocasião do Centenário da Paróquia do Bom Conselho:

Homenagem
De longe se avista Bem pertinho desta cidade Um monumento erguido No mosteiro da felicidade Contam os mais velhos Que conhecem o seu passado Que ali foi uma promessa Que alguém deixou gravado É nesta linda capela É neste pequeno morro É onde se venera A Senhora do Socorro Bem de perto da capelinha Têm uma linda paisagem Nas águas que ali existe Reflete a sua homenagem É nesta linda capela Gravada em letras se vê A homenagem Ao seu Divino Poder.
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Imagem: GMaps
Comenta-se que o Padre João Honório de Melo em sua administração paroquial (1935/1951) determinou a remoção da imagem da Capelinha para a Igreja Matriz, ato que gerou muita polêmica entre os cristãos locais. A cidade ficou em polvorosa.

Um dos filhos de Dona Niná, ficou bastante comovido e teria solicitado de uma autoridade eclesial o retorno da imagem ao seu lugar de direito. O pedido foi atendido de imediato e os devotos da Imaculada Virgem do Bom Conselho acompanharam a recolocação da imagem ao seu lugar de costume.

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GD'Art
Lenda ou não, deste fato nos dá notícia o historiador Martinho Soares dos Santos Júnior em seu belo trabalho para a Universidade Estadual da Paraíba, cuja síntese transcrevo a seguir:

Obelisco Nossa Senhora do Perpétuo Socorro

Existe no município de Esperança, aqui na Paraíba, um obelisco em homenagem a Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, construído em 1925 em virtude de uma promessa da senhora Ester Fernandes de Oliveira, (conhecida por dona Niná), esposa do sr. Manoel Rodrigues, um grande comerciante do ramo de tecidos, que também tinha sua criação de gado, e foi o primeiro prefeito da cidade.

O cumprimento da promessa foi com a aprovação e benção de D. Adaucto, Arcebispo da Paraíba e Padre José Borges, com o povo.

Existiu um fato relacionado a este referido monumento, um episódio que envolveu o Papa: na época o Padre João Honório retirou sem nenhuma justificativa, a imagem de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro; um dos filhos de dona Ester Fernandes de Oliveira, Nilson Fernandes de Oliveira que era aviador da empresa aérea Cruzeiro do Sul, aproveitando sua rota ao passar em Roma, conseguiu uma audiência com o Papa da época na qual relatou o ocorrido com a estátua. Seu entendimento resultou na devolução da imagem ao seu lugar de direito.

O que ocorre até hoje em torno deste monumento é a visitação por parte de devotos da santa, inclusive atrai a atenção de desenhistas, trata-se de uma construção de tamanho considerável até para os dias atuais, além de estar situada num local alto que proporciona uma vista interessante, o chão nas proximidades da ‘capelinha’ é todo de pedra.  
Fonte: Martinho Soares dos Santos Júnior. Trabalho apresentado em cumprimento à disciplina “Memória e Cultura Urbana do Brasil”, ministrado pela Professora Maria José Oliveira – UEPB, DHG, Disponível neste link.
No passado, as pessoas costumavam visitar o lugar, contemplando a sua paisagem natural, de onde se avista boa parte da cidade. Também foi refúgio dos namorados e dos poetas.

Antes, o lugar sequer era cercado, limitando-se apenas pelo Açude Banabuyé que circundava a rua que hoje se denomina Theotônio Cerqueira Rocha (antiga Travessa São Vicente). O lajedo íngreme em certos pontos e o acúmulo de lodo que sinalizava perigo para os visitantes fizeram com que as administrações municipais, ao longo dos anos, fizessem a murada fechando o acesso à Capelinha.

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Imagem: Adilson Cordeiro ▪ YT @adilsoncordeiro2067
Em 2008 o monumento passou por um intenso processo de restauração. O Monge Beneditino Adriano de Lima, especialista no assunto, trabalhou durante 45 dias naquela obra removendo toda a pintura antiga até chegar na camada original. Ainda foram recuperados o altar-mor e as portas da capela.

O site da prefeitura, à época desta restauração, fez a seguinte divulgação:

“A 'Capelinha´, como é chamado o monumento erguido em homenagem a Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, em Esperança, está sendo restaurada após oitenta e três anos de construída. A Prefeitura de Esperança contratou uma equipe coordenada pelo Monge Beneditino com especialização em restauro, Adriano de Lima, para realizar os serviços de restauração das instalações físicas interna e externas, portas, altar-mor e recuperação da pintura original. Nos oito anos em que lida com a arte, o monge Adriano já desenvolveu vários projetos de restauração em alguns estados do Brasil. Para citar como exemplo, as restaurações da Capela do Santíssimo, no Mosteiro de São Bento, em Fortaleza e, na Via Sacra da paróquia de Santa Isabel no Recife. O monge Adriano Lima, que é formado em Teologia e Filosofia, com especialização em restauro, é filho natural da cidade de Areia, aqui na Paraíba, e está radicado a sete anos em Fortaleza, Ceará.”
Fonte: https://www.pmesperanca.com.br/, este site foi retirado da web, na administração que lhe sucedeu).
A Capelinha recebe visitação de curiosos e turistas que querem conhecer o lugar e sua história, o qual além de tudo possui uma visão privilegiada da cidade. Esta capela pode inclusive ser catalogada como a menor capela do mundo pelo Guiness Book. Enquanto o título internacional não vem, nos conformemos com o título religioso, pois ela pode ser considerada o menor monumento mariano do mundo fora da Itália.

Capelinha das pedras, Esperança, Paraíba. ▪ Imagens: Doca Bernardo, YT @Doca-k7h
Merece registro também o belíssimo poema em alusão ao monumento de autoria de P. S. de Dória, esperancense que declama em versos a importância da Capelinha:

A Capelinha
  Aos olhos de quem poucas vezes viu, Eis a capela, torre d’aliança, Dos passeios domingais... Quanta lembrança Do grito em “ecos” que não mais se ouviu! O sacrossanto altar assim surgiu Duma promessa a uma virgem santa, E na promessa a fé tornou-se tanta Que ao santuário o céu também se abriu.   Sobre um lajedo de origem bruta Ei-la ostentando, a serena gruta, Que aos olhos de quem vê reluz e encanta!   E lá, buscando a paz d’alma carente, De joelhos em oração, vê-se presente O peregrino ante a Virgem Santa!
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Foto: R. Ferreira
Entre os anos 60 e 70, o vigário paroquial, Padre Monsenhor Palmeira, realizava na Capelinha a novena do Perpétuo Socorro, às terças-feiras, sempre ao meio dia. A distância e outras empecilhos fizeram com que essa tradição fosse deixada de lado, retomando a sua invocação há cerca de dois anos, através do Padre João Paulo Victor, no mesmo dia, mudando apenas o horário, que ficou estabelecido às 16 horas.

De acordo com a Lei Orgânica Municipal, é competência administrativa a proteção dos monumentos e paisagens notáveis, na qual se insere a Capelinha de N. S. do Perpétuo Socorro.
FERREIRA, Rau. Banaboé Cariá: Recortes da Historiografia do Município de Esperança. Esperança/PB: 2015.
RAYNOR, Henry (1981). A Naturalização dos Menestréis. História Social da Música - da Idade Média a Beethoven. Rio de Janeiro: Zahar Editores.
  Outras fontes:
Reportagem de Isabele Rakel
Esperança Reeditada
G1
Sobre a limpeza do tanque da Capelinha.
Wikimedia
 

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