Quem, por alguma obra desse tal de destino, viu quando criança Jânio Quadros ganhar uma eleição para presidente derrotando o Marechal Lott, soube que Yuri Gagarin, a bordo da nave Vostok 1, com velocidade de 27.000 km/hora dera uma volta elíptica em torno da Terra alcançando no apogeu da trajetória 327 km de nosso planeta e ainda ouviu no rádio a notícia de que Getúlio Vargas mandara um tiro no próprio coração depois de escrever a famosa
Yuri Gagarin é condecorado por Jânio Quadros, com a Ordem do Cruzeiro do Sul, durante visita ao Brasil em agosto/1961. ▪ GovBR
“carta testamento”, alegando estar deixando a vida para entrar na história, deve como eu estar avançado nos anos, com o telhado coberto de neve (se ainda tiver esse telhado), com a memória fraquejando e com o coração como se fosse um baú de saudades.
Meus amigos, minhas amigas, é nessa fase da vida que fazemos aquela contabilidade sofrida, diria até que perversa da caminhada ao longo de nossa existência. Então, nos cobramos o abraço que ficamos devendo, as desculpas que não fomos capazes de pedir, o perdão que não concedemos, as oportunidades que procrastinamos e que depois viraram fumaça.
Ah, não posso me livrar desse repertório de saudades que vai esticando dia após dia. Quantas são elas! Saudade das pessoas que não estão mais por essas dimensões, amigos, gente do meu sangue que já se foi e é aí que a coisa pega, pois é a vez de mencionar os filhos que partiram e no meu caso a perda é plural. Como é tarefa difícil devolver essas joias.
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Então, nos resta ir ciscando aqui e acolá grãos de temperança e como é penoso, quanta energia disponibilizamos para que encontremos essas preciosidades. Creio que me entenderam, é difícil então, se agarrar à felicidade plena, sobram-nos uns fiapos e é com eles que vamos costurando essa colcha de retalhos que é a vida. Assim é essa fase da caminhada.
Fico aqui fazendo minha contabilidade. O que fiz nesse percurso? Deixei foi algum legado às gerações próximas? Tomara que sim. Por um pouco mais de 50 anos segurei o giz, atividade que abracei e nunca me arrependi dessa escolha. Minha jornada é um dos motivos que me faz pensar ter valido a pena. E como valeu. Algumas vezes sou abordado e recebo o abraço lhano de um ex-aluno que se sentiu grato pela minha presença em sua vida. É assim que vou vivendo.
Depois arrisquei uma guinada pelos caminhos da literatura. Escrevi (ou cometi, se preferirem) coisa de meia dúzia de livros. Dez anos ocupando coluna deste poderoso noticioso e uns quatro no blog do Germano.
Os livros, se as viúvas e as traças permitirem, é coisa que fica para sempre e quem sabe lá para frente o tempo alguém pergunte: Quem foi esse “caba”? Podem até rir, mas essa possibilidade que acabei de citar é que me faz colocar uma foto minha nas orelhas dos livros que publico. E o que mais podemos deixar? Fosse eu um arquiteto, um artista plástico renomado poderia entregar um legado mais visível, mais palpável. Há um dito de que devemos entregar à posteridade livros, árvores e filhos. Já comentei acerca dos livros, árvores nem sei quantas plantei, das frutíferas às ornamentais ou ainda aquelas nativas que reclamam descendentes. Já os filhos, segundo o Datafolha, foram 7. Das contas desse esplendoroso colar tive que devolver duas pérolas.
Essa dor lancinante não conseguiu apagar o brilho das que estão por aqui e dão sentido à minha vida. Ah, meus filhos...
Distantes, fazem-me vítima da síndrome do ninho vazio. Como consolo disponho dessa tecnologia moderna capaz de nos “vermos” quando aperta a saudade.
Mas se nem tudo é mar de almirante e nem céu de brigadeiro, há momentos em que somos envolvidos pela mágica arte do encontro. Isso quando um desses rebentos resolve zerar a distância. Foi o que me aconteceu nesses dias chuvosos, nas últimas águas de abril e nas primeiras de maio, quando me aparece a caçula, a raspa do tacho, e chega chegando para encher meu coração de regozijo. Dois fins de semana; um de Sol e outro de todas as chuvas. A praia ou a pipoca estourando para encarar séries do Netflix. Mas tudo que encanta a alma tem prazo de validade e minha andorinha já bateu asas para as latitudes lá de baixo. Agora, minha gente, o que sobra é enfrentar a saudade.