Li e gostei. Gostei muito, como sempre. E li rápido, em dois dias apenas, um livro de 239 páginas, como costumo ler o que me dá...

gonzaga rodrigues literatura paraibana livro cronicas
Li e gostei. Gostei muito, como sempre. E li rápido, em dois dias apenas, um livro de 239 páginas, como costumo ler o que me dá prazer. Não quer isto dizer, claro, que li superficialmente – ou perfunctoriamente, como diria algum esnobe. Ao contrário. Li com a atenção, diria mesmo a devoção com que se lê os livros que merecem. E não exagero. Nem pretendo agradar o autor, que, aliás, anda a merecer todos os agrados, não só por sua consagrada obra, mas agora também por seu título de nonagenário lúcido e quase lépido. Por isto, permitam-me iniciar recomendando, a quem ainda não leu, Com os olhos no chão, MVC/Forma Editora, João Pessoa, 2023, a mais recente publicação de Gonzaga Rodrigues, hoje decano de nossa melhor crônica.

Um clássico da literatura universal, de autoria do italiano Carlo Collodi, publicado originalmente em 1881, foi tratado pela Disney co...

pinoquio literatura infantil sociedade
Um clássico da literatura universal, de autoria do italiano Carlo Collodi, publicado originalmente em 1881, foi tratado pela Disney como o boneco de madeira mentiroso, que tinha como principal característica o nariz que aumentava a cada mentira.

Dentro da Mercearia, os três homens bebericam a intervalos espaçados, fumando nesse tempo. Escutaram o barulho do ônibus chegando, ...

Dentro da Mercearia, os três homens bebericam a intervalos espaçados, fumando nesse tempo. Escutaram o barulho do ônibus chegando, e saindo, depois de rápido momento, sem nada comentar, nem se dispor a dar uma olhada, embora Dega Veíno, pesando açúcar por trás do balcão, tivesse ângulo suficiente para ver na direção da parada. Isso que fez. Apertou ligeiramente as pálpebras e filtrou um pouco da claridade lá fora. Alguém se movia por lá, no outro lado do canteiro, mas nem dando para reconhecer dali. Um doce se consegue ficar parado. Até o poste fica tremido. Já foi para um canto, para o outro, às vez anda. Pára. Parou de novo, agora. Tinha um pano na cabeça, e agora tirou. É bem um doido. Conversando sozinho, no meio do tempo.

O filme O Filho (2022, Florian Zeller) nos parte o coração. Ainda mais num domingo, enclausurada de São João, onde todos estavam dan...

cimema literatura resenha critica
O filme O Filho (2022, Florian Zeller) nos parte o coração. Ainda mais num domingo, enclausurada de São João, onde todos estavam dançando forró nas festas do interior. Ou pelo menos deveria ser assim. O enredo: um casal separado, um filho, um adolescente sem lugar, Nicholas (Zen McGrath), já que o pai Peter (Hugh Jackman) casou de novo com uma mulher mais jovem, Beth (Vanessa Kirby), e acabou de ter um bebê. A sua ex-mulher, Kate (Laura Dern), aparece sem avisar para pedir ajuda ao filho ausente da escola e com sinais de depressão. A partir daí, a gente assiste a uma solidão a cada dia mais profunda desse filho, a sua tristeza inviolável, ao mesmo tempo, ao seu esforço para se adaptar a viver novos dias junto ao pai, a madrasta e ao irmãozinho. O colorido da vida não lhe chega, mas as sombras aterrorizadoras de um não lugar de afeto.

Nas duas décadas que se seguiram à instituição da República no Brasil, dois grupos disputavam o poder político na Paraíba. Um sob a o...

paraiba castro pinto saturnino
Nas duas décadas que se seguiram à instituição da República no Brasil, dois grupos disputavam o poder político na Paraíba. Um sob a orientação de Venâncio Neiva e Epitácio Pessoa, respectivamente o governador e o secretário-geral do primeiro governo republicano no Estado. O outro, sob o comando de Álvaro Machado e do seu fiel seguidor, o padre Walfredo Leal. Em 1912, em um acerto conciliatório, os dois grupos resolveram indicar o então senador João Pereira de Castro Pinto para a Presidência do Estado por conta do bom relacionamento que ele mantinha com as duas correntes políticas adversárias. Castro Pinto era amicíssimo de Epitácio Pessoa, seu colega de turma na Faculdade de Direito,

Vizinha melhor do que Dona Zefinha ainda não nasceu. Prestativa, sempre trazia no coração aquele sentimento digno de apreço e cons...

cachorro adestramento cronica bom humor
Vizinha melhor do que Dona Zefinha ainda não nasceu. Prestativa, sempre trazia no coração aquele sentimento digno de apreço e consideração.

— Sempre que precisarem estou por aqui – era sempre assim, disponível às eventualidades que surgissem – Precisou é só chamar, viu?

Discreta, não se ocupava em saber de outras vidas que não a sua e de suas meninotas criadas com carinho e rigor.

Penso que ainda está para nascer uma proposta de ordenamento político melhor para um povo do que o chamado socialismo democrático. Nã...

desigualdade socialismo democratico justica social
Penso que ainda está para nascer uma proposta de ordenamento político melhor para um povo do que o chamado socialismo democrático. Não esse tipo de regime que algumas siglas partidárias sugerem nas suas legendas de forma hipócrita, já que na prática nada se faz de socialismo, e sim um sistema que pretenda a participação efetiva da comunidade nas decisões que projetam seu futuro de forma justa.

Maquiada a capricho, os cabelos vastos arrumados, soltos, em ondas bem acentuadas, livres. O olhar voltado para o verde aguardado. ...

surpresa decepcao amorosa cronica conto
Maquiada a capricho, os cabelos vastos arrumados, soltos, em ondas bem acentuadas, livres. O olhar voltado para o verde aguardado. Um verde que poderia tomar outra tonalidade, dependendo da coloração do diálogo previsto, da confirmação do enlace previsto.

A justiça vem a ser a cura para a perversidade. Platão , Górgias , 478d Sócrates falava na ágora para quem quisesse ouvi-lo, não só...

socrates gorgias democracia
A justiça vem a ser a cura para a perversidade.
Platão, Górgias, 478d

Sócrates falava na ágora para quem quisesse ouvi-lo, não só aos seus discípulos, como o filósofo Platão. A ágora era o lugar do discurso público, da arenga, por excelência, que suscitou, inclusive, o verbo agoréu (ἀγορέω), com o sentido de “falar em praça pública”. E Sócrates falava com categoria (κατεγορία), literalmente, “falar na ágora, de cima para baixo”, proveniente de ágora (ἀγορά), sobretudo destruindo, com argumentos, o discurso dos sofistas e retóricos. O modo como ele se dirige a Polos, amigo de Górgias, no diálogo que tem este nome, sobre a infelicidade que seria ele, Polos, deslocar-se a Atenas, lugar em toda a Grécia em que a palavra é mais livre, e ali fracassasse, por se ver ser privado de falar (461e), é emblemático. Não importa a discordância, o que importa é que a liberdade de se exprimir seja garantida.

Pra começar, essa coisa de que "quem tem boca vai a Roma" é a maior furada. Nem sentido faz. Na verdade a origem desse legue...

Pra começar, essa coisa de que "quem tem boca vai a Roma" é a maior furada. Nem sentido faz. Na verdade a origem desse leguelhé é a revolta que os povos conquistados na antiguidade tinham da Roma poderosa. Portanto o correto seria "Quem tem boca VAIA Roma". Lembro disso a propósito da constatação de que viajar ao exterior sem ter ao menos um conhecimento básico do idioma do país de destino é um convite ao caos. Portanto, não somente erroneamente Roma, mas em qualquer lugar há de se ter "boca", saber falar.

" São as coisas pequenas de que têm sido feitos meus livros " (Go...

literatuta paraibana gonzaga rodrigues
"São as coisas pequenas de que têm sido feitos meus livros"
(Gonzaga Rodrigues)

Clamoroso equívoco, diria Eduardo Portela, quem considera a crônica um gênero menor, um desdobramento marginal ou periférico do fazer literário, quando ela é, sem tirar nem pôr, o próprio fazer literário.

Não faz muito tempo, escrevi que imaginava o cronista à semelhança de um camelô vociferando a céu aberto, vendendo o seu produto: o cotidiano, que é a matéria do dia a dia que nutre a crônica, quer o camelô grite a plenos pulmões, quer se feche em copas, introspectivo, conversando com os seus botões, consigo mesmo, embora procure fazer com o que ele diz repercuta entre os que se aglomeram inamovíveis ao seu derredor.

literatuta paraibana gonzaga rodrigues
Kitap Yayinlanirken
Se o título do livro de Gonzaga Rodrigues é “Com os olhos no chão”*, Antonio Candido utiliza um termo mais ou menos semelhante para observar “(...) que a celebração da vida ao rés-do-chão pela crônica é enfocada na tradição da prosa modernista, como conversa aparentemente fiada”.

Aqui, valho-me de um texto do poeta Mario Quintana: “Subnutrido de beleza, meu cachorro-poema vai farejando poesia em tudo, pois nunca se sabe quanto tesouro andará desperdiçado por aí... Quanto filhotinho de estrela atirado no lixo”.

literatuta paraibana gonzaga rodrigues
Desiderius Erasmus
De olhos no chão, o cachorro-crônica de Gonzaga Rodrigues também fareja poesia em tudo, pois sabe cascavilhar e localizar nas coisinhas miúdas, no aparente monturo, nos sobejos de Deus, os filhotinhos de estrela que constelam e iluminam a sua linguagem solar. É um “demiurgo de inutilidades”.

Alguns se admiram da memória de Gonzaga quando ele reconstitui os episódios da infância, da juventude, como se os estivesse vivendo no calor da hora. A mim me alumbra não só a memória, mas, sobretudo, a maneira como ele a concatena de forma inteiriça, com a linguagem firme, ereta espinha dorsal que não se verga, não se dobra, diante dos seus novent’anos recém-inaugurados.

literatuta paraibana gonzaga rodrigues
Manet
Em “Com os olhos no chão”, a par dos pequenos causos que só adquirem significado, importância, grandeza, porque Rodrigues os enlaça com os cordéis dos “demiurgos de inutilidades”, outros escritos tratam da alma das ruas e dos homens, anônimos ou não, que compõem a história da Paraíba. Ou seja, abordam assuntos e temas mais abrangentes, pois em Gonzaga Rodrigues, convivem em harmonia e sem riscos de abalroamentos, o cronista, o articulista, o historiador, o poeta etc.

literatuta paraibana gonzaga rodrigues

* Gonzaga aproveitou o excelente prefácio de Antônio Barreto Neto do livro “Notas do meu lugar” (1978), de sua autoria, como texto de abertura de “Com os olhos no chão”, cuja concepção gráfica é do competente designer e saudoso poeta Juca Pontes. O filho de Gonzaga, Paulinho Rodrigues, colaborou na seleção dos textos. A capa do livro é do excelente Flávio Tavares.

Não havia pranto em volta da nossa amiga, à exceção dos olhos da filha que se marejaram quando da nossa chegada ao velório, apenas nest...

santo catolico morte separacao
Não havia pranto em volta da nossa amiga, à exceção dos olhos da filha que se marejaram quando da nossa chegada ao velório, apenas neste momento. É como se aquela mãe houvesse passado a ordem aos três rebentos, uma moça e dois rapazes: “Sem choro”. Não o fizesse para poupá-los do desespero, assim o faria a fim de não comprometer o bom humor com que sempre se postou na vida. Em seus bons momentos, ninguém ficava sem rir ao seu lado.

O ludismo exerce um importante papel no exercício da expressão verbal, desde o instante em que se faz a manipulação livre dos fonemas...

linguagem educacao ludico
O ludismo exerce um importante papel no exercício da expressão verbal, desde o instante em que se faz a manipulação livre dos fonemas, até quando é considerado o efeito da polissemia das palavras, colaborando para ambiguidade como instrumento dessa investigação linguística que a criança necessita como forma de explorar também o mundo. Ela altera partes das palavras para experimentar, utiliza-se de abstrações à procura do concreto. Joga com as palavras, transformando-as para conhecer o quanto de força argumentativa/retórica elas possuem.

Eu lia uma dessas pesadas Histórias da Arte, quando tive um alívio enorme: depois de mais uma vez atravessar a Renascença Italiana...

haicai bonsai saulo mendonca marques arte japonesa
Eu lia uma dessas pesadas Histórias da Arte, quando tive um alívio enorme: depois de mais uma vez atravessar a Renascença Italiana – cheia de calvários, mártires, batalhas e juízos finais – entrei numa leve e clara abordagem da arte japonesa. Com isso entendi porque ela foi agente importante da grande revolução ocorrida com o Impressionismo. Imagine o frescor que os europeus da época sentiram na descoberta, por exemplo, das Trinta e Seis Vistas do Monte Fuji, de Hokusai.

A fé é um sentimento profundo que reside no coração de cada ser humano. É a crença inabalável em algo ou em alguém, mesmo quando não há...

fe sentimento religiosidade otimismo
A fé é um sentimento profundo que reside no coração de cada ser humano. É a crença inabalável em algo ou em alguém, mesmo quando não há provas concretas. É uma convicção que nos sustenta e nos impulsiona a continuar acreditando, mesmo diante dos obstáculos e das incertezas da vida.

O pulo da gata Só mesmo a super heroína Para olhar o mundo de ponta cabeça E, mesmo subindo pelas paredes Achar tudo...

poesia tatui cristina siqueira
O pulo da gata
Só mesmo a super heroína Para olhar o mundo de ponta cabeça E, mesmo subindo pelas paredes Achar tudo normal
Era aquela lua…
Entre as grandes luas há uma lua que colhi com gosto meio despida e orvalhada por meus olhos em amor tocada