Há pessoas que passam a vida inteira sonhando com uma casa diante do mar. Não é apenas um imóvel. É um pedaço particular de paraíso. Acordar ouvindo as ondas, abrir a janela e ver o horizonte dissolvendo as preocupações da alma. Há sonhos que não cabem numa escritura; cabem apenas no coração. E sempre fico feliz quando alguém consegue realizá-los.
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Comprou um enorme terreno numa praia belíssima. Dessas que parecem ter sido desenhadas por Deus num domingo inspirado. Quando visitou o local pela primeira vez, ficou encantado com o jardim do vizinho: coqueiros altos, palmeiras elegantes, tudo harmoniosamente disposto diante do mar, como se a própria natureza tivesse contratado um paisagista.
Pediu licença para fotografar. O vizinho, orgulhoso, explicou:
— O jardim é premiado. Foi capa de revista.
Meu amigo, fascinado, perguntou:
— Posso chamar o mesmo paisagista?
Podia. E chamou.
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Foi exatamente o que aconteceu.
A cobertura ficou espetacular. Vista permanente para o mar. Piscina. Varanda ampla. E, diante do prédio, o jardim majestoso: coqueiros adultos transplantados, palmeiras enormes, tudo cuidadosamente planejado para dar a sensação de que o edifício havia nascido abraçado pela paisagem.
Ele estava feliz. Talvez feliz até demais. Porque a felicidade costuma ignorar uma variável perigosa da vida humana: as pessoas.
Na primeira reunião de condomínio, entrou satisfeito, esperando elogios.
Recebeu uma pedrada logo na chegada. Um morador disse:
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Meu amigo estranhou:
— Que problema?
O homem respondeu, com a delicadeza de um trator:
— Tem que arrancar esse mato aí da frente.
— Que mato?
— Essas árvores. Esses coqueiros. Essas palmeiras. Isso está atrapalhando minha vista para o mar.
Meu amigo achou que fosse brincadeira. Não era. Outros moradores imediatamente apoiaram a “ideia”. Alguns nem tinham a vista prejudicada, mas aderiram ao espírito de manada com o entusiasmo típico de quem sente prazer em destruir aquilo que o outro construiu com carinho. Um deles ainda disparou:
— Para você é fácil. Você mora na cobertura. Nenhuma árvore tapa sua vista.
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Meu amigo tentou explicar que o jardim fazia parte do conceito arquitetônico do prédio. Que havia sido planejado. Que aquelas árvores tinham sido trazidas já adultas justamente para realçar a beleza natural do ambiente. Que aquilo valorizava o imóvel até mesmo comercialmente. Tudo inútil.
Quando a estupidez coletiva decide marchar, os argumentos costumam morrer atropelados. Os coqueiros foram cortados. As palmeiras foram derrubadas. O jardim virou paisagem de estacionamento.
Meses depois, reencontrei meu amigo. Estava amargo. Contou-me tudo com um desgosto quase infantil, como alguém que descobriu tarde demais que dinheiro nenhum protege contra a mediocridade humana. E terminou dizendo:
— Vendi o imóvel. Não consegui mais morar ali. Ainda tentei colocar umas palmeiras envasadas na minha cobertura, mas também implicaram.
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Talvez a burrice seja a incapacidade de perceber que certas coisas existem não apenas para servir utilitariamente, mas para embelezar a vida. A frase atribuída a Albert Einstein nunca me pareceu tão atual:
“Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana. Mas, em relação ao universo, ainda não tenho certeza.”
Meu amigo aprendeu outra coisa: há pessoas que ainda não sabem apreciar a beleza e, por isso, acabam desperdiçando jardins. A pressa e o egoísmo transformam tudo em posse, utilidade e vantagem, impedindo muitos de enxergar que a vida também precisa de encanto, sombra, poesia e silêncio. Nem tudo foi criado apenas para ser útil. Algumas coisas existem simplesmente para lembrar à alma que viver também é aprender a contemplar.











