A linguagem nos define. Dize-me como falas e te direi quem és. A identidade entre pessoa e discurso tanto revela a personalidade do ind...

Cada um é o que fala

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A linguagem nos define. Dize-me como falas e te direi quem és. A identidade entre pessoa e discurso tanto revela a personalidade do indivíduo, quanto reflete a classe ou profissão a que ele pertence. Um médico não usa as mesmas palavras que um economista, nem este tem o mesmo discurso de um advogado.

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Mas a linguagem não se limita a expressar uma identidade previamente constituída; ela participa ativamente de sua formação. É por meio das palavras que aprendemos a organizar a experiência, a interpretar a realidade e a reconhecer a nós mesmos como indivíduos. A linguagem exerce, assim, uma função ontogenética: acompanha e molda o desenvolvimento do ser humano desde os primeiros anos de vida.

Como observou Émile Benveniste, é na linguagem e pela linguagem que o homem se constitui como sujeito. Ao dizer “eu”, o falante não apenas comunica uma ideia; ele se reconhece como centro de uma experiência e se insere numa rede de relações sociais e simbólicas. Falar, portanto, é mais do que transmitir informações: é construir-se continuamente. Cada escolha lexical, cada entonação e cada modo de argumentar revelam não apenas o que somos, mas também o processo pelo qual nos tornamos quem somos.

A variedade dos dizeres reflete a multiplicidade dos estilos, ou seja, dos específicos modos de ser; nas várias situações da vida, é impossível a cada um fugir ao seu. Entre duas ou mais palavras sinônimas, a que se escolhe indica a apreciação que fazemos dos seres e das coisas.

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Os exemplos são inúmeros. Quem usa “ósculo” em vez de “beijo” tem uma determinada visão sobre o que é “pressionar os lábios contra o rosto ou a boca de alguém”. “Ósculo” tem uma dimensão ritualística, é solene e assexual. “Beijo” é explícito, franco, erótico. Por vezes se reveste de romantismo, como se vê em certos filmes de Hollywood.

Machado tem um famoso personagem, José Dias, cujo traço singular de personalidade é o gosto pelos superlativos: boníssimo, famosíssimo, amaríssimo. José Dias é um ser diminutivo e busca compensar essa condição exagerando em tom sapiente e doutoral as qualidades e os defeitos dos que encontra no mundo. O “íssimo” da linguagem é uma forma de disfarçar o seu “inho” interior.

Sempre fico intrigado quando escuto alguém usando, por exemplo, “procrastinar” em vez de “adiar”. “Colendo” no lugar de “respeitável”. “Apedeuta” em substituição a “ignorante”. Tão simples escolher a forma simples, que todo mundo entende.

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Por que a preferência pelo termo raro e erudito? Se não for por ingenuidade, é por presunção. Pelo desejo de mostrar que se conhece a palavra pouco usual. O provável mesmo é que seja para disfarçar a insignificância das ideias, que de tão desmilinguidas precisam de uma vestimenta que as inche. Quanto mais raso o pensamento, mais denso o aparato verbal com que buscamos traduzi-lo. Quem não tem o que dizer, faz questão de demonstrar isso da forma mais complicada possível.

Outro dia vi num convite de casamento a referência aos “senhores Fulano e Fulana de Tal”, “nubentes que iam convolar de estado civil”. Depois “festejariam as bodas” no salão de festas de um famoso “sodalício” da cidade. Espero que se gostem mesmo e que o empolamento do discurso não seja uma imagem da relação entre os dois; que sejam menos “cônjuges” e mais “marido e mulher”. Afinal, embora muitos se casem de olho nos sobrenomes, o que conta mesmo na intimidade de um casal são os apelidos.

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