Lete, cujo nome significa esquecimento, constitui elemento da mitologia grega e uma reflexão filosófico-religiosa da Antiguidade. Filha...

A metafísica do esquecimento

Lete e Mnemosine orfismo filosofia teogonia
Lete, cujo nome significa esquecimento, constitui elemento da mitologia grega e uma reflexão filosófico-religiosa da Antiguidade. Filha de Éris, deusa da Discórdia, Lete encarna não apenas a perda da memória, mas uma dimensão ontológica do ser humano: o esquecimento como condição da existência mortal e como limite entre vida, morte e renascimento.

Segundo a tradição hesiódica, apresentada na *Teogonia* pelo poeta grego Hesíodo (750 a 650 a.C.), Éris gera uma prole associada às desordens da vida humana — entre elas a Fome, a Dor e o Engano. A filiação de Lete à Discórdia é coerente com o universo simbólico em que o esquecimento se apresenta como ruptura da continuidade do ser. Esquecer é, em certo sentido,
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dissolver a identidade, romper a unidade da memória que sustenta a consciência. Assim, Lete não é mero acidente psicológico, mas força cósmica e daimônica — um *daimōn*, isto é, uma potência intermediária entre deuses e homens, que atua sobre a alma.

A dimensão geográfica de Lete — o rio infernal — amplia essa simbologia. No imaginário grego, o submundo, governado pelo deus Hades, é atravessado por cinco rios: Aqueronte, Cócito, Flegetonte, Estige e Lete. Este último é o rio do esquecimento, cujas águas apagam a memória da vida terrena. A topografia mítica exprime, em linguagem imagética, uma concepção metafísica: a morte implica uma ruptura com o passado, e essa ruptura é mediada pela perda da memória. O esquecimento não é punição, mas condição de passagem.

Em algumas tradições, o rio Lete marcava a fronteira entre o Hades e os Campos Elísios — o espaço destinado às almas virtuosas. Antes de alcançar tal região ou de retornar ao ciclo da vida, a alma devia beber de suas águas. A ideia de que a reencarnação exige o apagamento das lembranças indica uma concepção cíclica da existência: a identidade
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individual não subsiste integralmente; ela é suspensa, dissolvida e reconfigurada. A memória, portanto, é o que prende a alma ao seu percurso anterior; o esquecimento, o que a liberta para um novo começo. É nesse ponto que a tradição órfica oferece uma interpretação decisiva.

O Orfismo elaborou uma escatologia segundo a qual a alma, de origem divina, encontra-se aprisionada no corpo e deve purificar-se para regressar à sua condição primordial. As chamadas lamelas órficas, pequenas placas funerárias encontradas em túmulos do sul da Itália e da Grécia, trazem instruções explícitas ao iniciado: ao chegar ao Hades, ele não deve beber do Lete, mas procurar a fonte de Mnemosine, a Memória. A inscrição orienta: “Encontrarás à esquerda da casa de Hades uma fonte; dela não te aproximes. Encontrarás outra, a da Memória; dela beberás”.

A oposição entre Lete e Mnemosine revela uma tensão psíquica. Se Lete é filha da Discórdia, Mnemosine é mãe das Musas — ou seja, da arte, da poesia e da inspiração. A memória é o fundamento da cultura e da identidade; o esquecimento, sua negação. Para o órfico, beber de Mnemosine significa conservar a consciência da própria natureza divina e, assim, escapar ao ciclo da metempsicose. O esquecimento perpetua o ciclo; a memória o rompe. Aqui, o mito adquire tonalidade filosófica: conhecer-se é recordar; esquecer-se é permanecer na ignorância.

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Essa mesma tensão reaparece na literatura clássica. Em *As Rãs*, de Aristófanes, a planície de Lete é evocada no contexto da descida ao mundo dos mortos, reforçando a associação entre o esquecimento e o além-túmulo. Já em *A República*, escrita pelo filósofo grego Platão (428/427–348/347 a.C.), no mito de Er (Livro X), as almas, antes de reencarnarem, bebem das águas do “rio do Esquecimento” (Ameles), esquecendo-se das experiências vividas no além. Platão observa que muitas bebem sem medida e, por isso, retornam à vida desprovida de memória espiritual. A narrativa filosófica retoma o simbolismo órfico, mas o integra a uma teoria da justiça e da responsabilidade moral: o esquecimento impede que o homem recorde a visão das realidades inteligíveis; a filosofia, ao contrário, é exercício de anamnese.

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Nos poetas latinos, como Públio Virgílio Maro (70–19 a.C.), o Lete reaparece com vigor. No Livro VI da *Eneida*, as almas que aguardam nova encarnação reúnem-se junto ao rio para apagar as lembranças do passado. O esquecimento, nesse contexto, é preparação para a história futura — no caso, o destino de Roma. O mito, assim, torna-se instrumento de reflexão histórica e política.

A presença constante de Lete na tradição greco-romana revela uma intuição antropológica central: a memória constitui a identidade, e o esquecimento marca suas rupturas. Entre o ser e o não-ser, entre a vida e a morte, entre o ciclo e a libertação, Lete é o limiar. Como personificação e como rio, ela exprime a dimensão trágica da existência humana — a fragilidade da lembrança e a inevitabilidade do esquecimento.

Entretanto, na contraposição com Mnemosine, surge uma esperança: a possibilidade de uma memória mais profunda, que transcende a individualidade empírica. A dialética entre Lete e Memória não é apenas mitológica; é filosófica e espiritual. Esquecer pode significar dissolução; recordar, salvação. Nesse entrelaçamento simbólico, o mito de Lete ultrapassa sua função narrativa e se converte em meditação sobre o destino da alma e o sentido último da identidade humana.

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