Na semana passada elencamos neste espaço alguns erros lógicos que comumente afetam o bom desempenho textual. São falhas ...

Erros lógicos na redação (2)

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Na semana passada elencamos neste espaço alguns erros lógicos que comumente afetam o bom desempenho textual. São falhas que decorrem de tropeços no raciocínio e repercutem na engrenagem das ideias, tornando a escrita obscura e às vezes ilegível. Nesses casos o leitor tem no mínimo que “se esforçar” para entender o que lê, quando se sabe que tal esforço é uma das medidas do fracasso do autor. Seguem outros erros desse tipo, também exemplificados em redações dos nossos alunos.

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Um dos mais frequentes é o “non sequitur”, expressão latina que significa “não se segue”. Trata-se de um raciocínio falacioso em que a conclusão não decorre das premissas. Ou seja: deduz-se do que se afirmou algo que não tem nada a ver.

Um exemplo aparece nesta passagem de uma redação sobre os arquitetos da internet:

“Bill Gates afirmou numa entrevista que irá doar uma parcela da sua fortuna para caridade. Ele disse que não acha construtivo seus filhos crescerem
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tendo bilhões de dólares. O desejo dele deve ser que seus filhos sejam donos do planeta.”

É clara a desconexão entre o que o aluno apresenta nos primeiros períodos e o que, a título de comentário conclusivo, afirma no terceiro. Se Gates vai destinar uma parcela do seu dinheiro a obras de caridade com o intuito de melhor educar os filhos, como pode desejar que eles sejam “donos do planeta”? Um gesto que estimule tal presunção nada tem de construtivo.

O “non sequitur” também ocorre quando se ligam fotoinformações que não têm relação umas com as outras. O elo pode até existir, mas não é adequadamente explicitado. Em razão disso, cria-se uma lacuna na sequência das ideias. É o que se vê neste fragmento de uma redação sobre “evolucionismo versus criacionismo”:

“A humanidade, com o passar do tempo, criou novas teorias sobre a criação do mundo. É certo que muitas pessoas não têm acesso a essas teorias, mas isso não significa que os intelectuais não possam acreditar no catolicismo,
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já que essa é uma questão relacionada à fé de cada um.”

O que vem após a fotoinformação de que muitas pessoas não têm acesso às teorias mencionadas constitui uma quebra em relação ao que foi dito. Trata-se, a rigor, de uma ruptura coesiva; ao abandonar o sujeito “muitas pessoas” e passar a falar dos “intelectuais”, o aluno embola o pensamento e deixa de formular o que talvez lhe passasse pela cabeça e ele não fez chegar ao papel. Algo como:

“A humanidade, com o passar do tempo, criou novas teorias sobre a criação do mundo. É certo que muitas pessoas não têm acesso a essas teorias, mas isso não significa que sejam indiferentes a elas, assim como os intelectuais podem acreditar no catolicismo, já que essa é uma questão relacionada à fé de cada um.”

Como veem, uma boa contraposição (fundada em aparente paradoxo) prejudicada pela má articulação do discurso.

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Outro erro comum é a má apresentação do “círculo vicioso”. Como o nome sugere, o círculo vicioso é um tipo de raciocínio circular; nele um termo aparece como causa de outro que também determina o primeiro. Pode ser representado pelo esquema: A causa B e B causa A. Por exemplo: “O Brasil investe pouco em educação (A), por isso não cresce (B); por não crescer (B), não tem como destinar mais verbas à educação (A)”.

A inadequada formulação desse raciocínio ocorre quando apenas se invertem os termos, sem permutar a relação causa/consequência. O resultado é que não se estabelece a circularidade. Apenas se repete a afirmação inicial trocando a ordem das orações, como neste exemplo: “O jovem toma drogas porque não encontra um sentido para a vida, e uma vez que não encontra um sentido para a vida toma drogas.” Para indicar corretamente o “círculo vicioso”, bastaria deslocar o conectivo causal: “O jovem toma drogas porque não encontra um sentido para a vida e não encontra um sentido para a vida por escolher as drogas.”

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Outra falha é o “erro de acidente”, que faz o redator considerar um atributo acidental como essencial; ou avaliar o geral em função do particular. Por esse raciocínio, o que ocorre com um indivíduo pertencente a determinado grupo é estendido a todos os componentes do grupo. Disso resultam falsas generalizações, como a de que “todos os políticos são corruptos”, “as mulheres são consumistas” etc. Esse tipo de extrapolação pode ocorrer tanto em prejuízo quanto em proveito de um grupo ou classe.

Numa redação sobre o papel das Organizações não Governamentais na sociedade, um aluno escreveu: “A análise da ONG ‘Nova Vida’ mostra que essas instituições são importantes, pois defendem causas nobres e fortalecem os movimentos sociais.” Por mais que se tenha respeito por essas entidades, não se pode julgá-las com base na observação de uma só.

Também depõe contra a lógica a “fuga à análise desapaixonada das questões”. Por meio desse procedimento, que pode ou não ser deliberado, abandona-se a discussão objetiva e se concede primazia aos afetos, que são “os estorvos máximos do comportamento discursivo racional” (Christian Plantin; A argumentação, Parábola).

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Essa atitude, que comumente se associa a má-fé e preconceito, pode ser exemplificada na seguinte passagem de uma redação sobre o caso Bruno (o ex-goleiro condenado pelo assassínio de Eliza Samudio): “Eliza Samudio não foi apenas vítima. Ela teve o que merecia. Quis dar o golpe do baú e acabou se dando mal. Ela deve ter importunado tanto a vida do ex-goleiro que ele não teve outra saída.”

A afirmação de que a mulher “quis dar o golpe do baú” e “deve ter importunado tanto a vida do ex-goleiro” não se baseia em fatos – é mera presunção; mesmo que fosse verdadeira, não justificaria o que se fez com ela. Já dizer que “o goleiro não teve outra saída” é de certo modo justificar o que lhe foi feito e ir de encontro a valores como o direito à vida – o que complicaria seriamente a situação do aluno perante os corretores do Enem. Alertei-o de que, com posicionamentos como esse, ele certamente teria a sua redação zerada.

A falta de lógica no pensar, ou em formular com adequação o pensamento, compromete a aceitabilidade (um dos chamados “fatores de textualidade”) e prejudica a clareza. Daí ser fundamental que, nas aulas de redação, o professor esteja atento a falhas desse tipo e se mobilize intensamente para saná-las.

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