Revi, na fase adulta, a pequena casa em cujo alpendre pus os pés, pela primeira vez, dos 12 para os 13 anos de idade. Agora, os móveis eram outros. Assim, também, as pessoas e os retratos. Quase no início da adolescência, saído de Juripiranga, ali estive em busca de água. Deu-me um trabalhão convencer minha avó de que eu conseguiria cobrir a pé, sem me cansar nem me perder, os doze quilômetros
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(duas léguas, diria meu pai) de estrada carroçável até Pilar.
“Basta seguir reto o tempo todo, Vó. Não há perigo”, tranquilizei-a. Mas não sem antes jurar que eu pediria carona ao condutor do primeiro carro que por mim passasse no mesmo rumo. Pobrezinha... Ela mal sabia que não se deve confiar em espíritos aventureiros. Na exata metade do caminho, poucos metros à direita, mato a dentro, um juazeiro frondoso fez sombra para o jovem andarilho que ali se punha nuzinho em pelo. Que água gostosa aquela que tive pela cintura no Paraibinha, um afluente, como eu, na direção do fluxo principal. Eu ficaria em Pilar, mas o riacho abraçaria o Paraíba (pai e filho?) mais além, numa área de antigos canaviais e engenhos de açúcar.
Banho tomado, novamente vestido, chinelas nos pés e mochila às costas, voltei a interromper a viagem, uns 300 metros depois, a fim de matar a sede. A moça que da sua varanda me atendeu largou na cadeira de balanço a linha, a agulha, o dedal e os bastidores, aqueles anéis de madeira usados
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pelas bordadeiras para tensionar seus panos. O marido – não acho que tivesse 40 anos – puxou conversa comigo enquanto a água não chegava. Contei-lhe de onde vinha e para onde ia, deixando claro que tinha na minha caminhada um desafio a ser superado. Ele riu e calculou que eu ainda iria bater perna por duas horas, no mínimo.
Daquela saleta o grande Luiz Gonzaga suplicava num rádio de pilhas: “Vai, cartinha fechada, não deixa ninguém te abrir, àquela casa caiada donde mora a letra I”. Eu não sabia, na ocasião, da paixão de Zé Dantas, o parceiro de Luiz, o compositor dessa bela modinha, por Iolanda, também grafada Yolanda, a garota com quem veio a casar.
Seus versos me ficaram na cabeça até minha chegada, em absoluta paz, à casa paterna. Aqueles eram tempos mais puros e pacíficos. Eram dias nos quais os temores de uma avó não iam além da estafa do neto, ou do caminho por ele tomado por engano na bifurcação de trechos. Ataques e assaltos eram, então, impensáveis por nossa gente, em nosso mundo.
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Aos 30 e poucos anos, no volante de um carro, voltei àquela casinha por mera curiosidade. A família por quem fui então recebido deliciou-se com minha história. Pai, mãe e filhos não conheceram os antigos proprietários do sítio que eles haviam adquirido de terceira, ou quarta mão.
“Tem pena d’eu”, pediu ele ao passarinho, a quem muito perguntou com o coração doído: “Onde anda o meu amor?”
Duas gerações depois, no mínimo, o que permanecia imutável sob aquele teto era a boa alma nordestina, era o acolhimento que ofertava não apenas água, mas, agora, também, biscoitos, doce de mamão e café. Não me fiz de rogado, nada recusei. E segui viagem com os versos de Zé Dantas novamente na cabeça, versos de que me lembro todas as vezes em que transito nesse trecho de 12 quilômetros da PB-048 asfaltado desde 2018 e hoje útil ao escoamento da lavoura produzida em benefício de 22 mil habitantes da região.
Ninguém, a meu ver, canta de melhor modo “A letra I”, do que a bela Marina Elali, a neta embevecida e orgulhosa de Zé Dantas. Lembro dela ao lado da avó, em rede nacional de televisão, no “Programa do Jô”. O mote, evidentemente, era a paixão do poeta por sua amada, sua musa inspiradora.
Marina Elali canta A Letra I, com participação póstuma de seu avó, Zé Dantas. ▪ YT @marinaelali
Ali, se não me engano, Marina também contava da finalização de composições inéditas do avô famoso autorizada por Iolanda. Isso faria da moça uma parceira póstuma de músicas como “Adeus, Saudade”.
Li que, em fevereiro de 1961, Zé Dantas, poeta e médico, rompeu num acidente o ligamento de um pé. E que, para aliviar dores muito fortes, fez uso excessivo de medicamentos,
Zé Dantas (1921–1962), compositor fundamental do baião, ao lado de Iolanda (1950s). ▪ Fonte: ForroVinil
sobrecarregando seus rins e fígado, o que o levou à morte em 11 de março de 1962, aos 41 anos de idade, não mais do que isso.
Iolanda, ou Yolanda, deixou esse mundão de Deus em janeiro de 2017, aos 87 anos. Foi, por mais de 50, a principal guardiã do acervo do marido, ao lado de quem repousa no Cemitério de Santo Amaro, no Recife. Tanto quanto uma viúva fidelíssima à memória do amado, tornou-se a sentinela de uma das obras mais valiosas do cancioneiro nacional, encargo que a bom tempo repassou à neta.
À sua tocante e especial maneira, Zé Dantas fez-se porta-voz dos amantes. Tomou, quando menos, uma cartinha e um sabiá como mensageiros de uma grande paixão. “Tem pena d’eu”, pediu ele ao passarinho, a quem muito perguntou com o coração doído: “Onde anda o meu amor?”.
A música "Sabiá", clássico do forró lançado por em 1951, foi composta por Zé Dantas e Luiz Gonzaga. ▪ YT @ForrozeirosPE
Este poeta aliviou os passos de um menino apegado à sua gente e à sua terra. O octogenário que me tornei o tem na memória a cada casinha caiada onde também morem a estima e o carinho aos passantes expressos em copos d’água, biscoitos, ou doces. O idoso que hoje sou ainda divide com ele outros tantos lamentos. Falo das “Vozes da Seca” e de um povo que requer o sustento pelo trabalho, não caridade. Trato da injustiça social, da concentração de renda abjeta e criminosa que tem feito deste País um dos mais desiguais do mundo.
Israel Filho canta Vozes da Seca, composição de Zé Dantas e Luiz Gonzaga. ▪ YT @TV Cultura
É seu canto de amor, todavia, o que agora me prende. Tudo por culpa da bela e talentosa Marina que a mim aparece, via YouTube, com sua voz de anjo, a entoar, como ninguém, “A letra I”. Eis que essa menina acaba de me pôr de volta à estrada dos meus agrados mais profundos. Deus a abençoe.