No último dia 27 de março, completaram-se 60 anos da posse de Dom José Maria Pires como arcebispo da Paraíba. Foram três décadas à frente da Arquidiocese, entre 1966 e 1995 — o segundo episcopado mais longevo da história da Igreja local, atrás apenas de Dom Adaucto Aurélio de Miranda Henriques, nosso primeiro bispo e arcebispo.
Adaucto Aurélio de Miranda Henriques (1855—1935), sacerdote e professor paraibano, nascido em Areia. Atuou como bispo e arcebispo da Paraíba no período de 1894 a 1935. ▪ Fonte: Wikipedia
Nascido em Córregos, distrito do município mineiro de Conceição do Mato Dentro, era filho de uma família humilde e cresceu com outros nove irmãos junto à carpintaria do pai. Estudou Filosofia e Teologia no
O jovem sacerdote José Maria Pires. ▪ Fonte: Fé Paraibana
Toda a sua vida havia se passado em Minas Gerais, até ser transferido para a Arquidiocese da Paraíba. Ele veio substituir Dom Mário de Miranda Vilas-Boas, que renunciou por razões de saúde. Dom José era “o pastor que veio das montanhas”, como escreveu Francisco Gil Messias no excelente O Redator de Obituários (Ed. Ideia, 2022).
Dom José foi o segundo bispo negro do Brasil. O primeiro havia sido o também mineiro Dom Silvério Gomes Pimenta. Em virtude da cor da pele, Dom José acabaria recebendo um apelido que o acompanharia pelo resto da vida: Dom Pelé. A origem da alcunha é curiosa, e não nasceu entre os fiéis, mas entre os próprios bispos.
O surgimento do Dom Pelé
A história foi contada num perfil publicado na revista Realidade em 1969, assinado pelo jornalista Marcos Castro, e ilustrado pelas fotografias de Jorge Butsuem.Revista Realidade, edição de março de 1969. Fonte: Biblioteca Nacional
No meio do caminho, a boiada de sempre — prossegue o perfil. — Estradinha estreita, apertada junto à cerca. Por mais devagar que fôsse e mais cuidado que tomasse, não conseguiu desviar daquela vaca, que foi ao encontro do pára-choque.
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⏤ Ô nego à-tôa! Num toma cuidado com as coisa, não? Ocê num tem jeito mesmo, num respeita nem êsses bispo que ôce tá levando aí... [sic.].
Mal sabia o boiadeiro que aquele a quem ele ralhava sem cerimônia, e de forma racista, viria a se tornar um dos prelados mais proeminentes do episcopado brasileiro, integrante da Comissão Central da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), e figura de destaque do chamado “clero progressista” da Igreja.
Dom José Maria Pires (1919–2017), sacerdote mineiro, nascido em Córregos. Primeiro arcebispo negro do Brasil, destacou-se pela atuação em defesa dos direitos humanos, da justiça social e do diálogo promovido após o Concílio Vaticano II. ▪ Fonte: YT TV Norte PB
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Vicente Feola ficaria marcado na história como o primeiro técnico campeão mundial com a seleção brasileira, mas também pelos seus nada desprezíveis 150kg. Foi ele o grande responsável pela convocação de Pelé na Copa de 1958, à época um jovem de apenas 17 anos e, ainda por cima, lesionado.
Se o apelido não pegou para Dom Vicente, o mesmo não se pode dizer de Dom José Maria Pires, que daquele dia em diante passou a ser chamado de Dom Pelé, especialmente quando a CNBB se reunia.
O apelido tomou proporções inesperadas. Na primeira reunião do Concílio Vaticano II, em 1962, os bispos italianos ouviram os colegas brasileiros chamarem Dom José de Dom Pelé, e passaram a tratá-lo assim também, com toda a solenidade, certos que aquele era, de fato, o seu nome. “Dom Pelé tornou-se o seu nome oficial, registrado até em documentos”, escreveu Marcos Castro.
1962: Abertura do Concílio Vaticano II, assembleia convocada pelo Papa João XXIII e concluída sob o pontificado de Paulo VI, responsável por profundas reformas na Igreja Católica no século XX. ▪ Fonte: Vatican News
A chegada de Dom Pelé
Assim que chegou à Paraíba, Dom José relatou a Marcos Castro que vivia a melhor fase do seu pastoreio, embora seu estilo já começasse a desagradar a católicos mais conservadores e a alguns usineiros da região. Mas foi a decepção de um homem simples, do povo, que ficou na memória.O então arcebispo de Olinda e Recife, Dom Hélder Câmara, muito satisfeito com a transferência de Dom José para a Paraíba, veio a João Pessoa anunciar aos fiéis a chegada do novo pastor. Fez isso em tom de brincadeira,
1980: Dom Marcelo Carvalheira, Dom José Maria Pires e Dom Hélder Câmara, reunidos em ato ecumênico. ▪ Fonte: Acervo Pe. Ribamar, via Memórias da Ditadura
Valendo-se dos termos da época, Marcos Castro registrou o seguinte:
Assim que Dom Pelé chegou, ficou logo rodeado de gente. O povo esperava um bispo prêto de verdade, conforme anunciara Dom Hélder, e o nôvo bispo era apenas um mulato claro, embora com traços característicos do negro. A decepção foi geral. Um homem mais simples não resistiu, chegou bem pertinho, quase a apalpar a pele de Dom José, e disse: — Ah, pensei que fôsse mais pretinho. Num é o Pelé, não... [sic.].
Dom José, certamente, não se importou com aquele gesto, vindo de um homem simples, pouco habituado à imagem de um arcebispo negro. Pelo contrário, ele reconhecia e denunciava a ausência dos negros nos altos cargos, nas universidades, nos ministérios, até mesmo na própria Igreja.Dom José reunido com trabalhadores rurais, na Paraíba. ▪ Fonte: Memorial da Democracia


















