P ois é, desta vez, me levaram para lugares nunca dantes imaginados, onde há gelo e fogo. Já viu uma coisa dessa? Aqui para nós, o frio, na ...

Pois é, desta vez, me levaram para lugares nunca dantes imaginados, onde há gelo e fogo. Já viu uma coisa dessa? Aqui para nós, o frio, na terra onde visitei, é de bater queixo. Ocorre que as montanhas de lá, às vezes, revoltadas com o frio, escancaram a boca e haja fogo. Viram vulcões. E como o meu amado filho Germano adora frio, quer que o pai vire picolé. Minha Alaurinda e o nosso amigo Davi também estão com o gelo. Ou fingem que gostam para serem diferentes. Mas, acredito na sinceridade deles.

Islândia! Ora veja só onde vim bater... Eu que adoro o calor de Patos. Nessa nossa ida para lá, vi regiões de uma solidão impressionante. E me informou meu filho que os astronautas, antes de viajarem até a Lua, passaram um tempo se aclimatando, ali.

Tanto na ida como na vinda, o que mais me impressionou foi a paisagem, que avistei, dentro do carro, onde não se via a presença humana e sim a das montanhas, na sua eloquência muda, isoladas casas, carneiros e ovelhas comendo capim, sem olharem, uma vez só, para o céu.

Germano na direção do carro, a Pastoral de Beethoven no som, a paisagem se repetindo numa harmonia impressionante. E quer saber de uma coisa? Eu adoro a solidão. Que admirável terapia. Solidão que vem do silêncio, silêncio que é filho da Paz.

Esse passeio pelas estradas bem asfaltadas foi uma verdadeira terapia. E agora, eis que vejo a presença humana. Turistas contemplando, embevecidos, a queda das águas... Não resistimos. Fomos ver a cena de perto. Que beleza! Turista tem um faro danado. A água branquinha descendo devagar, com medo de cair. Aí me deitei na grama com minha Lau e ficamos olhando o céu azul, que beleza.

A paisagem das montanhas me lembrou a Nova Zelândia, lugar que me atraiu por duas vezes. Montanhas e mais montanhas, com lagos e cachoeiras. Na Islândia não vi muitos pássaros, só ovelhas pastando e, vez por outra, pôneis mansinhos que minha Alaurinda chegou a acariciá-los.

Confesso que adoro cidade grande. Adoro Paris, Londres, Buenos Aires, Lisboa. Gosto de ver multidão enchendo as ruas, as livrarias. Mas, também é bom, vez por outra, contemplar o bucolismo das paisagens lá fora, com ou sem ovelhas, e encher os pulmões de ar puro. Mesmo na Islândia, com seu frio de tremer o queixo.

A Islândia é um mundo exótico, cujas paisagens lembram cenários extraterrestres. Um lugar em que o desolamento preenche qualquer sensação ...

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A Islândia é um mundo exótico, cujas paisagens lembram cenários extraterrestres. Um lugar em que o desolamento preenche qualquer sensação de solidão com exuberante beleza de panoramas que variam a cada dezena de quilômetros.

E is aí um título que, decerto, enrugará a testa do leitor. Afinal que contrassenso é este? Vantagem é vantagem, desvantagem é desvantagem. ...

Eis aí um título que, decerto, enrugará a testa do leitor. Afinal que contrassenso é este? Vantagem é vantagem, desvantagem é desvantagem. Nada de misturar as coisas.

Mas vamos à crônica. Está, aqui, uma desvantagem, a desvantagem da perda da visão. Diz, porém, o ditado que o que os olhos não vêem o coração não sente. Quantas vezes, a gente tapa os olhos para não ver uma desgraça! Afinal, quem vê, se compromete.

A vantagem do cego é participar melhor da vida interior, já que as janelas dos olhos estão fechadas. Quem vive o tempo todo de olhos escancarados, pensa pouco. As crianças, que pensam pouco, vêem muito e refletem menos. Se ela for para um canto pensar, todo mundo vai dizer que é anormal, ou está diante de um autista.

Jesus convidou-nos a olhar os lírios do campo e os privados da visão ficaram muito tristes.

Ninguém pensa dormindo. Melhor dizendo: ninguém pensa bem, ou medita de olhos abertos.

Mas vejamos outras vantagens nas desvantagens. A surdez, por exemplo, diminui o barulho. A verdade é que o surdo se livra de muita coisa ruim. O genial Beethoven escreveu sua magistral Nona Sinfonia, completamente surdo. E essa interiorização propiciou-lhe um verdadeiro e profundo diálogo com Deus.

E o ignorante? Ah, esse tem a vantagem de não se inquietar diante da problemática da vida. Ninguém lhe cobra responsabilidade. A vantagem do ignorante é não ter responsabilidade.

A vantagem do sofrimento é ganhar experiência. Já a vantagem do míope, disse Machado de Assis, é ver o que as grandes vistas não vêem.

Outra vantagem de se anotar numa desvantagem. Refiro-me ao rico em anos, isto é, rico de sabedoria. O idoso não precisa mais andar correndo. Primeiro, por que pode cair, segundo porque quem corre não pensa melhor do que quem está sentado. A escultura de Rodin – O Pensador – mostra um homem sentado e refletindo. E outra vantagem de quem tem mais de setenta anos é se aposentar, não entrar em filas, ter lugares preferenciais, gozar de certas regalias como as dos estacionamentos.

Ah, já ia me esquecendo da vantagem dos mudos. Eles não são maledicentes nem tagarelas. Não pecam pela palavra.

E dizem as más línguas que o homem mais feliz foi Adão, porque não teve sogra. Seria outra vantagem?...

F oi um texto do ex-presidente e escritor Fernando Henrique Cardoso que me levou a escrever, hoje, sobre a morte, num livro recém-publicado ...

Foi um texto do ex-presidente e escritor Fernando Henrique Cardoso que me levou a escrever, hoje, sobre a morte, num livro recém-publicado em que ele alude aos seus vem vividos oitenta anos. Mas, aqui para nós, quem mais coragem teve de aludir à problemática da morte foi o nosso Augusto dos Anjos, que apelidou a morte, dentre outros apelidos, de “universitária sanguessuga”.

O extraordinário Paulo de Tarso, em face da reencarnação, interrogou: “Morte, onde está a tua vitória?” E viva a vida além da vida.

Continuemos com a crônica. Lembro que meu irmão Alberto, com apenas quatro anos, costumava ficar junto da nossa mãe, sentado no chão, enquanto ela costurava. E eis que, um dia, ela viu o menino com os olhos molhados de lágrimas. Daí perguntou: “por que está chorando, meu filho?” E ele, quase soluçando, resmungou. “Estou chorando porque, um dia, você vai morrer”. A precocidade do menino foi impressionante.

Mas são poucos os que se lembram que, um dia, não estarão mais aqui no mundo. Meu tio João Augusto, velho agricultor em Alagoa Nova, tinha uma grande consciência da morte. Tanto é assim que, quando alguém aludia à riqueza de alguém, dizendo que “fulano estava muito bem de vida”, ele costumava dizer. “Mas, morre...” Era um cético, que não chegou a se casar, vindo a morrer de câncer.

O grande Marechal Rondon, o desbravador do nosso sertão, dizia. “Morrer, sim, matar nunca”.

Informam que as freiras de um convento, na Espanha, cumprimentam as suas irmãs, toda manhã, lembrando-lhes que morrerão, um dia. E, aqui para nós, não faz mal, vez por outra, a gente se conscientizar dessa realidade. Pois essa conscientização mudará um pouco nosso comportamento.

Lá no cemitério Père Lachaise, em Paris, no túmulo de Allan Kardec, Codificador do Espiritismo, há a seguinte inscrição: “Nascer, morrer, renascer ainda, e progredir sempre, tal é a lei”. Que mensagem otimista, hein?

Voltando a Fernando Henrique, Cardoso, ele disse ainda, em suas declarações sobre a morte: “Não sabemos de onde viemos, não sabemos para onde vamos. Ficamos velhos, porém mais maduros.” Muito bem. A beleza da velhice está na experiência vivida, na madureza. Agora quanto à ignorância, quanto ao nosso destino, eu gostaria que o ex-presidente lesse o extraordinário livro “O problema do ser, do destino e da dor”, de Léon Denis”. E eu vou mandar o livro para ele.

A verdade é que viver pensando que tudo se reduzirá a cinzas, não deixa de ser um grande martírio. E muita gente procura esquecer a grande realidade, levando uma existência de distração, de alheamento, e não de reflexão. E haja divertimentos, e haja consumismo, e haja diversão, menos reflexão. É preciso lembrar que distração é como aquele ópio quanto à religião, a que se referia Karl Max.

E quanto ao nosso Fernando Henrique, vou enviar para ele, já já, “O Livro dos Espíritos”, de Allan Kardec, juntamente com o de Léon Denis, que citei acima. Ele merece.

É comum atribuir-se a autoria de certas máximas como sendo da sabedoria popular. Acho que existe aí um engano. O povo, apesar de suas exper...

É comum atribuir-se a autoria de certas máximas como sendo da sabedoria popular. Acho que existe aí um engano. O povo, apesar de suas experiências, não pode ser o autor das sentenças que lhe são atribuídas.

Estou aqui com algumas dessas máximas que qualifico de geniais. Quem são mesmo seus autores? Não sei se há um livro contendo tais provérbios de muita sabedoria, que, decerto, faria inveja aos filósofos, aos sábios. E cá entre nós, como diz a amiga Rose Silveira, se a pessoa seguisse o que determina tais máximas, viveria melhor. Vamos a algumas delas.

“Devagar se vai ao longe”. Sim, para que tanta pressa? A paciência é a maior das virtudes. Paciência significa paz. Nada de fazer tudo correndo. Eu tenho muita pena das pessoas apressadas, logo estressadas. Nada de fazer tudo correndo. A pressa, já diz outro ditado, é inimiga da perfeição. As obras de arte levaram longo tempo para serem concluídas. Portanto, não nos esqueçamos do ditado, equivocadamente, atribuído ao povo: “Devagar se vai ao longe”.

Agora vejamos esta outra máxima: “não deixe para amanhã o que pode fazer hoje”. Certíssima a norma. Hoje é o dia, é a oportunidade que deve ser aproveitada. Muita gente é infeliz por que perde as oportunidades.
Prosseguindo, vejamos este provérbio: “quando um não quer, dois não brigam”. Certíssimo. Ninguém briga sozinho. Portanto, deixe o outro com a sua raiva. Cale-se e pronto.

Segue-se outra: “É errando que se aprende”. Sim, a sabedoria é feita de experiências. É vivendo que se aprende. E a vida é a grande mestra. E há uma que me faz rir: “Quem tudo quer saber, mexerico quer fazer”. Discordo em parte, deste provérbio. Querer saber é uma virtude. Sem indagações, seremos ignorantes. Queira saber de tudo. Veja as crianças. Estão sempre perguntando. É por isso que dizem que o filósofo é como a criança.

E me vem esta outra máxima: “É melhor um pássaro na mão do que dois voando”. Mas, prefiro vê-los voando do que presos. E para finalizar, eis mais uma: Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura. Corretíssima. Viva a tenacidade, a fé, a obstinação.

Vamos a outro provérbio popular: “Dize-me com quem andas e eu te direi quem és”. Concordo em parte. Jesus se acompanhou de muita gente ignorante e má. E quando criticado pelas más companhias, apenas disse: “Os sadios não precisam de médicos”. Jesus foi o grande médico, preocupado em curar mais o espírito que o corpo.

“Boa romaria faz quem em casa vive em paz”. Estou de acordo, em parte, com esta sentença. Tanto é saudável ficar em casa, estudando, lendo, pensando como aprendendo nas viagens. E vale relembrar o ditado: “quem não arrisca, não petisca”. A sabedoria se aprende ganhando experiências, como é o caso de uma viagem, como a que acabamos de empreender recentemente até a Islândia.

Desejo finalizar com este brocardo: “Nada é mais ridículo do que um sujo falando de um mal lavado”. E há tanta gente assim, apontando erros dos outros e esquecendo os seus, sobretudo agora na campanha política.

E vamos cumprir o que diz a sabedoria atribuída ao povo. Finalizo repetindo o provérbio “quem tudo quer saber, mexerico que fazer”, do qual discordo, pois indagar, perquirir, sondar, perguntar e questionar nunca constituiu um mal.

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