Tiramos uma foto , olhamos para ela por alguns segundos, damos zoom, olhamos de novo. Na verdade, é uma foto perfeitamente normal, ma...

Aprendendo a se reconhecer

psicologia comportamento fotografia
Tiramos uma foto, olhamos para ela por alguns segundos, damos zoom, olhamos de novo. Na verdade, é uma foto perfeitamente normal, mas ainda assim não a publicamos. Talvez porque não nos reconheçamos nela, ou talvez porque nos reconheçamos demais. Há uma estranha distância entre a imagem que vemos de nós mesmos e aquela que queremos, ou imaginamos, que os outros verão.

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Antigamente, um retrato era um acontecimento. Havia um fotógrafo, a pose, a roupa escolhida com cuidado e a resignação diante do fato de que aquela imagem, boa ou ruim, seria uma das poucas testemunhas da nossa passagem pelo tempo. Hoje produzimos dezenas de fotografias em poucos minutos e, paradoxalmente, nunca estivemos tão inseguros sobre a nossa própria aparência.

Talvez o problema não esteja na fotografia, mas no espelho invisível que carregamos dentro de nós. Existe a pessoa que acorda, que trabalha, que ri de uma piada sem importância e que se esquece de si mesma enquanto vive. E existe a pessoa que observa a própria imagem congelada e começa um julgamento silencioso. Os olhos parecem cansados, a testa revela anos demais, o cabelo conta uma história que o coração ainda não aceita ouvir.

É curioso pensar que ninguém nos vê como nós mesmos nos vemos. Os outros nos conhecem em movimento. Conhecem a voz, os gestos, a maneira de erguer uma sobrancelha diante de uma dúvida,
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a forma como o rosto se ilumina quando encontramos alguém querido. A fotografia, ao contrário, é um pequeno cárcere. Ela aprisiona um centésimo de segundo e finge que aquilo é uma pessoa inteira.

Talvez seja por isso que tantas vezes rejeitamos uma foto perfeitamente comum. Não porque ela esteja feia, mas porque ela denuncia a nossa humanidade. Ela revela que o tempo trabalhou enquanto estávamos ocupados vivendo. Mostra que já não temos o rosto de vinte anos, mas temos as marcas das escolhas, das perdas, das noites maldormidas e das alegrias que também deixam rugas.

Há ainda um fenômeno mais profundo. Às vezes não publicamos a fotografia porque ela nos mostra exatamente quem somos. E reconhecer-se é uma das tarefas mais difíceis da existência. É mais confortável perseguir uma versão idealizada de nós mesmos do que aceitar a pessoa real, essa mistura de virtudes discretas e imperfeições teimosas. No fundo, quem sabe, a fotografia seja menos um retrato do rosto e mais uma pergunta filosófica. Quem é esse que me observa do
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outro lado da tela? O homem que eu fui? O que ainda acredito ser? Ou aquele que os outros sempre conheceram e que eu nunca tive coragem de enxergar?

No dia seguinte, voltamos a abrir a galeria do celular. Olhamos a mesma foto outra vez, e algo mudou, não a imagem, mas o olhar. Percebemos que ela nunca esteve errada. A expectativa de que a vida não deixasse vestígios é que estava errada.

Então, às vezes, publicamos a fotografia, mas não porque ela seja perfeita, e sim porque finalmente entendemos que a beleza talvez esteja justamente nisso: na coragem de permitir que o mundo veja um rosto verdadeiro, um instante comum e um ser humano que, como todos os outros, ainda está aprendendo a se reconhecer, porque, como escreveu o escritor e filósofo Miguel de Unamuno "em verdade cada um de nós é três: aquele que acreditamos ser, aquele que os outros acreditam que somos e aquele que realmente somos". A frase pertence à sua obra-prima de ensaios, O sentido trágico da vida", publicada originalmente em 1912.

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