Em novembro de 1957, nos cais de Ferrol, no norte da Espanha, um instante de dor humana pura se desenhou no ar frio da manhã. Uma mãe partia deixando para trás, seu marido, um filho e a vida inteira que conhecia, para seguir rumo a um oceano que prometia futuro, mas cobrava despedidas irreparáveis. Ali, entre malas gastas e lenços úmidos, o fotógrafo Manuel Ferrol ergueu discretamente uma câmera escondida sob o casaco.
Foto: Manuel Ferrol, 1957
O que ele capturou não foi pose teatral, foi a alma aberta de uma despedida.
A fotografia, mais tarde chamada "O home e o neno", se tornaria um dos retratos mais comoventes do êxodo europeu do pós-guerra. Na imagem, o jovem pai, Ángel Calo Marcote, de vinte e nove anos, desaba em lágrimas ao lado do filho, Juan Jesús, de apenas oito. Diante deles, Josefina López, esposa, mãe, coração da casa, embarcava no Juan de Garay, rumo a Buenos Aires. Ela viajaria com a própria mãe e o irmão, juntando-se aos que buscavam, do outro lado do Atlântico, trabalho, dignidade e esperança.
Para Ángel e Juan Jesús, aquele adeus era definitivo. Nunca mais veriam Josefina. A fotografia eterniza esse instante, o segundo exato em que uma família se divide, não por falta de amor, mas pela violência silenciosa da necessidade. Aquela cena não foi exceção, mas eco, entre o século XIX e o fim do XX, mais de cinquenta milhões de europeus atravessaram o mar. A história registra números, mas a vida, guarda rostos,
Foto: Manuel Ferrol, 1957
vozes, cartas tardias e ausências que nunca deixaram de doer.
Para muitos, a migração não era viagem, era ruptura. Às vezes temporária, às vezes para sempre. O oceano tornava-se parede, o tempo, inimigo. As casas ficavam cheias de silêncio. As fotografias, de fantasmas.
A Espanha dos anos 1950 ainda vivia sob a sombra severa da ditadura de Franco. Partir era uma ferida, mas ficar também era. Ferrol e sua câmera captaram não apenas o drama íntimo de uma família despedaçada, mas o retrato de um país aprisionado pela pobreza, pela censura, pela falta de horizontes. O regime censurou a imagem, era demasiado verdadeira, demasiado humana. O nome do fotógrafo só veio à luz depois de 1975, quando o país voltou a respirar democracia. A composição é simples, quase desarmada. O rosto do pai contraído pelo pranto, o menino dissolvido de dor, a ausência da mãe já pairando como sombra. Não há cenário grandioso, apenas o ordinário rasgado pelo extraordinário, um adeus.
É essa simplicidade que torna a fotografia tão poderosa, ela fala de migração não como estatística, mas como fratura do cotidiano, como amor posto à prova pela distância. Em 1957, escrever uma carta era esperar semanas por resposta. Fazer um telefonema internacional era um luxo impossível. Para Ángel e Juan Jesús, a partida de Josefina não significava apenas perder o toque, o cheiro e o riso. Significava perder o ritmo da vida em comum. As refeições, os aniversários, a partilha dos dias, tudo se fragmentava no instante daquela fotografia. O que Ferrol capturou foi o nascimento dessa ausência.
Manuel Ferrol (1923–2003), conhecido mundialmente como "o fotógrafo da emigração". ▪ Fonte: AndanzasRelatos
O legado de "O home e o neno" (O homem e o menino, em galego), atravessou décadas e mares. Tornou-se símbolo não da partida, mas do que fica, o vazio, o peso, a coragem silenciosa. Em 2021, o Papa Francisco recebeu uma cópia e a chamou de uma das imagens mais humanas sobre migração que já vira. E tinha razão. Ferrol fotografou não o espetáculo, mas o que o espetáculo esconde. Pessoas comuns pagando o preço extraordinário da mudança. Sua câmera escondida não era intrusão, mas respeito. Ele não roubou aquela dor, apenas testemunhou sua existência. Por isso a imagem é tão ética quanto pungente. E talvez seja esse o motivo pelo qual ditaduras temem fotografias sinceras, porque a verdade nelas escapa ao controle.
Hoje, quando migrações continuam a redesenhar o mundo, os olhos de Ángel e Juan Jesús ainda falam. Suas lágrimas caem sobre fronteiras que seguem fechadas, suas mãos vazias espelham as de tantos que ficam para trás. O retrato lembra que a migração não é apenas jornada de quem parte, é também o luto silencioso de quem não tem escolha senão ficar. "O home e o neno" não é apenas documento histórico, é um poema de perda e coragem.