O amuleto mal-assombrado adquirido em um antiquário, numa viagem de turismo, objeto de um filme que não lembro exatamente qual, nos veio à lembrança ao iniciar a leitura de um livro comprado em um velho sebo de Lisboa. Um sebo delicioso, diga-se de passagem, daqueles que até o cheiro é bom.
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O silêncio aveludado pela suave sonoridade polifônica barroca se fazia ainda mais profundo. O que nos obrigava a nos movimentar com cuidado, como se estivéssemos numa loja de cristais. Aquele cuidado reverencial com que costumamos visitar lentamente uma igreja gótica, onde há pessoas orando, em penitência, uma missa ao som de órgão, ou apenas o silêncio de velas e promessas.
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Ainda veio a vontade de esticar mais os olhos por aquelas preciosidades, mas as “Cartas” já me eram suficientes. Hoje leio tão pouco quanto
Fotografia: ALCR
Mas as “Cartas dos Grandes Músicos” trouxeram as lembranças do piano, dos corredores do Departamento de Música da UFPB, da imaginação sobre os tempos em que Chopin caminhava com George Sand, Victor Hugo, Balzac, Stendhal, Delacroix e Liszt pelas ruas dos idos românticos de uma Paris que cheirava a Belle Époque. Assim vieram bem guardadas na mala, direto para a cabeceira.
Ontem à noite, já recolhido na cama, eis que tais lembranças em silêncio sussurraram e me levaram às velhas “Cartas”. Abri-as com ternura e senti a mesma paz do velho sebo de Lisboa... Rameau descrevia “Dardanus”... O retrospecto de sua dramática orquestração, da atmosfera onírica, mítica e teatral, me fez imaginar por quantos olhos, em aconchegantes noites como esta, passaram tais páginas amareladas. E quantas emoções podem se soltar ao se abrir um livro velho...
Suíte com excertos instrumentais da ópera Dardanus, de Jean-Philippe Rameau, "tragédie lyrique", típica do barroco francês, estreada em 1739, no Palais-Royal da Académie Royale de Musique, em Paris.










