A aridez dos relatórios foi amaciada , ao que consta na nossa história literária, pelo texto de Graciliano Ramos, como prefeito, numa p...

Custa acontecer, mas acontece

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A aridez dos relatórios foi amaciada, ao que consta na nossa história literária, pelo texto de Graciliano Ramos, como prefeito, numa prestação de contas ao governo federal, chegada às mãos de Augusto Schmidt. Jorge Amado, não sei onde li, diz que não foi bem assim.

Assim ou assado, o relatório é peça sempre lida por obrigação. A não ser um João Agripino, que, acompanhado ou não, nem na cama largava a sua leitura. E me caem às mãos, agora, além das 28 páginas de A União da última terça-feira, mais 15 do mesmo formato, em tipo 12, equivalente a um livro de 70 ou mais páginas: o relatório integrado da nossa companhia de água — Cagepa.

Aos poucos entrei nele e me vi penetra entre os que levaram à pia batismal, em 1966, o antigo Departamento de Águas da capital, mudado para Sanecap no governo de Pedro e reestruturado como Cagepa por Agripino, missão a cargo de Manuel Dantas Vilar e Guarany Marques Viana, entre os de sua equipe.

Gritava-se nas ruas e assembleias contra a falta d’água nas torneiras e chafarizes; Buraquinho e Marés já insuficientes para a João Pessoa de 170 mil habitantes, num estado sem recursos para normalizar o abastecimento com o afluxo de outras fontes e a ampliação do sistema elevatório. Enfrentando a impopularidade de seu início de governo (a gratificação do Natal veio a ser paga em junho de 1967), os baixos vencimentos do funcionalismo, mesmo assim Agripino se dispõe a aumentar a conta d’água com a promessa de que “vamos botar um rio em sua casa”. Rio não faltava, como se sabe desde que o ouvidor português escolheu o piso da cidade.

Com esse testemunho, que entra no meu currículo de publicitário amador, passo a acompanhar o esforço da empresa não só para se antecipar às necessidades do consumo, como para o “cenário de maior exigência regulatória e aceleração das metas de universalização do saneamento”. É o que está escrito, fundamentando “a compreensão de que a atuação da Companhia depende da integração equilibrada de diferentes estoques de valor, que são utilizados, transformados e preservados ao longo do tempo. Dessa forma, o relatório evidencia como a Cagepa mobiliza e conecta o capital financeiro, manufaturado, humano, intelectual, social e natural para assegurar a continuidade, a expansão e a sustentabilidade dos serviços públicos de saneamento no Estado da Paraíba”. Bonito na escrita e nos resultados.

Hoje, sessenta anos depois, associo esse exemplo ao modelo de gestão adotado por João Azevedo, aluno e professor da Escola Técnica, fundada por Coriolano de Medeiros, hoje IFPB. Tudo que eles fundaram ou implantaram prosperou. Aprendi a mexer em tipos e a lidar com gráfica pelas mãos dos tipógrafos e impressores saídos da primitiva Escola de Artífices para as oficinas da nossa Imprensa Oficial.

Meio século depois, essa lição vem permitir, pela segunda vez na nossa história, que um governador da Paraíba não se queixe da falta de recursos. A primeira, e até então única, ocorreu entre 1935 e 1940, colocando a Paraíba no pódio das exportações do algodão de fibra longa, não faltando dinheiro para os campos de experimentação de uma agricultura que foi exemplo para o Nordeste; dinheiro para levar água das serras de Areia para Campina Grande; dinheiro para o postal urbano que passou a simbolizar João Pessoa — o Parque Solon de Lucena, com a avenida Getúlio Vargas encimada pelo Instituto de Educação — Liceu.

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