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Como hoje é o Dia dos Mortos, segundo a tradição, não vejo outro assunto para uma crônica. Eu gostaria de usar, aqui, um eufemismo. E assi...

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Como hoje é o Dia dos Mortos, segundo a tradição, não vejo outro assunto para uma crônica. Eu gostaria de usar, aqui, um eufemismo. E assim, ao invés de Dia dos Mortos, substitui-lo por Dia dos Ausentes, embora Victor Hugo preferisse chamá-los de invisíveis. Jamais chamar a um fulano que morreu de "finado".E, aqui para nós, será que os que morreram, desapareceram para sempre? Que duro materialismo! Será que Deus criou o tudo para o nada?

Entro no Banco Nacional, antigo Cinema Rex, e fico aguardando o atendimento. Pouco mais, a funcionária chega sorrindo. — Uma ordem de pag...

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Entro no Banco Nacional, antigo Cinema Rex, e fico aguardando o atendimento. Pouco mais, a funcionária chega sorrindo.

— Uma ordem de pagamento — digo.

A tarde está fria, propícia ao devaneio. Acontece que o banco não está para fantasias e sim para cálculos. Portanto, nada de andar com alma de poeta ou de cronista sentimental.

Quando Gonzaga Rodrigues recebeu o título de “Doutor Honoris Causa” da UFPB foi, sem dúvida, o grande acontecimento do ano. Por motivo supe...

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Quando Gonzaga Rodrigues recebeu o título de “Doutor Honoris Causa” da UFPB foi, sem dúvida, o grande acontecimento do ano. Por motivo superior à minha vontade, não pude estar presente à solenidade da entrega do valoroso título ao estimado conterrâneo.

Designado para fazer a reportagem dos debates da Assembleia Legislativa, relatar para os leitores o curso das discussões levadas a efeito p...

carlos romero

Designado para fazer a reportagem dos debates da Assembleia Legislativa, relatar para os leitores o curso das discussões levadas a efeito pelos nossos parlamentares, observar tanto o entusiasmo de eloquência oratória dos deputados, como o ardor aclamatório dos frequentadores das galerias, tornou-se esse trabalho mais uma experiência de minha vida do jornal, mais um conhecimento travado com as múltiplas facetas da imprensa.

assembleia legislativa deputados
Com o decorrer do tempo, com o hábito do trabalho, com a rotina dos debates, fui verificando, pouco a pouco, num desses deslizes do olhar, numa dessas despreocupações de repórter, a presença quase infalível, a fisionomia cansada e atenta de um dos frequentadores das galerias.

Tratava-se de um velho funcionário público aposentado, trazendo no semblante desbotado pela vida a tortura e os restos de suas últimas decepções. O curioso personagem nunca faltou, quer fizesse chuva, quer fizesse sol, a uma das reuniões da Assembleia. Apesar da madureza de sua idade, apesar da severidade doentia de seu aspecto, entremostrava sempre um certo fulgor de encantamento no olhar, de felicidade, de esperança, mesmo quando da tribuna, um dos parlamentares dissertava sobre os problemas do povo, defendia um tema qualquer.

Então, eu via, emocionado, o homem sorrir satisfeito, olhar fraternalmente para os companheiros, erguer o braço num extravasamento de entusiasmo indiferente ao seu reumatismo e às dificuldades de sua vida de fracassado. Mas, o que mais me comovia e que mais me enchia de tristeza era quando a sessão decorria sem anormalidade, sem tumulto oratório, numa placidez de lago suíço, pois, nesse momento, o funcionário pegava de seu guarda-chuva, ajeitava o chapéu na cabeça branca e rumava, triste, desconsolado, em direção a um banco de praça, a um café de segunda classe, ou então ia descansar, repousar os nervos exaustos, em sua modesta residência de subúrbio.

Ninguém notava a saída do pobre ex-servidor público. Ninguém lhe percebia o desânimo no rosto. A sessão continuava sem novidade, passava-se à ordem do dia, às sisudas aprovações dos projetos e resoluções, enquanto, o espectador infalível das galerias ia pelas ruas, por entre a multidão indiferente.

antiga assembleia de deputados da paraiba
Assembleia Legislativa da Paraíba
A tarde para ele deveria ser horrível, com muito tédio, com muita melancolia. Ficava, às vezes, sem ter para onde ir. À noite, nem é bom falar. A velhice pobre na solidão, povoada de fantasmas, plena de doces reminiscências da infância, deve ter um aspecto dramático e desolador. Para o velho funcionário público, a Assembleia era um divertimento, um passatempo, um espetáculo grátis e bom para sacolejar os seus nervos, para fazê-lo crer que ainda vive, que ainda vibra. Por isso jamais faltou a uma reunião.

Sem filhos, sem amigos, sem conforto, nada mais esperava ele do mundo. Pouco importava que um discurso abrisse um lampejo de esperança, coisa que ele já perdera, há muito tempo. Ia à Assembleia somente para matar os poucos anos que lhe restavam. Enquanto os outros iam ao cinema, só tinha, graças a esse regime democrático, as galerias para encher o vazio de sua existência árida.

Enquanto outros, os jovens, operários e homens, em pleno exercício da função pública, procuravam a Assembleia para melhor medirem os acontecimentos das coisas públicas, para melhor se informarem da política estadual, o velho amanuense aposentado só tinha um único interesse — ter para onde ir, gozar ao som da oratória parlamentar, derradeiros instantes de sua insípida existência...

* crônica de 1947, escrita no Jornal A União


Carlos Romero é patrono deste ambiente de leitura (in memorian)

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(in memoriam) E eis que chega a   Semana   Santa   mostrando um Jesus traído, condenado, chicoteado, ensanguentado e, por fim, cr...


(in memoriam)
E eis que chega a Semana Santa mostrando um Jesus traído, condenado, chicoteado, ensanguentado e, por fim, crucificado, no alto de um monte chamado o Monte da Caveira. Lá estava ele, de braços abertos, ensanguentado e tendo como companheiro dois marginais.

E é essa imagem que a Semana Santa traz para as ruas, cinema, teatro, televisão, espetáculos que rendem bom dinheiro para os seus promotores. Tanta coisa bonita no Evangelho para se evocar e mostrar, mas o que se quer exigir, naquele momento, é um Jesus moribundo, coroado de espinhos, humilhado e ofendido. E haja chicotadas no corpo magro, haja cusparadas no rosto suado, haja humilhações e mais humilhações.

Essa a imagem que mais atrai as multidões e os religiosos. Essa a imagem que mais fascina o público, que mais é evocada nas comemorações da semana que passou.

Não. Dependesse de mim, jamais seriam relembrados tais episódios. Jamais eu gostaria de ver, todo ano, um filho em situações tão dolorosas... Que as Escrituras evoquem aquela triste peregrinação do Mestre, está bem. Mas que tudo fique apenas registrado na História. Para que dramatizar e relembrar tão dolorosos sentimentos? Não haveria aí um triste sadismo? E eu chego até ao exagero – e o leitor vá me perdoando minha susceptibilidade – de sugerir que não se evoque mais a imagem de Jesus na cruz. Não gosto de vê-lo pregado numa cruz, nas igrejas, nas repartições públicas, nas assembleias legislativas e em volta dos pescoços das mulheres.

A imagem do Jesus que eu quero ver não é a do Jesus morto, mas a do Jesus vivo, do Jesus convidando-nos a olhar os lírios do campo e as aves do céu, do Jesus, no alto da montanha, pregando o seu sermão inaugural, do Jesus convidando as criançcnhas para um abraço fraterno e paterno, o do Jesus limpando leprosos, dando a vista aos cegos, levantando paralíticos, dando voz aos mudos, o do Jesus no Monte Tabor conversando com os espíritos, todo iluminado, do Jesus levitando sobre as águas... Ah, leitor, esse o Jesus que eu desejo ver sempre.

E abaixo o luto, a tristeza, a agonia. Ao invés de agonia, o que desejamos é alegria. Jesus nunca foi pessimista. Todo o seu Evangelho é um hino à fé. "Pedi e vos será dado, buscai e achareis, batei e se abrir-vos-á", recomendava ele. "Eu sou o caminho, a verdade e a vida".

Luto na Semana Santa, jamais! O luto, há muito tempo que deixou ser usado quando uma pessoa morria. E havia aquele que usava o chamado luto fechado... Felizmente, acabou-se o costume. Não é com luto que se deve expressar a saudade dos mortos queridos, tanto é assim que os caixões mortuários estão sempre enfeitados de flores. Sim, flores que são o sorriso da Natureza.

Sou uma pessoa muito ocupada: tomo conta do mundo. Todos os dias olho pelo terraço para o pedaço de praia com mar, e vejo às vezes que as ...



Sou uma pessoa muito ocupada: tomo conta do mundo. Todos os dias olho pelo terraço para o pedaço de praia com mar, e vejo às vezes que as espumas parecem mais brancas e que às vezes durante a noite as águas avançaram inquietas, vejo isso pela marca que as ondas deixaram na areia. Olho as amendoeiras de minha rua. Presto atenção se o céu de noite, antes de eu dormir e tomar conta do mundo em forma de sonho, se o céu de noite está estrelado e azul-marinho, porque em certas noites em vez de negro parece azul-marinho. O cosmos me dá muito trabalho, sobretudo porque vejo que Deus é o cosmos. Disso eu tomo conta com alguma relutância.

Observo o menino de uns dez anos, vestido de trapos e macérrimo. Terá futura tuberculose, se é que já não a tem.

No Jardim Botânico, então, eu fico exaurida, tenho que tomar conta com o olhar das mil plantas e árvores, e sobretudo das vitórias-régias.

Que se repare que não menciono nenhuma vez as minhas impressões emotivas: lucidamente apenas falo de algumas das milhares de coisas e pessoas de quem eu tomo conta. Também não se trata de um emprego pois dinheiro não ganho por isso. Fico apenas sabendo como é o mundo.

Se tomar conta do mundo dá trabalho? Sim. E lembro-me de um rosto terrivelmente inexpressível de uma mulher que vi na rua. Tomo conta dos milhares de favelados pelas encostas acima. Observo em mim mesma as mudanças de estação: eu claramente mudo com elas.

Hão de me perguntar por que tomo conta do mundo: é que nasci assim, incumbida. E sou responsável por tudo o que existe, inclusive pelas guerras e pelos crimes de lesa-corpo e lesaalma. Sou inclusive responsável pelo Deus que está em constante cósmica evolução para melhor.

Tomo desde criança conta de uma fileira de formigas: elas andam em fila indiana carregando um pedacinho de folha, o que não impede que cada uma, encontrando uma fila de formigas que venha de direção oposta, pare para dizer alguma coisa às outras.

Li o livro célebre sobre as abelhas, e tomei desde então conta das abelhas, sobretudo da rainha-mãe. As abelhas voam e lidam com flores: isto eu constatei. Mas as formigas têm uma cintura muito fininha. Nela, pequena, como é, cabe todo um mundo que, se eu não tomar cuidado, me escapa: senso instintivo de organização, linguagem para além do supersônico aos nossos ouvidos, e provavelmente para sentimentos instintivos de amor-sentimento, já que falam. Tomei muita coisa das formigas quando era pequena, e agora, que eu queria tanto poder revê-las, não encontro uma. Que não houve matança delas, eu sei porque se tivesse havido eu já teria sabido. Tomar conta do mundo exige também muita paciência: tenho que esperar pelo dia em que me apareça uma formiga. Paciência: observar as flores imperceptivelmente e lentamente se abrindo.

Só não encontrei ainda a quem prestar contas.

(2020, Ano de Centenário de Clarice Lispector)

Os cachorrinhos de apartamentos, felpudos e perfumados é só o que a gente vê nas calçadas das avenidas Tamandaré e Cabo Branco. Suas donas...



Os cachorrinhos de apartamentos, felpudos e perfumados é só o que a gente vê nas calçadas das avenidas Tamandaré e Cabo Branco. Suas donas os tratam como filhos. E elas são tão pacientes que chegam a esperar que eles façam xixi nos postes. Vejam até que ponto chega o amor pelos animais..

E os vira-latas? Como gosto deles. De sua liberdade, de sua autenticidade, de sua filosofia. Vivem sua vida de marginal sem incomodar ninguém. E muitas vezes são repelidos ou apedrejados pelos estúpidos, tão mal compreendidos por muita gente. Certo dia, vi uma senhora enxotando um humilde marginal canino que caminhava pacificamente pela calçada. Um gesto áspero e grosseiro que definiu bem sua personalidade. Vá ver que ela viu no cachorro o marido, de quem não gosta mais...



Nunca me esqueci de um gesto do pianista Gerardo Parente, meu vizinho. Ele estava, na porta de sua casa, por sinal uma bela casa, dando comida a um vira-lata da rua, num prato. O fato me comoveu. Ao invés de enxotar o animalzinho, como fazem muitos, ele procurava alimentá-lo como se tratasse de uma pessoa.

Faz tempo que ele se foi deste mundo, mas, decerto, continua alegrando o outro lado com a sua música e a sua bondade. Só o cachorrinho é que não viu mais o portão daquela casa abrir-se para ele…



Uma coisa que mais me chamou a atenção em algumas cidades civilizadas foram os cães passeando livremente pelas avenidas e praças, muito respeitados e bem tratados pelo povo. A exemplo dos cães da Atenas de Sócrates, que ao que fui informado, são protegidos pelo Estado, e ainda trazem no pescoço uma placa oficial identificadora. Vi e acariciei muitos. Não sei se no tempo do filósofo eles viviam perambulando pelas ruas. E ai de quem tratar mal um desses animais. Ser-lhe-á, sem dúvida, aplicada uma multa. Creio que a mesma coisa acontece na Índia, onde a vaca tem livre trânsito na via pública. Ela é tida como sagrada. Eis aí um culto que respeito e admiro.

Agora me veio à memória turística que nos restaurantes de Paris os cães entram acompanhados de seus donos, e ninguém diz nada. Alguns chegam até a ficar sentados na cadeira e se comportam muito bem. Vem-me, também, neste momento, uma frase de autoria do escritor Frank Deford, que Germano andou me mostrando, um dia desses: “Pode-se ficar conhecendo tudo de um povo só pela maneira como ele trata os animais e as praias.” – uma grande verdade.



Pouquíssimas são as pessoas que amam os bichos como se fossem gente. Há muita gente que é indiferente ou trata mal os animais chamados inferiores. Que só recebem pontapés ao invés de carinho. Ângela Bezerra de Castro, nossa culta intérprete do fenômeno literário, uma mestra que muito respeito nos infunde e cujos olhos vêem longe, tem um sorriso muito mais bonito do que o da Mona Lisa. Ângela foi capaz de chorar pela morte de sua gatinha de estimação. Uma gatinha que ela encontrou abandonada, e adotou, desde o tempo em que trabalhava na Esma, com quem conversava, todos os dias, que, muitas vezes, atenuava sua solidão de intelectual e pensadora. E isto só fez crescer minha admiração por ela, que tem uma sensibilidade fora do comum.

(excertos de crônicas)

Sempre defendi a liberdade, a democracia. Abaixo as ditaduras, sejam da direita, sejam da esquerda e viva o oxigênio da liberdade. Viva a d...


Sempre defendi a liberdade, a democracia. Abaixo as ditaduras, sejam da direita, sejam da esquerda e viva o oxigênio da liberdade. Viva a democracia, que com todos os seus erros, ainda é o regime que dignifica o homem. E está aí o muro de Berlim demolido, está aí a Cortina de Ferro destruída. Mil vezes o rosto alegre de um estadista eleito pelo povo do que a carranca de um Stalin, de um Hitler ou a barba de um Fidel.

A democracia é o regime que cultua a coisa mais importante no homem: a liberdade, a livre opção. Pode ter seus pecados, mas com o tempo a coisa vai melhorando. Votar consciente do voto é o que importa. E quem vende o voto torna essa consciência numa mercadoria.

Ah, liberdade!... Quanto me alegrou a fisionomia risonha das pessoas em Moscou e em Leningrado, quando lá estive, logo depois que seu povo recuperou a liberdade. Todo mundo alegre, livre da ditadura...

Em muitos anos eu poderia não ter votado, baseado na isenção que a Justiça me concedeu, mas achei que, não votando, eu estaria sendo antidemocrático.

Ao votar, deve-se esquecer as brigas das campanhas, das agressões à honra dos candidatos. Esquecer dos ataques pessoais, todos eles dominados pela paixão política.

O que é asqueroso é o voto vendido, material ou ideologicamente, voto prostituído, voto de cabresto. Devemos votar esquecidos das gritarias das campanhas, dos ataques mesquinhos e da chamada “lavagem de roupa.”

O negócio agora é esquecer a campanha e colaborar com os candidatos que mereceram os votos da maioria. A ordem, agora, é esquecer os ódios, respeitar a vontade popular, e não atrapalhar os planos dos eleitos pelo povo.

E viva a Democracia!

(Publicado no jonral A União em 2010)


O céu me fez formosa, dizeis, e de tal maneira que minha formosura vos leva a me amar sem resistência, e pelo amor que me mostrais, dizeis ...


O céu me fez formosa, dizeis, e de tal maneira que minha formosura vos leva a me amar sem resistência, e pelo amor que me mostrais, dizeis e até quereis que eu seja obrigada a vos amar. Eu sei, com o natural entendimento que Deus me deu, que tudo o que é belo pode ser amado; mas não compreendo que, pela razão de ser amado, quem é amado por belo tenha obrigação de amar quem o ama.

E ainda poderia acontecer que o amante do belo fosse feio e, sendo o feio digno de ser desprezado, fica mal dizer: ‘Amo-te porque és bela: deves me amar embora eu seja feio’. Mas, mesmo que as belezas se equivalham, nem por isso haverão de ser iguais os desejos, pois nem todas as belezas apaixonam: algumas alegram a vista mas não subjugam a vontade.

Se todas as belezas apaixonassem e subjugassem, as vontades andariam desorientadas e confusas, sem saber onde iriam parar, porque, sendo infinitas as pessoas belas, infinitos haveriam de ser os desejos.

E, conforme ouvi dizer, o amor verdadeiro não se divide e deve ser voluntário, não forçado. Sendo assim, como penso que é, por que quereis que submeta minha vontade à força, apenas porque me dizeis que me amais? Se não, dizei-me: se em vez de formosa o céu me tivesse feito feia, seria justo que me queixasse de vós por não me amardes?

Eu nasci livre e, para poder viver livre, escolhi a solidão dos campos: as árvores destas montanhas são minha companhia; as águas cristalinas destes riachos, meus espelhos; às árvores e às águas comunico meus pensamentos e formosura.

Sou fogo afastado e espada distante. Aos que apaixonei com a vista desiludi com as palavras; e, se os desejos se sustentam com esperanças, não tendo eu dado nenhuma a Grisóstomo, nem a algum outro (na verdade, a nenhum deles), bem se pode dizer que antes o matou sua teimosia do que minha crueldade.

Se a Grisóstomo matou sua impaciência e desejo impetuoso, por que se deve culpar meu honesto procedimento e recato? Se eu conservo minha pureza em companhia das árvores, por que devem querer que a perca em companhia dos homens?

Como sabeis, sou rica e não cobiço as riquezas alheias; sou de temperamento livre, não gosto de me sujeitar; não amo nem odeio ninguém; não engano este nem cortejo aquele; não zombo de um nem me divirto com outro.

A conversa honesta das pastoras destas aldeias e o cuidado com minhas cabras me distraem. Meus desejos se limitam a estas montanhas e, se daqui saem, é para contemplar a formosura do céu, passos com que anda a alma para sua primeira morada.

(discurso de Marcela - excerto de Dom Quixote)

A catinga formava um aranhol. As cigarras aplaudiam a fulguração triunfal. Flamejava o painel do aceiro – as árvores ígneas e, ...


A catinga formava um aranhol.
As cigarras aplaudiam a fulguração triunfal.
Flamejava o painel do aceiro – as árvores ígneas e, esplêndida, a macaíba com o leque de chamas.
A manhã estava tonta de claridade.



Parecia um inferno orgíaco.
O milharal embandeirava o sitio em festa.
O melão bravo salpicado de ouro formava um ninho acintoso.
As cigarras aplaudiam uma fulguração triunfal.
Mal se distinguia o que corria do céu: se a claridade líquida ou a garoa dourada.



Eu chorava, de manhãzinha, quando os passarinhos começavam a cantar – chorando, que é a forma mais alegre de criança falar.



A minha alma de velho
Anda agora renovada,
Que a paixão é como sonho,
Chega sem ser esperada



Não se vê um olho d’água,
Quando há seca no sertão,
E enche-se os olhos d’água,
Quando seca o coração

(excertos de A Bagaceira)


Este blog foi concebido em 2008 com o propósito inicial de servir à divulgação dos textos do cronista e escritor Carlos Romero , grande ad...



Este blog foi concebido em 2008 com o propósito inicial de servir à divulgação dos textos do cronista e escritor Carlos Romero, grande admirador da literatura e apaixonado por livros e ensaios. Com o tempo, o blog diversificou-se, passando a veicular outros assuntos de interesse do blogueiro, como a musica erudita, as artes, religiões, o aprendizado de linguas estrangeiras e as curiosidades que cercam a vida na Terra.

U m dia desses, fui visitar a Livraria do Luiz, hoje ampliada e com cara de primeiro mundo, e passei pelo nosso tradicional Ponto de Cem Réi...


U
m dia desses, fui visitar a Livraria do Luiz, hoje ampliada e com cara de primeiro mundo, e passei pelo nosso tradicional Ponto de Cem Réis, que valorizou-se muito com a reforma que o nosso governador de ouro, Ricardo Coutinho, fez naquele recanto que é o coração da cidade. Mas, o tempo e a falta de cuidado já estão deteriorando-o novamente.

O Ponto de Cem Réis tem que voltar a ser nossa sala de visitas. Uma praça para o povo conversar e descansar. Já deixou de ser parada de bonde, praça de automóveis de aluguel, local de encontro de amigos e gente da alta sociedade.

Sim, por falar nisso, cadê o advogado Mario Gama, vestido de linho branco e que dava expediente, ali, como advogado e vereador? Cadê aquele príncipe da cortesia, advogado Severino Ayres, rodeado de amigos, na esquina do prédio Guilherme da Silveira. Cadê o advogado Renato Bastos, cadê?... Ah, como o nosso antigo Ponto de Cem Réis reunia gente ilustre: advogados, juízes, desembargadores, jornalistas, escritores, homens de negócios.

Aquele logradouro era, como já disse, a nossa sala de visitas. Dali chegavam grandes notícias e grandes boatos. E eu estou me lembrando, agora, da Livraria Acadêmica, do advogado Geraldo Freire, ponto de encontro de estudantes e professores de Direito.

A verdade é que a cidade esteve muito contente com a restauração do seu Ponto de Cem Réis. Mas, agora é hora de tratar de recuperá-lo mais uma vez e de mandar pintar os prédios ao seu redor, a exemplo do prédio da antiga "Nações Unidas", do Paraíba Palace, e o que fica defronte dele, não é, meu amigo Petrônio Souto?…

Veio agora à memória uma frase de Ascendino Leite no livro em que ele estreou na literatura - “Minha Cidade”: “O Ponto de Cem Réis é o espelho da vida da cidade”. Será que o prefeito Luciano Cartaxo, que vem fazendo um belo trabalho na Av. Beira-Rio, tem andado por nossa sala de visitas?...

S im, o nosso genial Pelé, considerado rei do futebol, faz tempo que não dá as caras. Não aparece nem no jornal, nem do rádio, nem na TV. To...

Sim, o nosso genial Pelé, considerado rei do futebol, faz tempo que não dá as caras. Não aparece nem no jornal, nem do rádio, nem na TV. Tomou chá de sumiço, como se diz. E quanta alegria ele proporcionou ao povo brasileiro! Ao brasileiro só, não. Deixou todo o mundo de boca aberta com os seus pés e também com a cabeça.

E Pelé não foi genial apenas com os pés, mas sobretudo com a cabeça. Inteligência não lhe faltou. Outra coisa: o caráter.

Sim, Pelé é antes de tudo um homem de caráter. E o que mais me surpreendeu, é que o Rei da Pelota – e nisso ele foi muito bom - não se meteu em política, nem em politicagem. Se não me engano, tratou de beneficiar instituições de caridade.

Sua aparição na TV agradava. Ou melhor: impunha respeito. Daí eu estar estranhando o seu silêncio. Não quis nada com a política. Nem mesmo com o futebol. Nada de ser técnico, o que daria certo. Pelé voltou-se aos negócios particulares.

Pelé vereador, deputado, senador. Nada disso Pelé quis ser. Nem entrar para o PT. Não se contaminou com o vírus da política.

Seus pés fizeram milagres. Suas cabeçadas também. E o que eu mais admiro nele, repito, é o caráter, o bom senso. E se quisesse, teria sido, com a maior facilidade, senador, pois é homem de bem a toda prova, que sempre inspirou respeito.

Pelé! Onde anda ele? Não o jogador, mundialmente admirado, mas o homem de bom senso, respeitado por todos.

Seria ele um dos Varões de Plutarco? Evidente que sim. O filósofo Diógenes, que vivia com sua lanterna à procura de um homem honesto, não demoraria muito a achar Pelé.

Pelé! Mas está na hora de tomar o meu café, que o dia está uma beleza com o sol brilhando lá fora.

F oi um momento emocionante aquele. Não estaria sonhando?... Eu, lá em cima, no monumental teatro - a Philarmonie de Paris - e ele, lá embai...

Foi um momento emocionante aquele. Não estaria sonhando?... Eu, lá em cima, no monumental teatro - a Philarmonie de Paris - e ele, lá embaixo. Ia executar o Concerto nº 5, de Beethoven, para piano e orquestra. Concerto conhecido como “O Imperador”, de minha predileção.

Olhei para baixo. Gente como diabo. Gente, por sinal, muito chique. A Paris culta, decerto, estava, ali. E o pianista, baixinho, simpático, quem seria?...

O início desse concerto de Beethoven é de uma majestade impressionante. Dir-se-ia o retrato sonoro do gênio de Bonn. E as mãos divinas do pianista dançavam no teclado, numa desenvoltura e precisão admiráveis. Afinal, quem é esse pianista, de semblante tão sereno e simpático? É o nosso Nelson Freire, brasileiro de corpo alma, um dos orgulhos máximos de nosso país1

Quando ele deixou o teclado, o teatro esteve ameaçado de cair com tantos aplausos. Eu,, Alaurinda e Davi não cabíamos em nós, de contentes. No intervalo, desejávamos abraçar Nelson, mas, fomos informados de que ele viajaria, logo após o concerto, para outra apresentação, no dia seguinte, em Bruxelas. E eu só desejava dizer a ele: Nelson, beije suas mãos todos os dias. Elas são divinas!

O Brasil deve se envaidecer desse pianista admirável, que mora em Paris. Homem simples, de uma modéstia encantadora, Nelson é o orgulho de todos nós.

Nossa viagem ao exterior fechou com chave de ouro com aquele concerto de Beethoven, que, tenho certeza, daria um grande abraço no talentoso virtuose. E Nelson é de uma simplicidade comovente. Homem de pouca fala, muito comum nos mineiros, seu talento se expressa na música, no piano.

Nesse recente passeio, ouvir Nelson tocar foi uma dádiva do céu. O Brasil lhe deve muito.

D esculpe-me o truísmo, mas deixe-me metaforizar as curas de Jesus, cujo Natal o mundo que o crucificou está comemorando, com muita festa, m...

Desculpe-me o truísmo, mas deixe-me metaforizar as curas de Jesus, cujo Natal o mundo que o crucificou está comemorando, com muita festa, muita comida, muito barulho. E a gente fica sem saber se o Natal é de Jesus ou de Papai Noel... É só indagar a uma criança: “Você deseja receber a visita de Papai Noel ou de Jesus?”

Continuemos. Eis um novo truísmo: Jesus foi, antes de tudo, um grande médico e dizia para todo mundo ouvir: “Os sãos não precisam de médicos”.

A verdade é que suas mãos curaram muita gente. Limparam leprosos, deram vista aos cegos, movimentaram paralíticos, e fizeram façanhas admiráveis: aplacaram tempestades, emudeceram trovões. As mãos que os homens pregaram numa cruz! Só aí é que suas mãos não puderam curar.

E que dizer das curas de Jesus? Sim, ele limpou leprosos, mas, muita gente, ainda hoje, está suja da lepra do egoísmo, do ódio, do orgulho. Ele também movimentou paralíticos, mas não falta quem esteja paralisado pela ociosidade, pela indolência, pela preguiça. Ele devolveu a visão aos cegos, todavia, outra maneira de cegueira continuou, pois, como diz o ditado, “o pior cego é aquele que não quer ver”. Que nega a verdade. Quer ver um exemplo? O médium Chico Xavier, de cultura primária, quase cego e ainda mais tapando os olhos com a mão, psicografou numerosas obras. Obras de caráter religioso, filosófico e cientifico. Sem computador, apenas com um lápis. Como é possível isto? E a cegueira de muitos continua negando a mediunidade...

Um fato curioso, é que, quase sempre, quando Jesus curava, dizia ao curado: “Tua fé te curou”. Viva o remédio da fé. E ele dizia mais. Dizia que bastava uma fé do tamanho de um grão de mostarda para mover uma montanha. Conclusão: Jesus precisava da fé do curado para curar. E há tanta gente sem fé por aí, cuja fé está apenas na boca, e não no coração.

Lembremos que Jesus não veio apenas curar, mas ensinar o caminho da verdade que liberta. E deu-nos uma receita maravilhosa: “Orai e vigiai para não entrardes em tentação”.

E viva a vigilância de nossos atos, dos nossos pensamentos, pois as tentações são muitas. Tentação do sexo, do dinheiro, do poder.

Mas além de médico, Jesus foi um extraordinário professor. E ensinando, contava histórias lindas chamadas parábolas. Vez por outra, estava testando os seus alunos, os apóstolos.

Certa manhã, entendeu de dar um passeio sobre o mar. Pedro, quando o viu, não quis acreditar. E Jesus, certamente, sorrindo, convidou: “Vem Pedro”. E o apóstolo chegou a pisar na água. Mas, bastou dar alguns passos, quando veio o medo de afundar. Aí Jesus o amparou, exclamando: “Ah, homem de pouca fé!...

Fé, eis o grande remédio contra a doença do medo. Quem tem fé, persevera, quem tem fé não desiste. E o mestre dos mestres ainda ensinou: “pedi e obtereis, buscai e achareis, batei e se abrir-vos-á”.

Amanhã, estaremos comemorando o seu nascimento. Nascimento não num palácio, mas numa humilde manjedoura, ao lado de animais domésticos. E pensar que as mãos daquele menino haveriam, mais adiante, de realizar grandes curas. As mesmas mãos que os homens pregariam, depois, impiedosamente, numa cruz.

U m dos colóquios mais bonitos do Evangelho é, sem dúvida, pelo menos para mim, aquele entre Jesus e a samaritana. Não esquecer que os samar...

Um dos colóquios mais bonitos do Evangelho é, sem dúvida, pelo menos para mim, aquele entre Jesus e a samaritana. Não esquecer que os samaritanos, que habitavam a Samaria, não se comunicavam com os judeus. Ah, gente cheia de ódio... Mas, vamos ao encontro do Mestre com a samaritana, que, decerto, era muito bonita. Ela vinha, com um cântaro na cabeça, buscar água na Fonte de Jacob. Vinha de longe, provavelmente, cansada.

Os apóstolos tinham ido à cidade buscar alimento. A samaritana estava sozinha, com Jesus, e não sabia quem era aquele homem bonito que chegou a lhe pedir água. E quem era aquela mulher? Na conversa que manteve com ela, Jesus fez revelações que a assustaram. Ela por sua vez também lhe revelou coisas, e, uma delas, era de que já tinha tido cinco maridos...

Jesus lhe pediu água. Será que estava com sede? Evidente que não. Ele apenas metaforizou, dizendo que a água que daria mataria a sede para sempre. Ela não entendeu, chegando a pedir: “Dá-me desta água, senhor”.

A água a que ele se referia era a água de sua Doutrina. A água que mata a sede para sempre. A água viva...
A mulher samaritana estava assustada, surpresa, sem querer acreditar no que ouvia. Daí, depois, ter saído correndo para avisar a todo mundo que vira o Messias, aquele que estava sendo esperado.

Aí chegaram os discípulos. E ficaram assustados, sem querer acreditar: Jesus conversando com uma mulher, além do mais samaritana...

O Evangelho, onde está a Doutrina de Jesus, é a água viva, a água que não morre, água que mata a sede para sempre. Não esquecer que tudo é passageiro, neste mundo. Mas, Jesus disse: “Tudo passa, menos a minha palavra”, que é a água viva. A verdade é que o Mestre não perdia oportunidade para ensinar. Ensinar e curar.

O mundo está aí comemorando o Natal de Jesus. De Jesus ou de Papai Noel? Estou na dúvida.

A samaritana, coitada, não compreendeu o que Jesus queria dizer com esta história de água viva e água morta. Bela, a metáfora do Mestre

A Doutrina Espírita, com o seu slogan, “Fora da Caridade não há salvação”, mostra ser uma doutrina de água viva.
Caridade! E o que é caridade? Eis uma definição completa: “Caridade é benevolência para com todos, indulgência para com as faltas alheias, e perdão das ofensas”.

O homem, de pé e de braços abertos, é uma cruz de carne. No caso de Jesus, houve o encontro de duas cruzes: a de madeira e a de carne. E eu...

O homem, de pé e de braços abertos, é uma cruz de carne. No caso de Jesus, houve o encontro de duas cruzes: a de madeira e a de carne.

E eu fico imaginando Jesus sendo carregado até à cruz que o esperava no chão. Que humilhação! Deitado naquele instrumento de suplício, começou a pregação dos cravos, os enormes pregos que perfuravam suas mãos e pés. Uma pregação não da palavra, mas dos pregos. Muita dor, mas a maior dor não foi a dor física, porquanto o Mestre saberia como evitá-la, mas a de ordem moral.

Decerto, naquele momento doloroso, Ele pôs-se a pensar, a refletir. “Afinal, que mal eu fiz para merecer castigo tão violento? O que foi que eu fiz de tão execrável? Não me lembro de haver um mal algum. Limpei leprosos, levantei paralíticos, curei doentes e endemoniados, dei vista aos cegos, ensinei a lição do perdão, do amor ao próximo. E, certa vez, multipliquei pães e peixes para os famintos. Por que estão, agora, me pregando nesta cruz? Se eu tivesse feito o mal, muito bem, até que se compreendia. Mas não me lembro de ter ofendido ninguém. E essa cruz, qual o marceneiro que a teria feito? Meu pai, José, jamais faria esse instrumento de tortura”...

Cessadas as batidas, vieram os homens para erguer a pesada cruz para fixá-la no monte, entre dois ladrões. Muito sangue, muita dor. Mas Ele suportou tudo, calado. E, ao invés de ódio à multidão que assistia, indiferente, ao seu suplício, Ele só fez uma prece ao Pai para que perdoasse os seus algozes, pois eles não sabiam o que faziam.

Agora, pelo Natal, não esqueçamos a cruz. A lição da cruz. Lembremos de que a lição da humildade foi dada naquela manjedoura, onde jamais alguém gostaria de nascer. Todavia, foi na cruz, que Ele deu a grande lição. A lição do perdão, do amor. Esta não devemos esquecer, mesmo neste Natal de Papai Noel, o Natal do consumismo.

P ode cair para trás, mas o fato aconteceu e é narrado por três evangelistas. Jesus, depois de uma caminhada, debaixo de muito sol, resolveu...

Pode cair para trás, mas o fato aconteceu e é narrado por três evangelistas. Jesus, depois de uma caminhada, debaixo de muito sol, resolveu parar. Mas não foi para pregar, nem orar, nem fazer uma cura e muito menos descansar.

O fato é que ele parou de caminhar e subiu o Monte Tabor, onde realizou uma verdadeira sessão mediúnica, onde conversou com dois espíritos: o de Moisés e o de Elias.

Mais ainda: o Mestre, de repente, ficou todo iluminado. Os apóstolos não quiseram acreditar no que viam. Fazia um profundo silêncio. Soprava uma brisa agradável. Ocorria, naquele momento, uma magnífica transcendência, deixando os apóstolos surpresos e maravilhados.

E tal foi o regozijo dos apóstolos que Pedro chegou a pedir a Jesus que ficassem, ali, usufruindo aquela paz. Pediu ainda que construíssem, ali, três tendas: uma para Jesus e outras para Moisés e Elias.

A verdade é que os discípulos estavam maravilhados, em estado de êxtase. Então os mortos voltam a conversar com os vivos? Pois é, estava, ali, uma prova insofismável de que os vivos podem se comunicar com os, erroneamente, chamados mortos.

Reinava uma profunda paz. Os apóstolos continuavam maravilhados. Eles tinham acabado de ver Moisés e Elias, considerados mortos, conversando com Jesus.

Mas o que é bom dura pouco. Jesus teve que descer para prosseguir na caminhada da evangelização. Mas valeu aquele momento de transcendência.

Todavia, ocorreu uma coisa curiosa. Jesus, a medida que ia descendo do Monte Tabor, avisou aos dois apóstolos que não contassem lá fora nada do que aconteceu, nada do que viram. É que muita gente não iria entender o fato ocorrido
Será que os que leem sobre tal fato no Evangelho ainda duvidam da mediunidade, da comunicação entre mortos e vivos? Diz o ditado que o pior cego é o que não quer ver.

A verdade é que o Espiritismo está no mundo para explicar esses fatos. Dir-se-a até que o Espiritismo matou a morte. E que dizer do fenômeno Chico Xavier, que tinha cultura primária, doente, e apenas com o lápis, de olhos fechados, conseguiu psicografar centenas de obras ditadas pelo espíritos? Coisa que nenhum PHDeus faria...

A cruz, como se sabe, é o encontro de duas traves: uma que ascende, como a apontar algo lá em cima, e outra que se dirige para o lado. Conc...

A cruz, como se sabe, é o encontro de duas traves: uma que ascende, como a apontar algo lá em cima, e outra que se dirige para o lado. Conclusão: ambas expressam uma grande lição: a de que devemos não olhar apenas para cima, mas também para o lado.

Subir apenas, sem o outro, é puro egoísmo. Lembrar que nada somos sozinhos. Não se faz uma cruz com uma tábua apenas. Há necessidade de duas tábuas. Uma de ascensão vertical, e outra em direção à lateral.

Jesus ensinou que amássemos ao próximo como a nós mesmos. Os homens entenderam muito mal esta máxima. Ao invés de amor, ódio. Ódio até em nome de religião, ora vejam só...

E o Mestre procurou objetivar, para tornar ainda mais claro o ensinamento. Daí acrescentar “como a si mesmo”. Sim, porque gostamos muito de nós mesmos. Somos egoístas. O “eu” prevalece sobre o nós. E o que vem a ser amar? Amar é doar-se, entregar-se, colocar-se no lugar do outro. Compreendê-lo. Eu amo a Natureza. Eu me entrego a ela. O amor chega a ser uma servidão. Paulo de Tarso disse, em alto e bom som: “Não sou que vive, é o Cristo que vive em mim”. Disse tudo, em poucas palavras.

O amor é uma integração. Você ama o outro quando o outro deixa de ser o outro. Quando o outro passa a ser você. A lição do amor fraternal é impossível? Não, porque muitos já deram exemplo. Muitos missionários se sentiram como o iluminado de Damasco em relação a Deus: “Não sou eu que vivo, é o próximo que vive em mim”.

Muitos preferirão dizer: “Não sou eu que vivo, é o dinheiro que vive em mim. Ou senão, o sexo, ou senão o poder...

A verdade é que nunca houve, em tempo algum, uma lição como esta: “amar ao próximo como a si mesmo”. Sigamos o exemplo da cruz: a tábua vertical para o amor a Deus, a tábua horizontal para o amor ao próximo. Façamos aos outros o que nós gostaríamos que eles nos fizessem. Essa é a melhor receita.

O poeta Eudes Barros, no livro “Cânticos da Terra Jovem”, disse em um de seus poemas que, no Brasil, Jesus foi crucificado numa cruz de estrelas.

Deixemos as estrelas e voltemos à didática de suas duas tábuas, a da vertical e a da horizontal. A do amor a Deus e a do amor ao próximo. Esse é o verdadeiro significado da cruz.

É o obvio. Em toda família ocorre o naturalíssimo fenômeno da morte. Daí as paredes ficarem cheias dos retratos dos que se foram. E o tempo...

É o obvio. Em toda família ocorre o naturalíssimo fenômeno da morte. Daí as paredes ficarem cheias dos retratos dos que se foram. E o tempo vai passando e a gente e a gente também. Diz o ditado que ninguém fica para semente... Uma grande verdade.

Qual a família em que não ocorreu a morte? Ora, em todas! A verdade é que, em geral, a gente esquece esta dolorosa realidade, como se o esquecimento resolvesse o problema. Fazemos igual à avestruz que esconde a cabeça no buraco diante de qualquer temor.

Lá na minha família, foi-se quase todo mundo. Mas, aqui, há um caso a anotar. Um caso raro. Minha mãe estava costurando e no chão estava meu irmão Alberto. E o que é que tem isso demais? Ora, era que o menino chorava, chorava muito. Olhava para a sua mãe costurando e os olhos cheios d'água. Quando a mãe percebeu, foi logo lhe perguntando, apreensiva? “O que foi que houve, meu filho? Algum bicho lhe mordeu, tá sentindo alguma dor? E ele, num choro convulso, respondeu soluçando: “Estou chorando porque, um dia, você morrerá”. Bobagem, meu filho, não vou morrer tão cedo”. E o menino: “De que adianta? Mas, um dia a senhora vai morrer”.

No entanto, poucos pensam que, um dia, deixarão este mundo, para onde vieram nus e sairão vestidos, não é engraçado?
Meu tio paterno, João, solteirão, quando uma pessoa lhe contava sobre alguém que se beneficiou com alguma vantagem na vida, se sucedeu bem em algum empreendimento, ele logo dizia, sorrindo: “Mas morre”... Ele era de um ceticismo impressionante. Morreu solteirão, de um câncer na boca.

Meu pai morreu com oitenta e sete anos. Já a minha mãe, com seu modo de viver, atravessou um século sorrindo. E qual o motivo dessa longevidade? O otimismo. Minha mãe vivia sorrindo para a vida. Alimentação sóbria. Divertia-se decifrando charadas e com as chamadas “Palavras Cruzadas”. E Lia muito livros. Certa vez, zangou-se com uma mosca que a importunava, e debochou: “Esta mosca besta pensa que já morri”.

Minha mãe foi um exemplo de coragem diante da vida. Encarou sua velhice com muito otimismo. Cuidava muito da aparência, estava sempre bem vestida e penteada. Costumava dizer: “Meu filho, velhice quer trato”.

E o que dizer do “mais morre” do tio João? Sim, todos, um dia, sairão deste mundo. Seja rico, seja pobre, seja feio, seja bonito, feliz ou infeliz. Esta é a grande verdade e a maior certeza das nossas vidas.

E de que morreram meus irmãos? Cito apenas Mário, o mais velho. Morreu de cigarro. Vi-o arquejando, no leito de hospital, com o pulmão cheio de pus, vítima de enfisema, e uma tristeza enorme no rosto.

Todos morrendo e Alberto pensando. Pensando e chorando, aos pés da mãe costurando. Será que ele tinha razão com esse comportamento?

E o suicídio? Eis aí a mais estúpida maneira de morrer. Gande é a decepção do espírito de um suicida quando desperta no plano espiritual, cheio de remorso.

Viver! Haverá coisa mais bela? Melhor do que viver é saber viver. Esta a nossa grande responsabilidade. Mas, será que meu irmão Alberto tinha razão nas suas reflexões sobre a certeza da morte? Bem, mesmo preocupado com o destino, ele foi o mais animado dos irmãos. Bom humor era com ele. Então, soube viver!

O que importa é estar consciente. Lembrando que minha mãe foi até os 109 anos, e morreu dormindo, quase sorrindo...