Imaginem, leitores queridos, uma empresa anunciando que irá se instalar aqui na Paraíba e gerará 15.000 empregos. Empregos diretos — dig...

Imaginem, leitores queridos, uma empresa anunciando que irá se instalar aqui na Paraíba e gerará 15.000 empregos. Empregos diretos — diga-se de passagem —, o que significa, por baixo, mais uns 30.000 empregos indiretos. Imaginem, também, que a empresa será instalada num local ermo, com baixíssima população e sem nenhuma infraestrutura. Portanto, caberá a essa empresa construir tudo, desde ruas e abastecimento de água e luz até as casas onde seus operários irão residir. Some-se a isso praças, cinema, clubes, escolas... enfim, tudo o que se fizer necessário para que os empregados tenham um padrão de vida adequado.

Para começo de conversa, um conselho de amigo. Não tente reproduzir em casa o tempero das ruas. Creia-me, não conseguirá. Digo mais: v...

pao alimentacao comida nordestina
Para começo de conversa, um conselho de amigo. Não tente reproduzir em casa o tempero das ruas. Creia-me, não conseguirá. Digo mais: você nem chegará ao pão na chapa de boteco, aquele das seis da manhã com café pingado, se o preparo acontecer no santo recesso do lar.

      Silêncio... Contempla em silêncio e os vales se farão ouvir as rochas lhe dirão de ser pó e areia o diamante luzirá n...

poesia paulista tatui cristina siqueira
 
 
 
Silêncio...
Contempla em silêncio e os vales se farão ouvir as rochas lhe dirão de ser pó e areia o diamante luzirá na bateia rios e riachos cantarão em coro a canção da vida tudo que se fez miúdo será enfim gigante as coisas vivas frutificarão enquanto as preces pairam sobre o mundo

O corte no solo feito pela lâmina da água que brota do fundo da terra ou mergulha do alto do céu ao longo dos tempos cria a ...

trilha ecologica rio mumbaba paraiba
O corte no solo feito pela lâmina da água que brota do fundo da terra ou mergulha do alto do céu ao longo dos tempos cria a estrada permanentemente irregular, bela e de onde até das pedras emana o cheiro de vida. Na contramão da água em cantoria vinda de uma nascente próxima, o corpo humano aceita o desafio e avança, a mente acata o convite à viagem e viaja e o Sol encontra espaços para compor pincéis de luzes telas.

As complexas relações humanas nesta contemporaneidade apresentam a necessidade de priorizar o novo conceito de ‘poder’ quando uma ação d...

michel foucault filosofia
As complexas relações humanas nesta contemporaneidade apresentam a necessidade de priorizar o novo conceito de ‘poder’ quando uma ação de uma pessoa intenciona agir sobre uma ‘conduta de outro ser humano’, com a condição de que quem manda deixa ao outro a possibilidade de questioná-lo e a escolha de cumpri-lo ou não. A partir disso, pode-se considerar que só existe ‘poder’ no consentimento, sem o uso da força nem da violência, isto é, na dinâmica da liberdade. Por isso, só há seres livres nessas relações de poder. Essa tese foi criada pelo filósofo, psicólogo, historiador, filólogo,

      Às vezes acho que a mãe de Kafka era uma barata. Que Machado de Assis era o alter ego de Dom Casmurro. Que Jorge Amado s...

literatura poesia paraibana linaldo guedes
 
 
 
Às vezes acho que a mãe de Kafka era uma barata. Que Machado de Assis era o alter ego de Dom Casmurro. Que Jorge Amado sonhava em ser Nassib. Que Júlio Verne se afogou nas milhas submarinas. Que Cortázar jogava amarelinha. Que Adélia Prado só viajava sem bagagem. Que Garcia Marques era um solitário. Que José de Alencar viveu com Ceci. Que Sartre não foi existencialista. Que Rachel de Queiroz serviu no Quinze de Cruz das Armas. Que, antropofagicamente, Oswald comeu ele mesmo. Que Drummond dormia numa pedra. Que Clarice vive dentro do meu coração selvagem. Que Borges era rato de biblioteca. Que Saramago ensaiou nossa cegueira. Que Shakespeare conheceu Hamlet. E que Augusto dos Anjos nos fez profundissimamente hipocondríaco.

Seu Lau e d. Rita moravam numa ponta de rua sem saída. Menino ainda, eu jogava bola de gude na rua sem calçamento. A turminha do burac...

cronica casal musico relacao conjugal
Seu Lau e d. Rita moravam numa ponta de rua sem saída. Menino ainda, eu jogava bola de gude na rua sem calçamento. A turminha do buraco. Gostávamos do espaço da nesga de rua fronteiriço à casa do casal porque era molhada, fofa por um cano soltando água utilizada por Nevita.

Nem se pensava em saneamento. Vinham detritos (os menos desejados e imundos )que escorriam pela ruela enladeirada na maior naturalidade do mundo. Ninguém era tolo para reclamar. O amante de Nevita puxava o revólver e berrava impropérios contra quem se atravesse a abrir o bico ou ameaçar denúncia.

Possuir forte convicção de que a ressurreição é intrínseca à própria vida não parece uma ideia plausível à maioria dos mortais. Nem ...

Possuir forte convicção de que a ressurreição é intrínseca à própria vida não parece uma ideia plausível à maioria dos mortais. Nem dos “imortais”... Principalmente em meio à diversidade de ideias que ao longo de milênios brotam de reflexões, estudos e filosofias inspirados no saber.

O nascimento, a infância, o amor, as amizades enfeitam a vida, ainda que entremeados por sofrimentos inerentes à própria condição humana. No entanto, mesmo que a morte seja a maior das certezas nossas, o fato inexorável constitui-se há séculos como

      QUANDO ESTENDI SEU CORPO NA AREIA Não sei mais de nada. O infortúnio é próprio da falta de sentido. (Ou será a fortuna...

poesia capixaba jorge elias neto
 
 

 
QUANDO ESTENDI SEU CORPO NA AREIA
Não sei mais de nada. O infortúnio é próprio da falta de sentido. (Ou será a fortuna de ter te conhecido sob o efeito do álcool?) A razão são as estrias que acumulamos na pele, e descamam a cada verão escaldante. Quando estendi seu corpo na areia, à semelhança dos fósseis, um outro tempo dizia qual o nome e o motivo de nosso encontro, e o quanto de surpresa preencheria o vazio de nossa existência.
SILÊNCIO ÁCIDO
Falo agora do seu silêncio, dizendo: se afasta de minha boca Eu queria me recordar, mas o vazio tem a força que aspira os sonhos, e a memória é um tempo perdido no não encontrar o seu abraço (O cinza não suporta o negro das noites e seus redemoinhos) Não aceito esta morte, perder o amor arrebatado do paraíso do seu nome, e a balança que rege as mãos, e o sentido dos gestos, a mentira de rosto limpo nas manhãs de paz Não quero ser obrigado a parar a noite, uma parte constrita de minha existência pertence ao desespero de sua sombra Eu me curo no tardar de sua partida.
DE IRMÃO PARA IRMÃO
Meu irmão tinha uma mala de livros um dia ele a abriu na minha frente e partiu para o desmedido entrei na mala e me cobri com as páginas de seus sonhos.
O DECLÍNIO DO ÚLTIMO DIA
Os restos de ontem combinam com os corpos de outras eras. São os mesmos mortos, as mesmas taças, o mesmo desperdício. A tradição das luvas e das meias, as fendas na carne, as porções de nozes sobre a mesa e as varejeiras, tranquilas, sobre os castiçais
BRUMADINHO
Eu não saberia dizer, estou atordoado, pisar o sem fundo das casas, entrar pelos telhados na vida das pessoas, saber os muitos tons da verdade, que a terra engole a fala dos homens e os aniquila com esse funil de lama tragando o ar e a voz de Minas. O mito é o pássaro que sobrevoa a tarde? Não, isso é poesia, e estou falando da morte.


As horas não são confiáveis, traiçoeiras, se repetem com sua vulgaridade sem fim, ostentando seu desejo de consumir cada espanto que nasce, cada corpo que tomba.


Desenterre os ossos ─ e seus medos sem face ─ deixados em outro tempo. E sobre a areia despeje o brinquedo de armar, essa cama da carne da marionete adormecida.

(do livro XXI Sombras, em fase de edição)

Domingo de carnaval, a folia corria solta nas ladeiras de Olinda. O frevo contagiava todos, difícil alguém ficar parado. Era o dia do ...

amor carnaval fantasia
Domingo de carnaval, a folia corria solta nas ladeiras de Olinda. O frevo contagiava todos, difícil alguém ficar parado. Era o dia do maior bloco, o Elefante de Olinda, que passava arrastando todos, num imprensado em que os foliões ficavam quase sem tocar os pés no chão de tanta gente pulando junta.

Aí pela terceira cerveja, um dos amigos repisou a ideia – por sinal bem velha – de que a vida é um filme. Cada um...

conversa bar retrospectiva
Aí pela terceira cerveja, um dos amigos repisou a ideia – por sinal bem velha – de que a vida é um filme. Cada um bem ou mal protagoniza o seu, e não adianta chorar diante do resultado. Quando se chega aos cinquenta, sessenta anos, o filme está feito, acabou o orçamento. Não há mais tempo senão para exibi-lo e, independentemente do que apareça na tela do tempo, contemplá-lo. Mas a verdade é que poucos têm interesse pelo filme da própria vida. Só aquele ar de déjà vu... A vida, um filme! E cada qual, animado pela quarta cerveja, tratou de repassar o seu. Fragoso pediu a palavra e foi sincero:

O tempo não é visto pelo olho do homem, e como o passado teima em sussurrar, os mortos não estão tão longe assim. Estão logo ali, em ...

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O tempo não é visto pelo olho do homem, e como o passado teima em sussurrar, os mortos não estão tão longe assim. Estão logo ali, em algum outro lado. Eles estão juntos agora. Nós é que estamos sozinhos desse lado. Necessitamos da proteção de alguém que possa nos amar, abraçar, encantar, ensinar a ser gente completa para seguir com segurança, como toda pessoa espera, com sua alma aberta e esperançosa. Podemos ser sozinhos juntos. E se você decidir tocar o mundo ou sua vida, já está de bom tamanho.

Quando o relâmpago cortava o céu além de Arara, meu pai se animava, fazia os acertos finais com os trabalhadores, meeiros ou não, para ...

Quando o relâmpago cortava o céu além de Arara, meu pai se animava, fazia os acertos finais com os trabalhadores, meeiros ou não, para começar o preparo dos roçados.

Quando escutava dizer que chovia no sertão, e ao observar as nesgas de nuvens no céu do Brejo nos primeiros meses do ano, era sinal da proximidade de chuva. A terra já tinha recebido o trato para acolher os grãos de milho, feijão, fava e os toros de maniva. Tudo isso trazia a certeza de que seria possível colher os frutos da terra durante os festejos juninos.

Li na coluna de Elio Gaspari, em O Globo, que o ex-presidente norte-americano Jimmy Carter, aos 98 anos, recolheu-se ao rancho da fa...

democracia jimmy carter ernesto geisel
Li na coluna de Elio Gaspari, em O Globo, que o ex-presidente norte-americano Jimmy Carter, aos 98 anos, recolheu-se ao rancho da família para aguardar a morte. Está recebendo os chamados cuidados paliativos para enfrentar o fim com dignidade e um mínimo de conforto. É um nome importante na história mundial do século XX e também um nome a ser lembrado em nossa história nacional.

N o silêncio da tarde calma e doce, penso em nós, humanos, frágeis peças de um quebra-cabeças cósmico. Nos meus fones de ouvido, a vo...

cerejeira cherry arvores
N
o silêncio da tarde calma e doce, penso em nós, humanos, frágeis peças de um quebra-cabeças cósmico.

Nos meus fones de ouvido, a voz de Eric Burton sussurra vulnerabilidades e urgências.

Contemplo o cenário de risos e choros de um mundo aprisionado entre tempestades e arco-íris e desejo inutilmente que algo nos resgate de nós mesmos.

Acredito que, pelo fato de ser médico, as minhas incursões na literatura brasileira foram preponderantemente focadas e norteadas na ...

guimaraes rosa grande sertao veredas etica medicina
Acredito que, pelo fato de ser médico, as minhas incursões na literatura brasileira foram preponderantemente focadas e norteadas na vida e na obra de Guimarães Rosa, que também pertenceu ao discipulado hipocrático.