Entre os estudiosos , é unânime a condição do padre José de Anchieta (1534-1597) como o personagem mais importante do Brasil do século...

José de Anchieta e o Auto de São Lourenço (Introdução)

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Entre os estudiosos, é unânime a condição do padre José de Anchieta (1534-1597) como o personagem mais importante do Brasil do século XVI, tendo em vista a obra cultural que desenvolveu e nos legou. Aos 19 anos de idade, ainda um noviço, ele chega ao Brasil para dar continuidade ao trabalho de catequese, iniciado pelo padre Manuel da Nóbrega quatro anos antes, em 1549. Como missionário Jesuíta, sua maior incumbência era a conversão dos índios,
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Frontispício de História da Província Santa Cruz, a que vulgarmente chamamos Brasil, de Pêro de Magalhães de Gândavo (1576). Considerada a primeira história impressa dedicada ao Brasil. ▪ Fonte: Biblioteca Nacional
a expansão da cristandade entre aquela gente, que, segundo os cronistas da época, dentre eles, Pêro de Magalhães de Gândavo (História da Província de Santa Cruz, a que vulgarmente chamamos Brasil, 1576, Capítulo X) e Gabriel Soares de Sousa (Tratado descritivo do Brasil, 1587, Segunda Parte, Capítulo CL), “não tinha fé, nem lei, nem rei”. Cabia-lhe, ainda, cuidar da saúde moral e espiritual dos colonos que habitavam a então Terra de Santa Cruz. José de Anchieta, no entanto, produziu obra maior do que a que se esperava de um catequista com a missão de difundir os ideais católicos, em pleno Novo Mundo.

Nos seus trabalhos, há desde uma tentativa de se fazer a crônica da Companhia de Jesus no Brasil, de que nos restaram apenas fragmentos, até um poema épico em louvor dos feitos heróicos do então Governador Mem de Sá – De gestis Mendi de Saa (1563) –, primeiro texto literário escrito no Brasil, ainda que em latim. Sua obra ainda se estende à poesia e ao teatro religiosos, apresentando tanto o lado do conforto espiritual, quanto a preocupação com a catequese, constituindo-se, nesse sentido, obra doutrinária e pedagógica. O aprendizado da língua indígena, veículo importante para o trabalho de conversão dos gentios,
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Frontispício da Arte de Gramática da Língua Mais Usada na Costa do Brasil, de José de Anchieta (1595), obra que sistematizou o idioma falado por diversos povos indígenas e tornou-se referência para a comunicação no período colonial. ▪ Fonte: BN
rendeu-lhe a publicação em 1595, daquela que seria a primeira gramática da terra brasílica — A Arte da Gramática da Língua Mais Usada na Costa do Brasil —, e o pioneirismo, entre nós, na sistematização da língua geral, depois chamada tupi, transformando-a em língua de comunicação, uma koiné (κοινῇ).

Como se sabe, Anchieta utilizava-se de vários idiomas, produzindo os textos de acordo com o público-alvo a quem se destinavam suas publicações. O tupi é, portanto, a língua de que ele mais fez uso, visto que seu intuito era o de atingir os índios ou o colono que já entendia a língua mais usada na costa brasileira, no século XVI. Resulta daí a preservação de um grande acervo do chamado tupi clássico, à disposição dos estudiosos. A sua obra oscila, pois, do meramente documental, sem valor literário reconhecido, mas de capital importância para a nossa formação histórico-cultural, à valorização de certos aspectos literários da sua poesia e do seu teatro, cujos resultados superavam os conseguidos com os sermões ou a prédica religiosa tradicional.

Em seu ensaio sobre José de Anchieta, Alfredo Bosi (Didática da colonização, São Paulo, Companhia das Letras, 1992, p. 64-93) propõe analisar a cisão existente entre as obras lírica e teatral do padre espanhol,
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Alfredo Bosi (1936–2021), crítico literário, ensaísta e professor paulistano. Dedicou-se ao estudo da literatura, da cultura e da formação histórica do Brasil. ▪ Fonte: CSBH/FPA
revelando o quanto elas apresentam diferenças internas de forma e de sentido. Alegoricamente, na obra doutrinária, Anchieta abstraía-se da crítica ou do louvor a pessoas, aproximando estas práticas de instituições e/ou de valores. Como uma maneira de suprir a ausência de palavras e concepções inexistentes no tupi, Anchieta criou novas palavras, fundindo elementos do mundo indígena com os do mundo cristão, aprontando uma terceira via, no dizer de Alfredo Bosi, diferente da teologia cristã e da crença tupi. Desse modo, se as palavras e a sintaxe do seu teatro são tupi, o ritmo permanece português, como os heptassílabos e decassílabos utilizados no Auto de São Lourenço. Alfredo Bosi chama a atenção para esta aculturação “pontuada de soluções estranhas quando não violentas” (p. 66), em que se transforma, por exemplo, a idéia de Tupã, originariamente uma força da natureza, confundida com o trovão, em um deus do bem, que terça armas, em luta cerrada com o mal, representado por Anhangá, cujos maus hábitos — antropofagia, poligamia, culto aos mortos, beberagem de cauim, o fumo, provocador de transes —, eram dura, insistente e veementemente combatidos pelos jesuítas. De modo a reificar a noção de pecado, inexistente entre os índios, José de Anchieta criou, por exemplo, a palavra angaipaba, significando, literalmente, “coisas da alma perversa”
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(Auto de São Lourenço, São Paulo, Martins Fontes, 1999, p. 67). Assim, tornava-se mais fácil a manipulação maniqueísta de Tupã-Deus, “pai que santifica a minha alma” x Anhangá-Demônio, “o anjo mau,/corruptor,/ assassino de nossa alma” (Poesias, Belo Horizonte, Itatiaia; São Paulo, EDUSP, 1989, p. 573).

A relativa facilidade encontrada pelos jesuítas na transposição de valores do cristianismo para a cultura indígena, de modo a serem utilizados na catequese, dá-se em virtude da ausência, entre os índios, de um sistema religioso organizado, à maneira do que existia no judaísmo-cristianismo, que, com sua ordem cósmica, aparece para preencher o aparente vazio da cultura autóctone. O único culto que os índios prestavam era aos mortos; o único ritual, o da antropofagia. Este era visto pelos índios como uma forma de assimilação dos valores do devorado, servindo de rito de passagem para os guerreiros nele envolvidos, que, normalmente, mudavam de nome e de condição. Veja-se como, no Romantismo, Gonçalves Dias transforma essa prática em poesia heroica, com o poema “I-Juca-Pirama”, quando, para a realidade colonizadora dos jesuítas, elas deveriam ser abolidas. O meio seguro consistia na disseminação do horror aos espíritos malignos e na infusão do medo, através da diabolização das cerimônias.

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Identificar o mal, personificando-o nos heróis guerreiros índios, como os chefes e heróis tamoios, Aimbirê e Guaixará, atribuindo-lhes, no Auto de São Lourenço, um elenco de vícios, para que sirvam de exemplo, trata-se, sem dúvida, de um modo eficaz de subjugá-lo ao bem. Anchieta apenas reiterava, como catequese, o etnocentrismo europeu, amplamente disseminado pelos cronistas do século XVI, que não viam as cerimônias indígenas senão como atos bárbaros de uma gente diabólica. Para subjugar tais efeitos, a difusão dos sacramentos e, dentre eles, especialmente a Comunhão é fator dos mais importantes.

Com uma alegoria concebida para as massas, de conteúdo doutrinário, destinada a persuadir o espectador anônimo que a recebe passivamente para ser por ela transformado, o seu
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teatro apresenta uma força avassaladora da ideologia da Contrarreforma, no recente mundo da América.

Se a obra doutrinária estrutura-se no “didatismo alegórico rígido, autoritário”, conforme afirma Bosi (op. cit., p. 93), a obra lírica apresenta como fundamento o símbolo e a efusão, na busca da intimidade com o divino. É nesse momento que a Eucaristia surge com mais força, como celebração do alimento e do ritual que santifica, como exemplo de substituição da prática da antropofagia, abominável aos olhos do jesuíta. O ato de comer para assimilar as virtudes é agora centrado no amor e não na vingança, come-se um amigo e não o inimigo, esta comida traz a vida e não a morte. Comungar é comer Deus-Tupã, é Tupã r-ara (Auto de São Lourenço, tradução de Eduardo Navarro, op. cit. P. 38):

“O-îkobé îemombe’u, mosanga moeîrab-y-îara. Aba’ anga mara’ara, i pupé o-pûeîrá’-katu; s-akypûer-i Tupã r-ara.”
“Existe a confissão, remédio portador da cura. As doenças da alma do homem com ela saram bem; em seguida a ela, a comunhão.”
Na difusão do império através da fé, utilizando-se da literatura como meio eficaz de chegar à catequese, Anchieta impõe-se, pois, como o primeiro intelectual do Brasil, cuja obra já revela os contrastes que dariam origem ao nosso Barroco, apesar do caráter maniqueísta, em que se punia o mal e se exaltava o bem, como maneira de destruição dos valores e da tradição indígena, cujo fim é fazer prevalecer os ideais contrarreformistas, numa colonização que devia processar-se dentro dos moldes do catolicismo europeu.

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O seu poema em louvor a Mem de Sá, De gestis Mendi de Saa, foi escrito para a exaltação dos feitos gloriosos do Governador-Geral, subjugando os Tamoios, aliados aos franceses, e, principalmente, derrotando estes últimos, com a tomada do forte de Villegagnon, em 1560. Poema épico, fundindo o estilo clássico com os elementos do mundo cristão, nele Mem de Sá aparece como um novo Eneias — a influência da Eneida, notadamente, é marcante —, para fundar uma nova cidade gloriosa: São Sebastião do Rio de Janeiro. O governador,
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Capa da edição de 1958 de De Gestis Mendi de Saa, poema épico em latim escrito por José de Anchieta no século XVI. A obra narra os feitos de Mem de Sá, terceiro governador-geral do Brasil. ▪ Fonte: BN
no entanto, mais do que o herói pagão de Virgílio, é o braço armado de Deus, que transforma a sua espada em cruz invencível na punição ao gentio e ao herege francês. Aparece, assim, o governador como o primeiro propagador da fé cristã, submetendo em nome de Deus/Cristo, “os altivos Brasis” — os índios —, cujos costumes ferozes e hábitos diabólicos foram esquecidos. Vencido o bárbaro gentio e o herege francês, invasor do Brasil, o governador é instado a louvar a Cristo, que o guiou e o ajudou nessa batalha. Convertido o índio, que abandona suas práticas ferozes e hábitos inumanos, a Eucaristia substitui, então, a antropofagia (De gestis Mendi de Saa; tradução do Padre Armando Cardoso, S. J., Rio de Janeiro, Arquivo Nacional, 1958, p. 47):

O que dantes vivia escondido em sombrias florestas aos templos do Senhor já pressuroso corre. (Quae prius umbrosis degebat condita silvis, Iam Domini sacras gaudet adire domos;) O que há pouco, cão feroz, roía ossos humanos, Sacia com o Pão dos Anjos o coração já manso. (Quae radibis hominum rodebat corpora malis, Mitia iam sancto pectora pane cibat;) O que há pouco, de fauces sedentas, sugava o sangue fraterno Voa a desalterar-se nos mananciais divinos. (Quae saeve humanum sugebat fauce cruorem, Iam divina avida flumina fauce bibit.)
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Embora a sua produção literária não tivesse um fim em si mesma, pois era um instrumento de catequese, José de Anchieta é importante para a formação da Literatura no Brasil, visto que seus textos doutrinários já esboçam as características do que se vai produzir nos séculos seguintes: a poesia religiosa, a tentativa de fusão do sagrado com o profano, a poesia encomiástica e o teatro. Nos 44 anos que passou no Brasil, Anchieta revelou uma produção plenamente influenciada pela sua vida de homem erudito renascentista marcada pelo dilaceramento existencial contrarreformista.

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