Gosto de fechar os olhos e escutar, o som do vento que uiva passando pelas frestas das janelas, ao longe o barulho do motor de um carro que arranca, apurando mais o ouvido , ouço uma serenata de gatos que se acasalam. Aprofundando mais ainda o sentido, dá para ouvir o som de grilos que cricrilam, saudando a Lua no céu.
Às vezes sou toda ouvidos... falo isso literalmente, às vezes, gosto de esquecer os outros sentidos para ouvir os sons da vida que passa...
Sons
Gosto de fechar os olhos e escutar, o som do vento que uiva passando pelas frestas das janelas, ao longe o barulho do motor de um carro que arranca, apurando mais o ouvido , ouço uma serenata de gatos que se acasalam. Aprofundando mais ainda o sentido, dá para ouvir o som de grilos que cricrilam, saudando a Lua no céu.
I Mais poeta de hábitos que de versos, busco levar minha vida ordinária, construindo poemas submersos, esperando que um dia c...
Existo em minhas memórias
Mais poeta de hábitos que de versos, busco levar minha vida ordinária, construindo poemas submersos, esperando que um dia cheguem à praia...
Só me apego a lembranças, às minhas velhas histórias... Sendo um ser sem semelhanças, existo em minhas memórias.
... até que um ator "chegue" ao personagem Há exatos vinte anos, eu, com 60, ao me ver prestes a participar — sob o sol do s...
As muitas voltas que o mundo dá...
Tive a oportunidade de trabalhar e viver cinco anos na Colômbia, quase dois no México e aproximadamente quatro anos no Peru. Isso aumento...
E os livros? Até quando resistirão?
Apesar de ter-me filiado à corrente filosófica do nadismo, ainda não consegui alcançar o último e mais importante dos seus objetivos. Já...
Um algoritmo, pelo amor de Deus
Ele acordou e decidiu fazer tudo diferente. Desde jovem era mal humorado, com o tempo foi se tornando grosseiro, intolerante, desconfia...
O homem transformado
Era uma segunda-feira, justamente o dia da semana que mais o enervava. Voltar ao trabalho, encontrar pessoas, cumprir obrigações, enfrentar o trânsito...
Solha não se inscreve entre aqueles eruditos que só fazem acumular conhecimentos e cuja memória prodigiosa retém o que os outros dizem...
O novo livro de W.J. Solha

Solha, atento sobre o que os outros dizem, sempre teve o que dizer. E o disse quer na ficção, quer na poesia, como também na condição de artista plástico, de dramaturgo e ator da melhor cepa. É um multimídia cujas mil e uma atividades se ajudam mutuamente,
Acompanho Solha desde a época em que estreou com um romance amadurecido, inovador, prêmio Fernando Chinaglia: “Israel Rêmora ou O Sacrifício das fêmeas”. E desde “Trigal com corvos”, livro de poemas sobre o qual escrevi um texto em que, entre outras coisas, observei:

Com “1/6 de laranjas mecânicas, bananas de dinamite”, lançamento recente da Arribaçã, Cajazeiras, 2021, Solha continua escrevendo sob a égide do inconformismo, estabelecendo cotejos entre homens, seres, coisas, fatos históricos etc., na medida em que os retira do seu imobilismo aparente para emprestar-lhes outras dimensões e outros significados. E escreve ainda que tudo está fadado à repetição, quer como farsa, quer como tragédia, além de preconizar no divertimento proporcionado pela comédia, uma possível advertência de que algo de grave está para acontecer: “Demarque-se, / portanto, / o que disse Marx. / Tragédia, / às vezes, / se disfarça em farsa / e pode vir, / primeiro, / como comédia... que nos diverte / ... ao tempo em que / ... nos adverte”. É como se não existisse nada de novo sob o sol, a não ser o sol dos flashes que o eu-lírico espoca/explode trazendo à luz o “enjambement” de circunstâncias até então isoladas, que pareciam existir de forma estanque, autônoma e autossuficiente.
A dicção de Solha dista anos-luz da de Cabral, pois este, se não é um poeta minimalista, prima pela contenção, pela parcimônia, no que diz respeito ao emprego das palavras. De Solha, embora cultor do poema longo, não se pode dizer que ele seja um dispersivo, um perdulário, uma vez que a condensação também pode marcar presença nos poemas discursivos, a exemplo do que ocorre com os de Walt Whitman, com os de Álvaro de Campos e com “1/6 de laranjas mecânicas, bananas de dinamite”.
Aqui, cabe uma advertência: o leitor menos informado tem tudo para escorregar nas cascas de banana das dinamites espalhadas ao longo do poema, pois nem sempre ele dispõe de informações suficientes a respeito das personagens, dos fatos e dos contextos históricos mencionados no livro. Cumpre ao leitor, então, pesquisar.
Por outro lado, ao invés de remover minas, Solha as instala e as explode no mais íntimo, nas entranhas, nos desvãos mais profundos do leitor. E o faz através de um poema em cuja embalagem ou invólucro deveria obrigatoriamente constar – em letras garrafais! – a seguinte advertência: “cuidado, explosivo! ”, acrescido de outro alerta:
Estamos montando um museu. Insinuo-me no plural do verbo por ser dos que se batem, há anos, contra essa carência inexplicável de um mirant...
O museu da cidade
Museu por si mesma, a casa está pronta, restaurada, e me foi dado ingressar e ver por dentro o aposento onde demorou por pouco tempo a família e a intimidade do homem particular que o palácio ou a causa pública sacrificou. Assassinado há 91 anos, e desaparecida a república que invocou sua luta e seu nome para instalar-se, nenhum outro paraibano tem demorado e subido mais pronta e emocionalmente à memória do seu povo. “Ainda hoje me emociono” – palavras envelhecidas de Celso Furtado, cientista social de universais cenários, recordando impressão da infância.
Nutro enorme admiração pelo pernambucano Alceu Valença . Para mim, ele é um gênio de nossa música popular. Vem de longa data minha reverên...
Canções com gosto de domingo
Quando vemos alguém adotando o comportamento de quem se acha superior, excesso de soberba e arrogância, podem anotar, são pessoas que usam...
A teoria da empáfia
Quando meu neto Arthur tinha sete anos, ele me perguntou se estávamos no mês de oitembro . Respondi-lhe que estávamos no mês de outubro....
Oitembro ou Oitubro?
Arthur, na lógica correta da criança, intuiu que o vocábulo setembro está associado a sete e outubro/oitembro/oitubro a oito, assim como novembro e dezembro estão associados a nove e dez, respectivamente. Intuição certeira, embora não seja a hora de explicar-lhe que no primeiro calendário do mundo ocidental, o calendário de Rômulo, datado do século VIII a.C., esses meses, realmente, estabeleciam uma ordem de sete a dez, no ciclo anual daquele calendário de dez meses, cujo início se dava em março: março (em homenagem ao deus Marte, pai dos gêmeos Rômulo e Remo),
Diário da Pandemia Ópera visual em quatro atos Introdução Desde o início de 2020, a humanidade tem sido sobressaltada pela diss...
O Claustro
Ópera visual em quatro atos
Da janela do meu apartamento, vejo o quintal da casa lá embaixo. Largada, ao lado da churrasqueira, uma pequena bicicleta. Sob uma árvore,...
As pessoas e as coisas
A gripe é sobretudo uma agressão moral. Você sabe que ela não vai lhe matar, mas o estado a que o reduz é lastim...
Gripado
A medicina criou um nome pomposo para designar a gripe – influenza, que vem do italiano. É um termo simpático e que até nos dá vontade de passar pela experiência. Parece haver certa nobreza numa afecção cujo nome evoca a pátria de Dante e Michelangelo. Mas a empolgação acaba quando vêm os espirros e a febre (ou melhor, a febrícula, com esse sufixo derrisório). Seu moral começa a balançar, e o corpo pede cama.
Duas palavrinhas que podem significar nada ou tanto, ignorância ou sabedoria. No cotidiano, quantas vezes não as dizemos a propósito de t...
Não sei
Assistindo a uma entrevista de Luiz Felipe Pondé, chamou-me a atenção quando ele disse que, em filosofia, “não sei” é uma resposta profunda. Veja só.
Calar; apagar; esconder; desfazer; emergir; fingir, são vestimentas adquiridas, ou criadas, para ocultar, ou mesmo proteger a “essênci...
'Inté'...
A insegurança do “não”, lançada por outros ou por si mesmo, impede que o “verdadeiro” seja mais forte que o “cômodo”.
É mais indolor e fácil calar, e até concordar, do que retrucar, explicar e desmentir.














