A linguagem nos define. Dize-me como falas e te direi quem és. A identidade entre pessoa e discurso tanto revela a personalidade do indivíduo, quanto reflete a classe ou profissão a que ele pertence. Um médico não usa as mesmas palavras que um economista, nem este tem o mesmo discurso de um advogado.
GD'Art
Como observou Émile Benveniste, é na linguagem e pela linguagem que o homem se constitui como sujeito. Ao dizer “eu”, o falante não apenas comunica uma ideia; ele se reconhece como centro de uma experiência e se insere numa rede de relações sociais e simbólicas. Falar, portanto, é mais do que transmitir informações: é construir-se continuamente. Cada escolha lexical, cada entonação e cada modo de argumentar revelam não apenas o que somos, mas também o processo pelo qual nos tornamos quem somos.
A variedade dos dizeres reflete a multiplicidade dos estilos, ou seja, dos específicos modos de ser; nas várias situações da vida, é impossível a cada um fugir ao seu. Entre duas ou mais palavras sinônimas, a que se escolhe indica a apreciação que fazemos dos seres e das coisas.
GD'Art
Machado tem um famoso personagem, José Dias, cujo traço singular de personalidade é o gosto pelos superlativos: boníssimo, famosíssimo, amaríssimo. José Dias é um ser diminutivo e busca compensar essa condição exagerando em tom sapiente e doutoral as qualidades e os defeitos dos que encontra no mundo. O “íssimo” da linguagem é uma forma de disfarçar o seu “inho” interior.
Sempre fico intrigado quando escuto alguém usando, por exemplo, “procrastinar” em vez de “adiar”. “Colendo” no lugar de “respeitável”. “Apedeuta” em substituição a “ignorante”. Tão simples escolher a forma simples, que todo mundo entende.
GD'Art
Outro dia vi num convite de casamento a referência aos “senhores Fulano e Fulana de Tal”, “nubentes que iam convolar de estado civil”. Depois “festejariam as bodas” no salão de festas de um famoso “sodalício” da cidade. Espero que se gostem mesmo e que o empolamento do discurso não seja uma imagem da relação entre os dois; que sejam menos “cônjuges” e mais “marido e mulher”. Afinal, embora muitos se casem de olho nos sobrenomes, o que conta mesmo na intimidade de um casal são os apelidos.









