28.2.23
Desde quando meu amigo Nathanael Alves passou para o mundo desconhecido, há mais de quatro décadas, tenho me valido de nossas conver...
O anjo da guarda
Desde quando meu amigo Nathanael Alves passou para o mundo desconhecido, há mais de quatro décadas, tenho me valido de nossas conversas e das imagens que guardo dele quando me recolhia ao aconchego de sua biblioteca. Foi ele quem me ofereceu alguns livros de formação, mesmo que não tenha lido os mais conhecidos.
28.2.23
Ou, como diz Hamlet: “ Nada, em si, é bom ou mau – depende de como nos chega ” É famosa a sequência, em CASABLANCA - filme de...
Ecos entre as artes e a realidade
Ou, como diz Hamlet:
“Nada, em si, é bom ou mau – depende de como nos chega”
É famosa a sequência, em CASABLANCA - filme de Michael Curtiz, 1942 (em plena Segunda Grande Guerra) - , em que um grupo de militares nazistas canta no bar do Humphrey Bogart, quando Paul Henreid – com o consentimento do dono da casa – manda que a orquestra execute a Marselhesa, que é cantada de pé por todos os presentes, humilhando os invasores alemães. Já na
“Abertura 1812" , composta em 1880 por Tchaikovsky, a Marselhesa representa a terrível invasão napoleônica na Rússia, que a esmaga, no final, com o hino “Deus Salve o Czar”.
28.2.23
Outrora as pessoas morriam mais cedo e nem assim deixavam de fazer as obras que poderiam notabilizá-las. Parece que a consciência da b...
Vida e tempo
Outrora as pessoas morriam mais cedo e nem assim deixavam de fazer as obras que poderiam notabilizá-las. Parece que a consciência da brevidade da vida levava-as a intensificar seu trabalho. Era como se, intuitivamente, soubessem que não tinham tempo a perder. Ameaçadas por um número maior de doenças sem cura, não podiam se dar ao luxo de adiar projetos e sonhos. Nossos poetas românticos, por exemplo, deixavam este mundo na flor da idade, ceifados pela sífilis ou pela tuberculose, mas as suas obras pareciam consumadas. Eram o melhor que eles poderiam fazer.
27.2.23
As possibilidades de passatempo, divertimento e serviços antiestresse surgiram para uma geração sem preparo suficiente em entender a fr...
Espírito nobre e gentil
As possibilidades de passatempo, divertimento e serviços antiestresse surgiram para uma geração sem preparo suficiente em entender a fria em que podem estar se metendo.
Nossos jovens, recém saídos da criancice, descobriram como se deleitar com um pouco de droga auditiva. A chamada
I-doser, que é apenas um programa de computador, é febre entre os adolescentes vidrados na ‘internet’ das coisas. Ele existe no mercado há muitos anos, e supostamente produz “doses” de ondas sonoras
27.2.23
Nós, filhos adotivos da Paraíba, costumamos olhar essa nossa terrinha com olhos mais generosos, diria ...
Aquele por do Sol
Nós, filhos adotivos da Paraíba, costumamos olhar essa nossa terrinha com olhos mais generosos, diria com mais ternura, do que os aqui nascidos. Acho natural! Os descendentes biológicos, habituados à cultura e aos atrativos locais, veem com mais naturalidade aquilo que julgamos ser extraordinário.
27.2.23
Descansou finalmente o pensador. O escritor. O acadêmico. O gestor público. Descansou, como se costuma dizer aqui no Nordeste, após lon...
Professor Jackson, um grande paraibano
Descansou finalmente o pensador. O escritor. O acadêmico. O gestor público. Descansou, como se costuma dizer aqui no Nordeste, após longa enfermidade, o professor José Jackson Carneiro de Carvalho, ex-reitor da Universidade Federal das Paraíba, ex-secretário de Estado da Educação e ex muitas outras coisas relevantes na cena paraibana. Sua partida, aos 82 anos, se não foi surpresa, dado o seu delicado estado de saúde, causou comoção entre os familiares e amigos, face a imensa lacuna que ele deixa entre os que o conheceram e admiraram.
26.2.23
“Nós dançamos para rir, dançamos para chorar, dançamos por loucura, dançamos por medo, dançamos por esperança, dançamos para gritar, ...
Nós, os que criamos sonhos
“Nós dançamos para rir, dançamos para chorar, dançamos por loucura, dançamos por medo, dançamos por esperança, dançamos para gritar, nós somos os dançarinos, nós criamos os sonhos.”
Frase atribuída a Albert Einstein, que também era dançarino (aqui e entre as estrelas)
26.2.23
Durante minha última estada em Ouro Preto, recebi das mãos do escritor e historiador José Efigênio Pinto Coelho um presente valioso par...
A imagem de Tiradentes
Durante minha última estada em Ouro Preto, recebi das mãos do escritor e historiador José Efigênio Pinto Coelho um presente valioso para quem, como eu, gosta de enveredar por trilhas paralelas às da história oficial. Muitas vezes, na pescaria histórica, os estudiosos lançam a rede e, no arrastão, descobrem muito mais do que o que era procurado. Foi o que aconteceu com meu amigo Zé Efigênio, grande pesquisador, historiador, restaurador, artista plástico e expert na obra de Aleijadinho.
26.2.23
Indicam-me a farmácia de manipulação “que fica defronte do jornal O Norte”. Como gostei, como me senti agradado! Reparei na menina, n...
Seu Zé
Indicam-me a farmácia de manipulação “que fica defronte do jornal O Norte”. Como gostei, como me senti agradado!
Reparei na menina, não a vi com idade para fazer de um jornal fechado há quatorze anos um ponto de referência. Menina, recepcionista, se muito nos seus 20 aninhos.
E lá me vou, a memória se encarregando de povoar as casas hoje fechadas ou transtornadas da velha Pedro II.
26.2.23
Um pouco mais de tempo e João Pessoa chegará a tal patamar de população, inevitavelmente. Mesmo as projeções mais pessimistas indicam ...
João Pessoa: a metrópole no limiar do 1.000.000 de habitantes
Um pouco mais de tempo e João Pessoa chegará a tal patamar de população, inevitavelmente. Mesmo as projeções mais pessimistas indicam que isto poderá ocorrer até 2030.
— O que esta dimensão representa? — Um alerta! — Uma luz amarela que se acende para lembrar que é hora de voltar olhares para prospecções em torno das dificuldades e necessidades que esta “vecchia signora”, hoje transformada, expandida e conurbada (com Cabedelo, Santa Rita, Bayeux e Conde) deverá enfrentar no seu porvir, dado que juntas já formam aglomerado urbano único.
25.2.23
A noite na beira do mar É outra noite A noite na beira do mar Tem sinfonia de ondas E quando tem luar Estrada de luz Q...
Sereno, ligo a luz da lua sobre o mar
A noite na beira do mar
É outra noite
A noite na beira do mar
Tem sinfonia de ondas
E quando tem luar
Estrada de luz
Quando é breu na noite
A beira do mar tem estrelas
E Deuses a bailar
Sobre águas e areias
A noite
Uma fogueira
Luz distante
Saudades
Faróis
25.2.23
Já era tarde muito tarde, eu estava cansado e confuso com o ocorrido e não esperava por aquilo. Aliás não esperava que nada viesse à t...
A vida em perspectiva
Já era tarde muito tarde, eu estava cansado e confuso com o ocorrido e não esperava por aquilo. Aliás não esperava que nada viesse à tona com tanta relevância. Mas não quero lembrar, se possível nunca mais.
25.2.23
A Arturo Gouveia e Pierre Menard, às suas maneiras, autores do Quixote Epigrama I De como extraí um epigrama do D. Quixote (Capít...
Epigramas ao Quixote
A Arturo Gouveia e Pierre Menard, às suas maneiras, autores do Quixote
Epigrama I
De como extraí um epigrama do D. Quixote
(Capítulo XLV da quarta parte do Livro I)
D. Quixote começou grande caos na estalagem,
envolvendo todo o mundo, gente nobre e criadagem:
quadrilheiros da Irmandade e o senhor estalajadeiro,
Sancha Pança e o padre, um barbeiro e outro barbeiro;
D. Fernando e Cardênio, D. Luiz apaixonado,
filha e mãe estalajadeiras, o Ouvidor interessado;
Maritornes e as donzelas de beleza sem igual:
Doroteia e Zoraida e Lucinda angelical.
Ajudava a Irmandade o senhor estalajadeiro,
24.2.23
Ontem te vi partir fechado como um livro esquecido na estante queria teu olhar por mais alguns instantes mas só vi indif...
Segredos de Teseu
Ontem te vi partir
fechado como um livro
esquecido na estante
queria teu olhar
por mais alguns instantes
mas só vi indiferença qual espora.
Esperava que no livro
eu leria mil histórias
de amores, desamores
dissabores esperança
renúncia, belas conquistas
de teu passado memória...
24.2.23
Eu estava saindo do Bompreço da avenida João Machado. Dirigia-me ao caixa quando fui surpreendido por uma mendiga magérrima com...
Não basta um bom coração
Eu estava saindo do Bompreço da avenida João Machado. Dirigia-me ao caixa quando fui surpreendido por uma mendiga magérrima com uma sandália na mão perseguindo e espancando duas crianças raquíticas, minúsculas, que haviam entrado correndo no supermercado fugindo dela. Não teriam mais de 5 anos de idade. Uma das crianças deixava uma linha de xixi à medida que levava chineladas.
24.2.23
Percebo as imagens através da taça de vinho que revela muitos dizeres e pensares e olhares. Que traz à vida a ladeira que ficou um tem...
Sensações olindenses
Percebo as imagens através da taça de vinho que revela muitos dizeres e pensares e olhares. Que traz à vida a ladeira que ficou um tempo parada, nunca esquecida e que do vazio reviveu através das fantasias e antigas e eternas alegrias. Feito o beijo esquecido e desconhecido pelos becos e esquinas em todos os cantos, nos Quatro Cantos. E quando a festa acaba ficam pelo chão as lembranças das serpentinas e confetes, dos pés de muitas cores e dores, das latinhas esvaziadas e recolhidas para garantir o pão de alguém que vive em outra badalada vida.
24.2.23
Escapei no domingo quando o sol no ponto mais baixo do horizonte, metade da cara fora do mar, mal espreitava o mundo. Onde estacionei, ...
Presença de Odilon
Escapei no domingo quando o sol no ponto mais baixo do horizonte, metade da cara fora do mar, mal espreitava o mundo. Onde estacionei, à beira do calçadão, ele pouco via, além de mim, numa Manaíra deserta.
Ali, naquele instante, a movimentação maior provinha das folhas dos coqueiros sopradas por ventos tão indecisos quanto eu e, quem sabe, quanto os ocupantes dos três carros que por mim passaram em marcha lenta, um após outro, em intervalos de poucos minutos. Apesar de saber de obrigações e compromissos em qualquer horário,
23.2.23
Agora chegando. As sombras da tarde mergulhando para baixo do carro, mas no momento da colisão subindo para lamber o para-lama e toda ...
Chegando
Agora chegando. As sombras da tarde mergulhando para baixo do carro, mas no momento da colisão subindo para lamber o para-lama e toda borda, dando a ilusão de que se atropela a silhueta estirada da fileira de casas, silhueta não exatamente reta, na margem direita, mas logo depois se percebe os frontões projetados até um ponto em que se afastam do carro, recuados e parcialmente indistintos, antes de sumir da visão. Mas então, depois, como que voltando. Freiar. Sempre esquecendo de tomar o remédio.
23.2.23
Tem dias que parecem nunca acabar. São dias melancólicos e sem brilho. Quando acontece, fico até pensando se é o tempo, ou sou eu que e...
Vamos cuidar do que nos resta!
Tem dias que parecem nunca acabar. São dias melancólicos e sem brilho. Quando acontece, fico até pensando se é o tempo, ou sou eu que estou nublada. Pois é, às vezes me sinto assim, com vontade de hibernar, mas nem fera sou mais, acalmei as vontades, guardei as garras e a raiva, nublei à espera da chuva suave que não vem para alegrar meu coração.
Dia nublado é como a incerteza, não ajuda. Uma espera sem esperança, quieta. É insosso como arroz sem sal. No sertão, em dia nublado, as nuvens passam altas e pesadas, levando a chuva para longe.
23.2.23
Em 23 de fevereiro de 1973, com essa cara da foto, pus os pés pela primeira vez numa sala de redação, para trabalhar. Colaborações em ó...
Pela estrada afora
Em 23 de fevereiro de 1973, com essa cara da foto, pus os pés pela primeira vez numa sala de redação, para trabalhar. Colaborações em órgãos de Imprensa, desde o final dos anos de 60, talvez tenham chamado a atenção do secretário extraordinário de Comunicação Noaldo Dantas, amigo de um tio meu e que me convidou, numa de suas idas ao Cartório Souto, ali na Praça 1817, para trabalhar na redação da Secretaria de Divulgação e Turismo, atual SECOM.
22.2.23
Fosse "RESSURREIÇÃO - 101 sonetos de amor", de Carlos Newton Júnior, lançado numa época inflacionada pelas experimentações van...
Ressurreição - 101 sonetos de amor
Fosse "RESSURREIÇÃO - 101 sonetos de amor", de Carlos Newton Júnior, lançado numa época inflacionada pelas experimentações vanguardistas, certamente seria execrado pelos que se propunham à invenção a todo custo, Por quê? Simplesmente por se tratar de um livro que celebra o soneto, gênero poético posto em disponibilidade pelos modernistas, revitalizado pela Geração de 45 e, posteriormente, desprezado pelo concretismo e seus desdobramentos.
22.2.23
Vocês já viram bichos-de-ruma se deslocando de um lugar pra outro? É uma visão que intriga a gente. Eles vão se arrastando um por cima ...
Liberdade e autonomia
Vocês já viram bichos-de-ruma se deslocando de um lugar pra outro? É uma visão que intriga a gente. Eles vão se arrastando um por cima do outro, formando um bolo esquisito.
22.2.23
A existência humana, geralmente, é constituída de tragédias que geram a perda da sensibilidade, da intuição e do desaparecimento dos re...
Educação estética e sua dignidade social
A existência humana, geralmente, é constituída de tragédias que geram a perda da sensibilidade, da intuição e do desaparecimento dos referenciais quanto à dignidade. Diante disso, um dos desafios é priorizar a beleza de viver a partir da reconstrução dos afetos e conciliá-los às expressões de liberdade ao próprio pertencimento, a fim de tornar o comportamento humano uma manifestação estética, isto é, uma beleza moral.
21.2.23
Quando me perguntaram qual a sensação de entrar para o seleto grupo da Academia, respirei silencioso e deixei que o espírito falasse po...
Academia de Letras
Quando me perguntaram qual a sensação de entrar para o seleto grupo da Academia, respirei silencioso e deixei que o espírito falasse por mim.
Devo ter respondido que uma Academia é aquilo que cada um deseja que seja: iluminada pelas luzes dos mais diversos saberes, desde o estudo das antigas línguas e costumes, até a moderna linguagem da informática e de todas as possibilidades científicas.
21.2.23
Naquele último dia de carnaval, em Lisboa, constatávamos novamente o clima de melancolia que se percebe em algumas cidades da Europa em...
Era somente delas o último dia de carnaval
Naquele último dia de carnaval, em Lisboa, constatávamos novamente o clima de melancolia que se percebe em algumas cidades da Europa em que se festeja o reinado de Momo. Um pouco diferente do nosso Brasil, onde a euforia desmedida por vezes impera. Entretanto, ali observava-se, no ar conquanto nostálgico, um certo toque de poesia.
21.2.23
Festa do pecado” – foi com esse tipo de rótulo que o Carnaval, desde cedo, apresentou-se à minha imaginação. Falava-se nele como “fe...
Carnaval e solidão
Festa do pecado” – foi com esse tipo de rótulo que o Carnaval, desde cedo, apresentou-se à minha imaginação. Falava-se nele como “festa da carne”, alegria dos baixos instintos, frenesi do demo. Por isso eu sempre o recebi com uma ponta de remorso. Brincar o carnaval era transgredir não sei que piedosas regras, era comprometer-se com o inferno. O corpo gozava, mas esse prazer de poucos e efêmeros dias acabava tendo um preço.
20.2.23
Antes da pandemia, o home office era uma realidade em algumas empresas, e com a Covid-19, esse modelo se tornou necessário para muitos ...
Existência apática e desprotegida
Antes da pandemia, o home office era uma realidade em algumas empresas, e com a Covid-19, esse modelo se tornou necessário para muitos continuarem existindo.
Dois anos após os primeiros
lockdowns no Brasil, o trabalho remoto se mostrou muito bem aceito pelos trabalhadores. Uma pesquisa realizada pela Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo, e pela Fundação Instituto de Administração, mostrou que a intenção dos brasileiros de permanecerem trabalhando em casa só cresce – ao mesmo tempo em que relatam
20.2.23
De como meu avô deu um tiro de garrucha no presidente Arthur Bernardes No quesito dinheiro, meu avô,...
O tiro da garrucha
De como meu avô deu um tiro de garrucha
no presidente Arthur Bernardes
No quesito dinheiro, meu avô, o Vico da Matta, era um homem previdente e controlado. Poupava hoje para se garantir nas incertezas do amanhã. Acreditávamos que era meio pão-duro. Não era. Previdente seria o adjetivo mais adequado. Tinha um cuidado danado com o seu dinheiro. Para se ter uma ideia do trato mimoso com aquelas cédulas, não gostava que olhassem o conteúdo de sua carteira e quando precisava abri-la diante de alguém, usava de suas artimanhas para que o interlocutor não olhasse o conteúdo daquela capanga de couro.
20.2.23
Outro dia assistia ao premiadíssimo filme Argo, de Ben Affleck. O diretor me parece supervalorizado entre seus pares, ao passo que a pe...
'Dance the night away', o ocaso de um gigante
Outro dia assistia ao premiadíssimo filme Argo, de Ben Affleck. O diretor me parece supervalorizado entre seus pares, ao passo que a película é um tanto inferior aos comentários grandiloquentes que recebeu. Mas o fato é que uma das cenas do longa retrata uma festinha de bastidores do cinema, na típica Califórnia dos anos setenta. Ao fundo, como trilha musical, Dance the Night Away, que fez que com eu retirasse do limbo uma banda que há muito não ouvia: o quarteto californiano de hard rock Van Halen.
20.2.23
O escritor Clemente Rosas entregou recentemente ao público seu mais recente livro, belamente intitulado de Sonata de Outono , Editora ...
A sonata outonal de Clemente Rosas
O escritor Clemente Rosas entregou recentemente ao público seu mais recente livro, belamente intitulado de Sonata de Outono, Editora Sal da Terra, João Pessoa, 2022, com capa igualmente bela de Raul Córdula. Um volume bom de se ver e mais ainda de se ler, pois nele estão reunidos saborosos perfis, “causos”, memórias, crônicas, artigos e ensaios, tudo lastreado pela longa experiência existencial do autor e por uma escrita à altura do homem de letras que ele sempre foi.
19.2.23
Em cidades da Europa os bondes percorrem paços e ruas estreitas. Não trazem transtornos ao trânsito, seguem vagarosos sobre a rota dos t...
Fora dos trilhos
Em cidades da Europa os bondes percorrem paços e ruas estreitas. Não trazem transtornos ao trânsito, seguem vagarosos sobre a rota dos trilhos. Não há competição, conforme me disseram, entre os automotores e os românticos meios de transporte serenos e ruidosos, sempre apreciados e cheios de passageiros.
19.2.23
Não devo ter sentido diferente de minha cronista predileta ao ver a Turquia desabar inteira, não sobre seus irmãos vizinhos, por ambiçã...
Tragédias visíveis e invisíveis
Não devo ter sentido diferente de minha cronista predileta ao ver a Turquia desabar inteira, não sobre seus irmãos vizinhos, por ambição eslava de riqueza e poder, mas sobre suas próprias carnes e suas próprias almas, como se o céu e a terra se conjugassem contra sua milenar existência.
18.2.23
Em crônica de 1942, José Lins do Rego descreve os aperreios de famílias nordestinas castigadas pela seca que, mendigando pelas estrada...
Cangaceiros informatizados
Em crônica de 1942, José Lins do Rego descreve os aperreios de famílias nordestinas castigadas pela seca que, mendigando pelas estradas, buscavam o sustento que lhes garantissem sobreviver.
18.2.23
O Budismo prega o desapego como antídoto para o sofrimento. O desapego material, mas até mesmo não guardar sentimentos e emoções. Emb...
Desapego e sofrimento
O Budismo prega o desapego como antídoto para o sofrimento. O desapego material, mas até mesmo não guardar sentimentos e emoções.
Embora estude o Budismo e admire sua doutrina, essa parte do seu dharma é bem difícil de praticar, principalmente em relação a sentimentos. Como dizia o Legião Urbana, “sou um animal sentimental; me apego facilmente ao que desperta o meu desejo “.
18.2.23
Na imensa obra de Honoré de Balzac, A Comédia Humana , título emulado de A Divina Comédia de Dante Alighieri, encontramos algumas peq...
Há mais Grassou do que Lantier ou da aflição pelo reconhecimento
Na imensa obra de Honoré de Balzac, A Comédia Humana, título emulado de A Divina Comédia de Dante Alighieri, encontramos algumas pequenas pérolas que passam, muitas vezes, despercebidas pelos seus leitores ou são menos votadas, diante do sucesso de Le Père Goriot, La Femme de trente ans, Les illusions perdues, Eugénie Grandet, La peau de Chagrin, entre outros. É o caso do conto Pierre Grassou, publicado em 1839, integrando a série Cenas da Vida Parisiense.
17.2.23
DAS TEREZINHAS DE JESUS Alguns chegaram, pouco demoraram e se foram. Outros, esperados, nem vieram e deixaram o gosto ...
Das Terezinhas de Jesus
DAS TEREZINHAS DE JESUS
Alguns
chegaram,
pouco
demoraram
e se foram.
Outros,
esperados,
nem vieram
e deixaram
o gosto
salgado
do que
poderia
ter sido.
17.2.23
Bom dia, meu neto querido. Gostei de ver você respeitando o que ensinei, principalmente aquela máxima de que quando estiver numa reu...
De manoelpires@céu para marcos@piresbezerra.com.br
Bom dia, meu neto querido. Gostei de ver você respeitando o que ensinei, principalmente aquela máxima de que quando estiver numa reunião com mais de cinco pessoas e não achar um idiota ao redor da mesa pode ir embora porque o idiota é você. Hoje quero tratar de outro ensinamento meu, o de que todo dia saem de casa um besta e um sabido, e quando eles se encontram, fazem um negócio, já que é impossível haver negócio entre dois bestas ou dois sabidos. Alguém sempre tem que perder. Portanto, ao sair de casa certifique-se de encontrar alguém mais besta de que você.
17.2.23
A fila era de não acreditar de grande. Quilômetros! E lenta. Mas a vontade de luz era maior do que o brilho do Sol que esquentava a igu...
Amor e mediunidade
A fila era de não acreditar de grande. Quilômetros! E lenta. Mas a vontade de luz era maior do que o brilho do Sol que esquentava a igualmente longa espera.
Vinham de uma experiência terrível, ocorrida há pouco. O segundo filho, o do meio, de apenas dois anos, havia se afogado acidentalmente na piscina. Por algum rápido descuido, os motivos permaneceram ignorados. Ninguém sabia como, nem porque aquela tragédia aconteceu de maneira tão gratuita e banal.
17.2.23
Não há quem tire da cabeça de Aristides que eles estão por aqui há milênios. Que desde os tempos bíblicos pilotam naves silenciosas em...
O disco de Rachel
Não há quem tire da cabeça de Aristides que eles estão por aqui há milênios. Que desde os tempos bíblicos pilotam naves silenciosas em velocidade absurda e com manobras que desafiam a ciência humana. Que estas desaparecem e ressurgem, num átimo, em pontos diferentes. Que fazem curvas de 90 graus sem redução da marcha e sem a desintegração de peças e pilotos, coisa inimaginável por quem entenda de inércia e gravidade. Enfim, que ignoram, pura e simplesmente, as leis da física tal como as conhecemos.
16.2.23
O tempo é algo muito poderoso! Não adianta imãs, colas, pregadores de roupas, grampos... nada disso é capaz de segurar o tempo em que a...
Que venha um novo tempo!
O tempo é algo muito poderoso! Não adianta imãs, colas, pregadores de roupas, grampos... nada disso é capaz de segurar o tempo em que a gente tem paz, serenidade, harmonia e torce que dure pra sempre.
Também não adianta correr, rezar por um vento forte que carregue o tempo ruim, de dor e desmantelo...
16.2.23
Um bem-te-vi equilibrado na fiação canta descontraidamente exibindo sua camiseta cuja frente é amarela. Em seguida, voa p...
Voo livre
Um bem-te-vi equilibrado na fiação canta descontraidamente exibindo sua camiseta cuja frente é amarela. Em seguida, voa para um galho próximo e depois para o próprio ninho não muito longe dali. Caso queira, poderá prosseguir no voo ou buscar alimento na grama da praça, nos galhos das árvores. A pequena ave exibe a essência do que é liberdade. É como a mão do escritor passeando pela folha em branco, preenchendo com a tinta espaços antes desertos, que se tornam oásis, viram florestas de significados em frases, textos, tratados. A liberdade do escriba é dimensionalmente idêntica a do leitor, do ser que consegue enxergar sentido na união das letras, que possui o poder de interpretação. É mais um voo livre.
16.2.23
Do viver em carnaval de tempo e espaços no meio do tempo o espaço explicita o quanto de nós habita a vida e esse dese...
O frevo é uma lembrança nos asfaltos em que silencia
Do viver em carnaval de tempo e espaços
no meio do tempo
o espaço explicita
o quanto de nós
habita a vida
e esse desejo
de vê-los infindos
é como criar um depois
dos metros vividos
e a espacial unidade
como um futuro
grita dentro de nós
o carnaval de tudo
viver é só espalhar-se
16.2.23
Parado ante o sinal vermelho, na Epitácio, mão direita na direção, olho para o antebraço esquerdo, à luz crua do sol, e vejo a pele c...
Saí da loja me sentindo outro
Parado ante o sinal vermelho, na Epitácio, mão direita na direção, olho para o antebraço esquerdo, à luz crua do sol, e vejo a pele como um pergaminho, papiro fracionado de rugas! E a mão? Manchas que o povo chama de “flores do cemitério”.
O sinal abre, boto o carro em primeira e me lembro de que em 2015, às vésperas da viagem a Paris com Ione, para comemorarmos nossas bodas de ouro, o médico me disse que providenciasse algo a respeito de uma hérnia que acabara de descobrir em mim. “Isso pode estrangular a qualquer momento e você pode morrer por lá” .Outro médico: “Hérnia?! Isso é um músculo que se deformou com a idade.
15.2.23
SAUDADE Poetas versejam ela, doce tema recorrente; tá no coração da gente, protegida em cidadela. Não tem como escapar d...
Do sertão que mora em mim
SAUDADE
Poetas versejam ela,
doce tema recorrente;
tá no coração da gente,
protegida em cidadela.
Não tem como escapar dela,
já tentei e não tem jeito;
é posseira no meu leito,
é poesia que medita:
‘Saudade é coisa que habita,
Silente dentro do peito.’
15.2.23
Em conversa familiar, discutíamos acerca da noção de infinito, como seria possível apreendermos o seu sentido empiricamente, uma vez ...
Mito e tradição emoldurados no fazer poético literário
Em conversa familiar, discutíamos acerca da noção de infinito, como seria possível apreendermos o seu sentido empiricamente, uma vez que estamos circunscritos a percepções finitas? Veio-me à mente, então, em uma tentativa de aproximação, o caminho que percorremos na aquisição do saber, o qual nos leva sempre a novos caminhos, a novas descobertas, em um movimento contínuo e infindável que relativiza o conhecimento já adquirido. Tal movimento faz-nos perceber quão pouco sabemos, à medida que avançamos nessa viagem maravilhosa e espantosa. O difundido preceito atribuído a Sócrates, “só sei que nada sei”, reverbera esta sensação, a de que quanto mais estudamos, mais temos a aprender, novos mundos se abrem, emulando-nos, convidando-nos a continuar a seguir rumo a novas paragens, sempre com um gostinho de ‘quero mais’.
15.2.23
Todas as tardes – na chamada golden hour , aquele instante antes do pôr do sol quando tudo está imerso em dourada luz e o mundo parece ...
Auroras e poentes
Todas as tardes – na chamada golden hour, aquele instante antes do pôr do sol quando tudo está imerso em dourada luz e o mundo parece parar por alguns instantes para mergulhar em silêncio – costumo refletir sobre as perdas e ganhos da minha vida. Prática semelhante à que fazemos quando o ano novo se aproxima e nos dedicamos a contabilizar os acontecimentos dos últimos doze meses. A minha reflexão, entretanto, é diária, pois as interrogações estão sempre em minha mente. Quanto tempo ainda me resta? O que o amanhã me reserva? Não conto com qualquer certeza do futuro, embora faça alguns poucos planos. O momento presente é o que tenho.
14.2.23
Andrezinho era um sujeito namorador. Bem ajeitado, bonito até, diríamos. Família de classe média que o provia do ne...
O bule de chá
Andrezinho era um sujeito namorador. Bem ajeitado, bonito até, diríamos. Família de classe média que o provia do necessário, nos limites do que chamamos de uma vida com dignidade. Nada lhe faltava, nada lhe sobrava. Tinha ele 17 anos quando se deu o ocorrido.
14.2.23
MANUAL DA ARQUITETURA DO VAZIO “ Os quartos por onde eu deito são pedaços de parede ” (Roberto Almada) Divida a casa por circuns...
A simplicidade do sótão disfarçando a imensidão
MANUAL DA ARQUITETURA DO VAZIO
“Os quartos por onde eu deito
são pedaços de parede”
(Roberto Almada)
Divida a casa por circunstâncias
(o que fica na mobília são lembranças)
o canto é o lugar secreto,
ouvinte paciente, discreto
já as paredes, labirinto,
não duvide, segue ouvindo
cada greta guarda um nome
uma reticência e a fome
os grandes segredos morrem
quando as memórias escorrem
mágoas no porta-retrato,
amargas como o passado
nos canos, todo o defeito,
enganos, crimes desfeitos
o som percorrendo tudo
de uma ponta a outra, absurdo
14.2.23
O bom do Carnaval é que a gente não precisa se esforçar para vivê-lo. Ninguém tem que fazer um cronograma para desfrutar s...
Folia e medo
O bom do Carnaval é que a gente não precisa se esforçar para vivê-lo. Ninguém tem que fazer um cronograma para desfrutar seus deliciosos efeitos. Ele é por princípio a ausência de planos e esquemas; existe para nos tirar das estratégias racionalizantes com que atuamos no mundo.
13.2.23
O visto humanitário serve para facilitar o ingresso e a regularização migratória de pessoas advindas de qualquer país em situação grave...
A ambiguidade é a concretude dos opostos
O visto humanitário serve para facilitar o ingresso e a regularização migratória de pessoas advindas de qualquer país em situação grave, ou iminente instabilidade institucional, ou, ainda que esteja passando por um conflito armado. Inclui também as situações de calamidade com grandes proporções, desastre ambiental ou violação dos direitos humanos.