Ângela Bezerra de Castro não escreve com o propósito de demonstrar conhecimento, embora seja uma erudita sem “erudição”. Aliás, ela e os qu...

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Ângela Bezerra de Castro não escreve com o propósito de demonstrar conhecimento, embora seja uma erudita sem “erudição”. Aliás, ela e os que verdadeiramente dominam as muitas vertentes da teoria literária, da história da literatura etc., evitam não só a utilização de termos absconsos, abstrusos, que dificultem a compreensão do leitor, como também disfarçam “o profundo conhecimento das teorias literárias, (...) para mostrar (...) o entendimento, a reflexão, o conhecimento amadurecido na leitura dos escritores da melhor cepa”.

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Juarez da Gama Batista
Diria que Ângela é fruto da consorciação da crítica, da ensaísta e da professora, esta última uma das principais responsáveis pela inclusão do autor paraibano em sala de aula. E isso numa época em que os ensaístas da província somente se mostravam receptivos aos autores canônicos. Que o diga Juarez da Gama Batista, estudioso da obra de Gilberto Freyre, Jorge Amado, José Lins do Rego e outros.

Já outro ensaísta, Virgínius da Gama e Melo, só eventualmente escrevia sobre a produção literária paraibana, como o fez a respeito da Geração 59 e do poeta Jomar Moraes Souto, cujo prefácio da 1ª edição do livro “Itinerário lírico da cidade de João Pessoa”, foi de sua autoria. Mesmo assim, aqui e acolá, saudava os novos autores que surgiam, mostrando-se benevolente com os estreantes, talvez movido pela intenção de incentivá-los no enfrentamento dos caminhos sempre árduos da literatura.

Geraldo Carvalho, este era uma exceção, pois além de dirigir uma editora artesanal – “Caravela” –, responsável pela publicação dos então jovens autores José Leite Guerra, Maria José Limeira, Jurandy Moura e Archidy Picado, acompanhava passo a passo a produção literária da época, resenhando-a na coluna semanal “Pro-textos”, que mantinha no jornal “Correio da Paraíba”.

Virginius, pela sua condição de professor de Teoria da Literatura, bem que poderia ter adotado os autores paraibanos em sala de aula, mas não o fez. Geraldo, talvez o fizesse, mas não exercia o magistério.

Por outro lado, na medida em que procurava descobrir as recorrências estilísticas e temáticas dos autores federais, estaduais e municipais, Ângela não fazia distinção entre eles, pois procedia de modo a demonstrar que Augusto dos Anjos, José Lins do Rêgo, Vanildo Brito, J. J. Torres, Natanael Alves, Juarez da Gama Batista, Eduardo Martins, Aurélio de Albuquerque, entre outros, eram autores de suas “afinidades eletivas”. Daí, com muita propriedade, Luiz Augusto Crispim ter observado que “Ângela Bezerra de Castro desencantou o escritor paraibano”.

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Ângela Bezerra de Castro
Ainda com relação à Ângela, quando ela faz a leitura de um texto, só posteriormente o submete às muitas teorias das quais se abastece, escolhendo, numa etapa seguinte, a que melhor se presta à exegese do poema ou da prosa de ficção. Em suma, o seu tipo de abordagem é reivindicado pelo próprio texto, diferentemente dos críticos e ensaístas que, a reboque de teorias mal assimiladas, adotam, de maneira apriorística, os mesmíssimos modelos de análise aos quais submetem os mais diferentes mecanismos de criação.

Todo e qualquer crítico ou ensaísta, por mais aparelhado teoricamente que seja, contém a sua porção impressionista, embora o impressionismo seja demonizado por muitos que, obstinada e cegamente, não reconhecem os momentos de absoluto rigor reflexivo do pernambucano Álvaro Lins, um dos mais legítimos representantes dessa vertente crítica.

Em outras palavras, eu diria que o crítico não deve se munir apenas da teoria, mas também da “intuição”, espécie de impressionismo que longe de se originar de um insight ou de uma epifania, provém da experiência acumulada do leitor voraz e veraz que todo crítico que se preza o é, a exemplo de Ângela Bezerra de Castro, conforme ratificam a sua obra anterior e o seu livro mais recente, “Um Certo modo de ler”.


Sérgio de Castro Pinto é doutor em literatura, professor e poeta, membro da APL

Chama-se de " Invasão Britânica " a avalanche de bandas de rock inglesas que, na década de 1960, inundou o mercado fonográfico do...

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Chama-se de "Invasão Britânica" a avalanche de bandas de rock inglesas que, na década de 1960, inundou o mercado fonográfico dos Estados Unidos e espalhou-se pelo planeta. Comandada pelos Beatles, a tropa era formada pelos Rolling Stones, The Animals, Herman's Hermits, The Kinks e outros grandes grupos.

Anos antes, o Brasil havia sido submetido a uma outra invasão musical, semelhante àquela provocada pelos ingleses. Foi a época de ouro do bolero, em sua romântica versão mexicana. Durante parte das décadas de 1940 e 1950, o bolero entrou, de forma avassaladora, nos rádios e nos espetáculos do país, exercendo inegável influência na música popular brasileira. A "Invasão Mexicana" se estendeu pelas décadas seguintes, como mostram os exemplos de duas obras-primas da nossa canção, que são boleros típicos:

Começaria Tudo Outra Vez
Gonzaguinha

Ao som desse bolero
Vida, vamos nós
E não estamos sós
Veja meu bem
A orquestra nos espera
Por favor!
Mais uma vez, recomeçar

Dois pra Lá, Dois pra Cá
João Bosco / Aldir Blanc

Meu coração traiçoeiro
Batia mais que o bongô
Tremia mais que as maracas
Descompassado de amor

O bolero, na forma que hoje se conhece, originou-se da Espanha e seguiu para Cuba, tendo lá se miscigenado com a música local, transformando-se em som ritmado e dançante. Da ilha caribenha, migrou, pela península de Yucatán, para o México, onde perdeu parte da sua força rítmica e suavizou-se em langorosas canções que, invariavelmente, falavam em desilusões, paixões impossíveis e amores desfeitos. Foi principalmente esse bolero asteca que aportou no Brasil, atraído, de início, pelos shows realizados em cassinos, quando aqui funcionavam regularmente. O país chegou a contar com aproximadamente oitenta casas de jogos legalizadas.

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Para o cronista Rubem Braga, naquele tempo “era tudo bolero, e o bolero era tão forte que pressionou o samba-canção, criou o sambolero... única força a enfrentá-lo foi o baião, mas quem o derrubou foi o general Dutra, fechando os cassinos; sem o dinheiro do jogo, adeus bolero”.
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A lei estabelecia que os impostos provenientes da operação dos cassinos deveriam ser destinados a obras beneficentes. Mas a tributação era feita de forma discutível, ao ponto de J. E. Macedo Soares, importante jornalista da época, escrever que o Brasil tornara-se “uma formidável empresa de pano verde” e que o governo “era sócio da jogatina”. O decreto de proibição dos cassinos, editado três meses após a posse do presidente Eurico Gaspar Dutra, considerava que “a tradição moral, jurídica e religiosa do povo brasileiro é contrária à exploração dos jogos de azar”. Dizem, porém, que a inspiração maior da decisão do presidente foi mesmo de sua esposa, Dona Carmela, conhecida como Dona Santinha por sua extrema religiosidade. Devoção tão forte que uma capela foi erguida no Palácio Guanabara para que ela pudesse cumprir suas orações.

O fechamento dos cassinos estancou a enxurrada de artistas internacionais que vinham se apresentar no Brasil e que eram, majoritariamente, cantores mexicanos de bolero, como Pedro Vargas, Tito Guizar e Trio Los Panchos. Esses músicos eram tão populares quanto Orlando Silva, Francisco Alves, Dalva de Oliveira ou qualquer outro entre os mais conhecidos cantores e cantoras brasileiros.

Que não se confunda este relato da grande penetração do bolero no Brasil (fato incontestável) com qualquer ilação relacionada à má qualidade das canções do citado gênero musical, o que não é verdadeiro. O bolero inspirou, e ainda inspira, melodias de grande qualidade. E o México se equipara a Cuba quando se trata de grandes compositores de boleros. Citamos alguns deles, do final da primeira metade do século 20, com suas músicas mais conhecidas:

A canção "Cuando Vuelva a Tu Lado", de Maria Grever, é repetidamente gravada e interpretada nos EUA, na versão "What a Difference a Day Makes" e muitos pensam que foi composta por algum músico norteamericano.
Alvaro Carillo: Sabor a Mi e Sabra Dios;
Maria Grever: Te Quiero Dijiste e Cuando Vuelva a Tu Lado *;
Luiz Demetrio: La Puerta e Quién Será?;
Consuelo Velasquez (grande pianista e compositora): Cachito e Besame Mucho;
Alberto Dominguez: Perfídia e Frenesi;
Roberto Cantoral: La Barca, El Reloj e Regalame Esta Noche.

O artista mexicano que deu projeção internacional à música do seu país foi Ángel Agustín María Carlos Fausto Mariano Alfonso Rojas Canela del Sagrado Corazón de Jesús Lara y Aguirre del Pino, mais conhecido, simplesmente, como Agustín Lara.
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Pianista, compositor, cantor, chefe de orquestra e poeta, Agustín era chamado por seus conterrâneos de El Flaco de Oro (O Magro de Ouro).

Agustin Lara teve a sua vida marcada por casos nebulosos que ele próprio se encarregava de tornar ainda mais ambíguos, ao dar veracidade às várias versões apresentadas. Esses episódios dramáticos que o envolveram compunham um autêntico dramalhão mexicano. Ele não era, como se dizia antigamente, um indivíduo bem apessoado, um homem “guapo”.

Muito magro, sisudo, usava dentadura postiça desde os vinte anos e ostentava na face uma cicatriz marcante, que se estendia do canto da boca até a orelha. Como teria surgido a cicatriz é um daqueles fatos misteriosos da vida de Lara. Entre as muitas versões, escolhemos a do brasileiro Zuza Homem de Melo, que diz que Lara teria comunicado a uma namorada o fim do romance; “inconformada, ela atacou-o enquanto dormia com uma adaga [...] É o primeiro episódio de uma série que o converteu em um verdadeiro mito do bolero mexicano”.

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Apesar dos seus parcos atributos físicos, Agustin Lara teve incontáveis romances e envolveu-se em seis casamentos, um deles com a atriz de cinema Maria Félix, considerada uma das mulheres mais bonitas do México. Suas composições eram atribuídas a motivações nem sempre verdadeiras, o que contribuiu para que se tornasse uma figura lendária. Conta-se que duas de suas mais conhecidas canções (Maria Bonita e Noche de Ronda) foram feitas para Maria Félix.

Um dos maiores sucessos de Agustin Lara teria sido composto para ser interpretado por José Mojica, cantor e ator mexicano. No auge da fama, Mojica abandonou a carreira artística para devotar-se ao amor de uma única Maria. Entrou na Ordem dos Franciscanos, passando a ser o frei José Francisco de Guadalupe Mojica. E foi vestindo o hábito religioso que o frade participou, em 1950, da primeira transmissão de TV no Brasil, cantando os amorosos versos de "Solamente Una Vez", de Agustin Lara. Outra faceta do El Flaco de Oro foi, sem nunca ter visitado a Espanha, compor uma série de canções dedicadas a cidades espanholas: Toledo, Sevilha, Madri, e a mais famosa delas, Granada. Dizem que Lara recebeu do então ditador espanhol Francisco Franco, como gratidão por ele ter reverenciado as terras castelhanas, uma mansão em Granada.


Em junho de 1952, em uma das oportunidades em que esteve no Brasil, Agustin Lara veio à Paraíba. Comandava a sua orquestra com 20 componentes e que tinha Consuelo Vidal como principal cantora. Fez apresentações na capital do Estado, na Rádio Tabajara e no Clube Astréa. Em Campina Grande, apresentou-se sob o patrocínio da Rádio Borborema, que fazia parte do mais poderoso grupo de comunicação do País na época, pertencente ao paraibano Assis Chateaubriand.

Agustin Lara morreu em 1970, na cidade do México. Tinha 70 ou 73 anos (até a sua idade é incerta). Foi enterrado no Panteão dos heróis nacionais, onde estão os restos mortais de outros artistas mexicanos, como os pintores Diego Rivera e Siqueiros.
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Há estátuas de Lara em várias cidades mexicanas. Mas não é somente em sua terra que ele é reverenciado. Los Angeles, Havana e Madri também têm suas estátuas de El Flaco. Na capital paraibana não há ruas ou praças com nomes de Dorival Caymmi, Pixinguinha, Cartola, Antonio Carlos Jobim ou mesmo dos paraibanos Zé Marcolino ou Zé do Norte. Mas, um atuante edil do município, muito provavelmente amante dos boleros, não se esqueceu do Magro de Ouro. Por isto, a Cidade de Nossa Senhora das Neves conta, no bairro Cristo Redentor, com uma rua chamada Compositor Agustin Lara.


Flávio Ramalho de Brito é engenheiro e articulista

As obras de arte às vezes nos levam a Lilliput, às vezes a Brobdingnag. O que importa é se são perfeitas. Sobre os poemas de Sérgio de Ca...

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As obras de arte às vezes nos levam a Lilliput, às vezes a Brobdingnag. O que importa é se são perfeitas.

Sobre os poemas de Sérgio de Castro Pinto foi dito que são claros, ágeis, nítidos, suficientes (Câmara Cascudo); escritos com maestria e senso de humor (Ferreira Gullar); têm uma concisão que beira com frequência à lapidaridade (José Paulo Paes); coisa de quem monta o mundo em pelo (Lygia Fagundes Telles); têm o dom de captar o incaptável e de ver o invisível (Hildeberto Barbosa Filho); são a reinvenção da metáfora (José Louzeiro); obra de um poeta com astúcia verbal (Fábio Lucas).

“A natureza do plano espiritual reflete as emissões mentais dos seus habitantes, sendo organizada por elementos semelhantes aos do plano fí...

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“A natureza do plano espiritual reflete as emissões mentais dos seus habitantes, sendo organizada por elementos semelhantes aos do plano físico, porém mais aperfeiçoados e leves, porque a matéria se encontra em outra dimensão vibratória”, assinala articulista de Reformador.

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A estas alturas, não importa o que digam em contrário, sei perfeitamente o que ficou – e o que ficará – por fazer na minha vida. Não adianta afirmarem os eternos otimistas que ainda há tempo, que enquanto há vida, há esperança, bla, bla, bla etc e tal. Sim, pode até haver tempo para mais alguma coisa, mas certamente não para aquelas a que me refiro acima, as que ficaram e ficarão por fazer. As que, já sei, constarão na coluna dos débitos no balancete final de minha passagem pelo mundo.

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Sempre me intrigou o assunto da violência sexual contra as crianças. Pergunto-me: como um homem, — na maioria das vezes um familiar que supostamente deveria proteger (pai, padrasto, padrinho) — abusa de pré-adolescentes? Onde mora esse prazer de tamanha brutalidade? É distúrbio? Doença? Seja o que for, é abominável esse descompasso do sexo entre um adulto e uma criança, que não entende o que acontece, ainda mais aquele abuso estudado. Quais os caminhos? Quais as estratégias para atingir-se tão aberrante objetivo?

Estávamos apenas há dois dias na Itália e em tão pouco tempo coisas memoráveis já haviam nos acontecido. Muitas emoções já tínhamos vivido,...

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Estávamos apenas há dois dias na Itália e em tão pouco tempo coisas memoráveis já haviam nos acontecido. Muitas emoções já tínhamos vivido, mas algumas surpresas ainda estavam reservadas para nós. E que surpresas!

Em nosso segundo dia em Cesenático tomamos conhecimento, por meio de Fiorenzo Presepi, do hotel Dolce Vita, que Rimini, a cidade natal de Federico Fellini, ficava logo ao sul, a apenas meia hora de trem.

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Rimini foi o cenário de boa parte dos filmes do cineasta italiano, os melhores, em minha opinião. Ele tinha grande fascínio pela cidade. Era uma espécie de Macondo, de Gabriel Garcia Marquez; ou da minha Misericórdia, guardadas as devidas proporções.

Acompanhei o trabalho de Fellini desde a minha juventude. Adoro seus filmes, todos enriquecidos pela música inconfundível de Nino Rota. Eu os vejo com boa frequência.

Na lista dos 10 melhores filmes da minha vida, "Amarcord" ocupa o primeiro lugar. Depois está "O Baile", de Ettore Scolla. Em seguida vêm os outros.

Sabendo da proximidade de Rimini, combinei com Ilma, minha esposa, aproveitarmos a oportunidade de visitar a cidade. Era o nosso último dia na região, pois viajaríamos para Roma na manhã seguinte. Um dos companheiros de viagem, que também admirava Fellini, resolveu nos acompanhar.

Passamos a manhã conhecendo Cesenático, em um agradável passeio, conforme já descrevi neste Ambiente de Leitura, na postagem "Recepção à moda italiana". Almoçamos mais cedo, e em pouco tempo desembarcamos, os três, na estação ferroviária de Rimini.

No birô de informações, procuramos saber quais os maiores pontos de atração do lugar. Em nosso íntimo, sabíamos que a maior de todas as atrações era a própria cidade! Havia muito o que visitar, naquele lugar especial, cenário de muitos filmes de Fellini. Ficamos interessados em realizar o "Amarcord Tour", promovido pela entidade de turismo local, um passeio pelo lugares marcantes da filmografia do cineasta. Todavia, restou-nos apenas visitar algumas das locações do roteiro, pois uma greve ferroviária estava marcada para as 9 da noite daquele dia. Fomos obrigados, assim, a limitar o passeio.


Nossa intenção era evitar surpresas na viagem de volta a Cesenático, ainda mais sabendo que os grevistas italianos param os vagões onde quer que estejam, numa estação ou antes dela. Se isso acontecesse, teríamos que concluir o percurso caminhando pelos trilhos. Por tudo isso, compramos, de logo, os bilhetes de embarque de retorno, com o vagão e lugares marcados.

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Passamos o tempo visitando os templos sagrados de Fellini. O Grand Hotel era o mais expressivo, foi lá que "La Gradisca", principal personagem feminina de Amarcord, pôde esnobar toda a sua sensualidade, diante do "Il Príncipe", outra figura tipicamente felliniana.

As melhores cenas de Os Boas Vidas (I Vitelloni) também foram filmadas no Grand Hotel (dá até para “ouvir” a música de Nino Rota, enquanto escrevo). Sempre que podia, Fellini incluía o Grand Hotel em suas produções.

Quantas lembranças o hotel me evocou: o professor popular na bicicleta, descrevendo "le manine"; "la Volpina", ninfomaníaca; os camisas-negras se exibindo de forma ridícula; o acordeonista cego, tocando Siboney no casamento da Gradisca... Ahhhh!

O estabelecimento também foi cenário de um dos instantes mais ternos de "Amarcord." No filmes, o hotel está fechado devido ao inverno. Lá fora os rapazes realizam uma suave dança ao som da música tema do filme, simulando tocar instrumentos imaginários. Lindo momento, cheio de ternura. De arrepiar!


Seguindo para o centro visitamos o Cine Fulgor, onde Fellini teve a oportunidade de destilar todo o espírito moleque, anarquista, da sua adolescência. Algo ocorrido com a da maioria de nós.

Caminhamos pela rua onde havia uma tabacaria na qual o jovem Fellini recebe os favores adolescentes da dama proprietária, de corpo avantajado, num encontro hilariante.

Deixamos para o fim o passeio na praça Cavour, onde "La Gradisca" desfila o seu charme, sendo alvo de atenções masculinas expressivas, que hoje podem ser mal-interpretadas como assédio, mas que as mulheres de outrora adoravam, por se sentire atraentes. As italianas, pelo menos.

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Ali também acontece a cena do motociclista misterioso, a percorrer em alta velocidade as ruas da cidade, especialmente a praça coberta de neve, em desafio às autoridades.

Lamento não termos tido tempo para visitar a fazenda onde o tio maluco de Fellini sobe numa árvore e grita, bem alto: “Voglio una donna! Voglio una donna!”. Ninguém consegue fazê-lo descer. Até que trazem a freira, diretora do asilo onde ele moraa, que tem metade do tamanho dele. Ela, porém, é muito braba: passa-lhe uma descompostura e ele desce!


Num restaurante da praça tomamos um vinho em homenagem a Fellini, e apressamos o nosso retorno à estação. Mas a maior surpresa estava reservada para o fim da nossa visita.

O acesso às plataformas da estação de Rimini se faz por um corredor subterrâneo, de onde sobem escadas tão íngremes que mais parecem os degraus de templos astecas. Preocupados com a iminência da partida do trem para Cesenático, subimos por essas escadas uma por uma, procurando o comboio. A nossa plataforma era a terceira, e chegamos lá em cima quase sem fôlego.

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Encontramos um trem parado, todo escuro, as paredes cobertas de pichações indecifráveis, sem placa de destino nem outras informações. Ficamos parados, confusos, procurando alguma identificação. Foi quando ouvimos uma voz feminina atrás de nós dizer, em português cristalino: 


— O trem para Cesenático é esse aí mesmo!

Olhamos para trás e vimos uma mulher escorada na balaustrada de uma das escadas de acesso à plataforma mal iluminada.
 Ela era magra, alta, pele bronzeada, bem maquiada, elegante e vestia uma calça pantalona de veludo cotelê verde e um bustiê róseo. Estava acendendo o seu cigarro numa sofisticada piteira madrepérola.

Aproximamo-nos e Ilma perguntou encantada, pois havia mais de três semanas que estávamos na Europa, sem ouvir ninguém falar o nosso idioma:

— Você é brasileira? De onde você é?”

— Do Recife — respondeu, com o sotaque típico dos habitantes da metrópole vizinha

— Que maravilha! Nós somos da capital paraibana. Faz tempo que está na Itália?

— Mais de cinco anos.

Nisso chega o nosso amigo, que estava mais atrás. Ilma, entusiasmada, fala pra ele:


— Olha, que beleza! Ela é brasileira e nossa vizinha, lá do Recife.

— Ah! Olá. Tudo bem? E o que você faz por aqui?

— A situação não estava boa no Brasil. Vim tentar a vida na Itália. Aqui tenho muito mais oportunidades.

— Você trabalha em quê? — perguntou nosso companheiro.

— Canto e danço nas boates da região.

Ouvindo isso, comecei a prestar maior atenção na conterrânea: boa altura, rosto ligeiramente anguloso, gogó evidente, maçãs salientes, testa idem, tudo realçado por uma bandana larga. Então resolvi dar a estocada final:


— Qual é o seu nome?

— Grêice — disse ela.

Touché! Aí resolvi deixar o grupo de brasileiros deslumbrados trocando elogios e informações de viagem e fui procurar o vagão “D” do trem para Cesenático. Ainda ouvi quando nosso companheiro falou:


— Puxa! Com essa voz, esse corpo e esse bronzeado, você deve fazer o maior sucesso!

Pano, rápido!


José Mário Espínola é médico e escritor

O latim está em toda a parte. Às vezes, quero me esconder dele, mas não adianta, ele sempre dá um jeito de se mostrar. Embora considerada, ...

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O latim está em toda a parte. Às vezes, quero me esconder dele, mas não adianta, ele sempre dá um jeito de se mostrar. Embora considerada, por muita gente, uma língua morta, a realidade me diz que ela não só está viva, mas goza de muito boa saúde.

Foi Pedro quem gritou por cima do ombro da namorada: “Canta Esmoque Guetes Ior Ai”. E Zezinho da Serventia, obediente, atacou, depois da in...

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Foi Pedro quem gritou por cima do ombro da namorada: “Canta Esmoque Guetes Ior Ai”. E Zezinho da Serventia, obediente, atacou, depois da introdução da clarineta de Zé Borges: “Dei, ei, esque rau ai niu”...

O Ambiente de Leitura Carlos Romero sorteou hoje, dia 22 de agosto, 3 CDs do álbum “Keys to Rio”, da pianista clássica Grace Smith-Alves. O...

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O Ambiente de Leitura Carlos Romero sorteou hoje, dia 22 de agosto, 3 CDs do álbum “Keys to Rio”, da pianista clássica Grace Smith-Alves. O sorteio ocorreu entre os leitores que comentaram a publicação “No caminho da música", do professor Sam Cavalcanti.

Todo ser humano sonha com a liberdade, seja no campo político e social, quanto no que diz respeito à individualidade. Entretanto a liberdad...

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Todo ser humano sonha com a liberdade, seja no campo político e social, quanto no que diz respeito à individualidade. Entretanto a liberdade nunca poderá ser vivida de forma absoluta, porque está sempre condicionada à observância de limites morais e racionais impostos para que se possa viver bem em sociedade.

Volto à marca em que havia deixado, há duas semanas, a leitura de “Os olhos no exílio” de Francisco Barreto Filho.

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Volto à marca em que havia deixado, há duas semanas, a leitura de “Os olhos no exílio” de Francisco Barreto Filho.

Queria comprar a calça que vira na vitrine. Era cara, a mesmíssima usada pela atriz da novela na televisão. Tudo atrasado: água, luz, merce...

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Queria comprar a calça que vira na vitrine. Era cara, a mesmíssima usada pela atriz da novela na televisão. Tudo atrasado: água, luz, mercearia. Sequer possuíam cartão de crédito, uma raridade não tê-lo, numa época consagrada ao fetiche de plástico.

Fala-se da melancolia como um novo mal do século, mas ela é tão antiga quanto o próprio homem. Pode-se dizer que o que nos inaugura, em ter...

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Fala-se da melancolia como um novo mal do século, mas ela é tão antiga quanto o próprio homem. Pode-se dizer que o que nos inaugura, em termos simbólicos, é a tristeza consequente à “primeira transgressão”. Essa tristeza nos estrutura e nos reinventa.

Sucumbimos ao apetite pelo fruto proibido e em troca ganhamos o arrependimento, o selo de nostalgia que nos faz encarar continuamente a face do abismo, o outro lado de nós mesmos, a sombra da morte (contra a qual se recorta a vida em seu provisório esplendor).

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Perder é o nosso destino e em nenhum momento nos alheamos disso. Vestimos os disfarces da alegria mas somos substancialmente tristes, herdeiros de Belerofonte, o patrono da grei dos melancólicos na cultura ocidental. Ele teve a ousadia de desafiar os deuses e acabou ficando sozinho, “cantando sobre os ossos do caminho/ a poesia de tudo quanto é morto” – conforme dirá séculos depois Augusto dos Anjos.

Aristóteles destacou o refinamento perceptivo do melancólico, que teria mais aptidão do que os outros homens para as atividades do pensamento e da arte. O que o acomete é um desequilíbrio humoral (discrasia); nele o humor negro (melaina kole) prepondera sobre os outros humores. Mas, para o estagirita, ser dosadamente triste é vantajoso.

Foram os românticos que descobriram (e valorizaram) o charme da melancolia. Com eles a tristeza e o tédio viraram pose e se transformaram numa escolha de vida (e também de morte). Divinizavam a mulher para colocá-la fora do seu alcance. Embora dessem a entender o contrário, eles fugiam do prazer erótico, ao qual se associava a angústia decorrente do sentimento de culpa. O amor romântico era uma maldisfarçada vitória de Tânatos.

Veio a modernidade e, com ela, Freud. Entre as muitas intuições que teve o mestre vienense, destaca-se a de que o melancólico está de luto. Tão simples, mas só ele viu.

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Ou, se outros também viram, foi ele quem melhor formulou a ideia da melancolia como resultante de um luto por si mesmo (uma defecção do ser, como diz Julia Kristeva em “Sol negro”).

O mecanismo é distinto do que ocorre no luto normal: ao perder o objeto (que pode ser uma pessoa, um ideal, um valor), o sujeito se identifica com ele. E passa a tratar a si mesmo com o ressentimento que deveria ser destinado a quem o abandonou. Desprezado, o sujeito julga que não merece o afeto ou o interesse de ninguém. Perde a autoestima e se abisma numa tristeza que pode culminar no suicídio – uma forma de matar, enfim, esse outro cuja sombra caiu sobre ele.

Seja na perspectiva da teologia, seja na da filosofia ou na da psicanálise, que vê o melancólico como vítima de um jogo de forças no qual o objeto triunfa sobre o eu, ressalta-se a concepção da melancolia como uma crise do indivíduo, da subjetividade, enfim, do próprio ser. Mas é ela que orienta a nossa busca para um absoluto que desejamos, fantasiamos, e que também está em nós. Para além da triste máscara de Narciso.


Chico Viana é doutor em teoria literária, professor e escritor

O leitor ávido por peripécias talvez conclua, equivocadamente, que “Liturgia do fim” tem palavras de mais em um enredo de menos. Mas o fato...

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O leitor ávido por peripécias talvez conclua, equivocadamente, que “Liturgia do fim” tem palavras de mais em um enredo de menos. Mas o fato é que esse é um livro cujo principal protagonista é a linguagem, responsável pela condução de um enredo simples, frugal, mas que ganha em densidade na medida em que o narrador Inácio Boaventura mergulha de ponta-cabeça no seu universo psicológico.

Aprendi a gostar de palavra com minha mãe, que era professora e me ensinou a ler, em casa mesmo. Depois eu ganhei uma coleção bem bonitin...

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Aprendi a gostar de palavra com minha mãe, que era professora e me ensinou a ler, em casa mesmo.

Depois eu ganhei uma coleção bem bonitinha de livros, que se chamava "Meu Primeiro Dicionário". Por causa dessa coleção, eu pegava o "Aurélio" da casa (eu digo assim porque achava que em toda casa tinha um), e folheava para aprender palavras novas. "Apropinquar, panacéia, arrulhos, escaravelho, ósculo..." e ficava imaginando uma oportunidade de usá-las. Finalmente esse dia chegou.