Durante anos ele escreveu o texto da última página da revista Veja. Para mim, sempre foi o melhor texto do jornalismo brasileiro. E dou como exemplo e justificativa o que ele escreveu por ocasião da morte do ex-presidente francês François Mitterrand. Obra-prima. Creio que nunca na imprensa do país um jornalista alcançou aquelas alturas de excelência. Com tranquilidade, muita cultura e elegância, naquela oportunidade, Roberto Pompeu de Toledo fez literatura de altíssimo nível, confirmando o escritor que sempre foi.
Roberto Pompeu de Toledo, jornalista, escritor e memorialista paulistano, com passagens pelo Jornal da Tarde, IstoÉ, Jornal do Brasil e editor-executivo da Veja como colunista e correspondente em Paris ▪️ Fonte: Companhia das Letras
Esse livro provavelmente foi escrito como uma catarse. Isso não constitui novidade, óbvio, pois inúmeras obras foram produzidas assim, como um desabafo, uma fuga, uma tábua de salvação. Solitário, perdido na recente viuvez e enfrentando os desafios da idade, o escritor vê no computador do escritório doméstico o caminho possível para expulsar os seus demônios, antes que eles o sufoquem. O historiador Boris Fausto fez algo semelhante em seu livro O brilho do bronze. Catarse ou não, o Memorial vale a leitura.
Com temas tão densos, o livro consegue não deprimir o leitor, pois tudo é narrado com muita sobriedade; e eu diria mais: com muita serenidade, aquela que só os anos de vida e a correspondente sabedoria trazem aos que conseguem chegar às oito décadas de existência. O que nos faz lembrar da genial resposta que Nélson Rodrigues deu a
A narrativa começa com o luto e a dor que o acompanha. A esposa do autor adoece e morre de forma praticamente repentina, deixando-o em completo desamparo. Ele nos conta sua subida ao calvário. E nós vamos subindo com ele, conscientes de que sua dura experiência já foi ou pode vir a ser a nossa. Aqui compartilhamos a finitude dos mortais e sua frágil humanidade. Damos a mão ao escritor e o acompanhamos passo a passo. O leitor interioriza a narração e vive-a na própria alma, realizando a difícil fusão almejada por todos que escrevem.
Uma das primeiras frases do livro é “Nunca pensei que fosse ficar velho”. Vejam só. E o autor continua: “Não que apostasse na mais infalível estratégia de não envelhecer, que é morrer antes. Achava que esse negócio de ficar velho não era para mim; ou que era uma perspectiva tão distante que a ela jamais chegaria”. E não é assim com todo mundo? A velhice sempre chega de repente. Um dia, súbito, a gente se dá conta de que ela finalmente chegou, silenciosa, o mais das vezes. E aí muda, em alguma medida, a maneira de vermos o mundo e as pessoas, inclusive – e sobretudo – nossa própria persona em meio a tudo. Eu percebi a passagem dos anos quando comecei a ter dificuldade em colocar as meias dos sapatos.
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Ressalto, entretanto, que o autor não trata apenas de questões penosas. O livro é atravessado por assuntos outros, os quais vão surgindo como que espontaneamente, à medida em que um puxa o seguinte. Exemplo: o não realizado desejo de escrever uma obra intitulada Os dois Marias, a respeito de Eça (José Maria) e Machado (Joaquim Maria). E a sutil distinção entre ambos: Joaquim Maria era irônico e José Maria era sarcástico. São muitas as citações e referências a escritores, filósofos e artistas. Tudo isso enriquece a leitura e lhe confere prazer. Afinal, não esqueçamos que o escritor não é apenas um viúvo envelhecido a lamentar-se, mas também um fino intelectual, para muito além das simples lamentações.











