O amuleto mal-assombrado adquirido em um antiquário, numa viagem de turismo, objeto de um filme que não lembro exatamente qual, nos vei...

A paz de um velho sebo

sebo livro antigo lisboa rameau germano romero
O amuleto mal-assombrado adquirido em um antiquário, numa viagem de turismo, objeto de um filme que não lembro exatamente qual, nos veio à lembrança ao iniciar a leitura de um livro comprado em um velho sebo de Lisboa. Um sebo delicioso, diga-se de passagem, daqueles que até o cheiro é bom.

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Esses templos de alfarrábios têm uma magia especial, uma aura de mistérios calados, lembranças mofadas, mas que nunca se vão de verdade. Apenas se empoeiram de tempo. O que me refiro era um sebo fino, bem tratado. Um motete “à capela” soava baixinho e completava a aconchegante ambiência. Sentado logo após a entrada, o dono (quase sempre sisudos), rodeado de pilhas bem arrumadas, nos deu um grave boa-noite, solenemente contraposto ao pedal do motete. Sua figura tecia a simbiose perfeita em harmonia com o cenário...

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A iluminação meio amarelada, discreta mas profusa, saía indiretamente por trás de sancas do teto, de prateleiras e iluminava com cautela os raros títulos expostos também em mesas, no centro das pequenas “aléias”, com cheiro de pensamentos e história viva, que delícia!

O silêncio aveludado pela suave sonoridade polifônica barroca se fazia ainda mais profundo. O que nos obrigava a nos movimentar com cuidado, como se estivéssemos numa loja de cristais. Aquele cuidado reverencial com que costumamos visitar lentamente uma igreja gótica, onde há pessoas orando, em penitência, uma missa ao som de órgão, ou apenas o silêncio de velas e promessas.

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Eis que me salta à vista o título “Cartas de Grandes Músicos”. Parei, fitei-o, e com lúdico carinho levantei-o entre as mãos... Que achado! Nas poucas páginas folheadas, uma carta de Rameau a solicitar verbas para a encenação de sua ópera “Dardanus”, escrita na Paris do século dezoito, linda quanto sempre, foi decisiva para fechá-lo e decidir: vou levá-lo!

Ainda veio a vontade de esticar mais os olhos por aquelas preciosidades, mas as “Cartas” já me eram suficientes. Hoje leio tão pouco quanto
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Fotografia: ALCR
pouco é o tempo que me sobra de outros afazeres, inclusive a arquitetura e a edição deste site, que fazemos com prazeroso esmero. Cotidianamente, a leitura digital tem me atraído mais pela facilidade e prontidão com que me cerca no doce lar. E o que resta de livros impressos não me satisfaz como devia.

Mas as “Cartas dos Grandes Músicos” trouxeram as lembranças do piano, dos corredores do Departamento de Música da UFPB, da imaginação sobre os tempos em que Chopin caminhava com George Sand, Victor Hugo, Balzac, Stendhal, Delacroix e Liszt pelas ruas dos idos românticos de uma Paris que cheirava a Belle Époque. Assim vieram bem guardadas na mala, direto para a cabeceira.

Ontem à noite, já recolhido na cama, eis que tais lembranças em silêncio sussurraram e me levaram às velhas “Cartas”. Abri-as com ternura e senti a mesma paz do velho sebo de Lisboa... Rameau descrevia “Dardanus”... O retrospecto de sua dramática orquestração, da atmosfera onírica, mítica e teatral, me fez imaginar por quantos olhos, em aconchegantes noites como esta, passaram tais páginas amareladas. E quantas emoções podem se soltar ao se abrir um livro velho...

Suíte com excertos instrumentais da ópera Dardanus, de Jean-Philippe Rameau, "tragédie lyrique", típica do barroco francês, estreada em 1739, no Palais-Royal da Académie Royale de Musique, em Paris.

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