A estrada era longa e tortuosa. Fazia frio, e o vento gelado invadia-lhe as narinas, congelando seus pulmões. Mas ele seguia lúcido, pois, no final, haveria a promessa de encontrar o amor.
Atravessou trilhas cheias de ribanceiras e até adentrou numa planície cheia de canaviais. Ali, a lama cobria-lhe até as canelas, e a chã molhada salpicava suas costas de estalactites de barro, costas afora.
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Depois, embrenhou-se, feito cangaceiro, numa senda de espinhos que lhe marcaram o couro como garras de quem lhe queria um pedaço.
Ao amor ele se entregava como, num cadafalso, um condenado cede à lâmina do seu carrasco.
As condenações de amor não doem. São como pedras rolantes sentenciadas à queda d’água, naquele leito de pedregulhos que nem podem cochilar seu cansaço, nem que seja por um segundo. As condenações do amor não são sentenças de morte. São saltos nos abismos estranhos do desejo, nos quais os avisos de perigo existem, são lidos e esquecidos, sem medo da queda. Os amantes mergulham em si, nesses espaços abissais cujas descrições eu sou incapaz de fazer. Talvez, sendo poeta e mergulhando no poço escuro das palavras que nunca são ditas, das palavras mal ditas, outras bem ditas, haja um pequeno esboço do que seria o labirinto do amor.
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O amor prescinde de boias salva-vidas e até mesmo de canoas. Ele se apeou num tronco que flutuava numa ramagem à beira do rio. O amor começa num olhar e se realiza no abraço. Assim, ele abraçou aquele tronco e se lançou à correnteza para, quem sabe, alcançar a outra margem. Possivelmente era lá onde estava o amor.
Ele flutuou por 58 dias. Havia água limpa e comida no seu alforje. Havia estrelas a perder de vista e dias de muita chuva inundando o rio. Havia ele e só ele. Ele e o rio, ele no meio do rio. Ele sem margens. Noites de solidão. Dias de solidão.
Arrependimentos tardios pela aventura de se perder nas flutuações sem direção daquele rio-mar. Dormia abraçado ao tronco e sonhava em ser completo, sem precisar do amor. Dobrava-se sobre si, pensando naquela vida flutuante, incompleta. Ansiava pela cara-metade que lhe traria o amor.
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Às vezes, à noitinha, conversava com o tronco. Onde ficaram as folhagens? As raízes, onde caíram? Como ele, talvez o tronco navegasse para o nada. Para o encontro com ninguém.
Ele começou a notar que nada daquilo importava mesmo. Quiçá essa sua busca fosse uma total inutilidade. Na 42ª noite, começou a sentir um torpor pelo corpo, um sentimento de pertencer, ao mesmo tempo, ao tronco, às águas e às margens, nem mais vistas de tão distantes. Naquele dia, viu uma listra de fumaça na margem direita. Poderia ali mergulhar, nadar e refundar-se em terra firme. Andar e comer tudo o que a fome traduzira até então. Porém, não. Abraçou-se mais fortemente ao tronco e seguiu sua viagem naquele rio-senda.
Ele apreendia, a cada momento, a cada espaço, que o amor nunca esteve lá longe. O silêncio do tronco e as gargalhadas das águas corredeiras diziam isso. Ele sentiu o amor em tudo.
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No final do 58º dia, aquele que foi o último da jornada pelos caminhos aquosos do rio, acordou com um rugido de estouro. Ali, onde o rio era engolido pelo mar, onde as correntezas se juntavam em ciranda de marés, ali onde as águas doces se salgavam de mar.
Ele era o próprio mar. Nas vazantes, voltava-se ao rio. Nas enchentes do preamar.
Mar. Amar.
Ali residia, enfim, o amor. No balanço das marés, ele cultivou seus amores. Recitou baixinho réstias de poemas de amor sem fim. Cantou também trechinhos de músicas para seus ex-amores, como forma de agradecer um dia por aquelas presenças agora ausentes.
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Ele agora era um só em tudo.
Assim é o amor. Um sussurro de criação que conecta o Universo. Não era apenas dele. Um átomo. Outro átomo. O espaço entre eles. O pó. As nebulosas vagando noite adentro, querendo se juntar em estrelas. Estrelas e sua luz de explosão de outros átomos. Soltos. Átomos se unem na química do amor.
O ponto.
O todo.
O rio.
O tronco.
O humano.












