A poesia de Waldemar José de Solhasempre se equilibrou entre o rigor da linguagem e uma espécie de inquietação metafísica que atravessa o homem nordestino diante do tempo, da morte e da paisagem. Em Trigal com Corvos, esse equilíbrio alcança um ponto de maturidade rara: o livro é, ao mesmo tempo, contemplação estética e meditação existencial, pintura verbal e arqueologia do espírito.
Waldemar José Solha, escritor, poeta, ator e artista plástico brasileiro, nascido em Sorocaba (SP) e radicado na Paraíba ▪️ Fonte: @jornalcruzeiro.com.br
O próprio título já contém o núcleo simbólico da obra. O “trigal” remete à fertilidade, ao ciclo da terra, à abundância e ao trabalho humano; os “corvos”, por sua vez, evocam a sombra, o presságio, a morte, o silêncio que ronda toda colheita. A imagem inevitavelmente dialoga com o célebre quadro de Vincent van Gogh, especialmente Campo de Trigo com Corvos, cuja atmosfera de tensão e despedida parece ecoar na tessitura imagética do livro. Contudo, Solha não faz mera transposição pictórica: ele recria, em chave verbal, uma paisagem que é simultaneamente exterior e interior.
Campo de trigo com corvos, 1890 ▪️ Van Gogh (Museu Van Gogh, Amsterdam
Em Trigal com Corvos, a paisagem não é cenário decorativo; ela é estrutura simbólica. O campo dourado ondula como uma extensão da própria consciência do eu lírico. Há uma vibração solar na superfície dos poemas, mas sempre interceptada por uma sombra — o voo oblíquo dos corvos que recorta o céu da linguagem.
Waldemar José Solha ▪️ Facebook
Solha trabalha com imagens de forte densidade visual, revelando seu diálogo com as artes plásticas. As cores são substantivas; o amarelo do trigo não é apenas cromático, é quase tátil, quase audível. O poeta constrói uma sinestesia que faz o leitor sentir o rumor do vento como se estivesse dentro da tela.
Mas é justamente na tensão entre luz e treva que o livro se consolida. O trigal representa o ciclo vital; os corvos, a consciência trágica da finitude. Essa convivência é o eixo filosófico da obra: viver é colher sob o voo constante da morte.
Outro aspecto central é a relação com o tempo. O trigo amadurece — e, ao amadurecer, aproxima-se do corte. Há, nos poemas, uma percepção aguda da transitoriedade. O eu lírico observa a natureza como quem observa o próprio envelhecimento. O campo torna-se uma metáfora do corpo; a colheita, uma metáfora do destino.
Solha não se entrega ao desespero. Ao contrário, sua escrita sugere uma aceitação altiva do ciclo natural. A morte não surge como catástrofe, mas como elemento constitutivo da ordem cósmica. Os corvos não são apenas agouros: são parte da paisagem, necessários para que o quadro exista.
A linguagem, nesse sentido, assume uma função quase redentora. Se o trigo será ceifado, o poema permanece. A palavra é o gesto de resistência contra o apagamento.
Formalmente, Trigal com Corvos revela um poeta consciente de seu ofício. A dicção alterna momentos de contenção clássica com explosões imagéticas de grande intensidade lírica. Há um domínio seguro do ritmo, mesmo quando o verso se apresenta livre. Nada é descuido; cada imagem parece lapidada até atingir o ponto exato entre sugestão e clareza.
A sintaxe é limpa, mas carregada de tensão interna. Solha sabe suspender o verso no instante preciso, criando pausas que funcionam como respirações do campo — ou como o bater de asas dos corvos sobre o silêncio.
Van Gogh (adap. GD'Art)
Não se trata de hermetismo gratuito. A complexidade nasce da densidade simbólica, não da obscuridade deliberada. O leitor é convidado a atravessar o trigal, a ouvir o farfalhar do trigo, a erguer os olhos para o céu escuro que o corta.
A poesia de Solha, embora profundamente enraizada na experiência nordestina, ultrapassa regionalismos. Seu trigal poderia estar em qualquer latitude simbólica. Há ecos de uma tradição lírica que compreende a natureza como espelho do drama humano — tradição que atravessa o romantismo, o simbolismo e chega ao modernismo brasileiro.
Contudo, Solha não imita; ele assimila. Sua voz é própria, marcada por uma gravidade serena e por uma lucidez que não abdica da beleza. Em vez de ornamento, o que encontramos é essencialidade.
Trigal com Corvos é um livro de maturidade estética e profundidade reflexiva. Nele, Waldemar José de Solha transforma uma imagem plástica em meditação ontológica. O trigo e os corvos deixam de ser elementos da paisagem para se tornarem categorias da existência: vida e morte, luz e sombra, permanência e efemeridade.
GD'Art
Poucos livros de poesia conseguem manter, do início ao fim, essa tensão simbólica sem se dispersar. Solha o faz com firmeza e sensibilidade. O resultado é uma obra que permanece na memória do leitor como permanece um quadro inesquecível: não apenas visto, mas vivido.
Trigal com Corvos é, assim, um campo aberto onde o leitor caminha sob o sol e sob o presságio — e descobre que ambos fazem parte do mesmo céu.
Mas
GD'Art
Pense nessas fotos em que não se sabe se é o caso
de aurora ou de ocaso.
Pense em diamantes entre pedras de gelo.
Pense em Herodes perdendo a cabeça por Salomé e lhe concedendo a Batista.
Pense em homens-rãs usando seus pés-de-pato.
Pense em pássaros assombrando-se com os espantalhos mais tolos
e cobrindo as estátuas mais ferozes de cocô.
Pense no fato de que Este demais é Oeste
de que toda subida é descida
toda estrada
saída
e de que quando mais você se orienta
mais pode se desnortear
ou de que quanto mais você se orienta mais se norteia
mais pode se desorientar.