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Pra lá de Marrakesh

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Desde há muitos anos que sonhava em conhecer o Marrocos. Pela magia do desconhecido, pelos camelos, desertos e depois, mais ainda, pela música de Caetano – Qualquer Coisa. Virou o tema da nossa viagem. Depois de um dia todo pelas estradas tortuosas das Gargantas de Dades, pelas paradas diante dos desfiladeiros, pelas tendas vendendo tapetes e echarpes belíssimas, finalmente chegamos a essa cidade linda, caótica, ocre, mágica e rica.

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Gargantas de Dades, conjunto de cânions e vales montanhosos localizados no sul do Marrocos, entre a cordilheira do Atlas e o deserto do Saara ▪️ Foto: Kader M.
Mais recentemente, acompanhei a experiência da artista plástica gaúcha/paraibana Heloisa Maia e a sua bela exposição de azuis e aridez do sertão. O nosso Riad Petit Karmela tinha pátio e um café da manhã com um suco de laranja de um doce e bagos indescritíveis. Morangos e mirtilos de me fartar. Queijo de cabra e aqueles pães árabes com geleia, de não querer sair mais de debaixo dos pés de laranja ao redor das mesas.
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Riad Petit Karmela (Marrakech, Marrocos) ▪️ Foto: Tripadvisor
Os funcionários, de uma gentileza ímpar; água mineral e chá de hortelã inclusos. E a minha ida à farmácia, com direito a remédio de eucalipto para respirar melhor. A praça Djamma El Fna, cena de filme. O Palácio Bahia, os Souks, a Medina e a praça Jemaa El Fna. Nas ruelas da Medina, fico zonza novamente de tantos panos, jarras, pratos, brincos e colares. Uma cooperativa de arte feita por mulheres nos encantou. Chás de rosas, chaleiras de zinco, copinhos e as inúmeras casas de temperos a nos lembrar dos tajines e couscous. Tudo muito. E, a cada esquina, um susto de um tuk-tuk, uma bicicleta ou motos em vultos.

Visitar o Jardin Majorelle, casa-museu do estilista Yves Saint Laurent, um deslumbre para os sentidos. Tudo azul-cobalto! Depois de Inhotim, Giverny, agora mais esse espaço verde de tantos tons e cactos de tantos tipos. E azuis. E o dia foi para conhecer a parte nova de Marrakech, com suas avenidas largas, longas e imponentes; postes de outros tempos e uma arquitetura exótica e de cores do barro. Gueliz é o coração moderno de Marrakech. As muralhas da Medina por toda parte, o Jardim de Menara, oliveiras a perder de vista. Trouxe um vidro de azeite na mala. Nenhuma câmera consegue
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Jardin Majorelle, obra de arte viva, criado em 1920 pelo pintor francês Jacques Majorelle, que abriga um jardim botânico, o museu Yves Saint Laurent e um pequeno museu berbere ▪️ Foto: Max Böhme
captar a beleza desse lugar. Desse país exuberante. Tudo em contraste com a pobreza extrema, aquelas criaturas saídas diretamente das fotos de Sebastião Salgado. Mulheres recostadas nos muros das medinas, homens com rostos marcados, o som das rezas o dia todo, o burburinho dos turistas europeus, mas não só. Os roof terraces, onde podíamos apreciar o pôr do sol. E os ninhos das cegonhas por toda parte, com as aves a sobrevoar com seus filhotes.

Fazer compras no Marrocos é um capítulo à parte. Já sabia da arte de pechinchar e que o preço das coisas é uma questão subjetiva. Mas tudo é muito mais complicado e transcende essa arte. Em todas as tendas e lojas, não adianta perguntar o preço de nada. O vendedor não entende essa informação. Ele quer negociar, mesmo que você não compre. E isso, para nós, é um processo exaustivo: a toda hora estarmos negociando preços de um brinco ou de um tapete. E os vendedores são irritadiços se você não negocia. Um me perguntou: “Para que queres saber o preço?” E eu: “Para saber se cabe no meu bolso, na minha mala”. E ele disse: “Não me interesso”, deu as costas e me deixou falando sozinha. Por isso comprei pouco. Embora tudo fosse lindo demais e de preços acessíveis. A gente se confunde, se perde e já não sabe se quer um camelo ou um pacote de chá de rosas. Couros, tecidos, joias, vasos, cerâmicas, túnicas, kaftas, objetos de decoração, lenços, temperos e todos os óleos e perfumes de argan ao seu alcance. Nem todo o tempo do mundo me daria para que eu enchesse as minhas malas.

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Ana Adelaide Peixoto
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Marrocos (Primavera, 2026) ▪️ Fotos: Ana Adelaide Peixoto
Quando lembro de Mohamed, o funcionário do nosso riad/hospedagem, já sinto saudades. O restaurante a céu aberto, com uma lua quase cheia, e a música de Jorge Ben Jor que ele colocou para tocar em nossa homenagem. Mal sabia ele que eu preferia ouvir as músicas dos povos berberes que Hassan, nosso guia de toda a viagem, colocava no rádio a nosso pedido. Aquela língua singular e tão estranha a nós combinava melhor com o alaranjado da paisagem, com o suco doce de romã feito na hora e todos os seus bagos a derreterem num carmim vibrante. Homens com olhos amarelos, que não são mangas, talvez tâmaras, como meu amigo Nelson Barros já tinha me alertado: “Se prepare para a beleza”. E, meninos, eu vi! Esses homens belos de túnicas, como também as mulheres com seus rostos cobertos, seus lenços envoltos na cabeça, seus panos como hieróglifos ditando seus estados civis. E, claro, a opressão masculina que todos esses véus significam.

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Ana Adelaide Peixoto
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Marrocos (Primavera, 2026) ▪️ Fotos: Ana Adelaide Peixoto
Volto abastecida de sonho. Daquelas ruelas estreitas de um mundo tão distante. E de uma reza interior que me faz um pouco viajante por esse mundão tão lindo e diverso.

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