Sou minha própria paisagem; Assisto à minha passagem, Diverso, móbil e só, Não sei sentir-me onde estou. (...) Fernando Pessoa...

Fernando Pessoa: eterno e múltiplo

fernando pessoa heteronimos
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.
(...) Fernando Pessoa. Não sei quantas almas tenho
A visita à Casa/Museu Fernando Pessoa me levou a reler livros de poemas de Fernando Pessoa e a consultar livros teóricos e de crítica literária sobre esse poeta múltiplo. Um deles foi Para compreender Fernando Pessoa, de Amélia Pinto Pais, professora e estudiosa da obra do poeta português.
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Outro livro lido e relido é Quando fui outro, uma seleção primorosa de Luiz Ruffato dos poemas de Fernando Pessoa, cartas para a namorada Ofélia e a carta que escreveu para o crítico literário Adolfo Casais Monteiro sobre a origem dos seus heterônimos.

Em agosto de 1987, Amélia Pais visitou Palermo, na Sicília, e na vitrine de uma livraria se deparou com a indicação de um best-seller: o Libro dell' Inquietudine, de Bernardo Soares, já em quarta ou quinta edição. Lembrou que a primeira edição do livro em língua portuguesa foi de 1982. O livreiro, vendo o interesse da leitora, dirigindo-se a ela, disse em italiano: "Signora, prego... se quer conhecer melhor este autor sugiro que comece com Una sola multitudine, uma tradução em italiano”. Explicou que era um poeta português que tinha a particularidade de não ser um só poeta, mas vários.

A professora ouviu atenta as explicações do livreiro e disse em um italiano “mal amanhado”, eu sou portuguesa e leio Fernando Pessoa na língua original. O vendedor ficou com ar de quem ensina padre nosso ao vigário, porém ela logo o acalmou:
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Amélia Pinto Pais (1943–2012) professora e escritora portuguesa, autora de obras dedicadas à divulgação da literatura lusófona. Seus livros sobre Fernando Pessoa, Camões e Padre António Vieira ajudaram a aproximar grandes clássicos de novas gerações de leitores. ▪ Div.
“Não se preocupe, você é um bom livreiro, conhece Pessoa e eu gostei de o ouvir falar”. Ele respondeu: “O poeta português é vosso Dante”. Entendi o que ele quis dizer – era nosso poeta maior. Reconheceu que se deve ao escritor italiano Antonio Tabucchi a divulgação da obra de Pessoa na Itália.

Nas páginas que se seguem, a autora afirma que não escreveu uma biografia de Fernando Pessoa, mas uma biobibliografia e começa a discorrer sobre a infância do poeta passada em Durban, na África do Sul. A experiência fez com que o poeta se alfabetizasse em inglês e se tornasse um escritor bilíngue, escrevendo em inglês e português. Em casa, ouvia a mãe e o padrasto conversarem em português, na escola só ouvia e escrevia em inglês. Anos mais tarde, sentindo a força do idioma inglês, Pessoa fez essa previsão premonitória: “no futuro o inglês seria a língua oficial para os negócios e a comunicação entre os povos, e o português o seria para a expressão das emoções”. Opinião, claro, verdadeira, no passado e no presente.

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Fernando Pessoa com a mãe, o padrasto e os irmãos em Durban, na então colônia britânica de Natal, atual África do Sul. Foi nessa cidade que o futuro poeta passou parte da infância e da juventude, recebeu educação em língua inglesa e desenvolveu uma faceta literária que marcaria toda a sua obra. ▪ Fonte: Wikimedia
Continuando a leitura, há outros aspectos interessantes a registrar, como sobre o período de formação poética do jovem Pessoa que ocorreu após seu regresso a Lisboa de forma definitiva. Ele descobre a literatura portuguesa e entra em contato com os movimentos literários da época. É o período de aprendizagem que culminará com o surgimento dos heterônimos. Considerava “mestres” nessa época três poetas portugueses: Antero de Quental, Cesário Verde e Camilo Pessanha. Antero de Quental, além de suas atividades de agitador
político, era um excelente autor de sonetos, seguindo a linha camoniana. Cesário Verde apresentava uma poesia objetiva, formal, rigorosa e próxima da prosa de Eça de Queirós. Camilo Pessanha, expoente da poesia simbolista, cantava a fragilidade da vida e o fluir inexorável do tempo. Era o poeta das “sensações fragmentárias e desarticuladas”. Mas havia outros que mereciam a admiração de Pessoa, entre eles, Shakespeare, Walt Whitman e o padre Antônio Vieira. Mas, Mestres, só Antero, Cesário e Pessanha.

No livro de Amélia Pinto Pais, encontra-se a transcrição e os comentários da carta de Pessoa para Adolfo Casais Monteiro explicando a origem dos seus heterônimos. A carta traz a data de 13 de janeiro de 1935. Pessoa morreu nesse mesmo ano, no dia 30 de novembro. Seguem-se excertos desta carta para o crítico português:

Aí, por 1912 [...] veio-me à ideia de escrever poemas de índole pagã. Esbocei umas coisas em verso irregular [...] e abandonei o caso. Esboçara-se-me contudo, numa penumbra mal urdida, um vago retrato da pessoa que estava a fazer
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Ricardo Reis, heterônimo de Fernando Pessoa, imaginado pelo pintor e escritor Almada Negreiros, 1958 ▪ Mural na Faculdade de Letras de Lisboa.
aquilo (tinha nascido, sem que eu soubesse o Ricardo Reis).

Ano e meio, ou dois anos depois, lembrei-me um dia de fazer uma partida ao Sá-Carneiro – de inventar um poeta bucólico [...] . levei uns dias a elaborar o poeta, mas nada consegui. Num dia em que finalmente desistira – foi em 8 de Março de 1914 – acerquei-me de uma cómoda alta, e tomando um papel, comecei a escrever de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tal poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não consegui definir. Foi o dia triunfal da minha vida e nunca poderei ter outro assim. Abri com o título “O guardador de rebanhos”. E o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei logo o nome de Alberto Caeiro. Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre.
A carta prossegue e Pessoa conta que teve necessidade de criar mais dois discípulos de Caeiro e surgiram, nesse mesmo, dia Ricardo Reis e Álvaro de Campos. Posteriormente, ele inventou para cada um dos heterônimos uma personalidade própria, fez-lhe o retrato físico, a biografia e o horóscopo, tudo para dar foros de realidade. Outro eu pessoano muito importante é Bernardo Soares, um semi-heterônimo, autor do Livro do Desassossego.

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Mapa Astral de Ricardo Reis, elaborada por Fernando Pessoa, S.XX ▪ Fonte: Biblioteca Nacional de Portugal
A respeito de Bernardo Soares, ainda em carta a Adolfo Casais Monteiro, Pessoa revela:

O meu semi-heterônimo Bernardo Soares, que aliás em muitas coisas se parece com Álvaro de Campos, aparece sempre que estou cansado ou sonolento, de sorte que tenho um pouco suspensas as faculdades de raciocínio e de inibição; aquela prosa é um constante devaneio. É um semi-heterônimo porque, não sendo a personalidade a minha, é, não diferente, mas uma simples mutação dela. Sou eu menos o raciocínio e afectividade. A prosa, salvo o raciocínio dá de tênue à minha, é igual a esta, e o português perfeitamente igual. [...]
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Fernando Pessoa (1888–1935) em um dos retratos mais conhecidos de sua maturidade. Os óculos redondos, o bigode discreto e a expressão introspectiva tornaram-se parte da iconografia do poeta que deu voz a múltiplos heterônimos e renovou profundamente a literatura de língua portuguesa. ▪ Fonte: Wikimedia
O Livro do Desassossego é uma espécie de diário íntimo de Bernardo Soares, encontram-se histórias de vida, reflexões filosóficas, paisagens da cidade de Lisboa. É uma prosa lírica em forma de fragmentos.

O livro organizado por Luiz Ruffato – Quando fui outro - é para ser lido, relido e amado. Foi um presente de quem sabe da minha admiração pela poesia de Fernando Pessoa, está sempre pertinho de mim, na mesa de cabaceira, sobre o bureau ou junto do computador,
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já me acompanhou em vários momentos da minha vida, nele encontro os poemas preferidos. É só abrir e lá estão à minha espera.

A capa é por demais significativa, mostra Fernando Pessoa caminhando, certamente pelas ruas de Lisboa, na companhia de seus heterônimos. Não poderia desejar melhor companhia, ali estavam seus companheiros de vida e de poesia.

Além dos poemas dos heterônimos de Pessoa, o livro contém outros textos, como cartas que o poeta enviou para Ofélia, sua namorada, em duas fases distintas, textos em prosa de Bernardo Soares, extraídos do Livro do Desassossego, a carta resposta de Fernando Pessoa a Adolfo Casais Monteiro (integral), a biografia do poeta, a bibliografia, concluindo com a última frase escrita por Fernando Pessoa no leito do hospital São Luís dos Franceses, em Lisboa, – I know not what tomorrow will bring (não sei o que trará o amanhã).

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Carta de Fernando Pessoa a Adolfo Casais Monteiro, escrita em janeiro de 1935. Neste célebre documento, o poeta relata a origem de seus heterônimos — Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos — e oferece um raro testemunho sobre o processo criativo que moldou uma das obras mais singulares da literatura moderna. ▪ Fonte: Biblioteca Nacional de Portugal
Um detalhe que me chamou a atenção no livro de Luiz Ruffato, não explícito no de Amélia Pais, é a maneira descontraída como Pessoa se dirige a Adolfo Casais Monteiro no início da carta: “Meu prezado camarada”. Acrescente-se que Ruffato transcreveu a carta na íntegra, enquanto Amélia Pais apresentou fragmentos.

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