Retorno ao romance Menino de engenho , desta feita para falar de recepção. Uma obra de arte apresenta sempre um sem-número de informaç...

Um poema na servidão

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Retorno ao romance Menino de engenho, desta feita para falar de recepção. Uma obra de arte apresenta sempre um sem-número de informações e subjetividades que nunca estão completamente ao alcance de quem tem a intenção de recebê-la. Por isso mesmo, a sua recepção varia de acordo com a percepção do público, estabelecendo-se de forma misteriosa, nunca linear, nunca sendo exatamente igual para todos aqueles aos quais ela se encontra disponível.

No fenômeno da recepção, muitas variantes influem, certamente não apenas a subjetividade de quem a recebe. Há um elemento essencial nesse processo, de que já falei em outros escritos, que se chama horizonte de expectativa (horizon d’attente). Trata-se de um termo cunhado por Gérard Genette, no livro *Palimpsestes* (Paris, Seuil, 1982), que aborda a essência do texto literário, qual seja, a transtextualidade. Em linhas gerais, nunca estamos lendo apenas o texto que temos diante dos olhos, devido ao fato de que a literatura se alimenta, sobretudo, de literatura, havendo, portanto, ali outros textos e outras informações, às vezes não literárias, subjacentes. É um fluxo constante, perpétuo, conforme já afirmei em outra ocasião.

Para que esse fluxo seja mais ou menos conhecido e seu percurso possa ser mais ou menos detectado, o leitor deve ter um horizonte de expectativa o mais amplo possível, que se alimenta de toda a experiência de leitura, da exposição ao fenômeno artístico e de suas experiências de vida.

Como exemplo possível, cito o romance Cassandra, de Christa Wolf (Kassandra, tradução de Marijane Vieira Lisboa, São Paulo, Estação Liberdade, 2007), cuja dificuldade inicial reside numa narrativa fundamentada no fluxo de consciência. Esta, no entanto, não é a única barreira pela qual o leitor tem de passar. Sem as informações apreendidas e acumuladas pelo horizonte de expectativa do leitor, é impossível acompanhar o enredo (ou desenredo...) do romance. O leitor precisa saber que a personagem remete a Cassandra, filha de Príamo, rei de Troia, sacerdotisa de Apolo, que lhe concedeu o dom da profecia, mas lhe retirou a credibilidade. Saber, ainda, que, na destruição de Troia, os argivos repartiram entre si as mulheres para levá-las como escravas e butim de guerra. Cassandra coube a Agamêmnon, o Senhor dos Heróis, grande vitorioso e poderoso senhor de Argos e Micenas.

O fluxo de consciência que sustenta a narrativa é uma maneira de representar os delírios frequentes que a profetisa tem para falar pelo deus a que serve. Como não tem credibilidade, ninguém, nem mesmo Agamêmnon, vai acreditar na situação funesta e nefasta que o aguarda por ocasião de sua chegada a Argos/Micenas, quando acontecerá o assassinato de ambos, Agamêmnon e Cassandra, pelas mãos de Clitemnestra, a mulher daquele, e de seu amante Egisto. Ou seja, impõe-se ao leitor o conhecimento, ainda que parco, do Ciclo Troiano da literatura grega, que compreende, mais do que Homero, a tragédia grega, como a Oresteia, trilogia de Ésquilo, composta por Agamêmnon, Coéforas e Eumênides.

Mesmo assim, a leitura não é fácil, tendo em vista que o assunto foi transposto para outro código, no caso, um romance composto no mundo moderno.

O filme Menino de engenho impôs ao espectador um conhecimento de outras obras de José Lins do Rego, como Banguê, Usina e Fogo morto, ao insistir na chegada da usina na várzea do Paraíba. Não havia necessidade. Se a intenção era mostrar questões sociais, o romance que dá título ao filme tem o suficiente e com engenhosidade ímpar, pois o menino não a percebe senão depois de adulto, quando resolve narrar a história. É o entranhamento que une a desgraça ao deslumbramento, criando um romance complexo, conforme mostraremos a seguir, apesar de sua aparência de fácil leitura.

Por outro lado, o argumento de que o filme quis mostrar o regionalismo é frágil. O termo “regionalismo”, há muito, assumiu um sentido pejorativo. Tornou-se raquítico pela limitação de se querer associá-lo apenas à representação da natureza, como se isso bastasse para definir uma região ou uma obra. Ninguém chama de regionalista o romance La faute de l’abbé Muret (1875), de Émile Zola, ainda que a natureza tenha uma força gigantesca na obra, simbolizando o Éden no idílio entre Muret e Albine. A natureza ali tem presença tão forte que a personagem Albine se suicida, sufocada pelo perfume das flores que escolheu como leito, em meio ao local paradisíaco em que vive seus mais belos momentos na companhia de Muret.

Ainda que não seja proibido falar de regionalismo, é preciso entender que o “regionalismo” literário não é um bloco monolítico. Ele apresenta facetas diferentes: no Romantismo, mostra-se idealista; no Naturalismo, assume uma face determinista; e, no Modernismo, procura revelar as contradições entre a estrutura urbana e a estrutura social, afastando-se do idealismo e desbancando teses deterministas. A professora Ângela Bezerra de Castro o demonstra muito bem em sua Re-leitura de A Bagaceira (1987), ensaio que recebeu prêmio nacional.

É exatamente nesse ponto — em que a revelação de uma condição social de exploração, trabalhada artisticamente e sem panfletarismo, ocorre — que o “regionalismo” se desmonta. No caso de José Lins do Rego, mostra-se como a estrutura fundiária atrasada, baseada na monocultura canavieira, é responsável pela degradação do ser humano e por sua miséria. Mesmo quando os meios se transformam, passando dos banguês para as usinas, o fenômeno apenas agrava a miséria existente, não poupando sequer os antigos senhores de engenho, que passam a fornecedores de cana para as poderosas moendas das usinas. O trabalhador e morador do engenho, por sua vez, perde o espaço de plantio da cultura de subsistência — milho, macaxeira, mandioca —, pois toda a terra agricultável passa a ser destinada à cana. É isso que José Lins do Rego mostra em Usina (1936). Como se não bastasse, a miséria pode ir ainda mais fundo: o homem pouco difere do bagaço da cana.

Reafirmo, portanto, que o romance Menino de engenho tem conteúdo suficiente para um filme de duas horas ou mais, tendo em vista a genial construção que lhe dá o romancista, ao mostrar o contraste de uma mesma época, vista em momentos diferentes pela mesma pessoa: o menino e o adulto. Essa visão se divide e provoca confronto, pois o menino, embevecido com o mundo sedutor do engenho, não percebe as gritantes diferenças sociais, que só o adulto, ao rememorar, consegue enxergar — não apenas os momentos felizes, mas também as contradições entre abundância e precariedade, entre quem manda e quem é mandado, e, pior, degradado em sua condição humana.

Há muitas passagens assim no romance; talvez a mais reveladora seja a do negro Chico Pereira no tronco, acusado de ter desvirginado a mulata Maria Pia. Chico é solto após se descobrir que o autor do ato foi Juca, filho do coronel José Paulino, avô de Carlinhos, dono do engenho Santa Rosa. Um é punido pelo que não fez; o outro permanece impune pelo que fez. Para não tornar o texto enfadonho, reproduzo o último parágrafo do capítulo 22, que considero representativo:

“A senzala do Santa Rosa não desaparecera com a abolição. Ela continuava pegada à casa-grande, com as suas negras parindo, as boas amas-de-leite e os bons cabras do eito.”

A abolição veio, mas a servidão continuou, em situação ainda pior. É dessa realidade que Ricardo foge para o Recife, tornando-se empregado; porém, ao constatar uma miséria ainda maior no mundo urbano (O moleque Ricardo, 1935), decide voltar ao Santa Rosa, encontrando apenas a Usina Bom Jesus em seu lugar (Usina).

A miséria reflete-se até na segregação entre os animais do engenho Santa Rosa, microcosmo da estrutura fundiária brasileira (capítulo 32):

“Cachorrinhos com barriga partindo, de magros, acompanhavam seus donos para a servidão. Rondavam pelos cajueiros, perseguindo os preás. Porém, não pisavam no terreiro da casa-grande. Os cachorros gordos do engenho não davam trégua aos seus infelizes irmãos da pobreza.”

Que poderosa alegoria do “cachorro gafo, sócio da fome”, de que falava José Américo de Almeida em A Bagaceira!

A visão do adulto revela, em meio à exuberância da natureza, essa degradação. A natureza deixa de ser cenário estático e passa a ser elemento funcional na exposição das contradições sociais: muito para poucos, quase nada para muitos. Eis o desmonte definitivo do chamado “regionalismo”, como se vê no capítulo 35:

“O engenho na festa das doze horas de moagem. O povo miserável da bagaceira compunha um poema na servidão: o mestre-de-açúcar pedindo fogo para a boca da fornalha, o ruído compassado das talhadeiras no mel quente espumando. E no pé da moenda: Tomba cana, negro, eu já tombei. ...................... O engenho de Massangana faz três anos que não mói. Ainda ontem plantei cana, faz três anos que não mói.”

Exponho, assim, um pouco da complexidade da recepção de uma obra de arte, literária ou não, cuja realização depende do horizonte de expectativa do receptor, que, não raro, a apequena e a amesquinha. José Lins do Rego, decididamente, sabia o que estava fazendo.

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