Assisti pelo Youtube à homenagem oficial que o governo francês prestou ao pensador Edgar Morin, recentemente falecido aos 104 anos. Foram honras de Estado, com toda a pompa e a circunstância pertinentes. As mais importantes autoridades presentes, inclusive o presidente da República, que fez emocionado discurso. Também um ex-presidente e alguns ex-primeiros-ministros, sem falar nos intelectuais de peso. A cerimônia aconteceu no Hôtel des Invalides, local muito próprio para eventos desses porte e significado. Sentia-se que ali estava a França reverenciando um de seus filhos mais ilustres, verdadeiro patrimônio nacional.
Presidente da França, Emmanuel Macron (centro), com Sabah Abouessalam (à dir.), esposa de Morin, entre outras autoridades na cerimônia em homenagem a Edgar Morin (Hôtel des Invalides, Paris) ▪️ Fonte: @franceinfo.fr
Cenas da cerimônia fúnebre e homenagem a Edgar Morin (Hôtel des Invalides, Paris) ▪️ Fonte: @franceinfo.fr
Homenagem a Edgar Morin (Hôtel des Invalides, Paris) ▪️ Fonte: @franceinfo.fr ▪️
De sua lavra, detive-me em dois livros que eu consideraria, digamos, periféricos, pois não tratam especificamente de seu pensamento mais profundo. São livros mais memorialistas que teóricos: Minha Paris Minha Memória (Bertrand Brasil, Rio de Janeiro, 2015) e Lições de um Século de Vida (Bertrand Brasil, Rio de Janeiro, 2021). No primeiro ele escreveu:
“Quase todos os principais eventos da minha vida ocorreram em Paris – aqui, eu vivi meus momentos mais importantes. Inevitavelmente, minhas memórias pessoais confundem-se com as de uma Paris que não é a mesma dos dias de hoje. Isso cria uma mistura – espero que interessante – de subjetividade e objetividade, histórias de amor e estações de metrô, trabalho, aprendizado e luta, mas também momentos íntimos de mudanças e andanças”.
“Que fique bem claro: não dou lições a ninguém. Tento extrair lições de uma experiência centenária e secular de vida, e desejo que elas sejam úteis a cada um, não só a quem queira refletir sobre a própria vida, mas também a quem queira encontrar a própria Vida”.
Volto ao Brasil e à sua sem-cerimônia. Aqui não estou falando de informalidade, que é até uma coisa interessante em nosso caráter nacional, essa proximidade natural que une até desconhecidos e torna mais leve, na maioria dos casos, a existência. Falo de outra coisa: de falta de modos, de compostura, de respeito às liturgias sociais e institucionais; falo de falta de educação elementar e de um mínimo de civilidade, aquilo que, fosse na Inglaterra, distinguiria um cavalheiro de um marujo desbocado, por exemplo. Essas sutilezas comportamentais que nos ajudam a carregar o pesado fardo existencial do dia a dia. Aqui, vemos ministros dançando samba em eventos oficiais e o palavrão se tornar de uso corrente em reuniões ministeriais.
Na expressão do rosto dos presentes à homenagem oficial a Edgar Morin via-se com clareza o orgulho nacional francês. Nós, brasileiros, bem que estamos necessitados desse orgulho de que fomos privados faz tempo.













