Células-tronco, Células-folha, Células-raiz

Confesso não ter autoridade nenhuma para discorrer sobre células-tronco, assunto tão em voga na atualidade. Não sei o que são, não sei para que servem e nem que forma têm. Enfim, não consigo imaginar como se dará a sua utilização para a existência de um mundo melhor.

Contudo, o pouco que li é suficiente para inferir que o tema não é essa coisa tão endiabrada que algumas entidades e organizações (principalmente as religiosas) andam espalhando por ai.

Aliás, é interessante relembrar a resistência erigida contra as novidades científicas ao longo da História. Sob a reprovação de uma divindade austera, ditadora de dogmas intransponíveis, os cientistas (ai incluídos físicos, astrônomos e químicos) jamais poderiam ter revelado a teoria heliocêntrica, e também não poderiam ter levado adiante as pesquisas que conduziram ao surgimento da anestesia. Para a Igreja, todos os corpos celestes teriam a Terra como centro absoluto e a sensação de dor deveria ser imposta inexoravelmente ao corpo humano nas intervenções cirúrgicas.

Ainda bem que, nesse embate, a ciência sagrou-se vencedora e nós, frágeis mortais, temos hoje a comodidade do entorpecimento analgésico caso tenhamos que nos submeter à aplicação de uma pontezinha de safena básica.

A história parece se repetir, agora, com as chamadas células-tronco. Tanta algazarra se fez que a celeuma foi bater nas portas da Justiça. E o Supremo Tribunal Federal, em um momento de extrema lucidez jurisdicional, veio finalmente a autorizar as experimentações que, conforme anunciam, trará benefícios para os portadores de deficiência.

Sejamos realistas e deixemos de lado as paixões religiosas diante de tão delicada etapa do caminhar humano. Se as pesquisas com células-tronco embrionárias têm o condão de promover avanços na ciência biológica e, assim, proporcionar o bem estar da pessoa humana, que sejam bem-vindas e que venham, também, as pesquisas com células-folha, células-raiz, células-flor, células-árvore...

Cuba: Trocando 6 por Meia Dúzia?

Comovente e digna de reflexão a curta entrevista publicada na Revista Veja, edição de 28.5.8, dada pela cubana Yoani Sánchez na sessão Auto-retrato.

Yoani, que sobrevive ministrando aulas de espanhol para estrangeiros, foi incluída, pela Revista Time, na lista das 100 pessoas mais influentes do mundo, em razão do blog que escreve há um ano: o Generación Y. Ela viveu durante dois anos na Suiça e teve que voltar ao "território de Fidel" para cuidar de seus pais, que estavam doentes. Em seu retorno, foi advertida de que JAMAIS poderia sair de Cuba novamente.

Outro ponto destacado na entrevista foi a precariedade dos serviços de telecomunicações. Segundo a entrevistada, o acesso à internet constitui privilégio de estrangeiros e de altos funcionários do governo ditatorial. E, para os poucos civis a quem se permite o uso da rede mundial, os preços são exorbitantes, chegando a custar quase um terço do salário do cubano médio, por hora de conexão.

É surpreendente constatar que um país ocidental ainda esteja mergulhado em sombras políticas tenebrosas, sob a batuta de uma liderança absolutista, que se julga no direito perpétuo de governar sem promover a consulta eletiva de seu povo. Também é difícil conceber que a autoridade estatal possa ditar o destino de uma pessoa, a ponto de restringir o direito de locomoção, sem que lhe seja imputado nenhum crime.

Oxalá as mudanças que se anunciam timidamente naquele país, com o afastamento do "Dono da Ilha" e a passagem do cetro para o seu irmão, não se traduzam apenas em uma tentativa de angariar um pouco de simpatia da comunidade internacional, que ainda não conseguiu digerir o fuzilamento sumário de dissidentes políticos. Se for assim, a substituição do governante, para os cubanos, significará mero cumprimento de rito, ou seja, apenas uma troca de 6 por meia dúzia.

O Melhor Alimento

Vai aqui esta pergunta para você: qual o alimento que não se vê, não tem cheiro, nem sabor, não precisa mastigar e é dado de graça? Adivinhou? Claro que sim... Esse alimento é o oxigênio que respiramos de segundo a segundo, que nos energiza, que nem damos pela sua invisível presença.

Você é capaz de saudar, num almoço, uma picanha ou então uma feijoada, e emitir aquele sinal de satisfação por meio de um sonoro e inconveniente arroto. No entanto, o alimento a que me refiro se processa em silêncio. Surge com a inspiração, quando o oxigêio é tragado e levado aos pulmões, seguindo-se a expiração, quando o ar é expelido em forma de gás carbônico. Um processo de nutrição tão importante, mas que a grande maioria não toma conhecimento. A coisa funciona automaticamente.

Pena que esse ar tão precioso, tão necessário para as nossas vidas, vez por outra seja contaminado, poluído, envenenado.

Vamos, leitor, respirar melhor. Vamos às praias e aos parques. O ar da cidade está muito sujo. Isto sem falar na fumaça que os adoradores do cigarro jogam no ar, obrigando-nos a absorver o veneno da nicotina...

O ato de respirar tem a sua conotação didática. A vida para ser bem vivida consiste num dar e num receber, que, segundo Deepak Chopra, é uma lei. Lei da solidariedade. Ninguém pode, nem deve reter por muito tempo o ar que respira. Tem que devolvê-lo à Natureza. E esta é a grande lição da vida. Respirar é se comunicar com o meio ambiente.

O Trema Vai Deixar Muita Saudade

Passada mais de uma década da assinatura do tratado para a unificação ortográfica da língua portuguesa, a nação-matriz, Portugal, embora tenha subscrito o acordo no início da década de 90, finalmente deu sua aprovação para que sejam adotadas as providências necessárias à uniformização.

Integram o acordo, além de Portugal e Brasil, os países africanos Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe e o asiático Timor-Leste. A delegação da região espanhola da Galícia, onde se fala um dialeto bastante semelhante ao português, participa como órgão observador do ajuste.

Portanto, logo, logo, teremos, nos países lusófonos, a atenuação das diferenças na escrita do idioma de Camões, diferenças estas que são apontadas como o fator que mais dificulta a difusão do português nos meios de comunicação deste mundo globalizado.

Segundo a Wikipedia, no Brasil, em cerca de 0,5% das palavras haverá modificações. Estas alterações incidem, notadamente, na eliminação dos acentos em terminações -éia e -ôo, como em assembléia e enjôo, que assim serão escritas: assembleia e enjoo.

Outra regra consiste na completa eliminação do TREMA. Por exemplo: as palavras freqüência e lingüiça passarão a ser grafadas frequência e linguiça, respectivamente.

Mas são os portugueses que terão maiores alterações em sua forma de escrever. As mudanças afetarão cerca de 1,6% do vocabulário total, e as mais significativas consistirão na eliminação sistemática das consoantes c e p em palavras em que tais letras sejam invariavelmente não articuladas nas variantes cultas da língua, como óptimo e correcto, passando a escrever-se ótimo e correto.

Apesar do acordo, continuará a haver diferenças no português dos dois lados do Atlântico. Os portugueses vão continuar a escrever "António" e "género" com acento agudo, enquanto no Brasil fica o circunflexo. Também vão manter o "c" em "facto", porque "fato" em Portugal é roupa - e tiram o "p" que não pronunciam na palavra "recepção".

Em termos históricos e culturais, é importante a existência de características locais na pronúncia dos povos de língua portuguesa. A unificação da escrita, entretanto, se mostra salutar e assaz oportuna, até mesmo para acabar com essa dicotomia com a qual sempre nos deparamos na internet, em que "sites" e programas são oferecidos nas opções “português europeu” e “português do Brasil”.

É forçoso reconhecer, contudo, que, do lado de cá, nós, brasileiros, veremos o idioma português perder um pouco de seu CHARME com a saída do trema, aqueles dois pontinhos simpáticos, simétricos, escandinavos, que são colocados para diferenciar os “us” pronunciados e os não pronunciados nas sílabas “que” e “qui”.

Além disso - cá pra nós - escrever a palava VÔO sem o “chapeuzinho”... vai ser muito, muito esquisito...

Triste Álbum de Casamento

O terremoto que assolou o sudoeste da China, no dia 12, já contabiliza 68.109 mortes e 19.851 desaparecidos. Além disto, segundo as estatísticas daquele país, o número de feridos chega a 364.552 (fonte: Globo).

De todo o planeta está sendo enviada ajuda humanitária à região para somar-se aos esforços do próprio governo chinês, que decidiu atenuar os rigores da chamada "política do filho único".

As imagens da tragédia têm sido divulgadas exaustivamente nos meios de comunicação, e, como sempre acontece, são dignas de consternação aquelas que mostram o resgate de algum sobrevivente, aprisionado sob os escombros deixados pelo tremor.

As fotos mostradas no site Malgusto, embora não se enquadrem nesse tipo, são capazes de gerar o mesmo sentimento de comoção. Elas captam o desespero dos nubentes e convidados de uma cerimônia de casamento no momento em que o abalo praticamente destruiu a cidade de Chengdu, capital da província de Sichuan.


Artilharia Pesada contra o Fumo

O Ministério da Saúde, em convênio com o Instituto Nacional do Câncer, está lançando uma campanha nacional, dirigida principalmente aos jovens, contra o vício de fumar.

Já se comenta que a artilharia utilizada pelo Governo é das mais pesadas, com a utilização de imagens de grande impacto (a serem veiculadas nas embalagens de cigarros), mostrando algumas das conseqüências maléficas do fumo no organismo e na vida social do fumante.

Escolhi uma das ilustrações "mais leves" para apresentar neste espaço.

Outras imagens da campanha podem ser vistas no Blog do Alessandro Temperini. Clique na foto abaixo e - ATENÇÃO - prepare seu espírito para deparar-se com fotografias do corpo humano em circunstâncias aterrorizantes, provocadas pelo fumo.

Moral da história: fumar, tanto quanto cometer crime, definitivamente não compensa.

O Modo de Ver as Coisas

Muito infeliz esta frase do poeta carioca Vinicius de Moraes: "As feias que me perdoem, mas beleza é fundamental".

Afinal que beleza fundamental é essa a que se refere o poema? A beleza física? Mas essa varia de acordo com a nossa maneira de ver as coisas. Aliás, na vida, tudo é uma questão de ótica.

"Se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo se iluminará" - disse o meigo nazareno. É a tal coisa, dize-me como olhas as coisas e eu te direi quem és. Uma pessoa, por mais bela que seja, se trouxer na alma sentimentos de orgulho, de ódio, de inveja, perderá todo o brilho que a beleza lhe proporciona.

É que a beleza, para ser autêntica, tem que andar de braços dados com a bondade. Quem é feliz, quem se ilumina de sentimentos positivos não vê e nem pode ser considerado feio. Tudo lhe parece belo.

O poetinha, certamente para fazer humor, humilhou com as suas palavras as mulheres ditas feias, em seu entender. Muitas delas - quem sabe? - são sensíveis à beleza de seus poemas, enquanto outras, dotadas da "beleza física", talvez sejam incapazes disso.

A Mulher Através dos Tempos

As mulheres sempre se destacaram nas Artes Plásticas, não só como produtoras, mas, principalmente, como inspiradoras.

Vale a pena conferir este incrível vídeo, que mostra a transição de diversas pinturas clássicas que retratam mulheres ao longo de 500 anos da história da Arte ocidental.

O belo trabalho pode ser visto em Saatchi Gallery.

CPMF: A Ressurreição

Li na Folha Online que o Governo pretende ressuscitar, a todo custo, a falecida CPMF, travestida agora com outro nome igualmente pomposo: CSS (Contribuição Social da Saúde).

As justificativas são as mais estapafúrdias, dignas dos contos de fadas, e, como já se esperava, apresentam novamente como estribo a já famosa "necessidade de socorro ao sistema público de saúde".

Ora, ora, paciência... A contribuição foi retirada do bolso do cidadão brasileiro durante anos e o que se viu foi o atendimento médico governamental do país ir de mal a pior.

Pelo visto, o tributo, que deveria ser provisório, terá, na verdade, uma duração eterna. De vez em quando ele poderá até ser simuladamente exterminado - como aconteceu recentemente -, mas sempre ressurgirá sob as mais diversas denominações, tal qual a fênix, famoso pássaro mitológico que, quando morria, entrava em autocombustão e, passado algum tempo, renascia das próprias cinzas.

Lição de Vida

Mal me levantei, manhã cedo, para a caminhada diária, e fui logo dando graças às minhas pernas, às quais devo a prática desse salutar exercício. Aliás, já disse o renomado psicoterapeuta Og Mandino, que contar as nossas bênçãos deve se constituir num dever nosso de cada dia. E o que é contar as nossas bênçãos? É se regozijar de tudo aquilo que possuímos de bom e que, muitas vezes, esquecemos.

Então, nessa manhã novinha em folha, saudemos primeiramente os pés que movimentam o nosso corpo, este admirável instrumento que Deus nos deu. Calcemos o par de tênis, vistamos o short e a t-shirt, respiremos esse ar impregnado de oxigênio puro, e vamos à avenida, que já está cheia de pés pra lá e pra cá.

Pés de todas as dimensões. E, na caminhada, a gente nem se lembra deles. Nesse exercício as mãos têm pouco trabalho. Sua maior participação está em ajudar na nossa conversa, por meio dos gestos, e reforçar o ritmo das passadas.

Apressemos os passos e mergulhemos nessa multidão de praticantes do cooper. Todos caminhando à sua maneira. Todos com as suas singularidades. Singularidades no andar, no vestir, no falar, no cumprimentar. Há os que adoram levar os seus cachorrinhos a tiracolo. Há os que tapam os ouvidos com um walkman, ficando surdos ao murmúrio poético do mar, ao cochicho do vento, ao canto eufórico dos bem-te-vis. E tem ainda aqueles que tentam, com as suas rezas silenciosas, falar com um Deus longínquo, lá nas alturas, esquecidos de que Ele está dentro de cada um de nós. Está presente em tudo que nos rodeia.

Pernas, mãos, coração, pulmões, quanta coisa se beneficiando com essa caminhada que para muita gente é um sacrifício.

E ia eu refletindo sobre tudo isso, quando vejo o que eu não esperava, naquele momento e naquele espaço. Um jovem caminhando, não sobre os pés, mas sobre rodas. E notei que ele estava com um semblante muito alegre, sentindo-se feliz em participar daquela procissão matinal, os olhos se extasiando com a beleza da manhã, enquanto as mãos iam movimentando sua cadeira de rodas no asfalto da avenida.

Não estava sozinho. Ao seu lado um familiar mantinha com ele animada conversa. E o curioso é que seu contentamento contrastava com a tristeza de muitos, muitos de pés sadios, mas, certamente de mente enferma. Muitos que ainda não aprenderam a contar suas bênçãos. As bênçãos que a vida lhes dá gratuitamente.

Mas o pior – pensei – são os que ficam em suas camas, com preguiça de movimentar suas pernas ainda sadias. O jovem da cadeira de rodas tinha membros atrofiados, mas uma vontade férrea de viver. E, decerto, viu o que muitos não viram nesta manhã: o mar, as árvores, os pássaros, o céu, o sol, toda a natureza em festa. Ele dava, com o seu sorriso, uma excelente e o comovente lição de vida.


Livros de Fácil Acesso

Vivemos em tempos de tecnologia avançada... de modernidade...
E modernidade sugere conforto...

Eis alguns modelos de poltronas ideias para aqueles que apreciam uma boa leitura e fazem questão de ter sempre os livros prediletos por perto, e não só na cabeceira da cama.

funny chair

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Para ver mais sugestões de "comodidade literária", acessem o site FunForever

Saudade Antecipada

Vai chegar um dia em que ele será destruído. Mas enquanto isso não ocorre, deleitemo-nos com esse oásis que a Natureza nos deu: um quintal à antiga, com galinhas e galo, papagaio, mangueiras e coqueiros, pombos e passarinhos, canteiros e horta. E que dizer do seu silêncio ecológico? E que dizer dessa paz, longe das máquinas, longe dos televisores e dos telefones?

O homem, que foi á lua, que inventou tanta tecnologia, jamais fará este pau-brasil, cujas folhas o vento agita neste momento. Jamais fará este bem-te-vi que canta. Jamais construirá essas enormes mangueiras, castanholas e coqueiros e muito menos os seus frutos.

Fico olhando o meu oásis com uma saudade antecipada. Sim, chegará o dia em que ele será soterrado, afundado, destruído. Em seu lugar será erguido uma enorme construção com centenas de apartamentos, verdadeiras gaiolas humanas, lá no alto, longe da terra.

Todo habitante de apartamento é um prisioneiro. Acabou-se o tempo em que se dizia: “vou para minha casa”. A casa está se acabando, está se tornando uma intrusa. E, como toda prisão, os apartamentos são protegidos pela segurança. Ninguém entra nele sem o consentimento do vigilante, que olha para você meio desconfiado, pedindo identificação e imediatamente tentando se comunicar com a pessoa procurada pelo intruso.

Casa com quintal virou coisa fora de moda. Casa com cachorro, com a placa “cuidado com o cão”, está se acabando. Os apartamentos é que estão na moda. Tão na moda como a calça jeans, como os telefones celulares...

Voltando aos poucos quintais que ainda restam, como estão eles cercados de imensos edifícios! Cercados ou imprensados? Sim, está havendo um verdadeiro cerco em torno desses oásis. Um cerco asfixiante. A cidade precisa crescer. Os construtores precisam ganhar dinheiro.

A população está crescendo. Portanto, destruamos essas mangueiras, esses coqueiros, esse enorme e ornamental pau-brasil. Isso não se usa mais. Essa é a ordem do dia.

Ao invés de galos saudando as madrugadas, abramos os televisores com as últimas noticias sobre a corrupção nacional. Galo cantando é hoje uma obsolescência. Assim se diz, assim se comenta.

E para onde irão os passarinhos? Bem-te-vis e pardais? Não sei, leitor, não sei. Só sei que sinto, neste momento, uma saudade antecipada.

E Por Falar em Cemitérios...

Estou lendo, aqui, que a palavra cemitério etimologicamente significa "lugar onde se dorme". Mas será que naquela terra fria ainda há quem esteja de olhos abertos? Bem... vamos adiante. Um escritor disse, certa vez, que estranhava muito colocarem muros altos nos chamados "campos santos", uma vez que "os que estão lá não podem sair e os de fora não desejam entrar", a não ser nos dias consagrados aos mortos...

E houve um asceta budista, Milareta, que chegou a construir sua casa junto de um cemitério só para não esquecer que vai morrer.

Lugar onde se dorme? Será que os mortos lá estão de olhos fechados e ainda vivos? Decerto, como pensam muitos, estão aguardando o som das trombetas para serem julgados. Uns irão para o céu, outros para o purgatório ou inferno. Não é assim que ensina a religião tradicional?

Mas deixemos este intróito de crônica, e comentemos sobre alguns dos cemitérios que visitei, tanto o famoso Père Lachaise de Paris como o da bela cidade Queenstown, na Nova Zelândia, que fica perto da estrada, sem muro, sem nada. Quem sabe os mortos, ali, talvez desejassem um contato humano.

E agora me vem à lembrança um cemitério em Barcelona, que fica situado bem no alto, no centro da cidade, num lugar privilegiado, onde se pode ter uma visão panorâmica da cidade. Quando o avistei, pensei logo que se tratava de uma favela, um ajuntamento de casinhas. Não era. Era um cemitério.

Voltemos ao Père Lachaise, que já visitei dezenas de vezes, sobretudo pelo original mausoléu de Allan Kardec, onde se lê a seguinte inscrição? "Nascer, morrer, renascer ainda, progredir sempre, tal é a lei". É lá que também estão os restos mortais de Chopin, Danton, Edith Piaf, cmOscar Wilde, Proust e outras celebridades.

Convém recordar, ambém, o principal cemitério de Buenos Ayres, que fica situado – adivinhe? - no centro da cidade, num local cheio de restaurantes, ponto de passeio dos turistas. Muita gente alegre, sorrindo, gargalhando, bebendo, erguendo brinde e comendo, completamente indiferente às catacumbas, ali perto, por sinal muito bonitas e luxuosas.

A verdade é que cemitério também é atração turística. Uns de muros altos, como o de Paris, e outros como o de Buenos Ayres, todo iluminado e funcionando à noite... E a alguns metros de distância, a algazarra das pessoas, que me fizeram lembrar aquele poema de Bandeira "Momento no café". Como no poema, há os reflexivos e os indiferentes diante da morte.

Um cemitério em pleno centro da cidade. Dir-se-ia uma irreverência aos mortos. Não, leitor. Os que se foram não estão mais ali, seja dormindo, seja sonhando...

Espelho, Sorriso e Terapia

Desde que o mundo é mundo o homem procura ver a sua imagem. E diz a lenda que o príncipe Narciso ficou tão emocionado quando viu, pela primeira vez, a sua imagem nas águas tranqüilas de um lago que terminou se apaixonando por si próprio.

A verdade, leitor, é que, graças ao espelho e ao retrato a gente não se engana. Tanto um como o outro são muito realistas. O escritor e pensador José Américo de Almeida disse, certa vez, que só sabia que era velho quando olhava para o espelho. É graças a este imparcial refletor de nossa imagem que observamos melhor a nós mesmos.

José Américo em parte tem razão. Digo em parte porque podemos muito bem atenuar o nosso confronto com o espelho, usando uma faculdade que é própria do homem: o sorriso. Até hoje ninguém viu um animal sorrir. Olhem para o cachorro que sorri apenas pela cauda. Vejam o leão num zoológico. Que solenidade! Lembram os nossos juizes numa sessão do tribunal, vestidos de preto e falando em excelências. Ninguém ali sorri, ou pelo menos, mantém um semblante suave...

O risonho Rabelais gritava, em alto e bom som: o sorriso é próprio do homem.

E aqui vai um conselho, leitor: de manhã, ao acordar, pegue o espelho e sorria. O sorriso é como a luz. Rosto risonho é rosto iluminado. Aliás, a Natureza, todos os dias, nos dá lição de otimismo, através do sorriso das árvores, que mesmo antigas, balançam ao vento e jogam fora as folhas velhas, a exemplo das castanholas.

Você deseja perder o seu dia? Então faça uma careta para o espelho, ou senão fique bem sério. Sério como um cavalo ou um burro. A Natureza, repito, sorri através deste velho sol. Veja o mar, cujas espumas são sorrisos. Os pássaros não sorriem, mas cantam. O que vem dar na mesma coisa. E que dizer das numerosas estrelas à noite? Eis aí um festival de luz.

Portanto, nada de carranca de boi a caminho do matadouro. O sorriso, explicam os nossos psicoterapeutas, faz bem à saúde, reanima as células, fortifica o nosso sistema imunológico. E agora estou pensando em nossas mãos. Separadas, elas não alegram, mas quando se juntam para um aplauso, que alegria, que beleza! Podemos concluir dizendo que as palmas são o sorriso das mãos. E viva a sorriso-terapia!

O Bom Assaltante

O assaltante, mal se levantou da cama, foi logo perguntando á mulher: "Cadê os jornais?”

Depois de passar uma vista rápida no matutino, disse, cheio de razão: "Esses caras não sabem trabalhar, não." - Referia-se a um assalto frustrado.

A mulher, para agradá-lo, afirmou: "Ninguém é como você. Até hoje a policia não conseguiu pegá-lo.".

O assaltante sorriu e disse: "Mulher, lembre-se que tenho doutorado em assaltos..."

Ambos sorriram. A mulher admirava o marido, um homem corajoso, trabalhador e crente em Deus.

Pouco depois, o assaltante, já preparado para sair, consultando o relógio falou: "Vamos ao café, minha filha, que não tenho tempo a perder. Sou um homem de negócio e não brinco em serviço."

Durante a refeição da manhã, ela indagou: "Meu bem, será que teremos bons assaltos hoje? Estou precisando de grana."

E ele, curioso: "Afinal, em que ficou os dez mil reais que te dei ontem?"

"Botei tudo na poupança e ainda dei um dinheirinho pra igreja." - respondeu ela, sorrindo.

O assaltante sentiu-se envaidecido. Então, lembrou-se do filho: "Cadê João? Está dormindo?"

“Não." - disse a mulher - "Ele já foi para o colégio. Gostaria tanto que fosse médico...”

O assaltante, pilheriando: ”Por que não seguir a carreira do pai?”

“Não! Eu quero uma carreira mais segura para o nosso filho. – E concluiu ela: "Ou médico ou advogado. Politico jamais."

Rindo, o assaltante foi se levantando e dizendo: ”A conversa tá boa, mas tenho de trabalhar.”

A mulher olhou-o com admiração. Por fim, abençoou: ”Vá com Deus!”

O assaltante gostou da companhia. E a verdade é que até hoje nada lhe aconteceu. Já assaltou vários bancos com sucesso. “Vá com Deus!” - a frase ficou soando nos seus ouvidos. Sim, ele era um assaltante, mas um bom assaltante. E lembrou-se do bom ladrão a quem Jesus disse: ”Hoje mesmo estarás no paraíso.”

Sabia que nada lhe aconteceria de mal. Confiava na sua habilidade e nas orações da mulher. Afinal, ele era um cristão, tanto é assim que contribuía com um bom dinheiro para as obras da igreja.

E eis que o filho, mal chegou em casa para almoçar, foi logo perguntando pelo pai, ao que respondeu a mãe: ”Seu pai foi trabalhar e talvez não venha almoçar.” O menino ficou em silêncio.

Nisso a mãe chega toda pronta, dizendo-lhe: ”Vou comprar umas jóias.” Mal pronuciou tais palavras e o telefone tocou. Meio angustiada, ela atendeu ao chamado. No outro lado do fio uma voz dizia que o marido foi morto em um assalto. Informando ao filho o que aconteceu, ela não suportou a emoção. Caiu fulminada por um infarto, enquanto o garoto saiu correndo como doido e gritando: ”Papai! papai! O que será de mim agora?”

Pouco mais a casa se encheu de gente. A policia veio depois e revistou tudo.

No outro dia, o jornal trazia a seguinte manchete: ”Bandido cai morto, depois de forte tiroteio com a polícia."

E, por incrível que pareça, o enterro do assaltante foi muito concorrido. Houve muitas orações em favor de sua alma.

Droga Nossa de Cada Dia

Ao afirmar que a religião era o ópio do povo, o pensador alemão Karl Marx quis, com isso, dizer que a religião nada mais era do que uma ilusão, uma fantasia, uma fuga. Uma religião que falava de um paraíso e não explicava como era esse paraíso e que se referia à imortalidade da alma mas não a provava só podia ser uma utopia, uma droga para ofuscar a realidade.

Ampliando e metaforizando o conceito, podemos dizer que droga é tudo aquilo que gera dependência e que não preenche o vazio existencial. É tudo aquilo que aliena o homem, que o faz fugir dos problemas, que o inibe de refletir e de transcender.

Nesse sentido, podemos dizer que o dinheiro é uma droga, o poder é uma droga, o sexo é uma droga, o álcool idem, o cigarro também. E por incrível que pareça, até o trabalho pode se constituir numa droga. Aliás os viciados no trabalho são chamados de workaholics.

Quem só vive preocupado em ganhar dinheiro, quem não dispõe mais de tempo para outra atividade a não ser a de enriquecer não passa de um drogado. A vida para ele só tem um objetivo: trabalhar e fazer fortuna. E o dinheiro - como se sabe - é como água salgada, quanto mais se bebe, mais aumenta a sede. A droga do dinheiro, como toda droga, produz dependência. Assemelha-se ao viciado em maconha ou em cocaína, que não se contenta mais com determinada dose. Sempre quer mais. Aí está a sua tragédia.

Outra droga - e esta é muito forte - é a do poder. Talvez seja a mais poderosa de todas. O viciado em mandar não sabe mais fazer outra coisa na vida. O poder lhe dá a ilusão de que é um deus. Daí a volúpia com que mergulha na política. O viciado na droga do poder, em geral, não objetiva dinheiro. O que o atrai, o que o fascina, é o prestígio, é a sensação de estar “de cima”.

O sexo também é outra droga, já que produz dependência. O mesmo podemos dizer do futebol. Mas a droga que está dominando a sociedade contemporânea é a Televisão. Tão perigosa quanto a cocaína. O viciado nela é capaz de passar horas e horas com os olhos pregados no vídeo sem se dar conta do que se passa ao seu redor, sem se dar conta de que o tempo se esvai. Fica completamente hiptonizado.

Quer ver uma coisa, leitor, procure olhar para os olhos de certos telespectadores. Eles estão completamente absortos, em êxtase. E vá você puxar conversa com um deles para ver a reação... As pessoas já não sabem pensar por si mesmas. Comem, trabalham e se divertem com o aparelho à sua frente.

E o computador? Ah, vamos parar por aqui. Este computador também é outra poderosa droga. Muito cuidado com ele.

Voltando à religião, será que Marx tinha razão quando a ela se referiu com uma droga? Depende, é claro, da religião. A que faz o seu profitente não indagar mais sobre os grandes problemas da existência (problemas expressos nas perguntas: de onde viemos, o que somos e para onde vamos?) não deixa de ser uma droga. Afinal, tudo aquilo que faz o homem esquecer o seu vazio interior, que o aliena, que o leva à distração ao invés da reflexão, que o torna indiferente ou insensível aos magnos problemas da vida, não passa de uma droga. Droga nossa de cada dia.

E você, então, pergunta: como devemos agir? Ora, ora... agir com moderação, com sabedoria, com espírito crítico. Nada de excessos, nada de dependência, nada de exageros. Nunca esquecer esta verdade: o mal não está no uso e sim no abuso.

Deus Que Castiga?

O renomado cientista Albert Einstein, autor da Teoria da Relatividade, que deu enormes contribuições à Ciência, notadamente à Física, não acreditava em um Deus antropomorfo, isto é, um Deus com forma humana. Sua concepção da Divindade tinha um sentido mais amplo.

Aliás, foi Einstein que certa vez disse: “a ciência sem a religião é paralítica e a religião sem a ciência é cega”. Para ele, o Universo é o pensamento de Deus. Não é possível conceber a Divindade como uma entidade pessoal, individual, sentada em um trono, distribuindo bênçãos e castigos e punindo suas criaturas.

Sobre o tema, vale conferir algumas passagens do livro ASSIM FALOU EINSTEIN, compilado por Alice Calaprice, em edição lançada pela Editora Civilização Brasileira:

Afinal, Deus pune e premia as criaturas? Resposta de Einstein: “Não posso imaginar um Deus que premia e pune as suas criaturas. Deixemos que as almas frágeis, por medo ou absurdo egoísmo, alimentem esses pensamentos”.

E mais adiante: “não consigo conceber um Deus pessoal que influencia diretamente as ações dos indivíduos... Minha religiosidade consiste na humilde admiração do espírito infinitamente superior que se revela no pouco que podemos compreender da realidade”... "Os homens estariam realmente muito mal se se abstivessem de fazer alguma coisa por medo de punição ou pela esperança de um prêmio depois da morte”.

Finalmente esta conclusão do autor da Teoria da Relatividade: “A idéia de um Deus pessoal é estranha para mim e me parece até ingênua”.

Acontece que para muitos religiosos Deus é um ser isolado, distante, e que vive nas alturas, tanto é assim que quando se referem a Ele erguem os olhos para cima, como se estivesse além das nuvens nos observando, nos julgando e nos castigando... É como bem disse o presidente da Federação Espírita de São Paulo em recente entrevista, quando lhe perguntaram: “E nessa imensidão, onde está Deus?” Ele respondeu ironicamente: “Se estivermos em Júpiter e olharmos para a Terra ele está aqui. Estando aqui e olhando para Júpiter, Ele está lá...”

Na verdade, o homem sempre esquece o que o Mestre nos ensinou: “Deus está dentro de nós”.

Cuidado Com o Fio

Ouvi bem quando a moça disse para a amiga que ia passando:

Minha filha, fulano está nas últimas! Sua vida está por um fio.

Vida por um fio... Qual é a vida que está segura por uma corrente ? Nenhuma. Um homem, sob o peso dos noventa anos, talvez esteja com a vida mais segura do que o pimpolho, que corre o risco de ser atropelado. A vida anda tão perigosa, leitor! Quem pode garantir que estará vivo daqui a poucos minutos?

Todo mundo está com a vida por um fio. Mas ninguém pensa nisso. A maioria pensa que a morte é para os outros. É preciso que a gente se conscientize dessa realidade para viver melhor. A vida com sabedoria é outra coisa. Portanto, nada de julgar que somos eternos nesse escafandro de carne que é o nosso corpo. Convém sempre dar uma olhadela para cima para ver (metaforicamente) o fio que segura a nossa existência.

Aqui para nós: já vi muita gente adoecendo e morrendo, enquanto os mais idosos, mais cautelosos e mais cuidadosos, vão ganhando mais espaços no tempo. Ninguém pode garantir que acorda amanhã vivinho da silva. Ninguém. A morte aqui no mundo ainda é um grande enigma. Sabe-se que ela vem, mas ignora-se o dia. E isto graças à misericórdia divina. Já pensou, leitor, se você soubesse o dia de seu desenlace? Claro que cairia numa profunda depressão. Talvez morresse antes do tempo, suicidando-se, o que não deixaria de ser um paradoxo. É por isso que eu admiro muito aqueles que, embora portadores de uma moléstia irreversível, prosseguem na vida com coragem e otimismo. Eu talvez não chegasse a tanto, apesar de minha filosofia de vida.

Nossas vidas estão por um fio, eis a grande verdade! E esse fio, como não poderia deixar de ser, corta-se ou arrebenta-se com muita facilidade. Até um simples resfriado pode causar o seu rompimento. Um resfriado só não. Qualquer episódio pode romper o cordão umbilical que nos liga a este redondo mundo, que não passa de um imenso útero. Gostei da comparação, que me veio de sopetão. Nós saímos de um útero para entrar em outro muito maior, mas que nada representa diante das imensas galáxias que enchem este universo infinito. Vivemos mergulhados neste útero terreno, completamente indiferentes às maravilhas que nos rodeiam. Até que chega o dia do rompimento do fio...

Voltando à moça, referida no começo da crônica, será que o homem morreu mesmo? Será que o fio partiu, e agora ele flutua como espírito, longe do útero terreno? Bem que eu gostaria de saber...

Muito cuidado com o fio. É bom a gente estar sempre pensando nele. Recomendou um psicoterapeuta que deveríamos olhar cada dia como se fosse o último. Possivelmente muitos sentimentos mesquinhos de egoísmo, de orgulho, de inveja, de vaidade, de ódio, desapareceriam.

A grande besteira é pensarmos que somos eternos no útero terreno, esquecidos de que, a qualquer momento, surgem a parteira ou médico, e cortam o cordão umbilical.

Sim, leitor, pensando bem, não existe propriamente a morte. O que há é o rompimento do fio, de que ninguém escapa...

Desabafo Lírico

Com a camisa, a bermuda e os sapatos tênis ensopados d’água. Foi assim que cheguei da caminhada de hoje, aqui na avenida Cabo Branco. A chuva achou de tomar o lugar do sol, que ficou dormindo sobre as nuvens. Afinal, como diz o poeta: "pernas p'ro ar que ninguém é de ferro."

Tem razão o sol e muito mais razão a chuva que, nesta manhã, achou de derramar água no mar (para que o mar quer mais água?), nas árvores, na terra e nas pessoas. E eu fiquei surpreso em ver muita gente recebendo água no rosto, nos cabelos, no corpo todo, na maior euforia, indiferente aos resfriados e às bronquites. E assim é que deve ser. A chuva também é de Deus. É uma benção, jamais uma maldição. Dia chuvoso também é dia bom, embora a meteorologia diga o contrário. Chovendo, o céu todo nublado, e as pessoas se cumprimentando assim: "bom dia!" Que saudável saudação!

Bem-aventurados aqueles que se adaptam às circunstâncias, que não reclamam, que não protestam, que aceitam tudo que acontece com sabedoria. E o que é a vida senão um constante processo de adaptação? Adaptação às mudanças. Se você já não é mais criança por que tentar vestir as roupas que já não se ajustam ao seu corpo de adulto? Tudo muda, tudo se transforma, tudo cresce a todo momento. Quem diria que este pé de flamboyant, aqui do jardim, ficaria em pouco tempo, muito mais alto do que eu? E ele chegou para cá medindo alguns palmos. Uma plantinha de nada. E que dizer da minha netinha Raíssa, que já não quer mais ficar o todo tempo no berço, mas abrir os olhos espantados para a vida?

Bem disse Platão: “a filosofia nasce do espanto”. E o espanto nasce de onde? Nasce da curiosidade. E é graças à curiosidade e ao espanto que surgiram as descobertas e as invenções. Quem não se surpreende mais, quem parou no tempo e no espaço, morreu. Velho é aquele que só olha para trás, que perdeu interesse pela vida, que costuma dizer: "no meu tempo não era assim". Claro que não era. E felizmente não é mais. A vida está se rejuvenescendo a toda hora na alma de quem ama. Está aí esta inspirada e sábia sentença: “Aprenda como se a vida aqui no mundo fosse eterna, e viva como se a vida fosse acabar, amanhã." Não vejo conselho mais sábio do que este.

Mas comecei a crônica falando de chuva, e eis que o sol já está aqui perto da janela, me oferecendo luz e calor. Bem-vindos, portanto, o sol e a chuva. E por que não saudar também o vento? É ele quem faz a natureza dançar. Graças a ele, o meu adolescente pé de flamboyant está acenando agora mesmo para mim. Para mim? Que pretensão egoísta! O pé de flamboyant acena para a vida. A vida que está amanhecendo no rosto espantado de Raíssa.

Aliás, tudo na vida é uma questão de saber ver. Tudo está dentro de nós. Valeu aquela placa que coloquei no jardim: "a beleza está nos olhos de quem a vê." E Jesus foi maravilhoso quando sentenciou: "se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo se iluminará." Bondade e beleza precisam andar juntas, como boas e inseparáveis irmãs a caminho da verdade. E me desculpe o leitor esta conversa, não digo fiada, mas confiada. É mais um desabafo lírico do cronista. E tudo por causa daquela chuva, manhã cedo.

Estranhos Hotéis

Você se hospedaria em um hotel como esse?

O Asakusa Capsule Hotel fica no Japão. Os quartos não passam de cápsulas que mais parecem... bem, deixa pra lá.

Todos sabem que a falta de espaço é um grande problema no pequeno - mas populoso - país oriental. Em razão disso, não falta criatividade aos japoneses na hora de desenvolver as mais diversas construções.

Os minúsculos apartamentos do Asakusa Hotel são equipados com TV, ar refrigerado e todas as outras comodidades que o espaço apertado pode permitir.

Quando for ao Japão, portanto, não esqueça de levar uma mala pequena caso pretenda hospedar-se em uma dessas estranhas cápsulas.

O que é ser Humano?

A vida difícil de nossos dias, apressada e mecanizada, está fazendo com que o homem perca uma de suas mais sagradas virtudes: a compaixão. Ela que é dom mais do que humano. É dom divino.

Será que você perdeu o sentimento da piedade, leitor? Como você encara os fatos que ocorrem diariamente no mundo e que a televisão lhe mostra, às vezes com exagerado realismo? O que sente quando vê uma criança faminta na rua? Como você vê aquele menino mal vestido, a camisa desbotada, os pés muitas vezes descalços, em pleno sol de verão, oferecendo à venda um cacho de pitomba? Qual a sua reação? De indiferença ou de compaixão? Ou você até retira a vista com um certo desdém e mau humor, colocando a culpa para o governo?

O sociólogo Donald Pierson, no seu livro Teoria e Pesquisa em Sociologia, dá uma definição do que é ser humano, afirmando que "é viver a experiência dos outros e assumir seus papéis". Em termos mais simples, pode-se dizer que é se colocar no lugar do outro.

Se você é capaz dessa transposição, se você passa a sentir o drama do outro, o sofrimento do outro, você se torna humano. Os outros deixam de ser meros objetos.

Ter compaixão é ter amor ao próximo. Quando a missionária católica Madre Teresa de Calcutá abandonou tudo para se dedicar aos pobres da Índia, estava ela vivendo o drama do outro. O mesmo ocorreu com o missionário evangélico Albert Schweitzer, quando renunciou o conforto da Europa para cuidar dos negros famintos e doentes da África. Eles sentiram a chama da compaixão dentro de si. Viveram a experiência dos outros e assumiram os seus papéis.
Tornaram-se humanos. Mais do que humanos, tornaram-se divinos.

Qual é o Problema?

Quem não quiser problema, nasce morto. Mas nascer morto já é um problema. Não para o morto, mas para os que o esperavam vivo. A vida é feita de problemas. Engana-se aquele que diz: "agora eu não quero mais problema”. Não ter problemas já é um problema. A vida - me desculpe o leitor o lugar comum - é uma corrida de obstáculos. E os obstáculos são os problemas. São eles que nos desafiam pedindo que os vençamos. E o que é a vida senão um constante desafio? Ela está bem simbolizada na imagem daquela esfinge que ficava numa encruzilhada do caminho propondo aos viajantes o seguinte enigma: "qual o animal que pela manhã anda de quatro pés, à tarde, de dois, e à noite de três?" O leitor sabe qual é? Se não sabe, fique certo de que seria devorado pela esfinge, aquele terrível e mitológico animal.

Pois bem, a vida é essa esfinge. A todo momento ela está nos testando, nos experimentando. Viver é, portanto, solucionar problemas de toda ordem. Para esse desafio, há três atitudes a tomar: enfrentá-lo; fugir; ou nada fazer, caindo na indiferença, na passividade. A melhor atitude, não resta dúvida, é lutar. Fugir é para os covardes. Nada fazer é para os indolentes, os preguiçosos, os indiferentes.

Cada vez que você resolve um problema, você se torna mais fortalecido, melhor preparado para novas lutas. Quando você se encontrar com um amigo, de sua intimidade, faça a seguinte pergunta: "qual é o seu problema?" Duvido que ele diga que não tem problema. Tem e muitos. Problema de falta de dinheiro, de falta de amor, de falta de companhia, de falta de saúde, de falta... Ah, são tantas as carências!

E se você, aparentemente, não tem mais problemas, se já tem um bom salário, se está bem de saúde, se já tem estabilidade financeira, se já é bem casado, se já se aposentou, se possui uma boa casa, um belo automóvel, que tal cuidar dos problemas dos outros? Estamos aqui no mundo para servir. Já disse alguém que “ser feliz é sentir-se útil”. Lembro-me agora de um letreiro que vi num caminhão: “Quem não vive para servir, não serve para viver”. Admiro muito aqueles que vivem preocupados e ocupados com os problemas dos outros. Quem age assim não sabe o que é tédio, não pensa em suicídio, não se angustia, não adoece. Não seja solitário, seja solidário.

É Preciso Ter Coragem

Admiro muito as pessoas destemidas, que têm coragem de enfrentar os maiores desafios que a vida oferece. Paraquedistas, surfistas de grandes ondas, operários de edifícios, enfim, todos os que se arriscam em algo, seja por pura diversão ou em decorrência do trabalho.

Não gosto de alturas, contudo, em certa oportunidade, escalei os incontáveis degraus do Arco de Triunfo somente para avistar Paris do alto, sob a luz do crepúsculo. A coragem e a disposição decerto vêm do cooper matinal que pratico religiosamente na praia de Cabo Branco
.

Mas, cá pra nós, mesmo com essa disposição toda, confesso que não teria a menor "coragem" de enfrentar um banho como esse retratado ai na foto, que, só de olhar, me dá vertigem.

O belo lugar, que tem o nome de Piscina do Diabo, fica no alto das Cataratas Vitória, no Zimbábue, e se tornou um destino bastante procurado por aventureiros do mundo todo.

E você, leitor, se atreveria a ingressar nessa aventura? Teria coragem?


Kid looking over the edge of devil's swimming pool in zimbabwe africa

Vale a pena conferir o vídeo que mostra alguns aventureiros corajosos na "diabólica" piscina natural:



Ser Feliz

Ser feliz!... Ser feliz é sentir que a vida não passa inutilmente, como disse o escritor Érico Veríssimo. É não se apegar ao que é efêmero. É não guardar ressentimentos, mágoas e desgostos, pois a vida é muito valiosa para ser desperdiçada com mesquinharias e tolices que não levam a nada. É estar atento ao momento que passa, aproveitá-lo ao máximo. É ter olhos para ver as belezas que a vida nos oferece todos os dias sem cobrar um centavo.

Ser feliz é não se angustiar, não se deprimir, não sofrer pelo que ainda não aconteceu. É visitar, vez por outra, o passado, e dele ouvir as lições que amadureceram a nossa vida. Afinal, a experiência é a maior riqueza que levaremos daqui do mundo.

Ser feliz é ter consciência da imortalidade da vida. É ter domínio sobre si mesmo. São tantas as tentações, tantas as provocações, tanto os desafios! É preciso estarmos vigilantes e em constante integração com o Todo, pois só assim estaremos fortalecidos. Estaremos em paz.

Ser feliz é não ter inveja, nem provocá-la. A vida é muito preciosa, muito bonita, para estarmos salpicando-a de lama. Ser feliz é esquecer ingratidões. É sentir-se em comunhão com tudo. É sentir-se uma simples gota no oceano. Viver em comunhão é multiplicar-se, é integrar-se. É estar sempre cultivando boas e estimuladoras lembranças.

Ser feliz é estar sempre pronto para uma reconciliação, para um entendimento, para um perdão. Nada envenena tanto como o ódio. Por que, então, não dissolver esta pedra com a força do amor? O fogo, por mais violento que seja, termina se extinguindo ao encontrar um terreno limpo. Estejamos sempre limpos de sentimentos e pensamentos negativos.

Ser feliz é se conscientizar das numerosas bênçãos que nos rodeiam. Ah, como somos cegos para as imensas dádivas que recebemos da vida! A benção do olhar, a benção do pensamento, a benção da palavra, a benção da imaginação, a benção do corpo, da casa, do amigo. São tantas! Só sentimos o seu valor quando as perdemos...

Ser feliz!... Ser feliz é amar. Amar, mesmo sem ser amado. Só isto.

Troca de Palavras


Frederick V - King of Bohemia
Gerard van Honthorst (1634)
Algumas expressões, quando pronunciadas, podem soar com certa aspereza e, por isto, precisam ser substituídas por outras, que assumam um ar mais agradável. Isto é o que se chama eufemismo.

Hoje, numerosas são as palavras que se tornaram mais amenas, que já não ferem os nossos ouvidos. Tudo, afinal, é a maneira de dizer e de escrever.

Narra-se que, certa vez, um poderoso monarca sonhou que lhe caiam todos os dentes. Desapontado com o sonho, o monarca tratou imediatamente de consultar os seus adivinhos. O primeiro foi logo dizendo:

Este sonho significa que vão morrer todos os seus parentes.

O rei ficou zangado e mandou logo prender o adivinho, que foi, imediatamente, substituído por outro. Este, muito sagaz, sorriu e disse:

Que beleza, que ventura, meu bom monarca! O sonho significa que Sua Alteza vai sobreviver a todos os parentes e herdar uma grande fortuna.

O rei ficou contente e gratificou, regiamente, o segundo adivinho.

Ora, a versão dada pelos adivinhos foi a mesma, o que mudou foi somente a maneira de dizer.

Muitas palavras, de um tempo para cá, mudaram, enquanto outras continuam com a velha vestimenta, a exemplo de “Morte”. Ainda não se encontrou uma substituta para ela. Os espíritas costumam chamar a Morte de Desencarnação. Eu prefiro usar a palavra Desenlace. É mais suave. Que acha o leitor?

Há quem diga: “Fulano partiu ou viajou”. A verdade, porém, é que a maioria ainda continua dizendo Morte. E o morto de “finado”, que horror!

Situação diversa ocorreu com as palavras “pobreza” e “pobre”, que foram substituídas por “carência” e “carente”. Vejamos outras: “idoso" substituiu a dureza da palavra "velho"; "deficiente visual" fica bem melhor do que "cego". Quem hoje se atreveria a referir-se a um doente como leproso? Ninguém. A palavra foi substituída por “Mal de Hansen”. Ficou melhor.

Pena que ainda não tenham encontrado substitutas para as palavras "sogra" e "madrasta", que soam muito mal. Mesmo que se diga "minha querida sogra" ou "minha querida madrasta", o adjetivo não consegue amenizar a aspereza que vem costumeiramente associada ao substantivo.

E eis que me chega agora a palavra: "aposentado". Haverá vocábulo mais horroroso e ridículo do que esse? O seu substituto, “inativo”, é ainda pior. Parece coisa que não presta mais, que deixou de funcionar. E viva o eufemismo!

As Mais Interessantes Livrarias do Mundo

Quem é fanático por livrarias, como eu, certamente vai sentir-se atraído por este "site", que mostra algumas das mais interessantes livrarias do mundo.

Selexyz bookstore in Maastricht, Holland
No destaque: A Livraria Selexyx, em Maastricht, Holanda, que fica instalada em uma antiga igreja da ordem dominicana.

Peregrinos do Tempo

Paisagem com Rio
Savrasov

Não. Não me falem de passado. O passado passou. Que ele fique guardado e poucas vezes visitado. E que essa visita não demore. Colhamos suas lembranças como as flores de um jardim, mas voltemos depressa para a casa do presente. E esqueçamos seus espinhos. O bom mesmo é o presente, é este momento que estamos vivendo.

Qual a atitude a tomar diante do passado? De compreensão, de compaixão, procurando aproveitar a lição que eles nos ministrou. Mantê-lo como referência.

Mas, ao que informam os filósofos, não há passado, nem presente, nem futuro. O tempo é uno. A mente humana é que estabelece limites a ele. O tempo é como as águas desse rio que vão correndo a caminho do mar. Sejamos peregrinos do tempo, andarilhos da eternidade. Jamais construamos sólidos edifícios em seu terreno, mas tendas descartáveis, de fácil desmontagem, que a vida tem pressa...

Acontece que o homem adora dividir as coisas, fracionar a realidade. Se você quiser, agora mesmo, pode reviver o que passou. E hoje está mais do que provado que nosso passado não começa do útero. Ele se estende ao longo dos séculos e milênios. Daí a moderna terapia das vidas passadas. Está aí o psicoterapeuta norte-americano Brian Weiss levando as pessoas a empreenderem uma emocionante viagem de volta, e curando-as de muitos traumas, de muitas enfermidades, e ao mesmo tempo conscientizando-as de que somos o que fomos. Eis a necessidade do discernimento, da boa escolha, da constante vigilância.O passado ensina, mostra os nossos erros, as conseqüências de nossas fraquezas, os nossos abusos, os nossos desacertos. O passado tem um extraordinário valor didático. E nos estimula também.

O importante, porém, é o “aqui e o agora”. Viver a todo momento com saudades do passado é parar no tempo. É ficar à margem. É se deixar morrer, apodrecer, enferrujar. Sigamos a correnteza desse rio, que é a vida. Não queiramos que suas águas se transformem em gelo.

Tenho muita pana de quem se apega ao passado como ostra ao casco do navio. Esse postura envelhece. Envelhece e envilece. E se quisermos retroceder no tempo, que seja para simples aferição, para simples tomada de consciência. Um grande empresário disse que não deseja ser maduro e sim verde. Por que ele usou tal metáfora? É porque o maduro termina apodrecendo, enquanto no estado verde o homem é toda esperança, é toda curiosidade, é todo sonho. Horrível quem diz: “fulano é um homem realizado.” Mais horrível é ouvir alguém dizer: “o que é que eu quero mais da vida?” Quem pensa assim já não está mais maduro. Está apodrecido.

Morreu aquele que diz: ”no meu tempo não era assim”, e pensado assim esquece que o tempo é este que está passando. Ninguém pode parar as águas de um rio, nem dizer para elas: “voltem ás suas nascentes”. Seria muita ingenuidade. Ingenuidade ou estupidez? Ambas as coisas.

O Preço da Vida

Sunlight on a Stormy Sea
Bonaventura Peeters

Tudo na vida tem o seu preço. O preço da vida é a morte. E não venha fazendo cara feia, leitor, porque essa é a lei que vigora em todos os domínios da Natureza. Já disse um filósofo que morremos todos os dias. E isso é uma verdade. Mas quando eu digo que a morte é o preço da vida, é evidente que o que prevalece, o que vence, é a vida.

Sem a noite, não teríamos a alvorada. Tudo nasce e tudo renasce. Já disse Paulo, no alto de sua sabedoria e na profundeza de sua inspiração que se a semente não morrer, isto é, se ela não for enterrada, a planta não germinará, a vida não surgirá. É preciso que tudo morra para nascer de novo. Se nós nos conscientizarmos dessa evidência não haverá desespero, nem escândalo, diante da morte.

Vejam o belo exemplo da lagarta, que se arrasta no chão, pisada e desprezada por todos, até que um dia ela se transfigura, e se transforma numa linda borboleta levitando sobre as flores do jardim e proclamando que a vida prossegue em outra dimensão.

Ainda Paulo, o iluminado de Damasco, enfrentando a morte, gritou: "Morte, onde está a tua vitória?" A vitória é da vida, que jamais se extingue, que é eterna. Mas muitos não pensam assim. Muitos continuam sepultando os seus mortos como se a morte fosse o fim de tudo. E vem a advertência de Jesus quando, convidando um homem para segui-lo, este pediu que o Mestre esperasse, pois tinha antes que ir sepultar o seu pai. E Jesus só fez dizer: "deixa aos mortos sepultarem os seus mortos”. Jesus era a vida e o homem não sabia.

Existem os mortos vivos e os vivos-mortos. Os mortos-vivos são tidos como mortos, no entanto, mortos são os que estão sepultados no apego às coisas materiais, são os cegos para os valores espirituais, são os que ainda não conseguiram transcender, julgando que com a morte da lagarta tudo se acaba.

A vida é uma dança. A dança da mudança. Não existe propriamente destruição, mas transformação. O velho Lavoisier ensinou que nada se perde na Natureza, que tudo se transforma.

A morte é como a escuridão. A escuridão é uma ilusão, uma mentira, não existe ontologicamente, isto é, não existe como ser. Se fosse possível levá-la a um laboratório para análise, o analista nada encontraria. É que a escuridão não tem vida própria. Não tem substância. Já a luz é o contrário. A luz tem substância. A escuridão não existe objetivamente. Ela é apenas a ausência da luz.

Assim é a morte. Não existe. É apenas uma ilusão. Dir-se-ia uma passagem, uma travessia, uma mudança. Mas os vivos-mortos pensam que a morte é o fim. Tem medo dela como o diabo da cruz, como se diz vulgarmente.

Estive olhando agora mesmo o mar. E ele me dizia que suas ondas não morrem na areia da praia. Elas se dissolvem em espumas, para depois ressurgirem em novas ondas. É o jogo da vida que o mar me mostrava. Tudo, portanto, nasce e renasce. É a lei do retorno. O caminho da evolução, a grande meta da vida. Nascemos e renascemos para crescer, para retificar erros, para saldar dívidas. Jesus, depois da crucificação, ressuscitou, assim como o sol renasce todos os dias depois da morte da noite.

Solidão Quase Sempre

On the Threshold of Eternity
Vincent Van Gogh (1890)
Por incrível que pareça devemos bendizer a solidão. A solidão também é necessária. É por meio dela que o homem conversa consigo mesmo, que se encontra com a sua consciência, que se auto-analisa, que se ilumina.

Há muita gente com medo de defrontar-se consigo mesma, o que não deixa de ser lamentável. A consciência é um espelho que se revela no silêncio da solidão. É recomendável, vez por outra, olhar para ele. Ou será que andamos com medo de nossa própria imagem?

Aliás, temos três espelhos na vida: o espelho material, que tanto pode ter uma superfície polida como a de um lago; o espelho que está na visão dos outros - aquele que enxerga os nossos defeitos; e o espelho mental, isto é, a nossa consciência.

Podemos fugir do primeiro, mas dos outros não. Quanto mais tentarmos fugir do espelho interior, mais ele se fará presente. O espelho que está nos olhos dos outros também deve ser levado em consideração. Muitas vezes trazemos uma imagem falsa de nós mesmos. Uma imagem que se choca com a que os outros fazem a nosso respeito.

Não menosprezemos a imagem que os outros têm de nós. Talvez seja a mais certa, a mais real. Daí a importância da crítica. Da crítica e da autocrítica, desde que sejam sinceras.

O espelho de que jamais nos livraremos é o da consciência, que nos segue com uma fidelidade de sombra, tanto nesta como em outra vida. Não adianta afogar-se na bebida, na droga, nos divertimentos, até mesmo no trabalho excessivo. Esse espelho estará sempre nos surpreendendo, nos observando, refletindo a nossa verdadeira imagem.

Ao invés de fugir, nós devemos é mirá-lo, enfrentá-lo freqüentemente. O homem dos nossos dias anda fugindo muito de si mesmo. Uma fuga inútil. É o mesmo que fugir de sua própria sombra.

O grande pensador Ortega Y Gasset já dizia que "os animais irracionais não sabem olhar para dentro de si". Vivem com os olhos para as exterioridades. Não se concentram, não meditam, não se miram no espelho interior. Mas não se miram porque não o possuem. Só o homem pensa, embora haja muitos homens que mais se afinam com os animais irracionais...

Portanto, seja bem vinda e bendita a solidão. Só ela nos interioriza, nos ilumina. Tem muita razão o velho Picasso: "não se pode fazer nada sem a solidão".

A Lição dos Outros

Tudo na vida nos ensina alguma coisa, ou muitas coisas. E quanto às pessoas nem se fala. Sem perceber, nós somos professores. Professores de paciência, de humildade, de tolerância, de amor, de bondade, de fé, de otimismo, de alegria, e assim por diante. Também há outras disciplinas que são ensinadas: o desânimo, o pessimismo, o ódio, o ciúme, a cólera, a impaciência, a irritação, a preocupação.

Ah, leitor, como somos influenciados e como influenciamos! Eu tenho aprendido muito com as pessoas. Mas muita gente não dá conta disso. Não presta atenção às atitudes, aos gestos, aos atos dos que participam de seu relacionamento diário.

Dizia o grande Bacon que saber é poder. O ignorante é um ser vulnerável. Quanto mais conhecimento, melhor. A curiosidade jamais deve ser perdida. Pena que haja pessoas por aí, indiferentes, apáticas ao conhecimento. Eu tenho dó de quem diz "para que eu quero mais aprender?"; ou "papagaio velho não aprende mais; ou ainda "o que já sei é o bastante". Pessoas assim estão mortas e não sabem.

O conhecimento é o oxigênio da vida. E não cessará nunca essa curiosidade do saber. Quanto mais a gente sabe, mais sabe que não sabe. O velho Sócrates tinha razão quando dizia "o que sei é que nada sei." O ignorante ou o pernóstico é que acha que sabe tudo...

A paciência, de todas as virtudes, é a mais dificil. No entanto, tem pessoas que estão perdendo a paciência a todo momento em face do telefone ocupado, do trânsito engarrafado, do carro enguiçado, das situações que a vida nos impõe a fim de que saibamos ser pacientes. A vida é uma grande mestra da experiência. A todo instante ela está nos submetendo a testes, a experimentos, a desafios.

O relacionamento diário é um verdadeiro laboratório onde testamos nossas virtudes. Tudo o que acontece é necessário. E o necessário não deixa de ser bom. Jesus ensinava: " é necessario que venha o escândalo, mas ai de quem é responsável por ele".

Estejamos, portanto, alertas. Alertas e curiosos. Em face de uma situação vexatória ou de uma pessoa perturbadora façamos a seguinte reflexão: o que é que esse fato está me ensinando? Qual a lição que essa pessoa está me dando? Muito cuidado com as lições que recebe. Jamais siga a que for negativa. Lembre-se que você também é um professor. É responsável pelo que está ensinando aos outros.

Conversando com Estátuas

Quando viajo ao estrangeiro, tenho a mania de visitar estátuas de grandes personalidades, sobretudo artistas. Talvez poucos turistas façam isso. Mas eu gosto de ver aquelas esculturas de pessoas célebres.

Em Viena, conversei em silêncio com a estátua (estátua ou busto?- não me lembro bem) do grande Mozart, rodeado de canteiros e de silêncio. Na mesma cidade, visitei o carrancudo Beethoven, numa praça. E naquele momento parecia ouvir as notas iniciais de sua popular Quinta Sinfonia.

Mas a estátua que mais ficou na minha lembrança foi a do genial Rembrandt, em Amsterdam. A obra fica numa praça de belo gramado. Conversei com ela em silêncio.

Lá em Paris, estive visitando Joana D’Arc. Aliás, em matéria de estátuas, a capital francesa não deve a ninguém. Tudo ali cheira a história... Quando vou ao Quartier Latin, não deixo de me sentar na praça da venerável Sorbonne, onde está o busto de Augusto Comte, a quem se deve o “Ordem e Progresso” da nossa bandeira.

No Vaticano, na praça São Pedro, encantaram-me as estátuas dos doze apóstolos. Na Polônia, na velha Cracóvia, há uma igreja onde se vêem também os dozes apóstolos no alto do templo!
Estou me lembrando agora do grande Goethe, rodeado de árvores na ecológica e fria Heidelberg, na Alemanha.

Ora, direis, ver estátuas?! Sim, leitor, pode dizer que eu perdi o siso, parodiando o poeta Olavo Bilac. Só não gosto de ver os bustos e as estátuas dos fazedores de guerra, dos donos do poder. Mesmo assim não deixo de contemplar a do almirante inglês Nelson, lá no alto, na praça Tralfegar Square, com seus leões de bronze...

É isso mesmo, devo assumir: eu converso com as estátuas!

Títulos Curiosos

Em recente visita à Livraria Siciliano, estava passando a vista despretensiosamente pelas prateleiras de livros, quando alguns títulos estranhos começaram a chamar minha atenção.
Eis alguns deles:

Por que os homens mentem e as mulheres choram?

Allan Barbosa Pease
Dá trabalho ser feliz, mas vale a pena
F. Franklin
Dinheiro não dá em árvore
C. Edward / N. Goldfrey
Homens gostam de mulheres que gostam de si mesmas
Steven Carter
Mulheres boazinhas não enriquecem
Lois Frankel
203 maneiras de enlouquecer um homem na cama
Margot Saint
O dia em que as mulheres viraram a cabeça dos homens
René Simões
O amor é um cão dos diabos
Charles Bukowski

O Melhor Companheiro de Viagem

Meu pai costumava dizer: “se quiser conhecer bem uma pessoa, viaje com ela”.

Está aí uma verdade, porquanto na viagem são várias as situações e reações que comprovam um temperamento.

Acontece que há um companheiro de viagem que não dispenso nas minhas vilegiaturas. Ele é calado. Ou melhor, um mudo que fala.

Estou certo que o leitor já adivinhou de quem se trata. Refiro-me ao livro.

Confesso que não arredaria o pé daqui sem a sua companhia. E a minha esposa já sabe disso. Tanto é assim que antes de fechar a mala, vai logo perguntando:
– “Quais são os livros que você vai levar?”

Aí é que surge o grande problema. Como escolher meus companheiros, que tanto me ensinam e que me fazem aproveitar os vazios do tempo?

Ah, as longas esperas nos aeroportos... a monotonia nos vôos aéreos... nas salas de embarque... Confesso que já li um livro todinho sentado num banco de praça. Sabe onde? Em Chamonix, nos “Alpes Franceses”, contemplando, vez por outra, a brancura gelada do Mont Blanc. Não tive coragem de subir até aquelas alturas. Eu e Lau. Assim, enquanto esperava que os outros companheiros, Germano e Davi, descessem, mergulhei na leitura de um livro.

Mas, como disse, o problema está na seleção dos livros. Quando entro na biblioteca para escolhê-los, tenho a impressão que todos acenam suas páginas para mim, rogando para levá-los.

Ah, leitor, como sofro! Não há coisa mais difícil na vida do que a escolha. O pior é que, às vezes, erro na seleção desses meus companheiros de viagem. Aí vem a frustração. Havia outros melhores para levar...

A verdade é que viajar conduzindo um livro torna a viagem mais amena, mais saudável. E quando acontece adquirir livros lá fora, não queira saber a ciumeira dos outros...

Quem consegue resistir à tentação de entrar numa grande livraria? Viajar lendo é outra coisa. É viajar duplamente.

Minha Grande Professora

A Jovem Mãe
Jean-Honoré Fragonard (1732-1806)

Sim, ela foi minha grande e dedicada professora. Professora de letras, sem doutorado, nem mestrado. Autodidata extraordinária, que me ensinou a gostar de livro, que me contava histórias maravilhosas, que me deixavam embevecido.

E como sabia interpretar os personagens da narrativa! Histórias de bichos e fadas, de rainhas, de gigantes. Muitas vezes, eu não agüentava de emoção e chorava. Chorava com pena de Branca de Neve, tão bonitinha e perseguida pela rainha má. Mas será que a rainha era má? Hoje eu diria que ela era involuida , mordida de inveja, sentimento negativo que está em quase todas pessoas...

Foi essa excelente autodidata que me despertou o gosto pela literatura. E ela dava o exemplo. Sempre a via com um livro na mão. E muitas vezes, lia-o em voz alta para mim.
Só não quis ler o romance “Menino de Engenho”, de José Lins do Rego, livro que na época provocou um escândalo. Muita gente tachou-o de pornográfico. E isto por que havia uma cena em que o menino se masturbava.

Minha professora... Já está na hora de revelar quem era ela. Não foi outra senão minha mãe, Dona Pia, na intimidade Piiinha. E como no dia 5 de maio é o seu aniversário, trouxe-a para este blog , que também se propõe a discorrer sobre a arte da literatura.

Pois bem, leitor, minha mãe vivia com um livro na mão. E quer saber de uma coisa? Ela escreveu uma porção de poemas num caderno. Como era uma excelente decifradora de palavras cruzadas e charadas, chegou a elaborar uma porção delas.

Saiu do mundo, contando mais de 100 anos. E deveu sua longevidade a três coisas: alimentação sóbria (ela adorava suco de cenoura), leitura constante e otimismo. Estava sempre com bom-humor.

Certa vez, leu para mim o romance de Camilo Castelo Branco “Amor de perdição”. Leitura que me levou ás lágrimas.

Minha mãe era assim. Uma autêntica intelectual. E quando moça tocou flauta, enquanto seu pai soprava o clarinete. Não é sem motivo que sou doido por música erudita.

Mas está na hora de pingar o ponto final, enquanto as lágrimas não me cheguem aos olhos. E aqui vai um apelo: Mães! Ensinem seus filhos a gostar de livros.

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