Ana saiu de casa à tardinha. Seguiu em direção a um quartel do exército, portando uma bandeira nacional, um livro e uma cadeira de pra...

O gozo do ressentido

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Ana saiu de casa à tardinha. Seguiu em direção a um quartel do exército, portando uma bandeira nacional, um livro e uma cadeira de praia. Na calçada do quartel, ela iria encontrar com Júlia e Marta, amigas que lá estavam à espera dela.

Juntas, cantavam o hino nacional, rezavam e gritavam palavras de ordem. Desejavam restabelecer uma ordem perdida, um ideal de pátria, um país livre de ideologias perigosas.
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Nos grupos de mensagem, coisas absurdas que corroboravam com a ideia de desordem: distribuição de cartilhas gay nas escolas, uso de mamadeiras com bico de pênis para criancinhas, destruição da família e da propriedade. Ao lado delas, pessoas choravam, outras gritavam para um deus que pudesse iluminar os generais na batalha pela ordem e progresso. Ana e Júlia eram professoras universitárias. Marta era servidora federal. Ana foi afastada da universidade quando do golpe militar. Júlia teve seu irmão exilado e o pai de Marta foi assassinado nos porões da ditadura.

Gilberto foi às redes sociais para demonstrar seu desagravo a uma marca de detergente de uma empresa que fora alvo de restrições a um dos seus produtos pela contaminação com bactérias. Laudos, pareceres técnicos, estudos in loco provaram a contaminação e o perigo à saúde pública. A própria empresa se retratou retirando o lote contaminado. Mesmo assim, Gilberto abre sua câmera e toma goles de detergente para provar que tudo se tratava de uma perseguição. Gilberto trabalha como vendedor de automóveis.

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Walter é motorista de aplicativo e acredita que é o melhor trabalho, pois faz seus horários, não tem patrão e o sua ferramenta de trabalho é seu próprio carro. Considera-se um homem de deus. Sua profissão de fé atual é o cultivo do ódio como forma de vida. Participa de grupos cujo objetivo é expor mulheres liberadas ao escárnio público, denunciar pessoas lgbt como indivíduos anormais e perversos e tentar proibir manifestações religiosas de matriz africana.

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O que estas personagens têm em comum?

Pensando a partir da esfera psicanalítica, há três fatores que conectam a vida destas personagens: a frustração, a dissonância cognitiva e o ressentimento.

Traumas que ficam incrustados no inconsciente retornam quando provocados por algum evento que lembrem possíveis causas deste trauma. A nossa história é cantada e decantada por grandes heróis masculinos, líderes guerreiros, que tomam o lugar de pai na existência nacional. A figura do pai traz o simbolismo da confiança,
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da proteção, do provedor. Uma vez que ela se esvai, elementos substitutivos aparecem neste vazio. Como nossa colonização foi feita com base na violência e degredo, a formação cultural da nação se constituiu a partir de figuras masculinas extremamente violentas, salvo raras exceções. No inconsciente coletivo da nação, buscamos por este tipo de pai que nos proteja, porém a partir do extermínio do outro diferente.

Esta falta, observada nas personagens deste ensaio, se enevoa na perspectiva de que o mundo precisa sair do caos para a ordem. E isto só pode ser feito a partir da figura de um líder máximo, ou seja, de um pai.

Como não damos conta deste objeto perdido, o ódio emerge como emoção substitutiva para este desejo perdido. Ao mesmo tempo que o ódio revela a estrutura ausente do desejo, ele é capaz de refundar a sociedade através da eliminação de objetos indesejáveis, no caso em tela, sujeitos indesejáveis. Para limpar a Alemanha das desgraças econômicas, Hitler elege os judeus como causa e objeto do ódio, permitindo com que eles fossem eliminados sem uma indignação social. Assim, as crises inventam sujeitos abjetos, cujas vidas devem ser ceifadas em nome do “bem comum”. O ódio visa aplacar a frustação da separação que causou angústia e medo.

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O que soa patético e paranoico para a maioria das pessoas, faz sentido para aqueles que estão vivendo um fenômeno chamado dissonância cognitiva. Na dissonância, o conjunto de discursos que mais se parecem com uma realidade invertida ou paralela, chega ao grupo como uma verdade.

Gilberto sabe que tomar detergente seja de que marca for, mesmo sem contaminação por bactérias, é algo muito prejudicial. Porém, neste momento, há uma “invenção de uma verdade” que tem como objetivo sustentar uma crença.
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É o mesmo mecanismo que suporta determinados grupos fanáticos.

A dissonância cognitiva cria verdades que se sobrepõem a fatos corriqueiros. Para tal, cria-se uma negação da ciência, dos experimentos, da empiria. Um exemplo clássico é do fumante que é aconselhado a parar de fumar por conta de estudos científicos. A pessoa sabe perfeitamente que o cigarro faz mal à saúde, mas continua fumando um maço por dia. Para aliviar a culpa, ela recorre a justificativas como: "Mas me ajuda a relaxar" ou "Meu avô fumou a vida inteira e viveu até os 90 anos".

A frustração da vida cotidiana também leva as pessoas a acreditarem e agirem de maneira reativa ao diálogo, ao outro. O indivíduo é desassujeitado de si: não elabora, não pensa, não reflete, só reproduz, na lógica de manada.

Walter se sente frustrado diante de seus amigos. Tomaram caminhos diferentes. A maioria deles se graduou e se encontra em boas posições. Walter teve as mesmas oportunidades, porém não lidou bem com elas. Agora, sua frustração é servir a outras pessoas como motorista.
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Culpa o pai por não ter sido mais dirigente, culpa a ex-esposa por ter ficado com 50% dos bens do casal, culpa o governo, seja ele qual for. Sua forma de se livrar da frustração é pela via do ódio. O ódio, assim como o amor, é uma maneira de vinculação. Odiando mulheres, lgbts, intelectuais, ele acaba por encontrar um alívio para suas escolhas.

Ana, Júlia e Marta aparentemente levam uma vida invejável. Ao deitar, suas mentes se embotam com o pior dos males humanos, segundo Nietzsche: o ressentimento. São mulheres emancipadas, porém corroídas pelo monstro da solidão. Seus intelectos sempre exaltados nos grupos, não dão conta do vazio que lhe sobra como forma de desamparo e desamor. Sentem-se corroídas pela dor de algo que lhes foi tomado, que lhes foi talvez roubado, mas que nem mesmo sabem que objetos foram estes. Talvez pessoas. Andam desterradas pela dor não compartilhada, pelo ódio que não é dito pelas regras de polidez, pelas mágoas que as desfiguram como fel. Inventaram um inimigo comum, este outro que, talvez como a vida, lhes surrupiou de algo.

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Como elas não podem se vingar na realidade, a agressividade que deveria ser direcionada para fora é recalcada e internalizada. Essa energia reprimida envenena a própria psique. A vingança, portanto, é deslocada para o plano imaginário e moral. É deslocada para um outro imaginado como um inimigo que deverá ser combatido à morte.

E assim seguem, por caminhos diferentes, Ana, Júlia, Marta, Gilberto e Walter. Talvez nunca se cruzem. Talvez nunca parem e reflitam sobre si, pois o ressentimento é redoma refratária ao outro. O que os conecta é o desejo desconexo. Por um momento seus desejos foram barrados e o self entrou em colapso. Caíram no discurso fácil que prediz a eliminação do diferente como estratégia de ordem.

Muito ao contrário disto, o que nos torna demasiadamente humanos é a capacidade dialogar, de compaixão, sentir com o outro, de conviver com os diferentes e enxergar neste outro, às vezes tão intragável de tão diferente, algo que existe em si mesmo: a afirmação absoluta da vida presente em cada ser deste pálido ponto azul.

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