Os Ossos da Baleia, certamente “poemas fósseis” da imortal *Moby Dick*, referem-se à passagem para a insignificância do poeta, antes um grande cachalote branco luminoso que, no passado, derrotou o mal, encarnado pelos Ahabs da vida.
Esta baleia, matéria-prima de lendas, perdeu as carnes em sua escolha pela loucura da verdade e pela morte da feiúra. Mas cumpriu a maior missão de um ser, que é fazer-se literatura, tornar-se literatura. Manteve a memória da guerra na alma, esculpida em seu esqueleto que, visto de longe, parece com estrofes de versos ricamente melódicos e ritmados, tendo ao fundo belíssimas metáforas e imagens.
Seus ossos, contudo, passaram a fazer milagres, pois registram as batalhas enfrentadas pela descomunal baleia que um dia desejara apenas acompanhar o navio, embelezando a sua viagem com seus saltos e malabarismos poéticos. Mas, quando, sob a forma de um leitor, o vento sul bate, tira deles uma canção desiludida, amarga e pacífica, capaz de curas tão absolutas quanto as de relíquias de santos. Sua terra é “a ilusão da linguagem”, e o sonho é “matriz da realidade”.
O poeta enxerga o que há por meio da lente das palavras e monta visões diferentes do mundo que emanam da contradição delas. Pois todo ser é contraditório, se é humano. Se o sonho se torna melhor que viver, só o autismo, distanciando-o da realidade, lhe permite uma vida provisória, até surgir a liberdade por que anseia, possibilitando que um dia ele se chame ninguém: — “finalmente me chamarei ninguém” é o grito da pulsão de morte (Tánatos), que poucos ousam proferir, pois é um tabu social, ainda que exista em todos nós.
Jorge busca o que sabe ser um amor impossível, ainda que não seja exatamente só o que se devota à mulher amada. Ao amor tornado impossível pela morte, que destrói em suas idas e vindas como um bumerangue (“olhar de bumerangue”), ao desejo de vida (Eros) e de morte (Tánatos), ambos normais — a esse amor resta apenas a verdade da beleza, em que o poeta nasce ao despertar seu espírito (Os Ossos da Baleia, VII), em raios de luz que brilham, incomodando as pessoas. Até que elas se calam quando a luz se apaga após seu nascimento (“toda a luz se esfacelou”, VIII).
Sua “chegada do Verbo” remete a São João: “o Verbo se fez carne e habitou entre nós”. O verbo é a palavra que denota ação; o adjetivo, a cor; o substantivo, a forma. O poeta falou, mas a sabedoria de Deus é loucura aos ouvidos dos homens, e seu grito foi rechaçado. É que a civilização se funda na repressão, não na livre expressão.
Contudo, a repressão, necessária para o convívio e o crescimento social, é a morte da palavra; enquanto Verbo primordial genético, é a morte de Deus, é o começo do suicídio da alegria de viver. Parece que o corpo do poeta é a mente do ciborgue social a que ele foi condenado a ser, um morto-vivo, um zumbi poeta que vaga ansiando pelo “não estar”: esse não estar é o limbo, nem morto, nem vivo.
Por pouco que seja, o não estar é o último vestígio de seu ser poético, ao qual ele se prende como redenção do mundo e recordação de sua essência. E nem esteve nele, que, todavia, o tem mais do que aquilo que sempre foi — apesar de conferir maior valor ao não estar do que ao estar onde, de fato, se encontra. Mas — em um brilhante oxímoro barroco — é a partir do não estar que tenta reconstruir sua alma destruída, tal qual um paleontólogo reconstitui o dinossauro extinto, derivando-o de um osso situado em outra dimensão.
Só um grande poeta como Jorge Elias é capaz de fazer este milagre. Assim, sua obra se filia à ideia pós-moderna do poeta como um ser especial, anjo de luz que nasce para ser desprezado e padece do mal do século, de que só pode ser libertado pela morte, por um amor impossível ou pela própria ressurreição. Mas, de novo, lembremos que nem sempre foi assim.
Um dia (VII), quando seu espírito despertou, ele brilhou tanto que a ausência de luz das casas tornou mais evidente a sua aparição e, por isso, as pessoas o desprezaram, desviando o olhar do iluminismo e fugindo para o negror medieval da indiferença, do sexo, do individualismo e do egoísmo. Lembremos que o olhar sem temor do poeta fez calar as pessoas que fizeram objeções à sua inusitada presença.
Lembremos que Os Ossos da Baleia fazem milagres e que sua canção catártica guarda a luz purgadora que faz nascer os sonhos, a esperança, o amor, a beleza e a cura.






