Sujeito sabido é o Camargo. Dominou seu ofício com tal competência que seus pares, os companheiros na lida do dia a dia, o chamam de mestre. Assim, Mestre Camargo ainda é uma referência entre aquela turma que podemos encontrar jogando conversa fora no mercado de peixes. Fica por ali trocando ideia com a rapaziada que ainda está na lida. Hoje, aos oitenta, já faz tempinho que se aposentou, mas, vez ou outra, cumpre uma jornada para matar a saudade de quando esbanjava saúde e disposição.
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Com seu compadre Arlindo, mais um embarcado eventual, ele tocou essa jangada até que suas economias permitiram mudar de patamar e adquirir embarcação a motor, que lhe possibilitava mais segurança, mais horas de mar e mais peixes nas redes e anzóis. Isso durou até que chegou a aposentadoria do governo. Foi quando vendeu o “Sereia Azul” para o compadre e, desde então, está por aí. Filhos criados, cada um cuidando da própria vida. Assim, toma sua cachacinha com moderação, sai nos finais de tarde de sábado para comer um acarajé com a patroa e depois a leva para tomar sorvete de coco queimado.
Ainda é um homão bem aprumado; ninguém diz os anos que tem, mesmo a despeito do branco da barba e dos cabelos. Tez queimada de sol, músculos ainda no lugar e nada de exibir pelancas. Está firme no pedaço.
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Num fim de semana, anos atrás, eu e amigos aparecemos por lá querendo contratar barco e tripulação para pescaria. Foi quando conheci Mestre Camargo. Céu de brigadeiro, mês de estio, tudo parecia propício para essa aventura. Só que o velho marinheiro nos advertiu:
— Não vai dar. O mar vai ficar agitado e vamos ter temporal.
E eu com meus botões: temporal com o céu desse jeito? Nenhuma nuvem! Que desculpa mais esfarrapada para não ir.
Ninguém ali topou a parada e diziam: “Se o mestre diz que não dá, é porque não dá”. Desistimos. Ao meio-dia, o céu escureceu e veio o toró. Assim,
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Disse ele que, quando nascemos, Deus nos reserva, em sua estante, um espaço em uma das prateleiras, coloca ali dois potes e neles estão gravados nosso nome e data de nascimento. No primeiro, ele coloca tantas conchinhas quantos forem os anos que teremos de vida. O outro pote vem vazio. A cada aniversário nosso, ele retira uma conchinha do primeiro pote e a coloca no segundo. Vamos falar com Deus quando ele retirar o último búzio do primeiro pote. É nosso último aniversário.
Assim, peço que não me digam mais “parabéns” em meus natalícios. Fica mais realista o “sinto muito”. Isso mesmo: o amigo vem comemorar mais uma conchinha em meu segundo pote e esquece de olhar que está faltando mais uma no primeiro. Estou focado no primeiro pote, cada dia mais leve; quase não faz barulho se o chocalharmos.
Mestre Camargo está por aí, gozando de saúde, e, pelo jeito, seu pote número 1 ainda tem conchas para muitos aniversários. Deixou-me esta e outras lições. Por aqui, não podemos acreditar que céu azul é sinal de bom tempo, e soprar velinha e bater palmas, só nos aniversários dos outros. No meu, estou dispensando bolos e aplausos. Espero que entendam esta solicitação. Ando meio nervoso com essa história dos potes.








