Eu dançaria, de muito bom grado, no enlevo da melodia e na pulsação dos versos de Kledir Ramil, com a mulher que tenho comigo lá se vai quase meio século. Refiro-me ao Kledir da famosa dupla com Kleiton, autores e intérpretes de sucessos que fizeram o Brasil cantar de Norte a Sul, sobretudo, na primeira metade dos anos de 1980. Sim, falo dos irmãos Ramil, os dois gaúchos que estouraram, nacionalmente, combinando o regionalismo sulista com as baladas da época. Os mais adentrados hão de lembrar de “Deu pra ti”, “Vira Virou” e “Paixão”.
Kleiton & Kledir - Deu Pra Ti ▪ YT Kleiton & Kledir
É ao som de “Paixão” que eu me deixaria levar a um dos salões de hoje com aquela que bem sabe dos meus passos e, portanto, se faz leve desde a nossa mocidade. Eu perderia metade dos meus 80 anos no balanço dessa música e em frações do seu poema: “Não quero ficar na tua vida como uma paixão mal resolvida. (...) Vou ficar até o fim do dia decorando tua geografia. (...) Ah, esse maldito fecho éclair (...) Tens uma beleza infinita e a boca mais botina que a minha já tocou” (...) E essa aventura em carne e osso deixa marcas no pescoço, faz a gente levitar”.
Kleiton & Kledir - Paixão ▪ YT MMB
Eis, aqui, um regresso aos 30, ou aos 40 anos de idade. Que octogenário não gostaria disso?
A “Paixão”, de Kledir, chegou-me, há pouco, na busca aleatória, via Internet, por músicas de antigamente, mania que tenho ampliado, imagino por qual razão. E me veio, desta vez, com a voz de Fábio Jr., um setentão com caras, bocas e gestos de garoto.
Cliquei o mouse no quadro do YouTube para ver esse artista, o violonista Álvaro Gonçalves e, também com eles, a jovem violoncelista Patrícia Ribeiro diante da plateia numerosa do show “Íntimo ao Vivo”, gravado em 2012. Vozes femininas gritavam a cada trejeito do cantor ora de olhos cerrados ora em sussurros e suspiros aprimorados em novelas e minisséries da Globo. Ele, para os que disso não saibam, também é ator. A câmera pouco se desviou desse trio, de modo que eu apenas supus, ali, a ocupação maciça das cadeiras por senhoras de meia idade, muitas delirantes e saudosas dos verdes anos, certamente.
Fábio Jr - Paixão (Ao Vivo) ▪ YT Fábio Jr Oficial
A saudade costuma fazer isso aos que muito já subiram os batentes do tempo. Quando dei por mim, surpreendi-me com desejos de salões para a dança a dois, logo no instante desses primeiros versos: “Amo a tua voz e a tua cor e teu jeito de fazer amor”. Nos anos de 1980, isso não me afetava tanto. Agora, eu e meus 80 anos nos pomos ridículos, ridículos, perante um Fábio Jr. feito de pixels. Vôte!
Os versos e os tons de “Paixão” não são nenhuma Brastemp, dirão muitos dos que tenham minha idade e a lembrança da propaganda que se tornou um dos maiores fenômenos da publicidade brasileira. Falo da peça lançada pela Agência Talent para impulsão das vendas de toda uma linha de eletrodomésticos, das geladeiras aos fogões. O sucesso avassalador foi a ponto de o bordão ultrapassar
GD'Art
as telas e virar expressão nacional de uso corriqueiro.
Tudo bem... Aceito que a letra e a melodia de Kledir estejam longe do primor. Como tantas outras coisas, não discuto música com ninguém. Cada qual com seu gosto, em cada fase da existência. Até porque, minhas e meus camaradas, uma canção nunca haverá de chegar sozinha aos ouvidos e ao coração de quem quer que seja. Sempre virá em más, ou em boas companhias. Pode aparecer em tempo ruim entre trovões e relâmpagos. E pode surgir numa brisa perfumada, em paisagens com pores do sol, em beijos espontâneos ou roubados, no roçar de cabelos e vestidos.
Não me peçam para ouvir “Carinhoso” por seguidas vezes. As notas de Pixinguinha casaram-se com a poesia suave e tocante de Braguinha para a concepção de um dos mais belos hinos da música romântica brasileira, eu sei disso. Percebo, em suas reais dimensões, a importância e o talento dessa dupla e, não menos, o valor daquilo que ambos ofereceram à alma e ao coração dos apaixonados, neste Brasil de tantas predileções e sotaques.
Elis Regina - Carinho ▪ Ballet “Elis” ▪ YT Dancing out there
Em 1917, meu pai tinha três anos de idade. Na ocasião, Pixinguinha compôs, com apenas duas, o choro de execução improvável, dada a exigência de três partes. Pois bem, a melodia ficou-lhe na gaveta até 1928, quando ganhou a primeira gravação totalmente instrumental. Braguinha criou seus versos em 1936 a pedido da atriz e cantora Heloísa Helena para o espetáculo beneficente “Parada das Maravilhas”, organizado por Dona Darcy Vargas, a Primeira Dama. No ano seguinte, a voz aveludada de Orlando Dias transformou essa música numa das mais aclamadas e duradouras peças do cancioneiro popular de uma Nação a caminho dos 220 milhões de habitantes.
Meu tolo coração de 15 anos desejou, em 1961, que aquilo tivesse sido feito para mim. Bem que eu merecia, pois meus olhos também se puseram sorridentes e em vão seguiram pelas ruas aquela bela menina. A percepção de “Carinhoso” veio-me, portanto, com dores de amor. Não me peçam, portanto, para muito amar a canção que já me fez lembrar da própria insignificância. Essas coisas marcam e ficam. Com música sempre será assim: ora virá bem ora mal-acompanhada, razão de gostos e desgostos. É por isso, repito, que não discuto música com ninguém.
Orlando Silva - Carinhoso (1937) ▪ YT Melodias de Antigamente
Além das canções, falemos de seus intérpretes. Admiro, profundamente, os que emocionam plateias sucessivas ao cantar as tristezas alheias com versos que não compuseram. Acho que conseguem fazer isso de melhor modo os experimentados nos palcos da dramaturgia, por dever desse ofício. Admiro, contudo, ainda mais, os intérpretes das próprias agonias, os que sustentam o choro e vão em frente.
Maysa - Meu Mundo Caiu ▪ Canal 8
Irrepreensível a Maysa Matarazzo de “Meu mundo caiu”, a mulher que deu fidelidade estética à desilusão, a que em suas obras muito expôs suas feridas, a que sussurrou segredos tristes a cada ouvinte. Como ela faz falta.
E o que falar do francês Jacques Brel, autor de “Ne me quitte pas” e dono da mais arrasada das almas que já subiram num palco? Destruído, humilhado, lacrimoso, suarento, esse moço conseguia cantar com o útero que não tinha. E Zizou, atriz e também cantora, alvo de suas súplicas, nem nem...
Jacques Brel - Ne Me Quitte Pas ▪ YT Músicas Antigas
Preciso dizer, com a idade de quem muito já testemunhou na vida, que nesse meio os grandes padecimentos e angústias não são privilégios dos ambientes enormes, refinados e famosos. Falo isso, sem deboche, evidentemente, com a autoridade de quem viu Zezinho da Serventia cantar, à frente do Conjunto de Zé Borges, boleros dolentes àquela que não o queria. Ele quase a chorar sangue e ela entregue aos braços e passos do amigo Paulo, nos bailes de um Pavilhão Público, o templo de memórias que a estupidez de um prefeito derrubou. Percebo, então, que perto disso, meus caros, as minhas dores de menino e, provavelmente, as suas não são nada. Não é não?