Da pequena cidade chamada Areia, perdida nas serras do brejo paraibano, onde nasceu, até a antiga cidade dos Medici, onde morreu, Ped...

O ateliê itinerante de Pedro Américo (Parte 1)

pedro americo areia paraiba
Da pequena cidade chamada Areia, perdida nas serras do brejo paraibano, onde nasceu, até a antiga cidade dos Medici, onde morreu, Pedro Américo de Figueiredo e Mello percorreu um longo caminho nômade. Pouco se sabe sobre os ateliês onde o artista trabalhou durante esse percurso em termos de arquitetura ou funcionalidade. Mas, podemos refletir sobre eles, seus múltiplos espaços de criação, enquanto reflexos de sua vida itinerante e, dessa forma, saber um pouco mais do artista e de sua obra.

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Dentro desse raciocínio, as poucas referências espaciais de que dispomos juntamente com relatos sobre a vida do artista podem nos possibilitar reconstituições, mesmo que imaginárias, dos espaços que ele utilizou como ateliê. É o que pretendemos nesse texto: saber um pouco mais sobre o artista a partir da ideia de um ateliê nômade que ocupou múltiplos espaços geográficos durante a vida de Pedro Américo.


O ateliê itinerante de Pedro Américo: a casa de seu pai (1843-1852)
Foi em Areia, Paraíba, que o futuro pintor do Segundo Reinado teve seu primeiro ateliê: a loja do seu pai, Daniel Eduardo de Figueiredo, um pequeno comerciante que gostava de tocar violão.
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Pedro Américo (1843—1905): auto-retrato aos 11 anos ▪ Fonte: Wikimedia
Seus primeiros desenhos, sobre as suas paredes, impressionavam os seus frequentadores. Horácio de Almeida, um de seus biógrafos, nos fala de como ele “um dia, no pequeno estabelecimento do seu pai, desenhou na parede um galo que a todos causou admiração”.

Nesse arremedo de ateliê o pequeno artista autodidata obteve sua primeira encomenda. Em 1850, um frade capuchinho, frei Serafim, considerado como santo pelos matutos crédulos da região chegou à cidade. Os devotos lhe encomendaram mais de uma centena de reproduções do retrato do beato e Américo iniciou então seu processo de profissionalização.

O naturalista francês, Louis-Jacques Brunet, chegou a Areia, em 1852, à frente de uma expedição científica que fazia pesquisas na região para o Museu Nacional. A cidade mostrou então ao estrangeiro sua principal atração: a criança. Tanto Brunet quanto o desenhista da expedição (o alemão Bindseil) se entusiasmaram com aquele talento natural e propuseram levá-lo como membro da equipe.

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Casa de Pedro Américo, em Areia, cidade histórica do Brejo paraibano, conhecida por seu conjunto arquitetônico colonial preservado. Ilustração inspirada nas litografias oitocentistas brasileiras. ▪ Fonte: Wikimedia (adapt.)

O Ateliê itinerante de Pedro Américo: o sertão (1852-1854)
Com o consentimento de seu pai, Américo deixou a cidade para uma viagem de exploração que durou aproximadamente vinte meses. Durante esse tempo, ele percorreu as províncias da Paraíba, Rio Grande do Norte, Pernambuco e Ceará. Enfim, quase todo o Nordeste do Brasil. Embrenhou-se com a expedição no universo dos sertões nordestinos do qual nos fala Euclides da Cunha,
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Louis Jacques Brunet, naturalista, médico e ilustrador francês que se destacou pelas expedições científicas realizadas no Nordeste brasileiro a partir de 1852. ▪ Fonte: Wikimedia
fixando no seu texto a paisagem em volta, a “atormentada” paisagem em volta.

Esse foi o segundo ateliê de Pedro Américo. Onde ele deixou a condição de autodidata e encontrou seus primeiros mestres: Brunet e Bindseil. Não temos nenhum registro das acomodações dos expedicionários durante os quase dois anos durante os quais ele participou da expedição. Uma imagem de uma habitação típica daquele espaço ou uma tenda de acampamento daquele tempo pode nos dar uma ideia do ateliê do nosso artista durante aquele período. Durante a expedição, segundo Horácio de Almeida, Bindseil adoeceu e coube ao jovem aprendiz a tarefa de registrar a fauna e a flora dos sertões nordestinos. A caatinga e sua paisagem inóspita foram, portanto, seus modelos; os registros do sertão nordestino do século XIX seus primeiros exercícios escolares e as tendas de acampamentos da expedição científica de Brunet ou as casas humildes dos habitantes da região, sua oficina.

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Naquela época, no Brasil, cabia a um estrangeiro, de preferência de origem europeia, reconhecer o talento de uma criança ou adolescente particularmente dotado para as artes. O parecer do estrangeiro tinha o poder de legitimação e era aceito por todos inclusive pelas autoridades do país. Brunet o recomendou ao presidente da província da Paraíba Sá e Albuquerque, o que é confirmado pelo seu relatório ao seu sucessor, Flávio Clementino da Silva Freire, elogiando o talento precoce de uma criança de parcos recursos materiais: Pedro Américo de Figueiredo e Mello.


O Ateliê itinerante de Pedro Américo: o colégio Pedro II e a Academia
Pedro Américo chegou ao Rio de Janeiro em dezembro de 1854. Graças à interferência do ministro Couto Ferraz, foi inscrito como interno no Colégio Pedro II que educava os filhos da elite nacional. Apesar de ser uma escola pública, o Colégio Pedro II não era gratuito naquela época e seus alunos carentes eram admitidos quando considerados com um dom inato.

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O Colégio Pedro II, fundado em 1837 no Rio de Janeiro, é uma das mais tradicionais instituições públicas de ensino do Brasil. ▪ GD'Art
Baseado provavelmente neste conceito, Américo foi encaminhado para este estabelecimento de ensino. De acordo com suas próprias palavras, em uma carta endereçada a Brunet e datada de 7 de abril de 1855, ele gostaria de já estar estudando na Academia e afirma ter falado três vezes com o ministro Pedreira, mas ainda sem nenhum resultado. Foi, certamente, devido a essa tenacidade e ao seu senso de oportunidade que ele conseguiu concretizar o seu desejo de falar com o imperador.

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A Academia Imperial de Belas Artes, criada em 1826, no Rio, foi a principal instituição de formação artística do Brasil no século XIX.
Pedro II se divertia em sabatinar os alunos dos estabelecimentos de ensino do império e, numa visita ao colégio, Américo o desenhou lendo. O imperador quis conhecer o autor e Pedro Américo obteve dele uma inscrição gratuita na Academia Imperial de Belas Artes.

Américo inscreveu-se na Academia Imperial de Belas Artes do Rio de Janeiro em 1855. Durante o período em que estudou naquela instituição o diretor era Manuel de Araújo Porto Alegre. Interno no Colégio Pedro II e cursando a Academia foi nesses espaços que ele trabalhou. Eles funcionaram como seu ateliê e lá ele executou seus exercícios escolares e algumas encomendas de quadros sobre assuntos religiosos. Seu principal cliente foi monsenhor Félix Maria que aparece também em outros momentos de sua trajetória. Assim, juntamente com os antigos retratos que ele fez de Frei Serafim, na Areia de sua infância, os seus primeiros trabalhos profissionais foram essencialmente de temática religiosa. Futuramente, o artista irá afirmar sua predileção pelos temas bíblicos, mesmo dentro de um contexto romântico e carregado de erotismo.

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Pinturas de Pedro Américo, com temas religiosos: São Miguel Arcanjo (mosteiro de S. Bento, Rio); Virgem Dolorosa (Museu Nacional de Belas Artes - MNBA, Rio); O Voto de Heloísa (MNBA, Rio); e Judite e Holofernes (MNBA, Rio) ▪ Fonte: Wikimedia
Aos 15 anos, Pedro Américo acreditava estar pronto para ir estudar, como era de praxe, na Europa. Para ele a academia brasileira já o havia ensinado tudo. Pediu, então, em carta ao imperador, uma bolsa de estudos para estudar fora do país. O imperador lhe concedeu uma bolsa de estudos e ele partiu para Paris em 1859. Tinha 16 anos de idade. Na bagagem ia uma carta de seu antigo professor, Manuel de Araújo Porto Alegre, para Victor Meirelles de Lima que, na época, era bolsista da Academia Imperial de Belas Artes do Rio de Janeiro e estudava em Paris. Na carta, ele apresenta Américo como um jovem e talentoso pensionista do imperador e pede para que Meirelles o encaminhe a Léon Cogniet, que deveria se lembrar dele, Porto Alegre, em virtude de suas atividades comuns no Instituto Histórico em 1836.
No segundo capítulo: Pedro Américo atravessa a Europa entre ateliês, viagens e dificuldades financeiras, estudando com grandes mestres em Paris enquanto constrói sua formação artística. Sem recursos, sobrevive pintando retratos, viajando pelo continente e até integrando uma expedição à Argélia como desenhista. Entre naufrágios, pesquisas científicas e aventuras românticas, conclui um doutorado em Bruxelas e retorna ao Brasil disposto a conquistar fama. Na Academia Imperial de Belas Artes, aposta na pintura histórica como caminho para a consagração e transforma a Guerra do Paraguai em símbolo de heroísmo nacional, aproximando-se da família imperial e iniciando a trajetória que o levaria às grandes telas do Império.
NOTA: Parte deste artigo foi publicado em: Zaccara Madalena. PEDRO AMÉRICO DE FIGUEIREDO E MELLO: CONSIDERAÇÕES SOBRE UM ATELIÊ ITINERANTE in Oitocentos - Tomo IV. Arthur Valle, Camila Dazzi, Isabel Portella, Rosangela de Jesus Silva (org.). Rio de Janeiro: CEFET/RJ; DezenoveVinte, 2017. 346p.

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