Protestos em favor das massas, contra a histórica exploração do povo pelo poder absoluto, mantenedor de gritantes desigualdades em regimes políticos ditatoriais, também estiveram presentes na música erudita. Na popular atingiu de forma mais abrangente as classes sociais, sobretudo em eras com mais liberdade. No Brasil, Chico Buarque e Geraldo Vandré talvez representem as icônicas bandeiras que tremularam por justiça, principalmente no período de repressão dos anos 60.
A história de mártires emblemáticos que lutaram em defesa dos oprimidos inspirou compositores clássicos em extraordinárias produções, como a trajetória do cossaco que liderou uma rebelião contra a nobreza aristocrática e os tsares do sul da Rússia. De origem camponesa, o ruteno Stenka Razin empreendeu, no século 17, longo trajeto pelas margens do Volga, influenciando o povo das estepes a se unir contra a tirania, expulsando cobradores de impostos, atacando a aristocracia, dominando cidades e destronando líderes do império tsarista.
O movimento empunhado por Razin eclodiu e transcendeu a diferenças inimagináveis a ponto de lograr convergência ideológica tanto de muçulmanos como de cristãos ortodoxos, cossacos e eslavos, inclusive de Moscou.
O poder imperial, no entanto, sufocou o plano de ação, que não chegou a 4 anos, e Stenka Razin terminou esquartejado em praça pública.
O líder passou a ter sua saga inserida na lírica de respeitáveis poetas, músicos clássicos, no cancioneiro popular e transformou-se em símbolo da resistência contra a tirania do império durante séculos. Entre outras homenagens, após 238 anos de sua morte, uma estátua sua foi erguida a mando de Lênin, no dia do trabalhador, na cidade de Rostov-on-Don, sul da Rússia, próximo de onde nasceu.
Um dos maiores músicos do século XX, Dmitri Shostakovich, nascido em São Petersburgo, 1906, compôs uma sinfonia suntuosa inteiramente dedicada à memória de Stenka Razin. Ilustrada com poemas do notável poeta siberiano revolucionário,
Yevgeny Yevtushenko, a obra-prima também ficou conhecida como “Babi Yar” (um dos poemas), que se refere à área ucraniana, um vale imenso, onde foram executados milhares de judeus, na segunda grande guerra, em 1941.
Yevtushenko ganhou notabilidade por pautar sua criação poética na denúncia explícita contra o anti-semitismo, à qual Shostakovich, que serviu ao Soviete Supremo, moldou sua 13ª sinfonia. Concebida em caráter recitativo, é tida como grande cantata para orquestra, voz (baixo) e coral masculino, mas bem que poderia ser encenada como uma magnífica ópera. O resultado foi estupendo. São cinco movimentos que duram uma hora de pura simbiose artística entre história, arte, drama, música e literatura.
O perfil declamativo marca toda a obra. As narrativas letradas (coro e solista) são melodramáticas e dialogam constante e intrinsecamente com a orquestra, o que faz a eloquência romântica preponderar. O incisivo caráter de protesto, às vezes marcial, emerge pontualmente com o texto envolvido pela majestade sinfônica, entrelaçados com a música sob total integridade harmônica. Contém passagens e cenários que vão do jocoso ao trágico, durante os quais toques de sino estão sempre a lembrar o ambiente inquisitório em que se desenvolve a brava sagacidade de Stenka Razin.
No primeiro movimento, “Babi Yar”, Shostakovich manifesta-se em tom de hino contra o massacre na região próxima a Kiev, em 1941. O contorno teatral sugere episódios dramáticos da vida de Razin, com alusões à hipocrisia dos poderosos que se dizem “protetores do povo”. É uma ampla denúncia oral-musical contra a repressão, contra o destino do personagem principal, em estrutura operística, interlúdios, com referências a obras como o “Caso Dreyfus”, o “pogrom de Białystok“ e a história de Anne Frank. Mas a trajetória do protagonista, que concedeu o nome mais importante à sinfonia – “A execução de Stenka Razin” – é o cerne temático desenhado com todo o suspense e emoção que o heroismo descrito requer, como mostra o trecho a seguir (em tradução informal):
“Em Moscou, capital de paredes brancas,
um ladrão desce rua abaixo
com um pão de semente de papoula.
Ele não teme ser linchado.
Não há tempo para pães
Estão trazendo Stenka Razin!
O czar abre um vinho de Malvasia,
Diante do espelho sueco, espreme uma espinha,
experimenta um anel de esmeralda
e olha para a praça …
Estão trazendo Stenka Razin!”
Na segunda parte, chamada “Humor”, predominam o clima burlesco, o deboche e a sátira popular, virtudes das massas que os tiranos frequentemente tentaram sufocar. Com intenção de zombaria, o autor cita um poema escrito pelo escocês Robert Burns,
da época de Razin, sobre um fora-da-lei que na véspera de ser executado escreve um bem-humorado lamento.
O terceiro movimento é um adagio rito-litúrgico que ressalta a carestia sofrida pelo operariado, com limitação de acesso a bens materiais. Basicamente composto de bonitas e lamentosas canções, bem ritmadas, acompanhadas por cordas graves e trompas, entoadas em alternância entre o coro e o baixo. que caminham para o auge da dramaticidade, com a orquestra se sobrepondo a tudo num explosivo crescente, reforçado pelo grande coro, no ápice em forma de desabafo.
Profundamente sombrio e misterioso inicia-se o 4º movimento, um Largo nomeado como “Medo”, todo cantado com o texto de Yevtushenko, que a crítica costuma citar como um das mais ousadas orquestrações de Shostakovich. Há nele maior veemência no clamor contra a repressão soviética, enfatizada por furiosos arroubos que se alternam com suavidade musical, sempre em tom de suspense. Algumas dissonâncias propositais anunciam a coragem dos que marcham pela revolta, quando é declamado o excitante trecho (em tradução informal):
"Os medos estão morrendo na Rússia.
Não temos medo de obras em nevascas
Ou de entrar em uma batalha
Sob o fogo de granadas.
Corajosamente, camaradas, marquemos nosso passo”
Sucede-se a tensão rumo à apoteose sinfônica estonteante a prenunciar o desfecho com os derradeiros lamentos do cantor.
A última parte inicia-se suavizada pela melodia delicadamente emoldurada por sopros, sugerindo cores de esperança em ritmos saltitantes que se mesclam à festiva conversa entre o cantor e o coral. É um doce final, mais lírico, mais romântico, embora a sátira se faça pontualmente presente, como o compositor ousou surpreender na finalização inusitada de outras sinfonias. Conclui-se que haja neste último movimento um sentimento reconfortado de missão cumprida. Tanto de Stenka Razin, o herói, como do autor, igualmente laureado pela concepção de tão magnânimo trabalho.
A beleza criativa desta sinfonia, que reúne poesia, realidade e música grandiosamente lapidada pelas posições políticas e dons artísticos de Shostakovich, até hoje encoraja ativistas e idealistas que se empenham por um mundo melhor. O que nos faz desejar que a Arte continue a refletir os anseios de justiça e liberdade, em todas as formas de expressão, seja clássica ou popular.
Parti cedinho, saindo do deserto do Atacama, no norte do Chile em direção ao sudoeste da Bolívia, em comboio, junto com outros turistas dispostos e curiosos.
A primeira parada em minha rota rumo ao Salar de Uyuni foi na Laguna Blanca, já nos Andes bolivianos. Em suas margens há um solo rochoso com pequenas poças de água que dividem o panorama com o capim amarelo característico de lá.
A febre não passava. Vinha com calafrios, tosse, dores nas costas. Bem que não deveria ter comparecido ao enterro de João Lourenço Ferreira de Lacerda. Chovia muito, e ele já estava gripado. Ester o prevenira de que poderia contrair pneumonia ou coisa pior. Ele tinha consciência de que se arriscava, mas não poderia deixar de prestigiar a memória de um patriarca de Leopoldina, cidade que o havia recebido como a um filho. Se não fosse, sentiria remorsos (a velha culpa o espreitava a propósito de tudo!). Soaria como ingratidão, que sempre lhe pareceu o pior dos sentimentos humanos. Fora ao enterro e voltara febril. Nesse estado, também contra os conselhos da mulher, deu aulas à tarde e à noite. Não poderia faltar, pois sempre teve em alta conta o cumprimento do dever. O resultado fora mesmo uma pneumonia, conforme diagnosticou o Dr. Custódio Junqueira, que cuidava dele em companhia de três colegas e do farmacêutico João de Moura.
Quando entregamos os livros para crianças daquela comunidade rural e vendo a menina sentada à mesa, folheando a obra de Monteiro Lobato, descobrindo o invisível das palavras, foi um momento de emoção e de agradecimento para nós.
Meu avô se chamava Samuel Furtado e morava numa casa simples, ladeada com a nossa, na praça Barão do Rio Branco, que virou Cláudio Furtado. Era alto, forte, alvo e tinha a cabeça branca.
Quantos problemas tem a cidade que o eleitor desse domingo vai confiar aos dois finalistas da corrida eleitoral? Quantos irão somar o maior número com o mesmo problema? Melhor ainda: quantos, independente de seu problema ou de sua simpatia, vão aplicar o recurso do voto no problema do maior número?
Silvino é uma grande figura. Sempre teve personalidade forte. Embora seja o quinto filho de uma prole de oito de Francisco e Nair, destacava-se na família porque sempre soube o que queria. Dotado de espírito de liderança, fez amigos sinceros, os quais conserva até hoje, ao longo dessas tantas décadas de vida.
Conheço José Bezerra Filho desde os tempos imemoriais da hoje extinta Fundação Cultural do Estado da Paraíba (FUNCEP), quando esse órgão do governo do estado instituiu o Concurso de Contos Geraldo Carvalho, numa justa homenagem ao ficcionista de “A Cravina Asfaltada”, que, apesar de recolhido a uma cadeira de rodas, exercia uma efetiva liderança junto aos poetas, artistas plásticos, dramaturgos, romancistas, contistas, enfim, junto a todos quantos respondiam pelas atividades artísticas da provinciana João Pessoa dos anos 1960 e 1970.
Houve um tempo em que a impaciência era atribuída aos jovens. Em função da idade, os jovens eram ansiosos naturalmente, achando que o mundo acaba hoje e tem que fazer tudo de uma vez.
Em meados da década de 1940, o bolero, principalmente de origem mexicana, invadiu o mercado de música brasileiro. Para o pesquisador Jairo Severiano, “como nosso gênero musical mais próximo do bolero era o samba-canção, este tipo de música cresceu extraordinariamente [...] a força do bolero, digamos, potencializou o samba-canção”. Esta situação levou a uma mistura tão grande entre os dois gêneros
Permitam-me aventurar no mundo literário e escrever uma crônica dedicada ao meu amigo, confrade, professor e cronista Carlos Romero. Ele foi um homem de múltiplas viagens, creio que conheceu os cinco continentes do planeta, em companhia da sua amada família. Utilizei-me desse hobby preferido, para relacioná-lo com as minha reflexões. Assim como numa viagem, podemos escolher as rotas pelas quais percorreremos para o deslocamento, decidi pela rota das lembranças de uma convivência pessoal de mais de 30 anos, pequenos recortes fragmentados de histórias e metáforas, risos e espiritualidade.
Dizem que o tempo passa rápido – e passa mesmo. Principalmente nos dias atuais, de vida corrida, quase frenética. Apenas os muito jovens talvez não sintam essa rapidez do tempo, tão cheios de futuro estão os que ainda não sentiram o peso da existência. E é bom que seja assim. Pois seria triste uma juventude sem ilusões. Mas o fato é que o tempo passa mesmo ligeiro. Até para os moços.
O episódio nº 13 da Pauta Cultural entra no ar na ALCR TV com atualidades do mundo cultural participação dos autores leitores e telespectadores do Ambiente de Leitura Carlos Romero.
Matam vidas, mas não assassinam a História. São João e Silvas brasileiros, filhos de pais e mães que dão o suor e o sangue do pão nosso de cada dia para lubrificar como óleo e garantir as engrenagens sempre funcionando. São milhões de anônimos, mundo afora. E negam tais mortes, numa pseudo sociedade autodeclarada tolerante, multicultural, que, contudo, distribui convites contados para a repartição da ceia no banquete do lucro. E o critério é a cor, o sexo, o credo, num ritual de exclusão auto-alimentado.
Para a geração de escritores e artistas estrangeiros, nos anos inicias do século XX, em doce exílio intelectual, Paris era uma festa, sobretudo para os que frequentavam o chique restaurante Closerie des Lilas, no Boulevard Montparnasse, ao lado da Gare de Luxembourg. Já Victor Hugo, em Os Miseráveis, diz que Paris sempre mostra os dentes, seja para sorrir, seja para rosnar. É bem verdade também. Para quem vai a Paris se submeter a trabalho e enfrentar a burocracia francesa, Paris sempre rosna; mas se vai, para desfrutar de sua beleza, em férias, como turista, desobrigado de horários, Paris sorri.