Passei boa parte da vida correndo atrás de pássaros que pousassem na minha janela, e trens bufando na plataforma, em nome do encontro com a felicidade. Até que, um dia, parei na esquina da minha rua, para conversar com seu Almeida, o jornaleiro. Ele não é daqueles que só empurram jornal com café requentado, com um pão de queijo de ontem. Ele lê cada notícia, comenta o tempo, pergunta do cachorro da gente, e guarda um doce para as crianças da vizinhança.
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Tem setenta e oito anos, uma barba por fazer e um sorriso que ocupa o rosto inteiro. Naquele dia, eu reclamava da vida, das contas, desse vazio que a gente sente mesmo quando tudo vai bem. Ele ouviu, arrumou as revistas na banca e disse:
⏤ Sabe o que é? O senhor está procurando felicidade como quem procura um ônibus. Acha que é só entrar no primeiro que passar. Mas felicidade não é condução. É destino.
Foi ali que me lembrei de Aristóteles. Não que eu seja de carregar filósofo grego no bolso, mas andava lendo uns livros por causa de uma insônia teimosa. E o velho Aristóteles falava justamente disso: eudaimonia. Uma palavra bonita, que a gente traduz apressadamente como “felicidade”, mas que significa coisa bem maior. É “ter um bom gênio dentro de si”, ser habitado por algo que floresce devagar, como árvore que dá fruto no tempo certo. É um estado de realização plena que se atinge pela excelência e pela prática da virtude em consonância com a razão.
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É o bem supremo da existência humana, alcançado pelo equilíbrio entre virtudes morais e intelectuais.
Seu Almeida não leu Aristóteles, mas entendeu a parada. Enquanto passava o troco, contou que a banca era do pai, que aprendeu o ofício com seu avô imigrante. Podia ter fechado aquilo há décadas, aberto um negócio maior, “crescido na vida”. Mas gostava era disso: acordar cedo, ver o movimento, saber o nome dos fregueses, ajudar o menino da padaria a ler as primeiras palavras nas tirinhas de jornal. “Isso é viver bem”, “fazer o que a gente veio fazer.”
Pensei nas minhas correrias, nos prazeres instantâneos que consumo como salgadinho, tem gosto, mas deixam vazio. Aristóteles já avisava: a tal eudaimonia não é um estado de euforia passageira, não é o frio na barriga de uma conquista rápida. É coisa de longo curso, que pede virtude, razão, escolhas éticas. E, principalmente, pede comunidade.
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Porque a gente não floresce sozinho. Somos como essas trepadeiras da praça: só crescem firmes se tiverem muro ou árvore onde se agarrar.
Olhei seu Almeida e vi um homem que encontrou o próprio telos, uma finalidade em sua existência. Não a finalidade que os outros esperavam, mas aquela que fazia sentido para ele. Ali, entre revistas e cigarros, construiu um pequeno reino de dignidade. E, no fim das contas, era disso que eu precisava, de um propósito.
Voltei para casa pensando que os gregos com suas palavras difíceis, estavam certos. A felicidade que dura não é a que a gente pega no ar, é a que a gente planta e rega todo dia. Como seu Almeida faz, sem nem saber que é filósofo. Talvez possamos ser habitados por um bom gênio, que goste de prosa, de esquina, de servir um café com jornal. E descobrir que esse gênio sempre esteve ali, esperando a gente parar de correr atrás de trens, e finalmente chegar a algum lugar.