A Gil Messias, a quem conheço íntegro sempre, na luz e na sombra, como gesto de escuta e amizade.
O texto de Gil Messias — Beauvoir queria, mas Camus não — publicado no Ambiente de Leitura Carlos Romero, recebeu severas críticas por machismo, sobretudo porque generaliza comportamentos femininos, recorre a estereótipos biológicos sobre envelhecimento e desejo e usa uma linguagem provocativa que hoje soa datada.
Você já se pegou hesitando ao escrever ou falar, perguntando-se: o correto é "Deus lhe abençoe" ou "Deus o abençoe"?. O “lhe” talvez seja, dos pronomes oblíquos átonos, o que mais suscita dúvidas quanto à sua aplicação.
Abro o baú de sucupira, madeira do sítio Mucuim, trabalho artesanal de um marceneiro de Pitimbu. Comunicaram a queda da árvore; você, sempre ligado à natureza e inimigo da derrubada de árvores, lamentou profundamente, e o único jeito foi transformar a madeira em objetos úteis. Mandou fazer três baús; fiquei com um deles. Não me recordo do que guardei no baú logo que chegou ao apartamento — isso já faz algum tempo... Hoje resolvi abri-lo e encontrei os lençóis que você usava, todos engomados e bem arrumados; bateu uma saudade muito grande. Saudade do tempo das viagens semanais ao sítio Mucuim, do tempo em que o baú ainda não existia, era
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uma bela sucupira enfeitando a paisagem. Morta, derrubada por algum vento impetuoso ou fruto de alguém que desejava aproveitar a madeira para uso próprio, a sucupira foi transformada em baús.
O poeta e confrade da Academia Paraibana de Letras, Helder Moura, revelou seu retorno às crônicas de Gonzaga Rodrigues, precisamente ao livro Café Alvear.
Despertei para os livros olhando a estante no escritório do meu pai. Aqueles volumes massudos assustavam, ainda não me diziam nada, mas tinham algo de imponente que soava como um desafio. O que havia neles? E por que o “Velho” os abria e ficava horas contemplando o seu interior?
Convidei a saudade para falar de você. Em instantes me vi acompanhado de mim mesmo tão somente. Havia duas criaturas travando aquele sentimento que flui pelos dedos, quase como um semblante ruim. Mas era apenas saudade, que florece e molha as flores de uma poesia. Alimenta, mas também retira um pouco de tudo. Por vezes, deveria virar semente, porque é eterna e deve voltar mais forte para oferecer outra sombra de alívio.
Madragana: o encontro entre Oriente e Ocidente. Madragana Ben Aloandro (filha de Aloandro), amante de Dom Afonso III de Portugal, vinte anos mais velho. Ibérica de origem judaica e árabe. Ancestral comum de vários monarcas europeus.
Conta-se que certo dia Alceu Amoroso Lima, já glorioso, recebeu uma homenagem de amigos e admiradores, praticamente uma consagração pública do escritor, crítico e pensador brasileiro. Agradecendo aos presentes, ele fazia uso da palavra, saboreando o gozo daquele momento especial. Eis que, súbito, adentra a sala uma anônima senhora, trazendo à mão um
Alceu Amoroso Lima @museucasadeportinari
ramalhete de flores, que todos devem ter pensado ser mais um tributo para o homenageado. Mas não. Para surpresa geral, ela caminha até Alceu e atira-lhe, como uma pedra, o buquê nos peitos, com inequívoca brusquidão. Sem falar uma palavra, diante da plateia atônita, ela se retira. Doutor Alceu interrompe o discurso e permanece alguns segundos em silêncio, certamente se recuperando do choque. O auditório em peso olha em sua direção, aguardando de sua parte uma mínima palavra que esclareça o inusitado episódio. Ele diz o seguinte: “É uma lição de humildade. Recebo isso como uma lição de humildade.” Apenas isso. E continuou a fala que interrompera, como se nada tivesse acontecido.
Um antigo conto persa relata que um rei pediu a dois grupos de artesãos que decorassem as duas paredes opostas de um salão.
Um grupo pintou uma das paredes com cores, figuras e detalhes belíssimos.
O outro não pintou nada: apenas poliu a parede até que se tornasse um espelho perfeito.
A abertura do Festival Literário Internacional da Paraíba, FliParaíba, no último dia 27 de novembro, aconteceu naquele lugar especial que é o Centro Cultural São Francisco. Lugar que frequento desde menina, onde dei os meus primeiros beijos por entre os arcos, por entre os azulejos portugueses. Uma orquestra de sanfonas me fez chorar. E a filha de Vital Farias, cantando junto — Margarida — mais lágrimas, por entre o barroco e os anjos daquela capela da Nave Central.
Com ampla foto no alto da 1ª página, A União da última quarta-feira não demorou mais que um fechar de olhos para me situar diante de outra foto, esta em preto e branco, publicada no mesmo jornal há exatos 70 anos, como um sonho que a fotografia de agora recolhe em jubilosa realidade. A foto de hoje: uma plêiade de professores chamados ao palco para a aclamação de professor emérito dos que concorrem com eles, seus pares do magistério.
Em 8 de dezembro de 1980, John Lennon foi empurrado para o território das sombras. Tinha completado 40 anos dois meses antes, era pai de um garotinho de cinco anos e de um jovem adolescente; tinha passado os últimos cinco anos recluso, fazendo pão, trocando fraldas e desfrutando da vida doméstica.
Fui convidada por um grupo de leitura que discutia o romance A educação sentimental, de Gustave Flaubert, para traçar um retrato do autor. Na ocasião, Rosa Freire d’Aguiar falaria sobre a tradução que realizou da obra.
As situações mais atrapalhadas podem virar lembranças deliciosas para rir depois. Afinal, rir de si mesmo é um remédio poderoso.
Um dia, meu companheiro apareceu com dois ingressos para um show numa famosa casa noturna do Recife. Disse que eu deveria caprichar na roupa, porque seria um evento requintado. Depois disse solenemente: “Vamos assistir ao show do Reginaldo Rossi.” Cai na risada, achando que era brincadeira. O “rei do brega”? Achei que fosse piada.
A construção da narrativa em Os Miseráveis merece um estudo à parte. Um alentado estudo, diga-se de passagem, em que se contemple também o estilo de Victor Hugo, com as suas frases reiterativas e gradativas. Hugo sabe se deter em detalhes, quando lhe convém, para compor um ambiente ou para compor um perfil, e, ao mesmo tempo,
Getúlio Vargas foi, de longe, o político mais completo da nossa história. Por qualquer parâmetro que se pretenda medir a atividade política no Brasil, ele ganha fácil de qualquer outro que tenha se dedicado a essa nem sempre tão nobre atividade. Esqueçam os 19 anos na presidência. Menos importa a sua capacidade de recuperação. Até amantes ele teve. Ou seja, tudo que os outros políticos fizeram, ele fez mais e melhor — inclusive traindo os colegas.