Tiramos uma foto, olhamos para ela por alguns segundos, damos zoom, olhamos de novo. Na verdade, é uma foto perfeitamente normal, mas ainda assim não a publicamos. Talvez porque não nos reconheçamos nela, ou talvez porque nos reconheçamos demais. Há uma estranha distância entre a imagem que vemos de nós mesmos e aquela que queremos, ou imaginamos, que os outros verão.
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Talvez o problema não esteja na fotografia, mas no espelho invisível que carregamos dentro de nós. Existe a pessoa que acorda, que trabalha, que ri de uma piada sem importância e que se esquece de si mesma enquanto vive. E existe a pessoa que observa a própria imagem congelada e começa um julgamento silencioso. Os olhos parecem cansados, a testa revela anos demais, o cabelo conta uma história que o coração ainda não aceita ouvir.
É curioso pensar que ninguém nos vê como nós mesmos nos vemos. Os outros nos conhecem em movimento. Conhecem a voz, os gestos, a maneira de erguer uma sobrancelha diante de uma dúvida,
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Talvez seja por isso que tantas vezes rejeitamos uma foto perfeitamente comum. Não porque ela esteja feia, mas porque ela denuncia a nossa humanidade. Ela revela que o tempo trabalhou enquanto estávamos ocupados vivendo. Mostra que já não temos o rosto de vinte anos, mas temos as marcas das escolhas, das perdas, das noites maldormidas e das alegrias que também deixam rugas.
Há ainda um fenômeno mais profundo. Às vezes não publicamos a fotografia porque ela nos mostra exatamente quem somos. E reconhecer-se é uma das tarefas mais difíceis da existência. É mais confortável perseguir uma versão idealizada de nós mesmos do que aceitar a pessoa real, essa mistura de virtudes discretas e imperfeições teimosas. No fundo, quem sabe, a fotografia seja menos um retrato do rosto e mais uma pergunta filosófica. Quem é esse que me observa do
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No dia seguinte, voltamos a abrir a galeria do celular. Olhamos a mesma foto outra vez, e algo mudou, não a imagem, mas o olhar. Percebemos que ela nunca esteve errada. A expectativa de que a vida não deixasse vestígios é que estava errada.
Então, às vezes, publicamos a fotografia, mas não porque ela seja perfeita, e sim porque finalmente entendemos que a beleza talvez esteja justamente nisso: na coragem de permitir que o mundo veja um rosto verdadeiro, um instante comum e um ser humano que, como todos os outros, ainda está aprendendo a se reconhecer, porque, como escreveu o escritor e filósofo Miguel de Unamuno "em verdade cada um de nós é três: aquele que acreditamos ser, aquele que os outros acreditam que somos e aquele que realmente somos". A frase pertence à sua obra-prima de ensaios, O sentido trágico da vida", publicada originalmente em 1912.








