Para admitir a influência dos Espíritos é necessário aceitar a ideia de que há Espíritos e que estes sobrevivem à morte do corpo físico...

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Para admitir a influência dos Espíritos é necessário aceitar a ideia de que há Espíritos e que estes sobrevivem à morte do corpo físico.

A dúvida relativa à existência dos Espíritos tem como causa principal a ignorância acerca da sua verdadeira natureza. Seja qual for a ideia que se faça dos Espíritos, a crença neles necessariamente se baseia na existência de um princípio inteligente fora da matéria.

Eu estava deixando a pequena Santa Luzia, onde nasci e me criei, onde podia desmaiar na praça sem medo (pois alguém iria me deixar em casa...

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Eu estava deixando a pequena Santa Luzia, onde nasci e me criei, onde podia desmaiar na praça sem medo (pois alguém iria me deixar em casa), a cidade que eu podia levar no bolso, para ir morar em Campina Grande, uma cidade grande, onde qualquer desconhecido poderia me botar no bolso a adolescidade.

A moda das comemorações de aniversários natalícios, segundo o livro The Lore of Birthdays, dos antropólogos americanos Ralph e Adelin Lint...

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A moda das comemorações de aniversários natalícios, segundo o livro The Lore of Birthdays, dos antropólogos americanos Ralph e Adelin Linton, vem do Egito e da Grécia, por volta de 3000 a.C.

O Filósofo está apaixonado. Demorou muito para admitir isso, mas agora não pode mais se enganar. Seria desconhecer as evidências, menospre...

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O Filósofo está apaixonado. Demorou muito para admitir isso, mas agora não pode mais se enganar. Seria desconhecer as evidências, menosprezar o alcance das suas faculdades cognitivas. Depois de longas prospecções interiores, reconhece que está amando. Não permitiria, contudo, que os arroubos da paixão lhe turvassem o entendimento. Afinal era um filósofo, um homem acostumado a meditar sobre as grandes questões do universo.

Início deste ano, recebi com muita desconfiança os votos de “Feliz Ano Novo”, mesmo vindo de pessoas de minha benquerença. Não precisava...

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Início deste ano, recebi com muita desconfiança os votos de “Feliz Ano Novo”, mesmo vindo de pessoas de minha benquerença. Não precisava ser nenhum adivinho, usar bola de cristal ou jogar sobre a mesa cartas de tarô. Estava evidente que o ano ia ser difícil. E está sendo.

Há cem anos, o paraibano Epitácio Pessoa , que presidiu o Brasil no período 1919-1922, decidiu dar ao seu estado natal, sempre pobre e car...

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Há cem anos, o paraibano Epitácio Pessoa, que presidiu o Brasil no período 1919-1922, decidiu dar ao seu estado natal, sempre pobre e carente de grandes investimentos públicos federais, uma obra capaz de alavancar seu desenvolvimento econômico, libertando-o, pelo menos em parte, do eterno problema das secas periódicas, que inviabilizavam a sustentabilidade de nossa atrasada economia fortemente baseada em rústicas agricultura e pecuária.

Há mais de trinta anos Firmo Justino, jornalista que entrou para a Magistratura da Paraíba, retornando às paisagens do Convento São Franc...

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Há mais de trinta anos Firmo Justino, jornalista que entrou para a Magistratura da Paraíba, retornando às paisagens do Convento São Francisco, numa crônica antológica, disse que foi satisfatório passear pelo maravilhoso conjunto arquitetônico barroco, e convidou a todos para visitar aquele lugar. Mesmo que fosse uma única vez, narrava, quem olhasse para as velhas paredes carregadas de histórias, as imponentes capelas ornamentadas com belas pinturas e imagens, como também observasse as peças sacras de incomum beleza, além do horto que exala o perfume silvestre, dali sairia com o desejo de retornar.

Na época da visita do meu amigo, o convento tinha sido restaurado, estava ainda mais imponente e carregava, como ainda mantém, o encantamento do magnífico conjunto arquitetônico barroco. Quem passear por seus longos corredores de largas paredes, pisar no assoalho de madeira dura e olhar as peças ornamentais que a mão humana moldou, silencia e escuta a quietude do lugar.

Se eu fosse rei ou imperador, assim como nas estórias que ouvia no tempo de criança no nosso sítio, em Serraria, recomendaria aos professores a levar seus alunos a este maravilhoso local, onde estão guardadas muitas histórias que ajudam a entender o passado da Paraíba, porque falam como um livro aberto.

Para amar o lugar onde nascemos, é por demais importante conhecer sua história, sabiamente profetizava Nathanael Alves.

Estive pela primeira vez no São Francisco, em 1979. Foi quando, por inspiração de Dom José Maria Pires, o poeta Waldemar José Solha e o maestro José Kaplan montaram a “Cantata pra Alagamar”, apresentada numa noite que me deixou abismado pela aclamação ao espetáculo e pela imponência do conjunto arquitetônico onde o evento aconteceu.

Então, após as revelações de Firmo Justino, levei minha filha Angélica para conhecer aquela inconfundível obra de arte. Grande foi sua admiração, apesar dos nove anos de idade. Pouco indagava, mas o semblante e os olhos arregalados davam pistas de seu encantamento ao contemplar detalhes dos corredores, as grossas paredes e as imagens pintadas no teto das capelas.

Todas as vezes que volto àquele lugar, vagueio na imaginação colhendo remotas imagens e histórias que os livros abordam, desde a fixação das pedras sobre pedras, conduzidas por muque humano até chegar a imponente edificação que conhecemos. Entre as paredes, o silêncio de Deus se manifesta em nós.

Em cada recanto observava-se misterioso silêncio. O vento entrando pelos janelões, espalhando-se pelos móveis antigos, caminha ao nosso lado durante o passeio pelas celas, extensos corredores e o horto florestal recebe a todos com seu frescor.

Meu amigo tinha razão quando convidou-nos a visitar o convento franciscano, e olhar por dentro a fabulosa obra de arte que eles deixaram.

O prédio com a torre apontando para o céu, o cruzeiro que nos recebe à entrada e seus arredores, tudo espalham emoções. Essas imagens carregamos pelo resto da vida.

- Não é uma beleza?...

A menina respondeu com acena da cabeça, e curtas palavras que tento relembrar.

Quase três décadas depois, a filha conduziu meu neto para igual visita, quando a pandemia nem dava sinais.

O convento franciscano continua com seus mistérios, criando emoções aos que ali se dirigem, mesmo em tenra idade.

Discordar é um ato que exige conhecimento de causa, mas também respeito ao interlocutor. Não transformar uma simples discussão num conflit...

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Discordar é um ato que exige conhecimento de causa, mas também respeito ao interlocutor. Não transformar uma simples discussão num conflito que acabe em ofensas ou insultos. Discordar é divergir, ter opinião contrária. Mas é necessário que estejamos preparados para oferecer argumentos inteligentes na contestação. Assim enriquecemos o processo comunicativo e preservamos as relações pessoais. Não nos deixarmos jamais ser levados pelo emocional.

Para os estudos em filosofia, uma definição básica para abstração é: operação intelectual em que um objeto de reflexão é isolado de fato...

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Para os estudos em filosofia, uma definição básica para abstração é: operação intelectual em que um objeto de reflexão é isolado de fatores que comumente lhe estão relacionados na realidade. Já para os estudos em psicologia, e aqui vou me restringir à psicologia cognitiva, abstração está relacionada ao pensamento hipotético-dedutivo que, conforme a teoria elaborada por Piaget sobre o desenvolvimento humano, é um estágio do desenvolvimento do raciocínio na criança que se alcança por volta da entrada na adolescência e se amplia daí por diante.
Dito com outras palavras, a abstração é um estágio avançado do pensamento que se mostra quando o adolescente, diferentemente da criança, já não precisa mais da referência ao concreto para o entendimento de um conceito e passa também a criar hipóteses para tentar explicar e sanar problemas.

O filme Deus e o Diabo na Terra do Sol , do cineasta baiano Glauber Rocha, é considerado um dos grandes momentos alcançados pelo cinema do...

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O filme Deus e o Diabo na Terra do Sol, do cineasta baiano Glauber Rocha, é considerado um dos grandes momentos alcançados pelo cinema do Brasil. As sequências da película são intercaladas e sobrepostas por intervenções de um cantador oculto na tela que solta sua voz, forte e cortante, em versos construídos sobre temas populares do Nordeste brasileiro, com o acompanhamento apenas de um violão.

Num shopping sem muito alvoroço, facilitando o olhar para o que resta do Cabo Branco, permaneci umas duas horas num luxo cintilante de p...

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Num shopping sem muito alvoroço, facilitando o olhar para o que resta do Cabo Branco, permaneci umas duas horas num luxo cintilante de pavimento ocupado por consultórios médicos. Acabara de me desligar, em casa, do noticiário assustador exposto pela tragédia das enfermarias e UTIs em que o país se debate.

No período quaresmal, os preceitos da Igreja rigorosamente obedecidos. Quarta-feira de cinzas, recebíamos traços da cruz na testa: “Lembra...

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No período quaresmal, os preceitos da Igreja rigorosamente obedecidos. Quarta-feira de cinzas, recebíamos traços da cruz na testa: “Lembra-te de que és pó, e em pó te haverás de tornar”. Alguns, ainda bêbados, entravam no templo, faziam persignações inconscientes.

Não fosse Clodovil, o Correio das Artes teria sido extinto. Isso mesmo, falo de Clodovil Hernandes , o estilista que, em inícios dos anos...

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Não fosse Clodovil, o Correio das Artes teria sido extinto. Isso mesmo, falo de Clodovil Hernandes, o estilista que, em inícios dos anos 80, tinha um quadro no programa TV Mulher, da Rede Globo de Televisão.

Na Teogonia , Hesíodo mostra como a Terra, Gaia (Γαῖα), é a grande-mãe do cosmos, porque dela deriva toda a procriação. Ela pare o céu, q...

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Na Teogonia, Hesíodo mostra como a Terra, Gaia (Γαῖα), é a grande-mãe do cosmos, porque dela deriva toda a procriação. Ela pare o céu, que já nasce constelado, assim como pare o mar e as montanhas. Desses partos, provêm o ar, o fogo, a água e a terra. Dela ainda nascem os deuses, a vida e os homens. Conforme já afirmamos, em outra ocasião, na cosmogonia de Hesíodo, porque a Teogonia, assim pode ser chamada, não foram os deuses que criaram a Terra e a vida, mas a Terra, como deusa-mãe, que gerou os deuses e toda a vida, que se conhece.

Ao ler “A mão e a luva” de Machado de Assis me deparo com um livro de toque muito diferen...

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Ao ler “A mão e a luva” de Machado de Assis me deparo com um livro de toque muito diferente na forma da escrita e ao mesmo tempo muito divertida; No livro se faz agradável.

O romance traz a princípio o diálogo entre dois jovens rapazes que são amigos de escola, Estevão e Luis. Muito tristonho e por alguns momentos, chorando muito, Luis relata ao amigo o recebimento de
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uma carta de Guiomar, pondo fim ao namoro deles.

O livro é um romance realista e conta a história de Guiomar, uma moça muito bela, porém dotada de uma certa frieza e caráter dissimulado:

“ Guiomar em meio às afeições que a cercavam sabia manter-se superior às esperanças de uns e às suspeitas de outros. Igualmente cortês, mas impassível para todos, movia os olhos com serenidade...”

De origem humilde, tornou-se rica a partir do momento em que a baronesa, sua tia, lhe convida a viverem juntas, após s morte dos pais de Guiomar.

Como a tia baronesa é muito ingênua, dócil e nutre pela sobrinha um real amor de mãe, Guiomar se favorece da tia para lograr qualquer coisa de seu interesse, usando de artimanhas um tanto desonestas, frias e sempre em seu favor.

É permeado de nuances caracterizadas pelas insistências e desventuras dos possíveis pretendentes da personagem principal. Inesperado e revelador, o epílogo é a melhor parte do livro.
Algo que surpreende o leitor. As ambições de Guiomar e o verdadeiro amor trocaram as bênçãos fraternais, ao se casar com quem ela realmente amava, e ao mesmo tempo revela o seu fascínio pela fortuna e por uma melhor posição social.

O romance foi publicado primeiro em forma de folhetim para somente depois ser lançado como livro no ano de 1874. Foi escrito por Machado de Assis (1839 – 1908 ), um autor de fundamental importância para a Literatura Brasileira. Ele é o Presidente Pérpetuo da Academia Brasileira de Letras como também foi o fundador da mesma instituição.

A obra de Machado de Assis introduziu o Realismo no Brasil. A crítica nacional e internacional o reconhecem entre os 100 maiores gênios da literatura universal. Ainda em vida alcançou fama e prestígio pelo Brasil e países vizinhos. Por sua inovação literárira e audácia em temas sociais e precoces, é visto como escritor brasileiro de produção sem precedentes; um dos grandes da literatura mundial, ao lado de Dante, Shakespeare e Camões. É também homenageado pelo prêmio literário brasileiro, o “Prêmio Machado de Assis”

Mas é preciso ter força É preciso ter raça É preciso ter gana sempre Quem traz no corpo a marca Maria, Maria Mistura a dor e a alegria Ma...

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Mas é preciso ter força É preciso ter raça É preciso ter gana sempre Quem traz no corpo a marca Maria, Maria Mistura a dor e a alegria
Maria, Maria, M. Nascimento / F. Brant

Num dos sábados de carnaval de alguns anos atrás, no bloco Raparigas de Chico (Sebo Cultural), em meio a mulheres no palco que cantavam as delícias do nosso Chico Buarque, e outras tantas que, fantasiadas, dançavam no salão, eis que vi Maria.

Fantasiada de alegria dela mesma, Maria estava toda pintada e deixava o corpo nu. Pulava, cantava, com espontaneidade e alegria e força e poder, não muito comum de se ver. Quando ouço música, essa alegria e esse poder também me inundam, principalmente no Carnaval.

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Por mais expostas que as mulheres possam aparecer, a exposição genuina é rara. O que vejo comumente? Muitas vezes uma alegria estudada, uma fantasia comportada, uma cachaça contida. A cena me comoveu. Maria destoava de tudo e de todas. Com o seu ar aborígene tabajara, ela explodia. Maria Maria! A expressão que Milton Nascimento cantou e se tornou hino de uma geração de mulheres que lutavam por seus direitos. Maria Mulher! Cunhã! Do dia 8! Do mês de Março!

Emocionada com a dança de Maria, imediatamente me lembrei do livro Mulheres que Correm com os Lobos, de Clarissa Pinkola Estés , minha bíblia dos anos 90, que tanto me elucidou e apaziguou diante de questões existenciais. Na introdução das suas análises de mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem, a autora pergunta: “O que é a Mulher Selvagem?”. E analisa:

“Do ponto de vista da psicologia arquetípica, bem como pela tradição das contadoras de histórias, ela é a alma feminina. No entanto, ela é a origem do feminino... Ela é a força da vida-morte-vida; é a incubadora... é a vidência... fluentes no linguajar dos sonhos... Ela sussurra os sonhos noturnos; ela deixa em seu rastro no terreno da alma da mulher um pêlo grosseiro e pegadas lamacentas. Esses sinais enchem as mulheres de vontade de encontrá-la, libertá-la e amá-la... Ela é ideias, sentimentos, impulsos e recordações. Ela ficou perdida e esquecida por muito tempo... Ela é o cheiro da lama boa e a perna traseira da raposa... Ela é quem se enfurece diante da injustiça. Ela é a que gira como uma roda enorme. É a criadora de ciclos. ELA É A RAIZ ESTRUMADA DE TODAS AS MULHERES”.

Maria, dançante e emplumada de colares coloridos, era a representação dessa mulher estrumada!

Conheci Maria nos anos 70. Ao lado de seu hoje ex-marido, o professor Paulo Adisse, Maria fundou a Oficina Azul em Miramar, onde construiu sua família de filhos. A Oficina era um lugar de vanguarda. Abriu portas para outros que vieram depois, como o Parahyba Café, Felipéia e a Casa FurtaCor. Mas, diferente desses outros, era um local transgressor, porque a época assim pedia. Eram os tempos da ditadura e abertura política. Estávamos todas desgrenhadas e de sovacos cabeludos.
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Lá, havia moda, bebida, happenings, danças e toda uma ebulição inquietante de frequentadores, professores universitários e funcionários. Muita doidera, muita paz e amor, mas muita política dos costumes também. Um encontro azul, de liberdades e irreverências.

Anos depois, Maria abriu o Restaurante Oca (Av. Almirante Barroso) com toda a sua mentalidade orgânica, vegetariana etc. À época, o estabelecimento não tinha ainda o status de hoje desfruta. Adorava almoçar lá quando ia fazer compras na Mesbla. Aos poucos, os funcionários caretas e conservadores das instituições ao redor — advogados e gente mais bem comportada — descobriram os sabores das bardanas e das raízes da vida. Bela Gil nem tinha nascido. Comer gergelim era preciso!

Maria se chamava Elza. De caminho em caminho, adotou o Maria. Confesso que tive e tenho dificuldades até hoje, tamanha a força do seu nome, da sua pessoa. Não sou nem nunca fui tão próxima de sua vida. Mas sempre tive muito afeto nos abraços que nos enroscamos vida afora. Admiro-a. Pela simplicidade. Pelo seu comprometimento com a vida, talvez pelo contrário do que Pinkola Estés classifica: “A mulher moderna é um borrão de atividade”. Maria trabalha duramente, mas sem borrão. É folha inteira e branca que com sua arte do existir e do fazer vai colorindo os seus parágrafos.

Comprei muito das suas roupas alternativas. Já trocamos de roupa. De pele. Quem sabe! Gersal fresco e salgadinho... também comprava. Maria foi pro mato. Voltou. Dançou a dança da chuva. Do fogo. É uma deusa. Uma mulher poderosa. Assim como os lobos, ela “tem percepção aguçada, espírito brincalhão e uma elevada capacidade para a devoção. Os lobos e as mulheres são gregários por natureza, curiosos, dotados de grande resistência e força.
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São profundamente intuitivos e têm grande preocupação para com seus filhotes, seu parceiro e sua matilha”.

Nesse carnaval de tantas mulheres nuas e bombadas e empenadas/empanadas, ver uma mulher magra, seios à mostra, corpo de quem já tem a vida tatuada nos vincos e cabelos brancos, despertou-me a dimensão — que sempre tive e tenho — sobre o poder de um corpo que não cai! Isso só embelezou ainda mais o meu pensamento e minha certeza, se é que tenho alguma nessa vida. Tombar? Tombei!

Certa vez, nos anos 80, numa Maratona de Biodança com o mestre Rolando Toro — de quem fui aluna durante alguns anos — fizemos um exercício de identidade que era assim: todos numa roda, seminus, gente de todos os tipos e formas e idades, íamos ao meio do círculo dizer o nosso nome. Na época, uma colega de mais de 50 anos (eu tinha uns 30), com os peitos bem caídos (que qualquer mulher ligada à beleza institucionalizada esconderia entre mil corpetes), o corpo bem marcado pelos anos, foi lá na frente, a passos largos e seguros, e disse de alto e bom tom: “Meu nome é Alicia!”

Fiquei tão emocionada com a força que chorei! Se já tinha uma convicção sobre beleza feminina, corpo, tempo etc (e eu era magra e jovem) saí desse exercício sentindo o poder que a vida nos dá. Também fui na roda dizer meu nome. E nunca me senti tão poderosa com meu corpo magro, seios pequenos e um viço todo meu. O grito visceral, um grito da identidade of our own, não passava somente pelas des-formas, mas avançava pelas profundezas do nosso ser sem fim. Aqueles peitos volumosos e caídos e lindos não me saíram da cabeça e nunca mais me deixaram embarcar na mercadoria do silicone do dia. Somos quem somos, com nossas rugas, marcas e circunstâncias! E nosso Poder.

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Pois os seios de Alicia, caídos, ou os de Maria, pintados, soltos e dançantes, me trouxeram à tona essa força guerreira das mulheres, que a nossa sociedade de consumo urge em destruir, nos empurrando de goela abaixo padrões magros, empinados e fabricados e falsos e mortos!

A imagem de Maria naquele carnaval me alimentou a alma e me fez celebrar minhas perguntas, minhas histórias e minha expansão. Com ela, continuo a homenagear as mulheres neste mês de março. A imagem da “mulher que mora no final do tempo" ou de “mulher que mora no fim do mundo... ela é amiga e mãe de todas as que se perderam, de todas as que precisam aprender, de todas as que têm um enigma para resolver, de todas as que estão lá fora na floresta ou no deserto, vagando e procurando”. E de onde bradamos — Nenhuma a menos!
NOTA DA AUTORA: As citações contidas no texto são do livro Mulheres que Correm com os Lobos, de Clarissa Pinkola Estés