Voltamos a Coimbra, Alcione e eu, depois de quase dois anos. Chegamos no sábado à noite e nos alojamos no Seminário Maior da Sagrada Família, onde, entre dezembro de 2023 e agosto de 2024, havíamos passado 8 meses. Chegamos no Sábado de Aleluia, embora não houvéssemos programado a viagem para que ela ocorresse na Semana Santa, tendo em vista que compramos as passagens com 4 meses de antecedência. A coincidência das datas tornou a nossa Páscoa diferente, mesmo que tenhamos passado essa significativa data cristã em Coimbra, no ano de 2024.
Voltamos para rever os amigos e os cantos dessa bela cidade quase milenar, em cujos muros, arcos, ladeiras e ruas tanta história se guarda. Coimbra do Arcos de São Sebastião ou Arcos do Jardim, numa referência ao belo Jardim Botânico que liga a cidade alta à cidade baixa; do Arco de Almedina e do Mondego, rio cujas águas foram enriquecidas e avolumadas com as das Musas, lamentando a morte de Inês de Castro, aquela que depois de morta foi rainha; pranto descido da famosa Quinta das Lágrimas (Os Lusíadas, Canto III, estrofe 135):
“As filhas do Mondego a morte escura
Longo tempo chorando memoraram,
E, por memória eterna, em fonte pura
As lágrimas choradas transformaram.
O nome lhe puseram, que inda dura,
Dos amores de Inês, que ali passaram.
Vede que fresca fonte rega as flores,
Que lágrimas são a água e o nome Amores!”
Voltamos também para o cumprimento de uma missão acadêmica de Alcione, na Universidade de Coimbra, vetusta e imponente Senhora, que nos olha do alto dos seus quase 800 anos, sob a mira do seu fundador, D. Dinis, o rei poeta.
Ao chegarmos ao Seminário, já nos esperava a nossa amiga Antónia, responsável pela nossa inesquecível Páscoa. Depois da efusão dos cumprimentos, marcamos para a manhã seguinte o almoço pascal, na casa de sua mãe, na “aldeia”, como ela costuma chamar.
Saímos no meio da manhã e fomos para Dornes, que pertence ao Município de Ferreira do Zêzere, por se situar à beira do rio do mesmo nome, onde se encontra a quinta de sua mãe, D. Isabel. Passeamos um pouco pela aldeia, à espera do horário da missa de Páscoa, marcada para o meio-dia, nessa cidade que se construiu praticamente em torno da torre de Dornes e do Santuário de Nossa Senhora do Pranto.
A torre de Dornes é uma atalaia dos templários, do século XVI, construída sobre bases romanas, que depois se transformou na torre sineira da igreja. Já o Santuário foi construído por Isabel, a rainha santa (1271-1336), esposa do rei D. Dinis (1261-1325). No século, XV, em 1453, construiu-se a Igreja de nossa Senhora do Pranto, cujo altar-mor é do século XIV, além de contar com um órgão de tubos, em perfeito funcionamento.
Foi nesse ambiente secular que assistimos à missa da Páscoa, ministrada por um típico pároco de aldeia, com direito à pregação no púlpito. Missa cantada, acompanhada pelo organista, com algumas pitadas de latim, aqui e acolá, que me colocou no contexto da Igreja tradicional do meu tempo de menino.
Dali, saímos para quinta de D. Isabel, que nos esperava com um lauto almoço, cheio de alegria, com uma recepção calorosa, ao qual não faltaram o vinho e o azeite, ambos produzidos na quinta, com os frutos ali cultivados, pelo avô, Sr. Nuno, um robusto senhor de 95 anos, que não dispensou o seu bom copo de vinho, e depois, com muita satisfação, nos levou a conhecer a sua adega e a “casa do azeite”, revelando no brilho dos olhos o orgulho de sua produção, apesar de lamentar as dificuldades por que passam os agricultores, naquele momento.
O almoço da Páscoa não poderia ter sido melhor. Farta, boa e saudável comida – salada com legumes e verduras da horta, canja de galinha da própria capoeira, lombinho de leitão e bisteca de vaca grelhados –, acompanhada de uma boa conversa e de um bom vinho, que não só alegra o coração, como diz o ditado latino, mas solta a língua e nos faz mais íntimos, quando bebido com a devida moderação. Sentimo-nos em casa. Era como se conhecêssemos o Sr. Nuno e D. Isabel há muito tempo. Lembrei-me muito dos almoços em família, no tempo em que meus pais eram vivos; das conversas do meu pai, “Seu” Milton, e da excelente comida da minha mãe, Dona Zezé.
Além da familiaridade, vi-me contemplado com o ambiente histórico em que me encontrava, com a tradição que ali era vivamente preservada, com a harmonia da pequena aldeia enladeirada, com ruas estreitas, mas extremamente organizada. Pensei no quanto nós brasileiros ainda temos que aprender sobre a preservação da nossa história, das nossas tradições e dos nossos costumes. O quanto estamos distantes de uma pequena aldeia perdida ao Norte de Portugal, distanciada de Coimbra por uma estrada sinuosa, que me fez perder as referências; aldeia que passou, recentemente, por uma grande catástrofe, quando uma forte tempestade derrubou pinheiros, eucaliptos, casas, postes de iluminação; inundações ocorreram, encostas desabaram, estradas foram obstruídas, pontes ruíram... Nada disso foi suficiente para, três meses depois, tudo ter uma aparência de normalidade.
Uma Páscoa diferente, sem dúvida, que se situou entre a alegria de almoço acolhedor e a tristeza de saber que estamos muito longe de resolver os problemas estruturais que nos assolam. Ainda não conseguimos fazer a passagem que poderia nos levar ao limiar da Terra da Promissão. Ao que parece, continuamos, ainda, numa terra fértil, mas presa a um espirito de deserto sáfaro.






