Repentinamente o planeta silenciou, obrigado por uma pandemia que impôs medo à humanidade. No isolamento social a que estamos obrigados vi...

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Repentinamente o planeta silenciou, obrigado por uma pandemia que impôs medo à humanidade. No isolamento social a que estamos obrigados vivenciar, passamos a questionar o que esse silêncio traz escondido na sua manifestação. A sociedade contemporânea está sendo convocada a fazer uma autoavaliação comportamental. O ser humano sendo despertado para a necessidade de olhar para si mesmo, identificando o lado “sombra” de sua personalidade. O coronavírus tem enviado mensagens que precisam ser ouvidas por todos nós. Daí a essencialidade de nos fecharmos em casa, segregados em família, para exercitarmos a reforma íntima.

Faz bem o poeta em escutar as suas vozes interiores, vozes “esquizofrênicas” * sem as quais o poema seria pautado simplesmente a partir...

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Faz bem o poeta em escutar as suas vozes interiores, vozes “esquizofrênicas”* sem as quais o poema seria pautado simplesmente a partir de breviários estéticos ou de conteúdos programáticos. Aliás, já não era sem tempo de os poetas contemporâneos mostrarem-se livres atiradores, diferentes de quando as vanguardas, já exauridas, extenuadas, imprimiam à poesia brasileira uma articulação monocórdica, um repertório cheio de tiques e de cacoetes plenamente superados por força do uso. Tanto é assim que a lírica nacional tem incorporado alguns elementos do surrealismo**,

Tempos apressados estes que estamos vivendo... Ontem, só eu e Nanego em casa, olhando para a noite, linda, majestosa, pensei “sou livre! P...

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Tempos apressados estes que estamos vivendo... Ontem, só eu e Nanego em casa, olhando para a noite, linda, majestosa, pensei “sou livre! Penso, escrevo, leio, escuto música, desenho, danço, canto...” não tem quem me tire essa força, essa integridade que sinto, como se meu corpo e minha alma fossem uma massa de bolo — totalmente integradas, prontas para crescer!

Jacob Bittencourt (ou Jacob do Bandolim como ficou conhecido), falecido em 1969, era considerado um dos maiores instrumentistas do Brasil....

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Jacob Bittencourt (ou Jacob do Bandolim como ficou conhecido), falecido em 1969, era considerado um dos maiores instrumentistas do Brasil. Nos finais de semana, Jacob promovia saraus (que ficaram famosos) na sua casa no bairro de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, nos quais participavam grandes nomes da música brasileira. No final da década de 1950, Jacob teve conhecimento (através de gravações caseiras) da excelência de um grupo de músicos do Recife

O cinema de Woody Allen representa certamente o que há de mais "genuíno" na arte cinematográfica norte-americana com sotaque nov...

O cinema de Woody Allen representa certamente o que há de mais "genuíno" na arte cinematográfica norte-americana com sotaque nova iorquino. Mas a sua relevância reside antes pela ironia que caracteriza as narrativas do que pela glamourização da vida chique dos habitantes de Manhattan.

Nós estamos na Semana Santa de 2021, e há mais de um ano vivemos uma crise múltipla na história da humanidade, que nos desestabiliza em t...

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Nós estamos na Semana Santa de 2021, e há mais de um ano vivemos uma crise múltipla na história da humanidade, que nos desestabiliza em todos os sentidos. Cenas de desespero e horrores, sentimentos de temor e incerteza ameaçam a paz, banalizam a morte, corroem a esperança, ameaçam a fé.

Muitos buscam na religião um meio de combater a inquietude do presente e fortalecer a confiança no futuro. Para os cristãos, a narrativa da Paixão de Cristo revivida em encenações da Via Sacra é um poderoso estímulo ao restabelecimento da fé. Esse precioso sentimento que tem o poder de proteger e estabelecer a necessária unidade entre corpo e espírito.

Por isso eu achei oportuno relembrar hoje o oratório Via Sacra em que um poema de Waldemar José Solha, minha música e a coreografia de Rosa Cagliani interagem cooperativamente para transmitir mais uma versão dessa história de um poder inigualável.

Estas entrevistas datam do ensaio geral do Oratório, que foi estreado na Semana Santa de 2005, na Igreja de São Francisco, em João Pessoa. Elas estimulam a memória dos processos criativos e interpretativos que moldaram a música e a cena que interpretam o poema Via Sacra, de W. J. Solha, resultando num espetáculo multimídia, sobre o qual ele se refere:

“Eu não sou religioso, mas fascinado pela grande metáfora da vida, que é a religião. Por isso pensei em culminar o texto com uma ressurreição, que seria a do ser humano se perpetuando na Terra através das gerações.”:

Isto se encontra nas últimas estrofes do cordel que é um verdadeiro canto de esperança e de fé no homem:

A noite será um pesadelo Se não se espera outro dia Se o Sol se vai de uma vez A treva é terna e agonia Por isso precisa-se tanto Disso que agora eu canto A volta da alegria A luz que o mundo regressa Confirma a nossa esperança Pense no horror da velhice Sem ter a quem dar sua herança Herança de uma unidade Que só prossegue em verdade Quando aparece a criança No fim do caminho há o homem Que se identifica com Deus Que sai da treva glorioso Assim como o Sol lá no céu Que compreende seu mundo Torna-se grande e profundo Sabe que tudo é seu Eu

Oratório "Via Sacra"

A mão rabisca contornos impróprios de um especialista. Rascunhos dos galhos, filtros do clarão, da luz com bordas amareladas que desmergul...

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A mão rabisca contornos impróprios de um especialista. Rascunhos dos galhos, filtros do clarão, da luz com bordas amareladas que desmergulha na linha horizontal da água ou dos entornos de terras distantes, das planícies ou das irregulares elevações. Desenho grafitado em preto e branco, inicialmente superficial, mas com tantos detalhes guardados que adentram aos olhos, estremecem o coração, arrepiam o corpo em saltos diante de visível belezura e mistério. Espasmos de contentamento, fragmentos de todos os tempos.

Mexo nos meus baús e encontro essa matéria que produzi, em dezembro de 2011, para a Revista "AlgoMais", do Recife. Diz respeito ...

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Mexo nos meus baús e encontro essa matéria que produzi, em dezembro de 2011, para a Revista "AlgoMais", do Recife. Diz respeito à Cruz da Menina, obra erigida em memória de Francisca, a criança morta a pauladas por uma jovem dona de casa a cujos cuidados fora entregue pelos pais, fugitivos da seca. O lugar é, atualmente, um dos mais visitados pontos de romaria do Sertão nordestino.

Alexandra caminhou sentindo os pés descalços tocarem a água espumosa que morria mansamente na praia. Antes, e isso não fazia muito tempo, ...

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Alexandra caminhou sentindo os pés descalços tocarem a água espumosa que morria mansamente na praia. Antes, e isso não fazia muito tempo, essa sensação lhe dava muito prazer. Adorava ver as ondas espocando contra as pedras, o sol caindo no horizonte e as palhoças dos pescadores.

Parte 1: Barcelona No final de 1989 o Brasil vivia a expectativa da posse do novo presidente, Fernando Collor de Melo, recentemente eleit...

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Parte 1: Barcelona


No final de 1989 o Brasil vivia a expectativa da posse do novo presidente, Fernando Collor de Melo, recentemente eleito sob o signo da mudança.

Ao longo de sua campanha ele vendeu a sua imagem resumida a “Caçador de Marajás.” Não tendo programa de governo, Collor prometia combater a corrupção e acabar com privilégios.

Eu tinha 8 anos, mal sabia ler, e já conhecia de cor a primeira parte de “O Canto do Piaga”, de Gonçalves Dias. Ainda que essa primeira pa...

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Eu tinha 8 anos, mal sabia ler, e já conhecia de cor a primeira parte de “O Canto do Piaga”, de Gonçalves Dias. Ainda que essa primeira parte tenha 24 versos, distribuídos por 6 quadras, confesso que não sou nenhum prodígio. Um prodígio saberia Gonçalves Dias de cor. O fato é que três das minhas irmãs mais velhas do que eu — eu sou o sétimo de uma família de 10 — estudaram em colégio de freiras, em Bananeiras, e uma delas mais afeita às artes cantava no coro. Foi através de minha irmã e da música, que a já citada primeira parte de “O Canto do Piaga” se alojou na minha memória.

Meus amigos, minhas amigas. Pensem numa dupla desigual! Está aqui uma: Tião Malvadeza e Cicinho. O primeiro, o Sebastião, era um homão f...

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Meus amigos, minhas amigas. Pensem numa dupla desigual! Está aqui uma: Tião Malvadeza e Cicinho.

O primeiro, o Sebastião, era um homão faltando pouco para chegar aos dois metros de altura e quase que a metade disso em largura. O que tinha de forte tinha de bravo e de ruim. Puxou uns quinze anos atrás das grades, em regime fechado, pelas malvadezas que praticou nesses buracos do mundo. Era ruim que só o diabo.
Quando esteve vendo o sol nascer quadrado, mandou pelo menos meia dúzia de desafetos falar com Deus. Aqui fora, ninguém sabe quantos despachou desta para uma melhor. Por essas “jabuticabas” de nossa justiça, ganhou liberdade e está solto esparramando terror nesse mundão de Deus.

Já Cícero, um hominho de pouca estatura, magrinho, com os bracinhos e as pernas que mais pareciam canudinhos de tomar refrigerante, era uma criatura com a índole de um passarinho. Uma bondade em pessoa. Temente a Deus e, pelo jeito, a muita gente. Fugia de encrencas, pois sabia que desavença não era sua praia. Não tinha músculos para encarar essas paradas. O jeito era ficar na dele, em paz com esse mundo e outros, se outros houvesse.

Malvadeza era grosso como papel de embrulhar prego, Cicinho era uma seda no trato com toda gente. Tião não levava desaforo para casa e cobria de sopapos o infeliz que tivesse essa ousadia. Cicinho não era assim. Pedia perdão por eventual ofensa que dele tivesse partido, assim, como perdoava a quem o tivesse ofendido; do jeitinho que pede a oração. Tião, dizem, nem batizado foi. Igreja? Só entrou uma vez para assaltar a sacristia.

Passava ao largo de qualquer templo fosse católico ou evangélico. O outro, o pequenino de quem falávamos, era casado com Claudete, mirradinha e mansa como ele. Tiveram três bacurizinos.

Mas o destino aprontou mais umas das suas e fez que essas duas criaturas de quem estamos falando, tão desiguais, viajassem juntas no mesmo trem da Mogiana. Isso, estou dizendo, aconteceu lá de priscas eras, quando viajar de trem era sinônimo de conforto e segurança.

Cicinho embarcou em Rifaina. Vivia ali, naquela cidadezinha acanhada à beira da represa. Antes de embarcar, numa birosca daquela gare, reforçou o estômago com pastel, quibe e empada de palmito. Esse reforço iria segurar o apetite até Campinas, seu destino final. Foi de segunda classe, grudado na janela apreciando a paisagem. Era pé de café e de cana a não poder mais. Lá ia ele embalado pelo balanço gostoso do trem pensando em Claudete e nos bacuris. Quase adormeceu. Ia pegar no sono não fosse o trem parar na estação de Franca. E trem quando para faz barulho. Quem entra no trem? Quem? Adivinhem! Isso mesmo, Tião Malvadeza.

Entrou cheio das vontades. Viu lugar vazio ao lado do nosso hominho e se encheu de banca. – Chega mais pra lá, criatura. Só vou descer em Ribeirão. – nem deu bom dia e já foi chamando o pobre de “criatura”.

Pois não, senhor – respondeu a criatura resignada e obediente.

Malvadeza não disse mais uma só palavra, foi se esparramando no assento, prensando Cicinho junto da janela. Este ficou quietinho conforme mandavam sua índole e sua coragem.

Passado um tempinho, o trem partiu. Próxima parada? Ribeirão Preto. Ia ter que suportar o incômodo até lá. Cicinho ainda conseguiu dar uma viradinha de lado e deu uma medida no tamanho do homão, quando viu o cabo de uma garrucha no cinto do valentão. Cicartiz no rosto, garrucha no cinto, só podia ser o tal de Malvadeza que vivia aterrorizando a região. Sim era ele, conjecturou nosso amiguinho.

Malvadeza adormeceu ligeiro, foi então que Cicinho notou que na redondeza os olhares se dirigiam para onde esta sentado. Olhares ansiosos, medrosos. Também pudera, tinham identificado Malvadeza que já puxava seu ronco em sono pesado.

Cicinho teve todo o medo do mundo. Começou a passar mal. Lá em suas entranhas o quibe começou a arengar com a empada, essa por sua vez brigou com o pastel. Não se entendiam. Foi então que o estômago resolveu botar essa trinca para fora e fez Cicinho devolver aquela gororoba justamente no colo de Malvadeza. Só teve tempo de ouvir o passageiro do banco da frente dizer:

– Malvadeza, quando acordar, vai espetar o magrinho! – mas o ogro nem ouviu, nem acordou E lá ia o trem. O pessoal do entorno na expectativa, vira e mexe olhavam para o coitadinho, antevendo a desgraça. Mas ninguém sabia de uma coisa: Cicinho era um danado de esperto.

O trem foi chegando em Ribeirão Preto e Malvadeza despertou. Viu aquela massa nojenta no seu colo e olhou com sua cara de bravo para Cicinho. Este tirou um lencinho do bolso, ofereceu o paninho para Malvadeza e perguntou com a voz mais meiga do mundo:

– O senhor melhorou?

De repente me vejo passando pela calçada de chão batido do pequeno chalé do antigo Centro Espírita, em Jaguaribe, o vermelho das papoulas ...

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De repente me vejo passando pela calçada de chão batido do pequeno chalé do antigo Centro Espírita, em Jaguaribe, o vermelho das papoulas cheias rivalizando seu brilho com os ramos amarelos das rainhas do prado derramadas no muro vizinho de Hermano José. E Hermano José sentado de través no vão da sua janela.

O momento nacional nos impõe uma reflexão sobre a postura ética na administração pública. É preocupante a crise de credibilidade por que ...

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O momento nacional nos impõe uma reflexão sobre a postura ética na administração pública. É preocupante a crise de credibilidade por que passam as instituições responsáveis pela gestão da coisa pública. Há de se recuperar o interesse público como propósito maior da existência do Estado, sob pena de se verificar o fenômeno da ingovernabilidade.

Nascimento e morte. Natal e Paixão. As principais datas que marcam a história de Jesus. O nascer de uma era, que consolida a mais elevada ...

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Nascimento e morte. Natal e Paixão. As principais datas que marcam a história de Jesus. O nascer de uma era, que consolida a mais elevada mensagem outorgada à humanidade, e o fim de sua passagem, que revela no abominável plebiscito o maior equívoco cometido na história do planeta.

Não alcancei Heitor Villa-Lobos; já os irmãos José e João Baptista Siqueira, quando faleceram, ainda era criança vivendo nos arredores ca...

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Não alcancei Heitor Villa-Lobos; já os irmãos José e João Baptista Siqueira, quando faleceram, ainda era criança vivendo nos arredores campinenses, sem instrução musical formal. Mas, já adulto, conheci e me aproximei de um baluarte da música, uma pedra fundamental na composição brasileira, e é desta coluna artística que brota, por exemplo, a primeira Sonata para piano cheia de encantos rítmicos,
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simplicidade, marca registrada no uso dos ornamentos, e dos vetores intervalares como a quarta justa. Tão idiomático é o estilo de Edino Krieger que, seguindo coerência composicional, as quartas, e sua inversão em quintas, estruturam-se em temas de pura sonoridade, timbre e nostalgia na segunda Sonata para piano , concebida em abril de 1956, na capital britânica.

Temos a sorte de tê-lo longevo, e, ao longo de suas mais de nove décadas de existência, podemos sorver de sua mente criadora, atuando não só por meio da própria obra, quanto como pelos cargos que exerceu na promoção das artes e dos artistas nacionais. Ele mesmo, dentre muitas homenagens que recebera pela passagem de seu nonagésimo aniversário, relembrou no programa Harmonia da Rede Minas, muito de sua trajetória.

O álbum Edino Krieger entre amigos é produção caseira dedicada com amor à sua esposa Nenem, e aos frutos dessa longa relação de parceria e apoio mútuo. Tem, na apresentação do encarte, palavras de Tim Rescala, notável humorista-compositor que disponibilizou seu estúdio onde se deram parte das gravações:

O músico, como todo artista, sempre tem alguma referência, alguém que admira, seja pelo talento, pela obra ou mesmo pela personalidade. É difícil lembrar de um outro músico por quem a classe musical nutra tanta admiração [...] da mesma forma que criou obras fundamentais para a música brasileira, deu condições para que seus colegas também criassem. Da mesma forma que abriu caminhos, deu condições para que outros abrissem. Há, não só no Brasil mas no mundo, poucas pessoas assim [...] em tempos difíceis, confusos e difusos, como este em que vivemos, este registro de Trio Aquarius e Duo Santoro de algumas obras de Edino é um alento. Resume uma trajetória, mostra um caminho, dá um norte. Que privilégio é ouvir de perto as obras do mestre e ser espectador, de alguma forma, de seu processo criativo. Que privilégio é tomar um vinho com o mestre, jogar conversa fora, na companhia de sua cara-metade, que é pra ele fundamental, assim como, para ela, fundamental ele também é. E para nós também, os privilegiados.

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O próprio Edino refere-se a este álbum como fruto de uma autêntica amizade; os intérpretes são muito próximos da família Krieger, e por vezes, já tocaram, inclusive como estreia, suas obras. O disco vai desde uma Sonata para violino solo (opus 1) feita na adolescência, sob as primeiras orientações de Hans-Joachim Koellreutter, aos seus dezesseis anos; até obras estreadas em Bienais de Música mais recentes, como o ciclo dos Estudos Intervalares. O álbum abre com uma singela peça, Chôro Manhoso, concebido aos vinte e quatro de agosto de 1956, e dedicado a Dinorah Krieger, sua irmã. A versão original é para piano solo e podemos ouvi-la pelas mãos de um intérprete muito conhecido e velho amigo dos Krieger, Miguel Proença .

Na Europa é comum que grandes mestres tenham versões e versões do original de suas peças, transcritas em novas instrumentações; é uma forma de ampliar a percepção, e de que as obras sejam mais conhecidas e compartilhadas por diferentes grupos e intérpretes: quando a música transcende a própria concepção originária. É do pianista mineiro Flávio Augusto, membro do Trio Aquarius, essa e as demais versões em trio (Sonatina e a valsa Nina, também na concepção primeira para piano).

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A Sonatina para piano solo, – que aqui trago na sutil e sensível interpretação do pianista gaúcho Alexandre Dossin – é, no amistoso álbum, incrementada com notas pedais de um tênue vibrato ao violoncelo, no primeiro tema que é suportado com compartilhamento da melodia entre o violino, ora só, ora dobrado pelo violoncelo no segundo tema do primeiro movimento. Noutros momentos, o grave do piano é dobrado com o violoncelo, dando um reforço timbrístico, num som composto. Já no segundo movimento, o sério e desafiador Allegro, a dosagem é bem equilibrada entre os três instrumentos, revelando uma transcrição bem elaborada tecnicamente: Flávio Augusto foi feliz ao traduzir para trio essa peça. Aliás, o Trio Aquarius é maduro em concepção camerística, extremamente entrosado e convence nessa versão que bem poderia ter sido concebida pelo próprio Edino. É inspirador ver quando intérpretes se dedicam nesse nível à obra de algum artista criador de nosso solo pátrio; e Edino merece!

Na valsa Nina, estruturada numa harmonia saudosa, rememorando o espírito seresteiro, cancioneiro, o Trio AquariUs brinda-nos com a leveza que a obra merece: audição despretensiosa e leve, deixando-se levar por onde a memória e o espírito nos conduzirem. Mas, é na obra Trio Tocata que a interação criativa entre os instrumentos, revela uma originalidade da concepção e uma maturidade de uma criação robusta.
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A peça já começa com um uníssono longo e arrebatador que desemboca numa dissonância provocante: um autêntico Edino. Essa sonoridade sinuosa, com quartas aumentadas, mais ásperas, e articuladas por ritmo insistente, marcante, é característica de muitas de suas obras mais elaboradas. Dessa abertura mais séria e árida, surge um arrasta-pé modal, um baião cheio de molejo no qual violoncelo e violino vão se desafiando, sem perder os ataques reiterados de uma agressividade latente, como é agressiva a seca nordestina. A rítmica mais rude retorna, com a repetição de baixos ao piano, ou acordes insistentes no agudo, e dessa harmonia, brota desmembramentos em conversações timbrísticas. Um implícito rememorar de contornos melódicos villa-lobianos, e uma vez mais a emulação do baião: como se fora um baião telúrico, de uma terra rachada, num fundo de cacimba, e, em cada rachadura, uma lembrança espirituosa. A obra termina como começa, não sem antes um ponto final, também ao estilo de Villa-Lobos: uma tônica exclamativa.

O ciclo de seus Estudos Intervalares já em si merece um ensaio analítico exclusivo. Destaco a mimetização do mecânico, do maquinal presente nos estudos Das segundas e Das terças, com ritmo frenético em cachos de notas que mais parecem sintetizadas: idéias que se contrapõem e se ratificam a partir de trinados ou arpejos vagos e ressonantes. Já harmonizações comuns no jazz se ouvem no estudo Das quartas, sem que se perca um coerente motorizado canto indígena, relembrando novamente Villa-Lobos. Ou o pulsar de uma citação em ritmo de maracatu no Das quintas. E também o baião sem baixo fixo, no Das sextas, repleto de referências. De cantadores, como numa moda ou toada de viola do Centro-oeste, ou do ritmo bem nordestino com contorno modal, à valsa opus 64 nº. 2 de Chopin, em dó sustenido menor, numa intertextualidade bem humorada, misturada a partir desse que foi o intervalo eleito no século XIX como o mais romântico no repertório, sobretudo pianístico.

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O Nordeste de sua amada Nenem também se faz presente no Das sétimas, e o baião, dessa vez, bem autêntico quanto à marcação, é pulsado numa melodia simples e gingada, e com o incremento das sétimas arpejadas. Edino é mais Edino no Das oitavas, quando elabora um ritmo de mãos alternadas que progride cromaticamente e se encerra vibrante e viril: traço presente em diversas de suas obras. O Das nonas resume os anteriores no que de simbólico ou arquetípico o ciclo contém.

Instrumento primeiro de seu Edino é o violino. Não por outro motivo decidiu escrever uma Sonata solo em seu opus inaugural. É peça dedicada ao seu pai, músico que o conduziu nos primeiros passos da vida e da lida musical. A simplicidade de seu Edino o impede de reconhecer o valor para além da aprendizagem das formas barrocas. A interpretação é do mineiro Ricardo Amado que satisfaz o compositor, tendo sido o próprio violinista a sugerir a inclusão dessa obra histórica sobre a qual se pode traçar toda a trajetória criativa de seu Edino, até a mais recente, de que tive o privilégio de colaborar, honrosamente, na edição.

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A última obra do álbum é feita para os gêmeos Santoro. É uma emulação entre os violoncelistas, alçando uma independência de peça com forma e caráter próprios, numa das partes que constitui o destaque máximo dos solistas de um concerto. Cadência, num sentido de encaminhamento, de concatenação de idéias, também explora a tessitura do instrumento e desafia o instrumentista a explorar os recursos expressivos que o particularizam. Aliás, falando em particularidades, Edino, quando ouvido em diversas obras, salta-nos aos ouvidos, em estilo e jeito pessoais de tratar os sons, sua música é sinal indelével.


Por isso, diante de sua produção rica e diversa, mas de uma coesão admirável, além desse álbum, permito-me ainda falar de uma obra cuja vivacidade composicional é de um orgulho nacional como poucos feitos na atualidade: o Concerto Duplo para violões e cordas com arco [Edino Krieger: Concerto for two guitars & string orchestra]. Edino se congraça numa tradição perpetrada por grandes nomes nacionais como Camargo Guarnieri, Francisco Mignone, os irmãos Siqueira; além de Osvaldo Lacerda, Marlos Nobre e o próprio Villa-Lobos e Guerra-Peixe. Ou ainda estrangeiros radicados no Brasil, como Ernst Widmer que foram felizes no uso sistemático dos contornos modais eclesiásticos, já com seus jargões nossos, dessas referências da rica região nordestina, muitas vezes, tutelada pelo sudeste. É como se Edino vestisse a couraça de vaqueiro e o chapéu que o caracterize como um sertanejo-catarinense, numa caatinga imaginária em seu coração e mente criadora. Mesmo assim, Edino se mantém simples, como um velho amigo do Brasil, em suas idéias (perdoem-me o saudosismo no acento...) que são tão ricas a ponto da obra poder-se estender por mais tempo, e Edino, no entanto, decide encerrar com simplicidade e sinceridade: marcas de personalidade inconfundível.

É lamentável que programas icónicos da televisão brasileira, como o Roda-Viva, por exemplo, nunca tenham pautado entrevistas com nomes da música como Mozart Camargo Guarnieri, José Siqueira, Francisco Mignone, Jamary Oliveira ou Edino Krieger. Ouçam Edino, ouçam o Brasil que há em seu Edino, ouçam-no em inteligência e perspicácia musical! Ouçamo-nos através de suas obras: é esse nosso dever enquanto diletantes, amantes das Artes, e percebamo-nos como apreciadores sinceros dessa nossa Arte própria, por meio desses nossos grandes referenciais.


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